5 O QUE LEVOU A ASSISTÊNCIA A VIRAR TORCIDA?
5.3 A TORCIDA COMO CLIENTE DA IMPRENSA ESPECIALIZADA
Com o aumento da demanda, criou-se também a necessidade de fortalecer esta imprensa especializada que publica os anúncios e convida os torcedores a participar do grupo de consumidores dos produtos do futebol. O noticiário esportivo ganha autonomia a ponto de conquistar um espaço exclusivo. No tempo da assistência, até os anos 1930, o futebol dividia a página com outras opções de entretenimento, como o gênero conhecido por teatro de revista, ou com outras modalidades esportivas, a exemplo do remo.
No caso do teatro, as peças eram apresentadas no mesmo horário dos jogos, como “A Paioça da Caboca”, sucesso de 1933. Neste ambiente, a plateia era expansiva e risonha, como convinha ao gênero comédia. Estes espetáculos disputavam espaço com o esporte nas páginas sinalizadas pela rubrica “Arte”. Apesar da concorrência com o teatro, o interesse pelo futebol acentua-se, mesmo nos jogos à noite, quando se intensificam os efeitos da precariedade do sistema de transportes coletivos à base de bondes. Outro adversário do futebol era o remo. A
modalidade tinha mais espaço nos jornais, por conta do movimento na enseada dos Tainheiros, no bairro da Ribeira, na “Cidade Baixa”, uma das regiões mais populosas de Salvador.
Neste local, onde até hoje se realizam as etapas do campeonato de regatas, a equipe rubro-negra “mereceu maior attenção da assistencia”204, no domingo, dia 18 de maio de 1932, no mês seguinte ao da realização do primeiro jogo entre Bahia e Vitória, no dia 10 de abril. As pessoas chegavam de bonde, partindo de outros bairros da chamada “Cidade Alta” de Salvador, para assistir às regatas na Ribeira. Um sistema de bondes transportava as pessoas para a Ribeira. O remo parava a cidade nos dias de competição. Um hábito que se firmou ainda no início do século e durou até o período em que a metamorfose de assistência para a torcida se intensificou e o futebol passou a predominar em popularidade.
Em 1907... em 28 de abril, 35.170 pessoas foram transportadas nos bondes da companhia Carris Elétricos... em 8 de setembro, 39.904 coupons foram vendidos. Se juntarmos a isso os que chegavam pelos navios das equipes, podemos entender por que o remo literalmente „parava‟ a cidade nos dias de competição. Comparando com o futebol, o maior público registrado numa partida oficial dos primeiros campeonatos foi de 6 mil pessoas, no jogo Victoria2x2 São Salvador, dia 22 de julho de 1906. (AZEVEDO, p. 61)
Nas apresentações das competições esportivas de remo e de futebol, os jornais antecipavam a presença das pessoas, destacando as atribuições que eram esperadas para se construir a ideia de assistência. Quando aconteciam competições de remo e futebol no mesmo dia, os jornais chamavam de “encontro de titãs”. Até 4 de março de 1934, nos dias que antecediam as regatas, a liga de futebol não programava nenhuma partida, temendo o esvaziamento de público (AZEVEDO, p. 148).
Na metamorfose da assistência para a torcida, o esporte já não divide a página com o teatro. Os jornalistas aprimoram o produto. A imprensa fortalece o clássico Ba-Vi, seus ídolos, e favorece a criação de uma mística, uma aura diferente para narrar aquele acontecimento esportivo, ao tempo que procura informar, orientar e divertir o leitor. Seu poder de sedução não pode ser desprezado. Esta característica, iniciada nos anos 1930, chega ao auge na década de 60, período em que houve maior alternância entre os times que conquistaram título de campeão: “Quando clubes do cartaz de Bahia e Vitória vão a campo, e
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sobre cujo encontro, toda a imprensa ocupa páginas e páginas, e ainda abre manchetes diárias, é natural que o torcedor espere algo de melhor”205
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O serviço de comunicação prestado pelos jornais, em suas páginas dedicadas ao esporte, recebe inovações editoriais, como a fotografia fornecida por via área pelas agências informativas, a exemplo da Associated Press. O jornal A Tarde utiliza esta tecnologia, em 2 de junho de 1941, com a publicação da foto de uma luta de boxe em que o americano Buddy Baer derruba Joe Louis, também dos Estados Unidos.206
Situado no antigo centro de Salvador, na Praça Castro Alves, em um dos modernos edifícios arranha-céus da cidade, o jornal A Tarde ampliava seu espaço para inserção de anúncios publicitários em suas páginas. Parte deles era publicado por empresas que alugavam salas no mesmo edifício onde funcionavam a redação e o parque gráfico, o Edifício d‟A Tarde.207.
No momento de expansão de seus negócios, graças à ampliação do volume de anúncios, as inovações tecnológicas fortalecem o poderio do jornal, então líder de mercado. A busca incessante por aumentar o público consumidor das notícias, aliada ao crescimento da oferta de máquinas, torna-se um poderoso estimulante para o leitor. As páginas esportivas passam a receber tratamento gráfico diferenciado, com a percepção da importância da melhoria no aspecto visual. Em relação ao conteúdo, é evidente o esforço dos jornalistas em falar bem do jogo, tanto nas apresentações quanto nas coberturas. Seria uma boa estratégia de fidelizar o novo cliente, o torcedor de futebol: “Não tivemos dúvida quando adeantamos que o espectaculo de domingo, na cancha da Graça, se revestiria de gala e empolgaria os assistentes”208
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Há uma linguagem hiperbolizada, com claro objetivo de enaltecer as qualidades do clássico Ba-Vi, tomado assim como principal referencial do espetáculo a ser vendido e consumido por um público cada vez maior. “Gargalhadas formidáveis”, “numerosíssima”, “certo ardor‟, “phases sensacionaes”, “magnífico”, “digno”, “entusiasmo”, “lances excelentes” são algumas das expressões que dão um tom empolgante ao texto esportivo. As narrativas louvam o novo torcedor, neste momento de ruptura, em contraste com o tom sóbrio das menções referentes ao período da assistência. Ao tempo em que a torcida se transforma, os jornais também, em um movimento de mão dupla, um abastecendo e nutrindo o outro
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EMPATE liquidou pretensões de Bahia e Vitória e Fluminense agora é o campeão de fato e direito. A
Tarde, Salvador, 19 ago. 1969. 206
Na publicação, foi assim informado: Foto A.P. especial para “A TARDE”, por via aérea
207 Na edição de 19/10/1942, há anúncios de médicos que abriram consultórios no prédio do jornal. 208 O Bahia “leader” absoluto do campeonato da cidade. Diário de Notícias, Salvador, 23 set. 1940
segmento do que cada um precisa para se desenvolver. Ao estabelecer o Ba-Vi como “clássico número 1”, “clássico das multidões”, entre outras expressões positivas, os jornais contribuem para atribuir ao jogo a dimensão de um duelo épico capaz de despertar as atenções. Esta supervalorização do Ba-Vi, em uma perspectiva mercantil, favorece a conquista de um maior número de leitores. Assim, os anunciantes se interessam em pagar mais por espaços na empresa de jornal a fim de dar visibilidade a seus produtos e serviços.
A “torcida” substitui a “assistência”, mas precisa, nesta transformação, da referência de lugar para ser reconhecida. É uma “torcida de arquibancadas”: “Pois bem. Com o escore de 2x0 a favor do Victoria, findou-se o primeiro meio tempo que teve phases sensacionaes e... esteve magnifico e digno”.209
Os jogos entre Bahia e Vitória chegam ao ponto de “enthusiasmar”210
uma torcida de archibancadas ao degladiar... em incentivo aos seus pupilos”211
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Favorecer a leitura, levando em conta princípios de clareza e simplicidade na estilística, significava arrebanhar torcedores entre o potencial público leitor. Reunir informações breves, como o resultado de jogos pelo Brasil e o mundo, foi uma invenção dos jornalistas dos anos 1950. Eles passam a gerenciar um volume de informações maior à medida que aumenta o interesse e as novas tecnologias vão permitindo maior fluxo de dados e com mais rapidez. Esta necessidade de resumir um grande volume de informações viabilizou a invenção do “Placar d‟a Tarde”212. Além dos jogos de Salvador, a seção informava os resultados das partidas realizadas em São Paulo, Porto Alegre, Rio, Buenos Aires e Madri, entre outras cidades.
O sucesso da iniciativa é constatado pela pioneira associação de uma estratégia de publicidade a uma ferramenta de edição do jornalista. A loja Sepab passou a patrocinar a seção, renomeada Placar Sepab.213 Como contribuição expressiva do esporte para o jornalismo na Bahia, o princípio jornalístico de precisão, aplicado ao extremo, inspirou a construção de uma seção chamada „Movimento de campo‟, com os números de ocorrências de itens relevantes para o que se convencionou chamar “volume de jogo”. A estatística observava os seguintes itens: tentos, defesas, tiros de meta, tiros fora, escanteios, impedimentos, laterais, trancos e toques214. A seção „A corrida do campeonato‟ buscava
209A brilhante actuação do “Victoria”. Diário de Notícias, Salvador, 22 abr. 1935. 210
DE Victoria em Victoria o S.C. Bahia vai ficando na vanguarda do campeonato da cidade. Diário de Notícias, Salvador, 22 jun. 1936.
211A alma rubro negra contra a fibra do tricolor! Diário de Notícias, Salvador, 22 jul. 1939 212
QUEBROU o Vitória a invencibilidade do Bahia. A Tarde, Salvador, 22 set. 1952.
213VITÓRIA Campeão do Qua-qua-quadrangular. A Tarde, Salvador, 20 dez. 1954. 214TIRANDO Nadinho... nadinha. A Tarde, Salvador, 21 jul. 1958.
cativar os leitores com desenhos de símbolos dos clubes.215 Assim, pode-se concluir que o jornalismo esportivo, a despeito de ter sido relegado a uma posição inferior na hierarquia das redações (LEANDRO, 2003), contribuiu para a consolidação de um dos princípios estabelecidos para o texto contemporâneo: a precisão.
Nas edições dos dias seguintes às conquistas dos títulos, os jornais buscam atender à demanda da clientela de torcedores, com a ampliação do espaço e o destaque em manchetes e textos ufanistas em sintonia com a euforia do campeão: “Foi grande a vibração entre os rubro- negros. Confraternizados jogadores, diretores e aqueles que fazem força gritando das arquibancadas, sombras e gerais”216
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O título mundial conquistado pela Seleção Brasileira na Copa do Mundo da Suécia, em 1958, fortaleceu a imprensa esportiva. A partir de julho, um mês após a conquista, o jornal A Tarde passou a publicar um caderno dedicado a esportes, nas edições de segunda-feira. Com a torcida feliz e orgulhosa pelo sucesso do futebol brasileiro, o humor passou a ser mais utilizado, como se verifica na coluna „Bola na Rede‟217
, assinada por Santelmo, pseudônimo do jornalista e pesquisador Newton Calmon218.
O aumento do interesse pelo esporte justifica a preocupação dos jornalistas em prestar um melhor serviço. Atender a um maior número de leitores implica possibilidade de expansão dos negócios. Inserida na lógica capitalista em processo de consolidação, a empresa de jornal visa meios de lucro, além do prestígio e da transformação do conteúdo em capital político na defesa dos interesses de grupos. A lógica de acumulação ainda é incipiente, mas os valores subjacentes a esta lógica já influenciam os hábitos da sociedade. Para conquistar público e vender mais, os jornais procuram meios de fortalecer a necessária credibilidade recorrendo a valores como imparcialidade: “Menos visando interesses particulares do que servir ao grande publico que nos honra com a sua leitura, é a certa conflita, que provamos descrever fielmente os acontecimentos, com a mais rigorosa isenção de animo e perfeita justiça...”219
Nesta crescente busca por sensibilizar o consumidor de jornalismo esportivo identificado com um clube, o jornal A Tarde lançou o concurso “Qual o crack absoluto baiano?”. Com regras definidas, a credibilidade se fortalecia. O leitor recortava o cupom do exemplar de A Tarde. O cupom era depositado na urna localizada no térreo do edifício da empresa de comunicação, na Praça Castro Alves, centro antigo de Salvador. O jornal
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Idem, ibidem.
216 E.C. Vitória, campeão. A Tarde, Salvador, 17 mar. 1958. 217 TIRANDO Nadinho... nadinha. A Tarde, Salvador, 21 jul. 1958. 218
CALMON, Newton. Cartão Vermelho. Salvador: Editora Odeam, 1985.
219 NUM embate sobremodo apreciavel, o “Bahia” venceu o “Victoria”, de 3x2, Diário de Notícias, Salvador.
divulgava mensagens de incentivo, dando ao mesmo tempo plena visibilidade a uma iniciativa própria. O concurso tornou-se um sucesso entre os torcedores, agora também leitores e clientes do jornal: “O sr. Presidio Filho pede, por nosso intermedio, aos cabos eleitoraes rubro-negros levarem amanhã, para o campo da Graça, os coupons respectivos”.220
A busca incessante da credibilidade, as pioneiras ações de interatividade, a criação de seções, as surpresas oferecidas nos projetos gráficos e as novas tecnologias caracterizam a imprensa especializada nesta metamorfose da assistência para a torcida. Este perfil em mutação permite concluir que este setor do jornalismo, o “jornalismo esportivo”, alterou a percepção de torcida e, ao mesmo tempo, foi alterado por ela, em um mecanismo onde não se pode identificar a origem nem saber quem é causa e quem é efeito do fenômeno.