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ANÁLISE DO FUNCIONAMENTO DO DISCURSO CITADO NO DISCURSO DO

3. CONSTRUÇÃO DO OBJETO DE ANÁLISE

4.2. ANÁLISE DO FUNCIONAMENTO DO DISCURSO CITADO NO DISCURSO DO

Nesta segunda parte da análise, abordaremos especificamente exemplos de combinação entre formas de citação envolvendo pelo menos um verbo “dizer”. Pretendemos reforçar o fato de que, quando consideramos o funcionamento do discurso citado na notícia, desfazemos qualquer idéia de neutralidade na classificação de uma fala. Ora a editoria, ora a fonte do dizer, ora a informação obtida da fonte, ora a forma de relação entre discurso direto, discurso indireto e comentário age para que a fala que é nomeada como um dito ganhe o sentido de uma afirmação, confirmação, conselho, alerta, promessa, defesa, destaque, enfim, ganhe um sentido diferente do simples sentido de dizer.

Começaremos a discussão mostrando qual o entendimento, exposto no Manual, sobre a fala de entrevistados. Ao nos colocarmos contra esse entendimento, traremos exemplos e comentários que reforçam nossa posição sobre a dinâmica do discurso citado no discurso do jornalista e do(s) sentido(s) possível(is) do verbo “dizer”.

No Manual da redação 2001 da Folha de S.Paulo, a fala de entrevistados é tratada como uma declaração textual. Existe a consideração de que, quanto menos usado o recurso da

declaração textual, mais valor ele adquire (idem, p. 39). O jornalista deveria usar apenas

“declarações impactantes” em seus textos:

Reserve-o [o recurso da declaração textual] para afirmações de grande impacto, por seu conteúdo ou pelo caráter inusitado que possam ter: ‘Cunhado não é parente’, disse o governador; ‘Graças a Deus chegamos a um acordo’, afirmou o presidente, que se diz ateu (Manual da Folha de S.Paulo, idem, ibidem).

Ao que nos parece, portanto, no Manual, há a afirmação de que uma declaração inserida numa notícia já é, por si só, “impactante” ou “inusitada”, não sendo escolhida por acaso. A dica é, porém, reproduzir apenas as frases mais importantes, expressivas e espontâneas (idem, ibidem). Informações de caráter universal ou de fácil averiguação não devem ser

atribuídas a alguém, mas assumidas pelo jornalista: A água ferve a 100 ºC, e não ‘A água ferve a 100 ºC’, informou o químico (idem, ibidem, grifos no original).

A recomendação é para citar a fala de entrevistados, pois reproduzir declarações

textuais confere credibilidade à informação, dá vivacidade ao texto e ajuda o leitor a conhecer melhor o personagem da notícia (idem, ibidem).

Além disso, existe uma crença quanto à literalidade da transcrição das informações alheias:

A reprodução das declarações deve ser literal. Só podem ser reproduzidas entre aspas frases que tenham sido efetivamente ouvidas pelo jornalista, ao vivo ou em gravações (idem, ibidem).

Apesar de se pedir literalidade, há uma permissão para que o jornalista faça algumas adaptações à fala antes de reproduzi-la, sem mencionar que tais adaptações alteram o conteúdo veiculado:

Na reprodução de declaração textual, seja fiel ao que foi dito, mas, se não for de relevância jornalística, elimine repetições de palavras ou expressões da linguagem oral: hum, é, ah, né, tá, sabe?, entende?, viu? Para facilitar a leitura, pode-se suprimir trecho ou alterar a ordem do que foi dito – desde que respeitado o conteúdo

(idem, ibidem, grifos no original).

Distantes da concepção presente no Manual, consideramos a fala da fonte como a enunciação de uma outra pessoa, dotada de uma construção complexa e com existência autônoma mínima, que acaba sendo integrada à enunciação do produtor textual, por meio de regras sintáticas, estilísticas e composicionais. Assumindo essa definição sobre o discurso citado, assumimos também o seu funcionamento dentro de um gênero discursivo e a sua exposição a circunstâncias sociopolíticas e históricas de produção de sentidos.

Acreditamos que a fala não vem para a notícia com seu sentido fechado – o sentido que o jornalista desejaria dar a ela –, mas está aberta a sentidos que ele não poderia supor. Nesse aspecto, o discurso citado é, sim, impactante, mas em razão do modo como é integrado no processo de citação e da sua abertura a sentidos novos.

O verbo “dizer” é um dos elementos que colabora para a abertura de sentidos a que nos referimos. Essa afirmação vai exatamente na contramão de uma possível neutralidade associada a esse verbo no Manual da redação. Esse verbo não pode ser tomado, em nenhuma medida, como neutro, porque, em primeiro lugar, juntamente com a fala a que remete, faz parte de um conjunto discursivo, devendo, verbo e fala, ser considerados nesse conjunto. Em segundo lugar, porque o enunciado-alvo classificado com esse verbo participa, juntamente com o próprio verbo de opinião, de um movimento diversificado de encaixe entre discurso

direto, discurso indireto e comentário. Nesse movimento de encaixe, não se pode ver apenas sucessão, mas, sobretudo, hierarquização, reconhecida e/ou atribuída no momento da leitura.

Deste modo, no exemplo

Brickmann, ex-assessor de Paulo Maluf (PTB), acena com a disposição do

grupo de manter negociação. ‘O ideal é fazer uma sinergia com o Oficina’, diz.

Segundo ele, não há previsão de início das obras. (Folha de S.Paulo, 3 de fevereiro de

2001, caderno Ilustrada, p. E3, grifos nossos),

não podemos descartar a relação que o discurso direto com verbo “dizer” estabelece com o

comentário do jornalista feito no enunciado anterior: “acena com a disposição do grupo de manter a negociação”. O próprio jornalista admite, em seu comentário, que a fala de

Brickmann aparenta ser uma disposição para negociar e essa admissão já permite que interpretemos o verbo “dizer” não apenas como um simples ato de dizer. Neste exemplo, a fala com verbo “dizer” é hierarquicamente submetida ao “verbo-comentário” “acenar (com a disposição)”, que se antecipa a ela.

Neste outro exemplo,

‘Acredito que não vai haver rompimento. Entretanto, se houver, terá de partir do presidente da República, que até aqui governou com o nosso apoio, até mesmo tomando medidas que considero impopulares’, disse ACM, no final da tarde, em seu escritório político. O PFL está aliado ao PSDB de FHC desde 1994.

ACM disse também que não acredita na possibilidade de ministros do PFL serem demitidos pelo presidente caso o partido vote com a oposição em alguns projetos apresentados pelo governo.

‘Não creio que exista o propósito da demissão. No entanto, nomeação e demissão de ministros são de exclusiva competência do presidente’, afirmou [ACM].

Em relação à sucessão no Senado, ACM disse que o PFL está disposto a apoiar ‘um terceiro candidato’ para derrotar o senador Jader Barbalho (PMDB – PA) (Folha de S.Paulo, idem, caderno Brasil, p. A4, grifos nossos),

o verbo “dizer” é usado em discurso indireto para se referir a uma fala que, na seqüência, já em discurso direto, é classificada como uma afirmação. ACM não faz apenas dizer algo, portanto. No caso em questão, a fala com o verbo “dizer” se antecipa a uma outra.

No exemplo seguinte,

Quando já havia sido anunciado que as cortinas seriam fechadas, Patch pediu por mais duas tentativas e terminou com a marca final de quase 18 m.

Macdonald informou à Folha que havia sido convidado a participar da quebra de recorde promovida pelo Guinness, mas desistiu. ‘Parecia que ia ser um circo’, disse. ‘O desenvolvimento da nova categoria tem sentido somente quando há manobras, como nos torneios de big air do snow-board’, afirmou.

Com esse ponto de vista e assinando sua inspiração na lenda dos saltos de motocross nos anos 70, o norte-americano Evel Knievel, Macdonald prepara agora um torneio-espetáculo para o dia 23 de junho deste ano (Folha de S.Paulo, idem,

caderno Esporte, p. D5, grifos nossos),

o verbo “dizer”, usado na classificação da fala em discurso direto, vem associado aos atos de informar e de afirmar. Também neste caso, a fala com o verbo “dizer” pode ser interpretada diferentemente de um simples dizer. Note-se que essa fala com verbo “dizer”, que aparece em discurso direto, é antecedida pela fala em discurso indireto com o verbo “informar” e, ao mesmo tempo, antecede a fala em discurso direto com o verbo “afirmar”.

Ainda que o verbo “dizer” não venha associado a verbos diferentes, a idéia de que pode ser, em alguma medida, neutro, também não se sustenta. Vejamos o exemplo:

A menos de duas semanas para a eleição que vai escolher o seu sucessor, o presidente do Congresso, Antonio Carlos Magalhães (PFL – BA), disse ontem que um eventual rompimento entre o seu partido e o governo terá de partir do presidente Fernando Henrique Cardoso.

‘Acredito que não vai haver rompimento. Entretanto, se houver, terá de partir do presidente da República, que até aqui governou com o nosso apoio, até mesmo tomando medidas que considero impopulares’, disse ACM, no final da tarde, em seu escritório político. O PFL está aliado ao PSDB de FHC desde 1994 (Folha de

S.Paulo, idem, caderno Brasil, p. A4, grifos nossos).

Os discursos indireto e direto utilizam, ambos, o verbo “dizer”. Não há, neste caso, como associar diretamente, tal como fizemos com os exemplos anteriores, o dizer a um ato de informar, de afirmar, de acenar com uma disposição. Podemos, entretanto, indagar-nos a respeito da fonte do dizer, representada, no caso, por ACM. Um leitor, ao reconhecer em ACM uma autoridade de fala (lembramos que o próprio fato de o jornal dar voz a uma pessoa já lhe confere certa autoridade) – já que ocupa a posição de presidente do Congresso Nacional, ou seja, é um político de renome que fala de um tema político num caderno de política –, pode atribuir um valor ilocucionário particular a essa fala, considerando-a uma espécie de alerta em relação a/de receio de/de crítica a um possível rompimento de FHC com o PFL: FHC não teria por que romper com o PFL, já que, mesmo tomando medidas que ACM considera impopulares, nunca teve o apoio negado. Neste caso, temos o sentido do dizer como dependente da fonte da informação, da informação obtida da fonte e da editoria na qual a fonte presta a informação.

Mas o sentido do verbo dizer ainda poderia vir de outros lugares. Se concordamos que:

– a fala de ACM em discurso indireto é o resultado da integração do discurso citado pelo discurso citante e que nem só ACM e o jornalista falam nesta fala;

– a fala de ACM em discurso direto não é uma fala fiel, mas reconstruída de acordo com as determinações do discurso citante, e que a voz que diz nessa fala não necessariamente é (só) a de ACM;

– as falas de ACM em discurso indireto e em discurso direto estão em relação (in)tensa entre si e com o discurso citante,

então podemos levantar a questão de o verbo “dizer” poder ser interpretado a partir do reconhecimento, pelo leitor, de outras vozes que falam com a de ACM. Um leitor que reconhecesse, por exemplo, nessa fala a voz do PFL, de FHC ou da própria Folha de S.Paulo pode atribuir a tal fala um sentido que não é o de “dizer”, mas de “reclamar”, de “opor”, de “insinuar”. Além disso, um leitor que reconhecesse na fala de ACM em discurso indireto uma voz diferente da voz que fala com ACM em discurso direto, poderia atribuir sentidos diferentes, também, para cada verbo “dizer” que aparece classificando ambas as falas.

O próprio comentário é um encontro de vozes na voz do jornalista:

ACM não quis comentar o ‘surto oposicionista’ pelo qual passa Inocêncio.

Aproveitou para criticar o ministro Francisco Dornelles (Trabalho), que é do PPB e

trabalhou para que o então candidato de seu partido, Severino Cavalcanti, abdicasse em favor de seu sobrinho Aécio.

‘O ministro tem agido de forma incorreta. Ele é capaz de tantas coisas que somente um estudo psiquiátrico pode diagnosticar’, disse [ACM]. De acordo com ACM, o ministro estaria trabalhando também por Jader (Folha de S.Paulo, 3 de

fevereiro de 2001, caderno Brasil, p. A4, grifos nossos).

No exemplo destacado, o jornalista apresenta a sua versão da fala de ACM, considerando-a uma crítica, apesar de identificá-la como um “dizer”. Essa versão é apresentada antes de o próprio ACM falar por meio do discurso direto e se constitui em um modo de “redizer” o discurso de ACM. Mas não só isso: todo comentário pode retomar dizeres anônimos de outros agentes que, por sua vez, retomam o dizer do próprio entrevistado, bem como pode retomar vozes de outros agentes que falam na voz do entrevistado.

Nada impede que um leitor recupere algum(ns) desse(s) já dito(s), ainda que não haja marcas explícitas deles, e atribua à fala de ACM um sentido diferente do que lhe atribuiu o próprio jornalista – um sentido diferente de “dizer” e de “criticar”. A recuperação de outros discursos no discurso citante, mesmo sem marcas explícitas desses outros discursos, é perfeitamente possível, segundo Authier-Revuz (1998):

Na falta de marcas, uma alusão pode, é claro, não ser reconhecida; mas tal segmento pode também ser identificado, interpretado pelo receptor como vindo de outro lugar, eco de um outro discurso, fora de toda intenção do enunciador para o qual esse “já-dito” terá o estatuto não de alusão intencional, mas de reminiscência (ao qual ele poderá, aliás, em conflito sobre esse ponto com o receptor, denegar toda realidade) – isso nos levando, por um continuum, desde os fatos de representação do discurso outro no discurso (formas da heterogeneidade representada) até o fato da presença constitutiva de um outro lugar discursivo no discurso (...), independentemente da vontade e da consciência que o enunciador tenha disso (idem,

p. 145).

O próprio fato de o discurso do jornalista e de o discurso citado serem discursos também de outros/Outro, pressupõe, portanto, a impossibilidade de qualquer dizer ser neutro e também, por conseguinte, de qualquer palavra que se refere a esse dizer ser neutra. A presença de outros/Outro já é uma forma de não-neutralidade de qualquer discurso (cada outro é uma forma de interpretação), de qualquer palavra e, no caso, já é uma prova de não- neutralidade do verbo “dizer” como classificador de falas, ainda que esse verbo pareça atuar independentemente do encaixe entre discurso direto/discurso indireto/comentário, como no exemplo:

Curiosamente, Inocêncio faz um discurso oposicionista para tentar obter a intervenção de FHC a seu favor. Suas atitudes, porém, provocaram efeito contrário.

FHC não o considera mais confiável para presidir a Câmara. A respeito de o presidente se sentir chantageado, Bornhausen disse: ‘Só direi alguma coisa quando o presidente falar comigo’ (Folha de S.Paulo, 3 de fevereiro de 2001, caderno Brasil, p.

A4, grifo nosso).

O discurso direto “Bornhausen disse: Só direi alguma coisa quando o presidente falar

comigo” não está articulado, como em exemplos anteriores desta análise, a um comentário, a

um discurso indireto ou a um outro discurso direto. Ainda assim, o verbo “dizer” que classifica essa fala não é neutro.

Se concordamos que os enunciados: “FHC não o considera mais confiável para

presidir a Câmara” e “A respeito de o presidente se sentir chantageado” são discursos narrativizados, admitimos haver nesses enunciados a fala de alguém não-nomeado

recuperada/recontada pelo jornalista. Quem teria dito para o jornalista que FHC não considera mais Inocêncio confiável para presidir a Câmara e que o presidente se sente chantageado? A informação não é endereçada diretamente nem à fonte [Bornhausen], nem ao jornalista, nem a FHC, nem a Inocêncio.

Os discursos narrativizados, de forma não-marcada pelo jornalista, permitem a abertura do verbo “dizer” a sentidos vários. As próprias palavras/expressões “chantageado”, “(não)

confiável”, “a favor”, “efeito contrário” dos discursos narrativizados do exemplo dão condições ao leitor de associar o dito a um ato de preocupação, ou de irritação, ou de receio, entre outras possibilidades.

Poderíamos, ainda, seguir um outro caminho para confirmar que os enunciados “FHC

não o considera mais confiável para presidir a Câmara” e “A respeito de o presidente se sentir chantageado” sugerem sentido(s) para o verbo “dizer”. Podemos considerá-los como atos de fala (afinal, todo enunciado do discurso citante é um ato de fala) e, enquanto tais,

como estando sujeitos à atribuição de uma inevitável força ilocucionária pelo leitor da notícia, força essa que pode ser transferida para o verbo “dizer”.

Queremos ainda deixar registrada a possibilidade – mesmo que não faça parte do nosso intuito descrevê-la – de o discurso do jornalista como um todo ser associado a um ato de fala. O ato geral atribuído ao leitor para esse discurso também pode determinar o sentido dos verbos (do verbo “dizer”, inclusive) classificadores dos discursos citados e, portanto, dos próprios discursos citados. A disposição da notícia na página do jornal, polemizando ou concordando com outras notícias da mesma página, do mesmo caderno ou da mesma edição, pode ser mais um ponto determinante dos sentidos de verbos (o verbo “dizer”, inclusive) e de falas. Como se vê, a distribuição de matérias no jornal pode ser um elemento determinante de sentidos de verbos e falas. No entanto, a exemplo da consideração do discurso todo do jornalista como um ato, a distribuição das matérias no jornal, bem como a sua relação com outras mensagens não verbais, não fazem parte das nossas preocupações.

Nos exemplos com verbo “dizer” apresentados, podemos detectar duas circunstâncias da sua não-neutralidade na notícia.

A primeira dessas circunstâncias é o próprio fato de a notícia ser, constitutivamente, o lugar de comparecimento de vozes heterogêneas falando junto com a do jornalista e de discursos prévios falando no discurso citante. Esse diálogo incessante entre vozes e discursos anteriores já comprometeria qualquer uso do verbo “dizer” na classificação de falas na notícia, independentemente da vontade do jornal e do jornalista.

A segunda circunstância, indissociável da primeira, é o fato de jornal e jornalista terem vontades em relação à notícia e manifestarem essa vontade em meio à presença do Outro/outro e às prescrições do gênero notícia. Essa segunda circunstância de que falamos refere-se, especificamente, ao trabalho do jornalista com a linguagem a partir das prescrições do jornal, recortando as falas que deseja, classificando essas falas com os verbos desejados, requisitando das fontes as informações recomendadas, procurando pelas fontes que lhe

parecerem mais adequadas, distribuindo falas, informações e fontes na página e na editoria que julgar mais conveniente.

O trabalho do jornalista com a linguagem constitui-se, portanto, das escolhas e exclusões de falas, de verbos, de fontes, de informações que ele, como produtor da notícia, realiza. Esse trabalho de produção é individual e mediado pela coerção do jornal, pelas determinações do gênero em que o jornalista escreve e pela heterogeneidade que o constitui e ao seu discurso. As escolhas e exclusões do jornalista devem ser levadas em conta como capazes de favorecer certas atribuições de sentidos para o verbo “dizer” e para as falas classificadas com esse verbo na notícia.

Compreender que existe um trabalho do jornalista cercando cada fonte requisitada, cada fala citada, cada informação publicada é também entender que o verbo “dizer” não pode ser tido como neutro, porque ele não é citado em vão; chocar, informar, polemizar, instruir, chamar a atenção, destacar ou rebaixar a imagem de alguém são expectativas que podem levar o jornal e/ou o jornalista a trazer(em) uma fala de fora para compor o processo de citação.

É o diálogo entre essas expectativas como produtor do texto, as prescrições do Manual/imposições da empresa, as determinações do gênero e do Outro/outro que movem a escolha pelo verbo “dizer” e, por conseguinte, a exclusão de outros tantos verbos, tal como a escolha/exclusão de fontes, de falas e de informações em detrimento umas das outras. Essas expectativas, assim como as prescrições do Manual, as determinações do gênero e do Outro/outro, agem para que se abram possibilidades várias de atribuição de sentidos a verbos, a falas, à notícia como um todo.

Entender que o jornalista joga com expectativas quando usa o verbo “dizer” na classificação de uma fala – tanto é assim que o uso não é o mesmo em se tratando das diferentes editorias – não é, portanto, afirmar que os sentidos que esse verbo pode assumir e assume no jornal são só aqueles que o jornalista deseja. O processo de citação e a própria linguagem, embora lhe sirvam, são instrumentos que lhe escapam.

Desse modo, nos exemplos 1, 2 e 3 abaixo, 1)

Foi talvez a mais meteórica passagem oposicionista da história recente da República’, afirmou Aécio, criticando o recuo do PFL um dia depois da votação.

O deputado aproveitou o episódio para atacar o pefelista Inocêncio Oliveira, seu adversário na disputa pela presidência da Câmara.

‘Não vou mudar ou alterar as minhas convicções, não vou ser um trânsfuga das minhas idéias, não vou deixar de ser alguém que acredita no desenvolvimento e no crescimento da economia, para virar um oposicionista de conveniência’, disse.

O candidato do PSDB também fez comentários sobre a mudança de postura do PFL no dia seguinte à votação (Folha de S.Paulo, 3 de fevereiro de 2001, caderno

Brasil, p. A4, grifos nossos). 2)

‘Não vou mudar ou alterar as minhas convicções, não vou ser um trânsfuga das minhas idéias, não vou deixar de ser alguém que acredita no desenvolvimento e no crescimento da economia, para virar um oposicionista de conveniência’, disse.