2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.2. BAKHTIN E A DIALOGIA DA LINGUAGEM
2.2.2. Enunciado, gêneros do discurso e discurso
Adotamos de Bakhtin a noção de enunciado, que se caracteriza pela mobilização de determinadas estruturas lingüísticas em uma situação discursiva imediata e única. Cada enunciado é, desta maneira, também único, irrepetível, já que as condições em que é produzido – a interação enunciador/enunciatário, o lugar social de onde falam, as imagens que constroem de si e do outro, o momento histórico-social, a atitude responsiva formulada – não voltam a se associar do mesmo modo, em outros enunciados. Ao mesmo tempo em que é exclusivo, digamos assim, o enunciado não é original, não tem um início nem um fim em si próprio, mas retoma, em resposta, enunciados prévios a ele, produzidos em situações discursivas anteriores e igualmente específicas, além do fato de que ele mesmo, a partir da sua existência, pode ser retomado por enunciados que ainda estão por ser produzidos. Não há contradição alguma em pensar o enunciado como exclusivo, mas não-original, portanto, quando conhecemos e adotamos a noção de dialogia.
O enunciado é a unidade real da comunicação verbal (Bakhtin, 1992, p. 287). Não apresenta uma extensão mínima ou máxima, podendo ser representado por uma única palavra ou por um romance de centenas de páginas. O que o limita não é a sua extensão, mas uma finalização que abra espaço, mais cedo ou mais tarde, para algum tipo de atitude responsiva ativa. Por exemplo, cada réplica de um diálogo, por mais breve e fragmentária que seja,
possui um acabamento específico que expressa a posição do locutor, sendo possível responder, sendo possível tomar, com relação a essa réplica, uma posição responsiva (idem,
p. 294, grifos no original). Cada réplica é, portanto, um enunciado, marcado, nesse caso, pela
alternância dos sujeitos falantes (idem, ibidem).
Mas as próprias réplicas, juntas, compõem um enunciado. Esse enunciado já não é mais delimitado pela alternância dos sujeitos falantes, pois reúne todas as falas desses sujeitos que foram produzidas numa situação discursiva específica. A situação discursiva é, nesse caso, o
fator de delimitação das fronteiras do enunciado. A mudança de situação discursiva, por um lado, e a alternância de sujeitos falantes, por outro, caracterizam, portanto, os enunciados, demarcando-os e diferenciando-os uns dos outros.
O enunciado é sempre individual, o que pressupõe a atividade discursiva de um determinado sujeito, levando-se em conta que essa atividade é realizada em determinadas condições de uso da linguagem oral e/ou escrita. Além do fato de ser único, individual e dialógico, o enunciado caracteriza-se por um conteúdo temático, por um estilo verbal e por uma construção composicional. O conteúdo temático é o tema de que fala o enunciado; o estilo verbal é o resultado da seleção dos recursos formais (lexicais, fraseológicos e gramaticais) da língua pelo enunciador; já a construção composicional é representada pelo tipo de texto produzido – narrativo, dissertativo, retórico, jornalístico.
Não há como enunciar sem vincular-se, obrigatoriamente, a um determinado gênero do
discurso – o enunciado é sempre produzido no interior de um gênero discursivo. A relação
entre enunciado e gênero do discurso é, portanto, intrínseca. Cada gênero do discurso deve ser entendido como o conjunto de enunciados relativamente estáveis usados em uma determinada esfera da atividade humana (idem, p. 283) – palestra, crônica, grupo de discussão, aula, defesa de mestrado ou de doutorado são exemplos de gêneros ligados a determinadas esferas de atividade humana. No entanto, o gênero não é estático, cristalizado, mas muda conforme o processo histórico. Isso equivale a dizer que o modo como os sujeitos usam a linguagem numa determinada esfera da atividade humana é regido pela sociedade de acordo com a sua ideologia, cultura e momento histórico. Não há liberdade ou, pelo menos, não há liberdade plena do sujeito quando do ato de enunciação. Suas escolhas lexicais, o uso da primeira ou da terceira pessoas, a abertura para explicitar uma opinião, em vez de serem uma questão de decisão individual, são uma determinação do gênero do discurso no qual enuncia. A influência do gênero nas escolhas individuais é tanto mais decisiva quanto mais ritualizada, convencional, for a esfera da atividade humana na qual se produz um enunciado.
O conceito de gêneros do discurso põe em evidência um traço marcante em Bakhtin: a associação entre formas estáveis da língua e a vida. Para o filósofo,
ignorar a natureza do enunciado e as particularidades de gênero que assinalam a variedade do discurso em qualquer área do estudo lingüístico leva ao formalismo e à abstração, desvirtua a historicidade do estudo, enfraquece o vínculo existente entre a língua e a vida. A língua penetra na vida através dos enunciados concretos que a realizam, e é também através dos enunciados concretos que a vida penetra na língua (idem, p. 282).
Há uma riqueza e variedade infinita de gêneros do discurso, pois a variedade virtual da
atividade humana é inesgotável, e cada esfera dessa atividade comporta um repertório de gêneros do discurso que vai diferenciando-se e ampliando-se à medida que a própria esfera se desenvolve e fica mais complexa (idem, p. 279). Os gêneros do discurso são heterogêneos,
pois incluem, indiferentemente, a curta réplica do diálogo cotidiano, o relato familiar, a carta, a ordem militar padronizada, os documentos oficiais, as declarações públicas, os modos literários e as formas de exposição científica (exemplos de Bakhtin, idem, pp. 279-80). O autor ainda classifica os gêneros em secundários (ou complexos) – caso do romance, do teatro e do discurso científico – e primários (ou simples) – a carta, a réplica do diálogo cotidiano (os exemplos também são de Bakhtin, idem, p. 281). Os gêneros chamados de secundários são aqueles que contêm um ou mais gêneros simples.
Como dissemos, todo gênero do discurso, sendo constituído por enunciados estáveis, marca-se, também, por um tema, um estilo e uma estrutura composicional. Entender a notícia como gênero é entender que a citação do discurso de outrem e a explicitação dos atos de fala por meio de verbos de opinião não se dão aleatoriamente nem só da maneira como recomenda o Manual da redação, mas, sobretudo, seguem as determinações do próprio gênero. Perceberemos mais claramente a importância do gênero para a determinação da forma de citação e de classificação da citação no jornalismo ao comparar notícias de cadernos diferentes, ou seja, um mesmo gênero com mudança de tema. Em notícias de cadernos diferentes, há uma utilização também diferenciada em termos de escolhas de verbos de
opinião para classificar falas de entrevistados (e isso apesar de a recomendação em relação às
escolhas de verbos ser única para todas as editorias!). Para nós, uma das explicações possíveis para o estabelecimento dessa diferença está na atuação do gênero no processo de incorporação do discurso citado no discurso do jornalista.
No que se refere ao enunciado, nós o entendemos, neste trabalho, como uma categoria discursiva que leva em conta o entrecruzamento entre língua, sujeito e história, e como caracterizado por um acabamento não-acabado. Esse entendimento é bem diferente do de oração, que é uma categoria da língua, marcada por um começo e um fim claramente delimitados, cuja estrutura pode ser reproduzida ilimitadamente. A oposição entre oração e
enunciado é, também, uma oposição entre o modo como Saussure e Bakhtin concebem a
linguagem: o primeiro considera a língua como um sistema de formas fechado, abstrato, autônomo e homogêneo, ao passo que o segundo não entende a linguagem sem os aspectos ideológicos, dialógicos e históricos.
O conceito de enunciação, que também utilizaremos neste trabalho, vincula-se ao de
enunciado. Trata-se da situação concreta em que este foi produzido, do nome dado ao
processo de produção de enunciados.
Falta mencionar o conceito de discurso que adotaremos, ligado aos conceitos de
enunciado e de gênero discursivo de Bakhtin. O discurso é a combinação estável de dois
domínios: o das estruturas da língua e o das esferas da atividade humana. É a representação social de enunciados individuais que vão se repetindo, ao longo da história, numa prática específica – o conjunto de enunciados produzidos na prática jornalística, por exemplo, compõe o discurso jornalístico.
Com base nessas definições, traçamos o conceito que adotaremos de discurso de outrem. Por discurso de outrem entenderemos o discurso no discurso, a enunciação na
enunciação (Bakhtin, 2002, p. 144), mais do que unicamente um tema sobre o qual fala o
discurso citante. É a enunciação de uma outra pessoa transportada para o discurso citante com, pelo menos, rudimentos da sua integridade lingüística e da sua autonomia estrutural
primitivas (Bakhtin, idem, pp. 144-5) e com a conservação de seu conteúdo.