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Sobre o verbo “dizer” e as editorias do jornal

3. CONSTRUÇÃO DO OBJETO DE ANÁLISE

4.1. ANÁLISE DA EDITORIA, DA FONTE E DAS FORMAS DE CITAÇÃO

4.1.1. Sobre o verbo “dizer” e as editorias do jornal

O Manual da redação é dirigido a todos os repórteres da Folha de S.Paulo, não importando a editoria em que trabalham. No entanto, as regras de utilização dos verbos

declarativos não são seguidas uniformemente nas diferentes editorias do jornal. Este foi o

primeiro dado que nos chamou a atenção na análise. Daí darmos ênfase, nesta parte do trabalho, para as editorias.

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Quando dizemos que as regras de utilização dos verbos declarativos não são seguidas uniformemente pelos repórteres da Folha de S.Paulo, referimo-nos especificamente à recomendação do Manual para usar os verbos tidos como neutros. Com relação a tal recomendação, notamos que o verbo “dizer”, considerado o mais neutro dentre os mais neutros (a notar pelo fato de ser o único usado como parâmetro de contraposição aos verbos interpretativos “acreditar”, “admitir”, “alegar”, “denunciar”, “garantir”, “lembrar”, “prometer”, “reconhecer”, “ressaltar”, “revelar”, “salientar/sublinhar” – cf. item 3.2.3), foi o preferido, ao lado do verbo “afirmar”, no momento de classificar a fala de uma fonte, independentemente da editoria na qual a fala é citada. Das 421 ocorrências de verbos no processo de classificação de falas de fontes, 155 (ou aproximadamente 37% do total) referem- se só ao verbo “dizer”. Vejamos, na Tabela 2, o levantamento quantitativo separado por verbo do corpus:

Análise quantitativa dos verbos do corpus*

Verbo Ocorrências Verbo Ocorrências Verbo Ocorrências

Dizer 155 Contestar 2 Evitar 1

Afirmar 98 Justificar 2 Explicar 1

Informar 16 Pedir 2 Frisar 1

Considerar 9 Perguntar 2 Intervir 1

Alegar 7 Prometer 2 Lembrar 1

Criticar 7 Suspeitar 2 Levantar-se 1

Declarar 7 Acenar 1 Limitar-se 1

Negar 6 Acrescentar 1 Mencionar 1

Anunciar 5 Acusar 1 Mudar 1

Concluir 5 Adiantar 1 Ponderar 1

Fazer 5 Analisar 1 Preferir 1

Ressaltar 5 Assumir 1 Propor 1

Achar 4 Avisar 1 Queixar-se 1

Admitir 4 Comentar 1 Questionar 1

Citar 4 Concordar 1 Reafirmar 1

Confirmar 4 Confiar 1 Rebater 1

Defender 4 Contrariar 1 Recomendar 1

Falar 4 Costumar 1 Recusar-se 1

Avaliar 3 Definir 1 Responder 1

Entender 3 Destacar 1 Resumir 1

Querer 3 Determinar 1 Revelar 1

Aproveitar 2 Encarar 1 Ser 1

Brincar 2 Esperar 1 Voltar 1

Completar 2 Estar 1 Temer 1

Contar 2 Estimar 1

Total de verbos - 7421 Total de ocorrências – 421

*Os verbos estão relacionados por ordem decrescente de número de ocorrência.

Tabela 2. Análise quantitativa dos verbos do corpus. Fonte: Análise da edição de 03/02/01 do jornal Folha de

S.Paulo

21Alguns verbos de opinião foram colocados sozinhos na tabela para facilitar a leitura da mesma. Na verdade, eles compõem estruturas mais complexas, podendo vir seguidos ora por um complemento; ora por um verbo com o qual compõem uma locução verbal; ora por um predicativo. Vejamos os exemplos retirados do corpus:

- Querer: apareceu em expressões como “(não) quis comentar”, “(não) quis falar” etc.;

- Aproveitar: em expressões como “aproveitou para criticar”, “aproveitou para atacar” etc.;

- Evitar: em expressões como “evitou responder” etc.;

- Costumar: em expressões como “costumam criticar” etc.;

- Fazer: em expressões como “faz alguns alertas”, “fez um discurso”, “fez comentários” etc.;

- Mudar: em expressões como “mudou suas contas etc.;

- Falar: em expressões como “falando em nome de”, “falando em tese”, “falou sobre as críticas” etc.;

- Recusar-se: em expressões como “recusou-se a falar” etc.;

- Voltar: em expressões como “voltou a afirmar” etc.;

- Preferir: em expressões como “preferiu não classificar” etc.;

- Estar: em expressões como “estão indignados” etc.;

- Levantar: em expressões como “levantou incertezas” etc.;

- Ser: em expressões como “é mais crítico” etc.;

- Limitar-se: em expressões como “limitou-se a repetir” etc.;

- Resumir: em expressões como “resumindo a preocupação” etc.;

- Esperar: em expressões como “espera uma alteração” etc.;

- Queixar-se: em expressões como “queixando-se da missão” etc.;

- Contrariar: em expressões como “contrariou o laudo técnico” etc.;

- Acenar: em expressões como “acena com a disposição do grupo” etc.;

- Lembrar: em expressões como “lembrando a banda” etc.;

- Temer: em expressões como “temem martírio” etc.

Esses verbos de opinião, na nossa análise, acabaram sendo nomeados de forma diferente daqueles que acompanham discursos diretos e indiretos e classificam uma fala unicamente com “disse (que)”, “afirmou (que)”, “negou (que)”, “ressalta (que)”, “comenta (que)” etc. Como se verá adiante, nós os chamamos de “verbos-comentários”, pois comentam o discurso de outrem ao introduzi-lo, finalizá-lo ou quebrá-lo ao meio.

O fato de “dizer” ter sido o verbo de maior ocorrência, tanto na contagem geral quanto na que se restringiu a cada um dos cadernos avaliados (com exceção do caderno de Esporte, em que o verbo “afirmar” é o mais numeroso), impulsionou nosso interesse pela análise desse verbo em particular.

Além de ter apresentado a ocorrência mais expressiva em relação aos demais verbos de

opinião e de ter sido utilizado em quantidade maior que quaisquer outros verbos em

praticamente todas as editorias da Folha de S.Paulo, notamos algumas particularidades na maneira como a preferência pelo verbo “dizer” se manifestou. Eis um outro motivo para termos optado pela análise exclusiva desse verbo – em detrimento dos demais setenta e três que compunham nosso material –, sem contar o fato de que é considerado, como já dissemos, o mais neutro para a tarefa de classificar uma fala.

No caderno Brasil, o verbo “dizer” obteve uma das ocorrências mais significativas em relação às outras editorias. O verbo “afirmar”, também lembrado com freqüência pelo Manual ao dar exemplos de verbos neutros, é outro com ocorrência alta. Juntos, os verbos “dizer” e “afirmar” responderam por mais da metade das ocorrências de verbos de opinião do caderno – apareceram sessenta e três vezes no total. Os demais dezenove verbos levantados nessa editoria somaram trinta e duas ocorrências:

Editoria Brasil*

Verbo Ocorrências Verbo Ocorrências Verbo Ocorrências

Dizer 35 Criticar 2 Concluir 1

Afirmar 28 Declarar 2 Evitar 1

Informar 5 Fazer 2 Falar 1

Citar 3 Admitir 1 Justificar 1

Querer 3 Acusar 1 Mudar 1

Aproveitar 2 Avaliar 1 Recusar 1

Considerar 2 Brincar 1 Ressaltar 1

Total de verbos - 21 Total de ocorrências – 95

*Os verbos foram distribuídos na tabela conforme a quantidade de aparecimentos, em ordem decrescente.

Tabela 3. Editoria Brasil. Fonte: Análise do jornal Folha de S.Paulo de 3 de fevereiro de 2001

O caderno Dinheiro trouxe grande variedade de verbos de opinião – outros vinte e seis além do “dizer” e do “afirmar”. Estes dois verbos somaram trinta e sete aparecimentos, ficando abaixo do total de ocorrências (cinqüenta e três) dos demais verbos da editoria:

Editoria Dinheiro*

Verbo Ocorrências Verbo Ocorrências

Dizer 26 Anunciar 1 Afirmar 11 Avaliar 1 Informar 7 Criticar 1 Considerar 6 Defender 1 Alegar 4 Determinar 1 Achar 3 Estar 1 Admitir 3 Frisar 1 Entender 3 Levantar 1 Fazer 3 Mencionar 1 Negar 3 Preferir 1 Confirmar 2 Prometer 1 Declarar 2 Reafirmar 1 Ressaltar 2 Rebater 1 Adiantar 1 Suspeitar 1

Total de verbos - 28 Total de ocorrências – 90

*Os verbos estão relacionados por ordem decrescente de número de ocorrência.

Tabela 4. Editoria Dinheiro. Fonte: Análise da edição de 03/02/01 do jornal Folha de S.Paulo

O caderno Esporte também apresentou grande quantidade de verbos de opinião (vinte e sete) além dos recomendados “dizer” e “afirmar”, que somaram mais da metade das ocorrências da editoria:

Editoria Esporte*

Verbo Ocorrências Verbo Ocorrências

Afirmar 29 Confirmar 1 Dizer 22 Contar 1 Anunciar 2 Contestar 1 Criticar 2 Contrariar 1 Declarar 2 Esperar 1 Informar 2 Estimar 1 Achar 1 Falar 1 Acrescentar 1 Pedir 1 Alegar 1 Queixar-se 1 Assumir 1 Recomendar 1 Avisar 1 Ressaltar 1 Completar 1 Resumir 1 Concluir 1 Suspeitar 1 Concordar 1 Temer 1 Confiar 1

Total de verbos - 29 Total de ocorrências – 82

*Os verbos estão relacionados por ordem decrescente de número de ocorrência.

Os exemplos de aparecimentos de verbos nas editorias Brasil, Dinheiro e Esporte mostraram-nos que o simples fato de os jornalistas da Folha de S.Paulo terem sinalizado uma preferência pelos verbos tidos como neutros – pelo verbo “dizer”, especialmente falando –, como sugere o Manual da redação, não descaracterizava a proposta inicial deste trabalho de comparar teoria e prática jornalísticas. Caberia explicitar como as escolhas dos verbos de

opinião, feitas pelos repórteres, mesmo indicando a preferência por determinado uso,

demonstram a dinâmica de funcionamento da linguagem e dos sentidos assumidos pelas notícias. Portanto, mais do que confirmar ou não uma regra por meio do levantamento quantitativo, deveríamos abordar qualitativamente as limitações da própria regra, ainda que ela parecesse ser seguida à risca na maior parte das ocasiões (nosso corpus é apenas um indício de quão variadas – ilimitadas, poderíamos dizer – são as escolhas dos verbos de

opinião no jornalismo e, como se verá, dos sentidos desses verbos na notícia).

Que procedimento(s) de linguagem poderia(m) explicar a maior “ousadia” do jornalista para empregar os verbos interpretativos em cadernos como Dinheiro e Esporte, comparativamente ao caderno Brasil? Como, pelo funcionamento da linguagem, poderíamos explicar o fato de que ora o verbo “dizer” ora os verbos interpretativos recebem mais espaço nas notícias das diferentes editorias? Direcionando a nossa investigação para o verbo “dizer”, que nos interessa particularmente, como poderíamos interpretar a sua presença expressiva, mas diferenciada, nas editorias, sem buscar explicações na regra do Manual que prega a preferência por tal verbo? Para nós, as particularidades de aparecimento do verbo “dizer” nas diferentes editoriais são uma indicação da influência do gênero notícia (composto por um conteúdo temático, estrutura composicional e estilo) no processo de incorporação do discurso de outrem no discurso do jornalista. Essa influência tende a ser particular em cada editoria, haja vista que cada editoria representa um tema também particular, diferenciado, no interior do gênero notícia. As variações de tema favoreceriam, a nosso ver, que o jornalista se pusesse mais ou menos à vontade para classificar a fala de entrevistados, pois que cada editoria sugere um determinado perfil de leitor, de fontes e de editor com os quais o jornalista irá lidar, além de uma determinada linha de assuntos a serem noticiados por ele. As variações de tema favoreceriam, desse modo, uma relação também diferenciada do jornalista com as recomendações do Manual.

Talvez, na editoria Brasil, por exemplo, pesem mais para o jornalista as recomendações do Manual e o fato de lidar com autoridades públicas, que podem facilmente entrar com processo contra o jornal no caso de se sentirem injuriadas por alguma informação divulgada sobre elas; talvez, nos cadernos Dinheiro e Esporte, pese mais a necessidade de polemizar as

informações para torná-las mais atraentes ao leitor, ou, mesmo, a necessidade de valorizar as fontes do dizer. Apontaremos, nos itens que seguem, outras hipóteses sobre os modos como o gênero exerce influência nas escolhas dos verbos de opinião.