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Capítulo II  R EVISÃO DA L ITERATURA

2.2   A DOLESCÊNCIA E BEM ‐ ESTAR

2.2.8  Ansiedade social 

A ansiedade social é um distúrbio caracterizado por um medo persistente e acentuado de exposição  a situações sociais, nas quais o indivíduo se tende  a sentir embaraçado e humilhado, receando ser  criticado/gozado  por  outras  pessoas  (Kashdan  &  Herbert,  2001;  Keller,  2003).  Ambos  os  termos  ansiedade e fobia social surgem no DSM‐IV, embora exista algum pendor por parte de alguns autores  a  favor  da  designação  de  ansiedade  social  (Liebowitz,  Heimberg,  Fresco,  Travers  &  Stein,  2000).  Apesar do diagnóstico diferencial da ansiedade social enquanto referência clínica autónoma ter sido  efectuado pela primeira vez no DSM‐III (3ª edição de 1980), só em 1987 é que os distúrbios ansiosos  específicos da infância e adolescência surgiram na nomenclatura psiquiátrica no DSM‐III‐R (revisão da  3ª edição), tendo‐se constatado uma adequação mais particular às tarefas desenvolvimentistas deste  período de vida, com a publicação da redefinição dos critérios de diagnóstico no DSM‐IV (Cunha &  Salvador, 2000). 

  A  elevada  prevalência  em  adultos  faz  com  que  seja  a  terceira  desordem  psiquiátrica  mais  comum  (Mancini,  Van  Ameringen,  Bennett,  Patterson  &  Watson,  2005).  Todavia  e  apesar  de  ser  igualmente comum na infância e adolescência (Kashdan & Herbert, 2001; La Greca & Harrison, 2005;  Leary & Kowalski, 1995; Papalia et al., 2004), denota‐se que tal não tem merecido a devida atenção  no âmbito da investigação científica (Cunha & Salvador, 2000; Keller, 2003; Wittchen & Fehm, 2003),  ora pela escassez de medidas de avaliação devidamente validadas e adequadas para este período de 

vida,  ora  pela  recente  definição  enquanto  entidade  clínica  diferenciada  (Cunha,  Gouveia,  Alegre  &  Salvador, 2004; Kashdan & Herbert, 2001; La Greca, 1999; La Greca & Harrison, 2005). Embora não  tenha  existido  uma  extensa  investigação  em  crianças  e  adolescentes,  as  preocupações,  medos  e  ansiedades  ao  longo  destas  idades  têm  sido  desde  há  longa  data,  objecto  de  interesse  e  pesquisa,  principalmente  quando  a  prevalência  da  fobia  social  interfere  negativamente  com  o  desenvolvimento normal (Cunha & Salvador, 2000). 

  Etiologicamente, a ansiedade social é entendida como uma doença de natureza crónica que 

se  tende  a  manter  ao  longo  do  curso  da  vida  e  que  cria  inúmeros  constrangimentos  em  diversos  domínios de vida – pessoal, educacional, laboral, social (Keller, 2003), podendo assumir duas formas:  ansiedade  social  generalizada  e  não  generalizada  (Kashdan  &  Herbert,  2001;  Keller,  2003;  Leary  &  Kowalski, 1995). A primeira contempla indivíduos que receiam/temem situações sociais usuais, como  as  conversas,  criar  amizades  ou  participar  em  eventos  sociais.  Por  sua  vez,  na  segunda  forma,  incluem‐se  os  indivíduos  que  unicamente  receiam  e  evitam  uma  única  situação/evento  particular,  como falar em frente a um público. 

  De acordo  com Salvador  (2000), os sintomas de ansiedade fazem parte  de  quatro sistemas  funcionais  (cognitivos,  emocionais,  comportamentais  e  fisiológicos)  coordenados  para  produzir  respostas adaptativas a situações de perigo, verificando‐se uma interacção recíproca entre o que o  indivíduo acredita e espera ser eficaz e o grau de mobilização deste mecanismo de auto‐protecção.  Assim,  os  sintomas  num  distúrbio  de  ansiedade,  usualmente,  consistem  numa  resposta  baseada  numa  estimativa  exagerada  do  grau  de  perigo  numa  dada  situação  e  numa  estimativa  demasiado  baixa  das  suas  capacidades  em  demonstrar  um  desempenho  adequado.  No  caso  específico  dos  fóbicos  sociais,  o  modo  de  perigo  predominantemente  é  o  da  vulnerabilidade  à  avaliação  negativa  dos outros em situações sociais e inerente rejeição social (La Greca & Stone, 1993; Leary & Kowalski,  1995;  Mancini  et  al.,  2005;  Motl  &  Conroy,  2000).  A  sua  vulnerabilidade  é  aumentada  por  dúvidas  acerca  de  possuir  ou  não  as  capacidades  necessárias  para  obter  a  aprovação  dos  outros,  pela  existência  de  normas  rígidas  acerca  do  que  deve  ser  o  comportamento  social  e  pelo  exagero  nas  previsões das consequências do fracasso (Papalia et al., 2004; Salvador, 2000). Frequentemente, os  fóbicos sociais tendem a evitar tais situações ou eventos, ou então, a manifestar comportamentos de  segurança.  Estes  últimos  consistem  numa  variedade  de  comportamentos  que  estes  indivíduos  adoptam  em  certas  situações  sociais  e  pelo  quais  procuram  reduzir/eliminar  o  risco  de  avaliação 

negativa por parte das outras pessoas (Gouveia, Cunha & Salvador, 2003). Importa aqui referir, que  no  plano  terapêutico,  já  existem  inúmeros  tratamentos  (psico‐farmacológicos,  psico‐terapêuticos)  devidamente documentados e estabelecidos (ver Cunha & Salvador, 2000; Gouveia & Salvador, 2000;  Kashdan & Herbert, 2001; Mancini et al., 2005). 

  De  acordo  com  diversos  autores,  a  adolescência  é  o  período  de  vida  por  excelência  para  o  surgimento/desenvolvimento  da  ansiedade  social,  verificando‐se  assim  uma  maior  propensidade  e  prevalência  deste  distúrbio  psicológico  neste  período  de  vida  (Cunha  &  Salvador,  2000;  Kashdan  &  Herbert,  2001;  Keller,  2003;  Mancini  et  al.,  2005;  Wittchen  &  Fehm,  2003),  especialmente  no  que  concerne o sexo feminino (Cunha et al., 2004; La Greca & Harrison, 2005; La Greca & Lopez, 1998; La  Greca  &  Stone,  1993;  La  Greca,  Dandes,  Wick,  Shaw  &  Stone,  1988;  Russell,  2002).  Como  motivos  principais  para  esta  elevada  incidência,  é‐se  sugerido  os  seguintes  factores:  a)  dificuldades  para  aceitar as alterações corporais decorrentes da pubescência; b) percepção excessiva e irracional das  exigências  e  críticas  por  partes  de  outras  pessoas  (pares,  pais,  professores,  estranhos…);  c)  maior 

auto‐consciência  individual  e  colectiva  decorrente  do  desenvolvimento  sociocognitivo;  e,        d) predisposição genética e temperamental (Kashdan & Herbert, 2001; Keller, 2003; Leary & Kowalski, 

1995; Salvador, 2000). 

  Como tal, os adolescentes tendem a focar os seus receios/medos em situações de exposição  e  avaliação  social  (testes/provas  na  escola,  desempenho  escolar  –  cognitivo,  psicomotor  e  socio‐ afectivo, aparência física e competências sociais), originando um certo desconforto e mal‐estar que  pode  conduzir  ao  evitamento  social.  Igualmente,  fora  da  escola,  estes  indivíduos  sentem  enormes  dificuldades  nas  situações  que  impliquem  um  desempenho  em  público  ou  interacção  com  outras  pessoas  (Cunha  &  Salvador,  2000;  Motl  &  Conroy,  2000).  La  Greca  e  Harrison  (2005)  verificaram  empiricamente, que a pertença a um grupo de amigos, a existência de relações positivas de amizade  e o facto de namorar predisseram positivamente a existência de menores níveis de ansiedade social.  Analogamente, os adolescentes com maiores níveis de ansiedade tendem a mencionar um número  superior  de  relações  negativas  com  os  pares  e  menores  níveis  de  saúde  auto‐reportada  (Matos,  Barrett, Dads & Shortt, 2003). Igualmente, uma revisão de múltiplos estudos centrados na análise da  relação  entre  a  ansiedade  social  e  a  auto‐estima  concluiu  que  o  valor  médio  de  correlação  é  algo  elevado (r= ‐0.50), demonstrando a associação eminente entre estas dimensões psicológicas (Leary &  Kowalski, 1995). 

  Por  fim,  no  que  diz  respeito  à  avaliação  da  ansiedade  social  através  de  medidas  de  auto‐ resposta, Cunha et al. (2004) referem que até à data, a SAS‐A (Social Anxiety Scale for Adolescents: La  Greca  &  Lopez,  1998)  é  a  única  escala  desenvolvida  especificamente  para  este  propósito  em  adolescentes dos 12 aos 18 anos de idade. Resultante das versões anteriores para crianças (La Greca  et  al.,  1988;  La  Greca  &  Stone,  1993),  a  SAS‐A  tem  demonstrado  boas  propriedades  psicométricas  quer na versão original (La Greca, 1999; La Greca & Lopez, 1998), quer na versão portuguesa (Cunha  et al., 2004), sustentando reiteradamente a existência da seguinte estrutura factorial constituída por  3 dimensões: a) medo de avaliação negativa; b) desconforto e evitamento social em situações novas;  e, c) desconforto e evitamento social geral. 

  Em  suma,  a  ansiedade  social  é  uma  dimensão  de  estudo  que  tem  vindo  a  merecer  uma  crescente  atenção  empírica,  principalmente  pelos  efeitos  nefastos  no  desenvolvimento  dos  adolescentes. Desta forma e considerando o bem‐estar psicológico como dimensão de avaliação da  saúde  mental  a  um  nível  holístico,  cogitamos  que  a  ansiedade  social  permitir‐nos‐á  conhecer  mais  afincadamente a dinâmica do bem‐estar e demais relações com outras dimensões de avaliação intra‐ individual,  social  e  contextual.  Mais  ainda,  ressalvamos  que  de  entre  as  variáveis  em  estudo,  a  ansiedade social é a única que possui uma natureza de avaliação teórico‐empírica de cariz negativo  (i.e. psicopatológico).   

2.2.9 Auto‐estima 

Na teoria e pesquisa contemporânea respeitante ao sentimento de si (self), o eu é entendido como  um sistema dinâmico e multidimensional em que a informação acerca do self é organizada de acordo  com o contexto envolvente e de acordo com as autopercepções específicas a cada domínio de vida  (Harter, Waters & Whitesell, 1998; Oosterwegel & Oppenheimer, 2002), pelo que o sentimento de si  é deste modo mais correctamente descrito como um complexo sistema de construtos (Bernardo &  Matos,  2003).  O  conhecimento  individual  de  cada  pessoa  sobre  o  seu  self,  não  é  apresentado  na  forma  de  uma  auto‐representação/auto‐conceito  global  ou  geral,  mas  sim,  através  de  uma  diferenciação  e  integração  de  uma  variedade  de  autopercepções  mais  específicas,  quer  no  âmbito  temporal (passado, presente e futuro), quer no âmbito sociocultural em que o indivíduo se integra.  Assim,  as  autopercepções  são,  em  parte,  o  reflexo  do  contexto  sociocultural  e  histórico  em  que  a  pessoa vive e onde esta foi moldada, sendo que os processos de enculturação e particularmente de 

socialização assumem um carácter importante de influência (Vasconcelos‐Raposo et al., 2004), pelo  que  deste  modo,  para  compreendermos  a  dinâmica  da  auto‐estima  devemos  considerar  as  orientações  culturais  dominantes  e  a  internalização  individual  dos  ideais  e  valores  dessa  cultura  (Maïano, Ninot & Bilard, 2004). 

  Esta compreensão da natureza multidimensional do sentimento de si deriva de uma grande 

influência  por  parte  dos  trabalhos  seminais  de  James  (1890,  1892),  em  que  este  autor  identificou  pela primeira vez dois aspectos diferenciados do eu: o eu‐como‐objecto (modo como os indivíduos se  percepcionam  a  si  próprios)  e  o  eu‐como‐sujeito  (factores  que  dão  ao  indivíduo  a  sensação  de  unicidade). Estas proposições permitiram assim escrutinar que o entendimento do sentimento de si  resulta da conjugação das percepções individuais com os processos de comparação social (Harter et  al., 1998; Owens, Mortimer & Finch, 1996). Esta compreensão foi retomada (embora indirectamente)  pelos estudos de Morris Rosenberg, em que este considerou que a auto‐estima é determinada quer  por  autopercepções  avaliativas,  quer  por  processos  de  comparação/avaliação  interpessoal  “reflectida”  (reflected  appraisals),  culminando  deste  modo  numa  atitude  negativa  ou  positiva  em  relação  ao  self  (Rosenberg,  1965,  1979;  Rosenberg  &  Pearlin,  1972).  O  aspecto  dinâmico  do  sentimento  de  si  baseia‐se  na  assumpção  de  que  a  auto‐compreensão  é  primariamente  uma  construção sociocultural; i.e., a partir do momento de nascimento, existem um conjunto de pessoas  significativas  que  afectam  o  modo  como  as  pessoas  se  autopercepcionam,  sendo  que  a  auto‐ compreensão  se  desenvolve  em  função  de  três  fontes  de  informação:  a)  o  conhecimento  momentâneo acerca do eu; b) a informação acerca do self proveniente das opiniões/juízos por parte  de  outras  pessoas;  e,  c)  a  forma  como  pensamos  que  as  outras  pessoas  que  nos  são  importantes/significativas nos vêem/entendem (Rosenberg, 1979, p. 97). 

  As  semelhanças  terminológicas  e  conceptuais  entre  conceitos  e  formas  de  abordagens  do  sentimento  de  si  (self)  e  percepções/representações  associadas  produziram  alguma  confusão  conceptual e metodológica, originando consequentemente a necessidade de os diferenciar entre si  de  forma  a  reduzir  a  ambiguidade  e  indefinição  terminológica  (Bernardo  &  Matos,  2003;  Vasconcelos‐Raposo  &  Freitas,  1999).  De  entre  os  demais  conceitos  existentes,  os  que  mais  facilmente se confundem e que obviamente precisam de uma maior delimitação são o auto‐conceito  e  a  auto‐estima.  Ao  longo  dos  anos  80,  parecem  ter  existido  alguns  esforços  no  sentido  de  atingir  algum  consenso  na  definição  destes  construtos,  contemplando  a  existência  de  duas  entidades 

psicológicas diferentes, mas inter‐relacionadas, que delimitam distintas facetas do sentimento de si  (Rosenberg, 1981, 1989). 

  Tendo em conta as diversas definições propostas na literatura (ver Bernardo & Matos, 2003 e  Vasconcelos‐Raposo  &  Freitas,  1999  para  um  maior  aprofundamento),  o  auto‐conceito  é  definido  conceptualmente  como  um  termo  mais  abrangente  relativo  à  auto‐descrição  de  uma  pessoa,  subsidiando‐se  através  da  imagem  multifacetada  obtida  através  da  percepção  que  o  indivíduo  tem  de si próprio. Grosso modo, esta dimensão engloba o conjunto dos pensamentos e sentimentos do  indivíduo referentes ao eu‐como‐objecto (Rosenberg, 1979), em que o acto consciente desempenha  uma  função  fulcral  (Damásio,  2004).  Assim,  esta  dimensão  psicológica  encerra  os  aspectos  conotativos/descritivos  que  cada  pessoa  formula  face  à  descrição  que  faz  de  si,  tendo  esta  área  temática  de  investigação  raízes  teórico‐empíricas  em  três  “disciplinas  científicas”:  psicologia,  sociologia e psicanálise (Rosenberg, 1989). Inicialmente, a pesquisa empírica adoptou uma das duas  seguintes abordagens: a)  o auto‐conceito como  um produto social (consequência de influências de  índole  social);  ou,  b)  o  auto‐conceito  como  uma  força  social  (causa  de  um  dado  comportamento  social) (Rosenberg, 1981). Todavia, mais recentemente, os estudos realizados têm demonstrado uma  maior  sensibilidade  quanto  à  “intencionalidade”  bidireccional  do  auto‐conceito,  consoante  os  diversos correlatos em análise (variáveis intra‐individuais, inter‐individuais e contextuais) e sentidos  direccionais das influências em causa (Rosenberg, Schooler & Schoenbach, 1989). 

  Por  sua  vez,  a  auto‐estima  consiste  na  dimensão  avaliativa  e  afectiva  do  auto‐conceito  e  surge  em  consequência  do  desenvolvimento  da  capacidade  cognitiva  de  descrição  e  definição  pessoal (Papalia et al., 2004; Sprinthall & Collins, 2003). Como tal, a auto‐estima é definida enquanto  a  dimensão  avaliativa  quantitativa  do  auto‐conhecimento  referente  à  forma  como  um  indivíduo  formula  apreciações  acerca  de  si  próprio,  quer  seja  acerca  da  sua  auto‐imagem,  quer  seja  da  sua  prestação num dado domínio de vida (Rosenberg, 1965, 1979, 1981). Esta componente avaliativa das  percepções  e  descrições  de  um  indivíduo,  i.e.,  do  seu  auto‐conceito,  pode  ser  empregue  para  se  referir à auto‐análise como um todo – auto‐estima global – ou em relação à avaliação do sentimento  de  si  em  determinada  situação  ou  domínio  de  realização  (Rosenberg,  Schooler,  Schoenbach  &  Rosenberg,  1995).  Embora  durante  muitos  anos,  os  investigadores  no  âmbito  de  estudo  da  auto‐ estima  tenham  lidado  com  a  auto‐estima  como  uma  entidade  psicológica  unidimensional,  sem  atender  às  diferentes  percepções  do  self  que  o  compõem  (Bernardo  &  Matos,  2003;  Marsh,  1996; 

Vallieres  &  Vallerand,  1990),  recentemente  tem‐se  verificado  o  desenvolvimento  de  modelos  multidimensionais hierárquicos de auto‐estima, que pressupõem uma abordagem do tipo bottom‐up  em  que  as  auto‐avaliações  em  domínios  específicos  estão  de  algum  modo  agregadas  de  forma  a  delinearem  a  auto‐estima  global  (e.g.  Fox  &  Corbin,  1989;  Marsh  &  Shavelson,  1985;  Shavelson,  Hubner & Stanton, 1976) 

  Como referido anteriormente (ver página 59), uma das escalas mais utilizadas no âmbito de  estudo  da  auto‐estima,  é  a  escala  de  Rosenberg  (1965)  que  avalia  esta  dimensão  psicológica  a  um  nível global (Dunbar, Ford, Hunt & Der, 2000; Marsh, 1996; Schmitt & Allik, 2005; Tafarodi & Milne,  2002; Vallieres & Vallerand, 1990; Wang, Siegal, Falck & Carlson, 2001). No entanto, decorrentes de  alguns  estudos  iniciais  que  submeteram  os  itens  desta  escala  a  processos  de  análise  factorial  exploratória  (e.g.  Kohn  &  Schooler,  1969),  vários  estudiosos  têm  proposto  a  existência  de  dois  factores  interdependentes  delimitadores  da  estrutura  factorial  da  escala  de  auto‐estima  de  Rosenberg  (ver  Marsh,  1996,  pp.  811‐812  e  Tafarodi  &  Milne,  2002).  As  análises  factoriais  têm  revelado a existência de duas dimensões, em que os itens de orientação positiva tendem a saturar  num  factor  diferente  dos  itens  de  orientação  negativa.  Tal  estruturação  factorial  originou  alguma  reflexão  teórico‐empírica  em  torno  da  existência  de  uma  dimensão  positiva  e  negativa  da  auto‐ estima,  podendo  estes  construtos  serem  igualmente  denominados  de  auto‐confiança  e  auto‐ depreciação (Kohn & Schooler, 1969) ou de auto‐competência/eficácia e auto‐aceitação (Schmitt &  Allik,  2005;  Tafarodi  &  Milne,  2002).  Contudo,  quando  sujeitando  os  dados  obtidos  a  partir  desta  escala  a  um  procedimento  estatístico  mais  rigoroso  como  é  a  análise  factorial  confirmatória,  os  investigadores têm repetidamente constatado a necessidade de aplicar alguns efeitos metodológicos  (e.g.  unicidade  correlacional  entre  termos  residuais  de  erros  de  variáveis  manifestas),  de  forma  a  estes evidenciarem índices de ajustamento satisfatórios (Tomás & Oliver, 1999). Concomitantemente,  a  maioria  destes  estudos  tem  vindo  a  demonstrar  evidência  empírica  para  a  assumpção  da  unidimensionalidade da escala de auto‐estima de Rosenberg, existindo aqueles que revelaram uma  supremacia  referente  a  efeitos  metodológicos  nos  itens  de  orientação  negativa  (Marsh,  1996),  aqueles que manifestaram idêntica hegemonia mas para os itens de orientação positiva (Dunbar et  al., 2000; Wang et al., 2001) e por fim, as investigações que demonstraram a importância de conjugar  simultaneamente a unicidade correlacional dos itens com orientação negativa e positiva (Fernandes  &  Vasconcelos‐Raposo,  no  prelo;  Tomás  &  Oliver,  1999).  Todavia,  esta  problemática  será 

devidamente  retomada  no  ponto  de  apresentação  dos  instrumentos  de  avaliação  a  aplicar  na  presente investigação. 

  Perante  as  inúmeras  contingências  de  vida  e  as  transformações  sociocognitivas  e  morfológicas  pubescentárias,  a  adolescência  surge  como  um  período  de  vida  em  que  é  capital  o  estudo das autopercepções, quer seja a um nível longitudinal deste período de vida (intra‐ciclo), quer  seja  a  um  nível  de  enquadramento  ao  longo  do  curso  de  vida  (inter‐ciclo).  No  primeiro  ponto,  diversas  investigações  têm  obtido  alguma  evidência  para  o  facto  da  auto‐estima  (e  algumas  componentes como a dimensão física) permanecer relativamente estável (Alsaker & Olweus, 1992;  Raudsepp,  Kais  &  Hannus,  2004),  embora  se  verifique  uma  diminuição  tendencial  na  transição  da  infância para a fase inicial da adolescência (Harter & Whitesell, 2003; Maïano et al., 2004; Robins et 

al.,  2001).  Para  esta  variação  inter‐ciclo,  parecem  contribuir  as  seguintes  conjunturas:          a)  desenvolvimento  sociocognitivo  para  um  estádio  de  pensamento  mais  formal/hipotético  e 

descentralização do ego para a aprovação/aceitação social (Papalia et al., 2004; Sprinthall & Collins,  2003);  b)  conflituosidade  entre  as  autopercepções  e  auto‐representações  de  diferentes  contextos  (Harter  et  al.,  1998;  Oosterwegel  &  Oppenheimer,  2002);  e,  c)  diferenciação  sexual  nas  auto‐ avaliações  em  diferentes  domínios  e  construtos  psicossociais  (Knox,  Funk,  Elliott  &  Bush,  2000;  Maïano et al., 2004). Na verdade, este último ponto parece ser um ponto de merecido destaque, na  medida em que as alterações físicas decorrentes da pubescência parecem ter um efeito mais nefasto  no bem‐estar emocional das raparigas (Papalia et al., 2004; Robins et al., 2001). Todavia, uma visão  algo  mais  abrangente  salienta  existirem  diferentes  autopercepções  e  valorizações  de  acordo  com  distintos domínios (Knox et al., 2000; Maïano et al., 2004). Os rapazes tendem a manifestar maiores  auto‐avaliações  referentes  à  masculinidade,  realização,  capacidade  e  aparência  física,  matemática,  competitividade  e  orientação  para  o  individualismo;  por  sua  vez,  as  raparigas  tem  uma  maior  propensão  a  reportar  níveis  superiores  de  auto‐avaliação  alusivas  ao  altruísmo,  sociabilidade,  capacidade verbal e de leitura, rendimento escolar e orientação para o colectivismo (idem). Em suma,  parece evidente existir alguma estabilidade dos níveis de auto‐estima a um nível grupal, apesar de se  poder verificar alguma instabilidade nas autopercepções a um nível individual e situacional (Hagger,  Biddle,  Chow,  Stambulova  &  Kaavussanu,  2003;  Harter  &  Whitesell,  2003;  Harter  et  al.,  1998;  Oosterwegel  &  Oppenheimer,  2002).  Quando  considerado  o  segundo  ponto  mencionado  (enquadramento  inter‐ciclo),  a  adolescência  é  usualmente  referida  como  um  período  de  vida  algo 

problemático (tensão e agitação), em que as avaliações quantitativas referentes ao sentimento de si  são mais pessimistas e negativas (Arnett, 1999). Embora esta posição seja glosada por alguns autores  (e.g.  Sprinthall  &  Collins,  2003),  os  dados  obtidos  por  Robins  et  al.  (2001),  embora  de  natureza  transversal/coorte,  tendem  a  suportar  esta  proposição  e  permitem‐nos  analisar  o  cenário  de  variação  da  auto‐estima  ao  longo  do  curso  da  vida.  A  adolescência  conjuntamente  com  a  idade  avançada  (>  70  anos)  constituem  os  períodos  de  vida  em  que  se  verificaram  maiores  declínios  nos  níveis médios da auto‐estima global, assumindo‐se, contudo, o primeiro período de vida referenciado  como  aquele  com  maior  diferença  média  estandardizada  em  relação  ao  período  de  vida  anterior  (Cohen’s d= ‐0.30, p<0.01) e em que se constata o princípio da diferenciação sexual da auto‐estima.  O efeito diminutivo nas raparigas é cerca do dobro do verificado nos rapazes, pelo que entre os 13 e  os  17  anos  a  diferença  média  situa‐se  em  torno  de  0.21  (avaliado  numa  escala  tipo  Likert  de  5  pontos).  Embora  o  presente  estudo  possua  algumas  limitações  inerentes  (natureza  transversal  da  investigação, método de recolha de dados via internet e utilização de uma “escala” de item único),  permite‐nos  compreender,  no  global,  a  trajectória  desenvolvimentista  da  auto‐estima  global  ao  longo do curso da vida e mais especificamente, a diferenciação por período de vida e por sexo.    Os  estudos  iniciais  de  M.  Rosenberg  identificaram  alguns  dos  correlatos/factores  de  influência  da  auto‐estima  durante  a  adolescência.  No  seu  estudo  seminal  numa  amostra  de  5024  estudantes adolescentes nova‐iorquinos, Rosenberg (1965) obteve uma associação negativa entre a  auto‐estima  e  a  ansiedade  e  a  depressão,  confirmando  os  resultados  obtidos  num  estudo  anterior  referente à relação entre uma baixa auto‐estima e níveis elevados de ansiedade (Rosenberg, 1962).  Posteriormente, também se constatou que um baixo estatuto socioeconómico (Rosenberg & Pearlin,  1972), a indiferença parental na vida escolar (Rosenberg, 1963), as avaliações negativas por parte de  outras pessoas após piores desempenhos (Shrauger & Rosenberg, 1970) e o envolvimento em certas  actividades  delinquentes  (Rosenberg  et  al.,  1989)  tendem  a  estar  associadas  a  menores  níveis  de  auto‐estima global. Por fim, Rosenberg e colegas (Rosenberg et al., 1995) analisaram a relevância de  estudar diferenciadamente a auto‐estima global e a auto‐estima específica (académica), de modo a  conhecer mais detalhadamente os seus efeitos em outros construtos psicossociais. Os autores deste  estudo  verificaram  que  enquanto  a  auto‐estima  específica  (académica)  é  a  melhor  predictora  do  rendimento  escolar,  a  auto‐estima  global  tende  a  associar‐se  negativamente  com  a  depressão,  ansiedade,  irritabilidade  e  anomia,  e  positivamente  com  as  dimensões  do  bem‐estar  subjectivo 

(felicidade e satisfação com a vida). Assim, a auto‐estima global possui um maior poder preditivo em  certas  dimensões  do  bem‐estar  subjectivo  e  saúde  mental,  assumindo‐se  como  uma  variável