Capítulo II R EVISÃO DA L ITERATURA
2.2 A DOLESCÊNCIA E BEM ‐ ESTAR
2.2.8 Ansiedade social
A ansiedade social é um distúrbio caracterizado por um medo persistente e acentuado de exposição a situações sociais, nas quais o indivíduo se tende a sentir embaraçado e humilhado, receando ser criticado/gozado por outras pessoas (Kashdan & Herbert, 2001; Keller, 2003). Ambos os termos ansiedade e fobia social surgem no DSM‐IV, embora exista algum pendor por parte de alguns autores a favor da designação de ansiedade social (Liebowitz, Heimberg, Fresco, Travers & Stein, 2000). Apesar do diagnóstico diferencial da ansiedade social enquanto referência clínica autónoma ter sido efectuado pela primeira vez no DSM‐III (3ª edição de 1980), só em 1987 é que os distúrbios ansiosos específicos da infância e adolescência surgiram na nomenclatura psiquiátrica no DSM‐III‐R (revisão da 3ª edição), tendo‐se constatado uma adequação mais particular às tarefas desenvolvimentistas deste período de vida, com a publicação da redefinição dos critérios de diagnóstico no DSM‐IV (Cunha & Salvador, 2000).
A elevada prevalência em adultos faz com que seja a terceira desordem psiquiátrica mais comum (Mancini, Van Ameringen, Bennett, Patterson & Watson, 2005). Todavia e apesar de ser igualmente comum na infância e adolescência (Kashdan & Herbert, 2001; La Greca & Harrison, 2005; Leary & Kowalski, 1995; Papalia et al., 2004), denota‐se que tal não tem merecido a devida atenção no âmbito da investigação científica (Cunha & Salvador, 2000; Keller, 2003; Wittchen & Fehm, 2003), ora pela escassez de medidas de avaliação devidamente validadas e adequadas para este período de
vida, ora pela recente definição enquanto entidade clínica diferenciada (Cunha, Gouveia, Alegre & Salvador, 2004; Kashdan & Herbert, 2001; La Greca, 1999; La Greca & Harrison, 2005). Embora não tenha existido uma extensa investigação em crianças e adolescentes, as preocupações, medos e ansiedades ao longo destas idades têm sido desde há longa data, objecto de interesse e pesquisa, principalmente quando a prevalência da fobia social interfere negativamente com o desenvolvimento normal (Cunha & Salvador, 2000).
Etiologicamente, a ansiedade social é entendida como uma doença de natureza crónica que
se tende a manter ao longo do curso da vida e que cria inúmeros constrangimentos em diversos domínios de vida – pessoal, educacional, laboral, social (Keller, 2003), podendo assumir duas formas: ansiedade social generalizada e não generalizada (Kashdan & Herbert, 2001; Keller, 2003; Leary & Kowalski, 1995). A primeira contempla indivíduos que receiam/temem situações sociais usuais, como as conversas, criar amizades ou participar em eventos sociais. Por sua vez, na segunda forma, incluem‐se os indivíduos que unicamente receiam e evitam uma única situação/evento particular, como falar em frente a um público.
De acordo com Salvador (2000), os sintomas de ansiedade fazem parte de quatro sistemas funcionais (cognitivos, emocionais, comportamentais e fisiológicos) coordenados para produzir respostas adaptativas a situações de perigo, verificando‐se uma interacção recíproca entre o que o indivíduo acredita e espera ser eficaz e o grau de mobilização deste mecanismo de auto‐protecção. Assim, os sintomas num distúrbio de ansiedade, usualmente, consistem numa resposta baseada numa estimativa exagerada do grau de perigo numa dada situação e numa estimativa demasiado baixa das suas capacidades em demonstrar um desempenho adequado. No caso específico dos fóbicos sociais, o modo de perigo predominantemente é o da vulnerabilidade à avaliação negativa dos outros em situações sociais e inerente rejeição social (La Greca & Stone, 1993; Leary & Kowalski, 1995; Mancini et al., 2005; Motl & Conroy, 2000). A sua vulnerabilidade é aumentada por dúvidas acerca de possuir ou não as capacidades necessárias para obter a aprovação dos outros, pela existência de normas rígidas acerca do que deve ser o comportamento social e pelo exagero nas previsões das consequências do fracasso (Papalia et al., 2004; Salvador, 2000). Frequentemente, os fóbicos sociais tendem a evitar tais situações ou eventos, ou então, a manifestar comportamentos de segurança. Estes últimos consistem numa variedade de comportamentos que estes indivíduos adoptam em certas situações sociais e pelo quais procuram reduzir/eliminar o risco de avaliação
negativa por parte das outras pessoas (Gouveia, Cunha & Salvador, 2003). Importa aqui referir, que no plano terapêutico, já existem inúmeros tratamentos (psico‐farmacológicos, psico‐terapêuticos) devidamente documentados e estabelecidos (ver Cunha & Salvador, 2000; Gouveia & Salvador, 2000; Kashdan & Herbert, 2001; Mancini et al., 2005).
De acordo com diversos autores, a adolescência é o período de vida por excelência para o surgimento/desenvolvimento da ansiedade social, verificando‐se assim uma maior propensidade e prevalência deste distúrbio psicológico neste período de vida (Cunha & Salvador, 2000; Kashdan & Herbert, 2001; Keller, 2003; Mancini et al., 2005; Wittchen & Fehm, 2003), especialmente no que concerne o sexo feminino (Cunha et al., 2004; La Greca & Harrison, 2005; La Greca & Lopez, 1998; La Greca & Stone, 1993; La Greca, Dandes, Wick, Shaw & Stone, 1988; Russell, 2002). Como motivos principais para esta elevada incidência, é‐se sugerido os seguintes factores: a) dificuldades para aceitar as alterações corporais decorrentes da pubescência; b) percepção excessiva e irracional das exigências e críticas por partes de outras pessoas (pares, pais, professores, estranhos…); c) maior
auto‐consciência individual e colectiva decorrente do desenvolvimento sociocognitivo; e, d) predisposição genética e temperamental (Kashdan & Herbert, 2001; Keller, 2003; Leary & Kowalski,
1995; Salvador, 2000).
Como tal, os adolescentes tendem a focar os seus receios/medos em situações de exposição e avaliação social (testes/provas na escola, desempenho escolar – cognitivo, psicomotor e socio‐ afectivo, aparência física e competências sociais), originando um certo desconforto e mal‐estar que pode conduzir ao evitamento social. Igualmente, fora da escola, estes indivíduos sentem enormes dificuldades nas situações que impliquem um desempenho em público ou interacção com outras pessoas (Cunha & Salvador, 2000; Motl & Conroy, 2000). La Greca e Harrison (2005) verificaram empiricamente, que a pertença a um grupo de amigos, a existência de relações positivas de amizade e o facto de namorar predisseram positivamente a existência de menores níveis de ansiedade social. Analogamente, os adolescentes com maiores níveis de ansiedade tendem a mencionar um número superior de relações negativas com os pares e menores níveis de saúde auto‐reportada (Matos, Barrett, Dads & Shortt, 2003). Igualmente, uma revisão de múltiplos estudos centrados na análise da relação entre a ansiedade social e a auto‐estima concluiu que o valor médio de correlação é algo elevado (r= ‐0.50), demonstrando a associação eminente entre estas dimensões psicológicas (Leary & Kowalski, 1995).
Por fim, no que diz respeito à avaliação da ansiedade social através de medidas de auto‐ resposta, Cunha et al. (2004) referem que até à data, a SAS‐A (Social Anxiety Scale for Adolescents: La Greca & Lopez, 1998) é a única escala desenvolvida especificamente para este propósito em adolescentes dos 12 aos 18 anos de idade. Resultante das versões anteriores para crianças (La Greca et al., 1988; La Greca & Stone, 1993), a SAS‐A tem demonstrado boas propriedades psicométricas quer na versão original (La Greca, 1999; La Greca & Lopez, 1998), quer na versão portuguesa (Cunha et al., 2004), sustentando reiteradamente a existência da seguinte estrutura factorial constituída por 3 dimensões: a) medo de avaliação negativa; b) desconforto e evitamento social em situações novas; e, c) desconforto e evitamento social geral.
Em suma, a ansiedade social é uma dimensão de estudo que tem vindo a merecer uma crescente atenção empírica, principalmente pelos efeitos nefastos no desenvolvimento dos adolescentes. Desta forma e considerando o bem‐estar psicológico como dimensão de avaliação da saúde mental a um nível holístico, cogitamos que a ansiedade social permitir‐nos‐á conhecer mais afincadamente a dinâmica do bem‐estar e demais relações com outras dimensões de avaliação intra‐ individual, social e contextual. Mais ainda, ressalvamos que de entre as variáveis em estudo, a ansiedade social é a única que possui uma natureza de avaliação teórico‐empírica de cariz negativo (i.e. psicopatológico).
2.2.9 Auto‐estima
Na teoria e pesquisa contemporânea respeitante ao sentimento de si (self), o eu é entendido como um sistema dinâmico e multidimensional em que a informação acerca do self é organizada de acordo com o contexto envolvente e de acordo com as autopercepções específicas a cada domínio de vida (Harter, Waters & Whitesell, 1998; Oosterwegel & Oppenheimer, 2002), pelo que o sentimento de si é deste modo mais correctamente descrito como um complexo sistema de construtos (Bernardo & Matos, 2003). O conhecimento individual de cada pessoa sobre o seu self, não é apresentado na forma de uma auto‐representação/auto‐conceito global ou geral, mas sim, através de uma diferenciação e integração de uma variedade de autopercepções mais específicas, quer no âmbito temporal (passado, presente e futuro), quer no âmbito sociocultural em que o indivíduo se integra. Assim, as autopercepções são, em parte, o reflexo do contexto sociocultural e histórico em que a pessoa vive e onde esta foi moldada, sendo que os processos de enculturação e particularmente desocialização assumem um carácter importante de influência (Vasconcelos‐Raposo et al., 2004), pelo que deste modo, para compreendermos a dinâmica da auto‐estima devemos considerar as orientações culturais dominantes e a internalização individual dos ideais e valores dessa cultura (Maïano, Ninot & Bilard, 2004).
Esta compreensão da natureza multidimensional do sentimento de si deriva de uma grande
influência por parte dos trabalhos seminais de James (1890, 1892), em que este autor identificou pela primeira vez dois aspectos diferenciados do eu: o eu‐como‐objecto (modo como os indivíduos se percepcionam a si próprios) e o eu‐como‐sujeito (factores que dão ao indivíduo a sensação de unicidade). Estas proposições permitiram assim escrutinar que o entendimento do sentimento de si resulta da conjugação das percepções individuais com os processos de comparação social (Harter et al., 1998; Owens, Mortimer & Finch, 1996). Esta compreensão foi retomada (embora indirectamente) pelos estudos de Morris Rosenberg, em que este considerou que a auto‐estima é determinada quer por autopercepções avaliativas, quer por processos de comparação/avaliação interpessoal “reflectida” (reflected appraisals), culminando deste modo numa atitude negativa ou positiva em relação ao self (Rosenberg, 1965, 1979; Rosenberg & Pearlin, 1972). O aspecto dinâmico do sentimento de si baseia‐se na assumpção de que a auto‐compreensão é primariamente uma construção sociocultural; i.e., a partir do momento de nascimento, existem um conjunto de pessoas significativas que afectam o modo como as pessoas se autopercepcionam, sendo que a auto‐ compreensão se desenvolve em função de três fontes de informação: a) o conhecimento momentâneo acerca do eu; b) a informação acerca do self proveniente das opiniões/juízos por parte de outras pessoas; e, c) a forma como pensamos que as outras pessoas que nos são importantes/significativas nos vêem/entendem (Rosenberg, 1979, p. 97).
As semelhanças terminológicas e conceptuais entre conceitos e formas de abordagens do sentimento de si (self) e percepções/representações associadas produziram alguma confusão conceptual e metodológica, originando consequentemente a necessidade de os diferenciar entre si de forma a reduzir a ambiguidade e indefinição terminológica (Bernardo & Matos, 2003; Vasconcelos‐Raposo & Freitas, 1999). De entre os demais conceitos existentes, os que mais facilmente se confundem e que obviamente precisam de uma maior delimitação são o auto‐conceito e a auto‐estima. Ao longo dos anos 80, parecem ter existido alguns esforços no sentido de atingir algum consenso na definição destes construtos, contemplando a existência de duas entidades
psicológicas diferentes, mas inter‐relacionadas, que delimitam distintas facetas do sentimento de si (Rosenberg, 1981, 1989).
Tendo em conta as diversas definições propostas na literatura (ver Bernardo & Matos, 2003 e Vasconcelos‐Raposo & Freitas, 1999 para um maior aprofundamento), o auto‐conceito é definido conceptualmente como um termo mais abrangente relativo à auto‐descrição de uma pessoa, subsidiando‐se através da imagem multifacetada obtida através da percepção que o indivíduo tem de si próprio. Grosso modo, esta dimensão engloba o conjunto dos pensamentos e sentimentos do indivíduo referentes ao eu‐como‐objecto (Rosenberg, 1979), em que o acto consciente desempenha uma função fulcral (Damásio, 2004). Assim, esta dimensão psicológica encerra os aspectos conotativos/descritivos que cada pessoa formula face à descrição que faz de si, tendo esta área temática de investigação raízes teórico‐empíricas em três “disciplinas científicas”: psicologia, sociologia e psicanálise (Rosenberg, 1989). Inicialmente, a pesquisa empírica adoptou uma das duas seguintes abordagens: a) o auto‐conceito como um produto social (consequência de influências de índole social); ou, b) o auto‐conceito como uma força social (causa de um dado comportamento social) (Rosenberg, 1981). Todavia, mais recentemente, os estudos realizados têm demonstrado uma maior sensibilidade quanto à “intencionalidade” bidireccional do auto‐conceito, consoante os diversos correlatos em análise (variáveis intra‐individuais, inter‐individuais e contextuais) e sentidos direccionais das influências em causa (Rosenberg, Schooler & Schoenbach, 1989).
Por sua vez, a auto‐estima consiste na dimensão avaliativa e afectiva do auto‐conceito e surge em consequência do desenvolvimento da capacidade cognitiva de descrição e definição pessoal (Papalia et al., 2004; Sprinthall & Collins, 2003). Como tal, a auto‐estima é definida enquanto a dimensão avaliativa quantitativa do auto‐conhecimento referente à forma como um indivíduo formula apreciações acerca de si próprio, quer seja acerca da sua auto‐imagem, quer seja da sua prestação num dado domínio de vida (Rosenberg, 1965, 1979, 1981). Esta componente avaliativa das percepções e descrições de um indivíduo, i.e., do seu auto‐conceito, pode ser empregue para se referir à auto‐análise como um todo – auto‐estima global – ou em relação à avaliação do sentimento de si em determinada situação ou domínio de realização (Rosenberg, Schooler, Schoenbach & Rosenberg, 1995). Embora durante muitos anos, os investigadores no âmbito de estudo da auto‐ estima tenham lidado com a auto‐estima como uma entidade psicológica unidimensional, sem atender às diferentes percepções do self que o compõem (Bernardo & Matos, 2003; Marsh, 1996;
Vallieres & Vallerand, 1990), recentemente tem‐se verificado o desenvolvimento de modelos multidimensionais hierárquicos de auto‐estima, que pressupõem uma abordagem do tipo bottom‐up em que as auto‐avaliações em domínios específicos estão de algum modo agregadas de forma a delinearem a auto‐estima global (e.g. Fox & Corbin, 1989; Marsh & Shavelson, 1985; Shavelson, Hubner & Stanton, 1976)
Como referido anteriormente (ver página 59), uma das escalas mais utilizadas no âmbito de estudo da auto‐estima, é a escala de Rosenberg (1965) que avalia esta dimensão psicológica a um nível global (Dunbar, Ford, Hunt & Der, 2000; Marsh, 1996; Schmitt & Allik, 2005; Tafarodi & Milne, 2002; Vallieres & Vallerand, 1990; Wang, Siegal, Falck & Carlson, 2001). No entanto, decorrentes de alguns estudos iniciais que submeteram os itens desta escala a processos de análise factorial exploratória (e.g. Kohn & Schooler, 1969), vários estudiosos têm proposto a existência de dois factores interdependentes delimitadores da estrutura factorial da escala de auto‐estima de Rosenberg (ver Marsh, 1996, pp. 811‐812 e Tafarodi & Milne, 2002). As análises factoriais têm revelado a existência de duas dimensões, em que os itens de orientação positiva tendem a saturar num factor diferente dos itens de orientação negativa. Tal estruturação factorial originou alguma reflexão teórico‐empírica em torno da existência de uma dimensão positiva e negativa da auto‐ estima, podendo estes construtos serem igualmente denominados de auto‐confiança e auto‐ depreciação (Kohn & Schooler, 1969) ou de auto‐competência/eficácia e auto‐aceitação (Schmitt & Allik, 2005; Tafarodi & Milne, 2002). Contudo, quando sujeitando os dados obtidos a partir desta escala a um procedimento estatístico mais rigoroso como é a análise factorial confirmatória, os investigadores têm repetidamente constatado a necessidade de aplicar alguns efeitos metodológicos (e.g. unicidade correlacional entre termos residuais de erros de variáveis manifestas), de forma a estes evidenciarem índices de ajustamento satisfatórios (Tomás & Oliver, 1999). Concomitantemente, a maioria destes estudos tem vindo a demonstrar evidência empírica para a assumpção da unidimensionalidade da escala de auto‐estima de Rosenberg, existindo aqueles que revelaram uma supremacia referente a efeitos metodológicos nos itens de orientação negativa (Marsh, 1996), aqueles que manifestaram idêntica hegemonia mas para os itens de orientação positiva (Dunbar et al., 2000; Wang et al., 2001) e por fim, as investigações que demonstraram a importância de conjugar simultaneamente a unicidade correlacional dos itens com orientação negativa e positiva (Fernandes & Vasconcelos‐Raposo, no prelo; Tomás & Oliver, 1999). Todavia, esta problemática será
devidamente retomada no ponto de apresentação dos instrumentos de avaliação a aplicar na presente investigação.
Perante as inúmeras contingências de vida e as transformações sociocognitivas e morfológicas pubescentárias, a adolescência surge como um período de vida em que é capital o estudo das autopercepções, quer seja a um nível longitudinal deste período de vida (intra‐ciclo), quer seja a um nível de enquadramento ao longo do curso de vida (inter‐ciclo). No primeiro ponto, diversas investigações têm obtido alguma evidência para o facto da auto‐estima (e algumas componentes como a dimensão física) permanecer relativamente estável (Alsaker & Olweus, 1992; Raudsepp, Kais & Hannus, 2004), embora se verifique uma diminuição tendencial na transição da infância para a fase inicial da adolescência (Harter & Whitesell, 2003; Maïano et al., 2004; Robins et
al., 2001). Para esta variação inter‐ciclo, parecem contribuir as seguintes conjunturas: a) desenvolvimento sociocognitivo para um estádio de pensamento mais formal/hipotético e
descentralização do ego para a aprovação/aceitação social (Papalia et al., 2004; Sprinthall & Collins, 2003); b) conflituosidade entre as autopercepções e auto‐representações de diferentes contextos (Harter et al., 1998; Oosterwegel & Oppenheimer, 2002); e, c) diferenciação sexual nas auto‐ avaliações em diferentes domínios e construtos psicossociais (Knox, Funk, Elliott & Bush, 2000; Maïano et al., 2004). Na verdade, este último ponto parece ser um ponto de merecido destaque, na medida em que as alterações físicas decorrentes da pubescência parecem ter um efeito mais nefasto no bem‐estar emocional das raparigas (Papalia et al., 2004; Robins et al., 2001). Todavia, uma visão algo mais abrangente salienta existirem diferentes autopercepções e valorizações de acordo com distintos domínios (Knox et al., 2000; Maïano et al., 2004). Os rapazes tendem a manifestar maiores auto‐avaliações referentes à masculinidade, realização, capacidade e aparência física, matemática, competitividade e orientação para o individualismo; por sua vez, as raparigas tem uma maior propensão a reportar níveis superiores de auto‐avaliação alusivas ao altruísmo, sociabilidade, capacidade verbal e de leitura, rendimento escolar e orientação para o colectivismo (idem). Em suma, parece evidente existir alguma estabilidade dos níveis de auto‐estima a um nível grupal, apesar de se poder verificar alguma instabilidade nas autopercepções a um nível individual e situacional (Hagger, Biddle, Chow, Stambulova & Kaavussanu, 2003; Harter & Whitesell, 2003; Harter et al., 1998; Oosterwegel & Oppenheimer, 2002). Quando considerado o segundo ponto mencionado (enquadramento inter‐ciclo), a adolescência é usualmente referida como um período de vida algo
problemático (tensão e agitação), em que as avaliações quantitativas referentes ao sentimento de si são mais pessimistas e negativas (Arnett, 1999). Embora esta posição seja glosada por alguns autores (e.g. Sprinthall & Collins, 2003), os dados obtidos por Robins et al. (2001), embora de natureza transversal/coorte, tendem a suportar esta proposição e permitem‐nos analisar o cenário de variação da auto‐estima ao longo do curso da vida. A adolescência conjuntamente com a idade avançada (> 70 anos) constituem os períodos de vida em que se verificaram maiores declínios nos níveis médios da auto‐estima global, assumindo‐se, contudo, o primeiro período de vida referenciado como aquele com maior diferença média estandardizada em relação ao período de vida anterior (Cohen’s d= ‐0.30, p<0.01) e em que se constata o princípio da diferenciação sexual da auto‐estima. O efeito diminutivo nas raparigas é cerca do dobro do verificado nos rapazes, pelo que entre os 13 e os 17 anos a diferença média situa‐se em torno de 0.21 (avaliado numa escala tipo Likert de 5 pontos). Embora o presente estudo possua algumas limitações inerentes (natureza transversal da investigação, método de recolha de dados via internet e utilização de uma “escala” de item único), permite‐nos compreender, no global, a trajectória desenvolvimentista da auto‐estima global ao longo do curso da vida e mais especificamente, a diferenciação por período de vida e por sexo. Os estudos iniciais de M. Rosenberg identificaram alguns dos correlatos/factores de influência da auto‐estima durante a adolescência. No seu estudo seminal numa amostra de 5024 estudantes adolescentes nova‐iorquinos, Rosenberg (1965) obteve uma associação negativa entre a auto‐estima e a ansiedade e a depressão, confirmando os resultados obtidos num estudo anterior referente à relação entre uma baixa auto‐estima e níveis elevados de ansiedade (Rosenberg, 1962). Posteriormente, também se constatou que um baixo estatuto socioeconómico (Rosenberg & Pearlin, 1972), a indiferença parental na vida escolar (Rosenberg, 1963), as avaliações negativas por parte de outras pessoas após piores desempenhos (Shrauger & Rosenberg, 1970) e o envolvimento em certas actividades delinquentes (Rosenberg et al., 1989) tendem a estar associadas a menores níveis de auto‐estima global. Por fim, Rosenberg e colegas (Rosenberg et al., 1995) analisaram a relevância de estudar diferenciadamente a auto‐estima global e a auto‐estima específica (académica), de modo a conhecer mais detalhadamente os seus efeitos em outros construtos psicossociais. Os autores deste estudo verificaram que enquanto a auto‐estima específica (académica) é a melhor predictora do rendimento escolar, a auto‐estima global tende a associar‐se negativamente com a depressão, ansiedade, irritabilidade e anomia, e positivamente com as dimensões do bem‐estar subjectivo
(felicidade e satisfação com a vida). Assim, a auto‐estima global possui um maior poder preditivo em certas dimensões do bem‐estar subjectivo e saúde mental, assumindo‐se como uma variável