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Capítulo II  R EVISÃO DA L ITERATURA

2.2   A DOLESCÊNCIA E BEM ‐ ESTAR

2.2.7  Satisfação corporal 

As  alterações  biológicas  decorrentes  da  pubescência/puberdade  parecem  influenciar  o  desenvolvimento  psicológico  devido  ao  significado  que  têm  para  os  próprios  adolescentes,  para  os  adultos e para os colegas à sua volta. Estas transformações físicas são determinadas pelos padrões  socioculturais,  pelas  normas  e  pelas  expectativas/estereótipos  relativos  às  características  físicas,  amplamente  prevalecentes  numa  sociedade  ou  cultura  (Sprinthall  &  Collins,  2003;  Vasconcelos‐ Raposo  et  al.,  2004).  Estas  influências,  por  seu  lado,  afectam  as  próprias  reacções  individuais  dos  adolescentes às alterações normais do seu corpo decorrentes da pubescência, as quais determinam a  imagem corporal, a auto‐estima/auto‐conceito e a sua identidade sexual (Asci, 1997; Cordeiro, 2005;  Waterman & Whitbourne, 1982; Woodhill & Samuels, 2003). 

  Conceptualmente,  a  imagem  corporal  pode  ser  delimitada  como  um  construto 

multidimensional que representa a forma como os  indivíduos pensam, sentem e  comportam‐se de  acordo com os seus atributos físicos, englobando deste modo a avaliação da auto‐imagem – crenças  e  pensamentos  acerca  da  sua  aparência  física  –  e  o  seu  investimento  na  auto‐imagem  –  comportamentos  manifestados  pelos  indivíduos  no  âmbito  de  manter  ou  alterar  a  sua  aparência  (Morrison, Kalin & Morrison, 2004). Assim, a imagem corporal concerne uma dimensão de juízos e  atitudes (nível de satisfação com o eu físico) a par de uma dimensão perceptiva (discrepância entre a  imagem corporal real/actual e a ideal); i.e., a imagem corporal consiste na representação interna da  aparência exterior (McArthur, Holbert & Peña, 2005; Tiggemann, 2001a). Deste modo, a insatisfação  corporal é definida como a dimensão perceptivo‐afectiva do construto multidimensional da imagem  corporal  (i.e.,  os  juízos  de  valor  dos  indivíduos  acerca  do  seu  corpo/aparência  física)  (Barker  &  Galambos,  2003),  sendo  operacionalizada  individualmente  como  a  discrepância  entre  o  corpo  percebido  e  o  ideal  contextual  (Canpolat,  Orsel,  Akdemir  &  Ozboy,  2005)  em  relação  a  factores  situacionais/socioculturais (Tiggemann, 2001a). 

  Como  tal,  a  imagem  corporal  e  inerente  juízo  de  valor  reside  no  período  da  adolescência.  Quer  a  formação  de  uma  identidade  pessoal,  quer  o  desenvolvimento  de  um  papel  sexual, 

acontecem  paralelamente  a  um  conjunto  de  eventos  e  modificações  do  corpo  ao  longo  da  pubescência, sendo que as adaptações a essas alterações corporais exercem uma forte influência no  ajustamento  social,  nos  comportamentos  associados  à  saúde  e  no  bem‐estar  dos  adolescentes  (Ferron, 1997). 

  As adolescentes parecem ser um grupo de risco relativamente à insatisfação corporal, pelo  que  tendem  a  reportar  menores  níveis  de  satisfação  corporal  em  relação  aos  rapazes  (Barker  &  Galambos, 2003; Davison & McCabe, 2006; Lam, Stewart, Leung, Ho, Fan & Ma, 2002; McArthur et al.,  2005;  Neumark‐Sztainer,  Goeden,  Story  &  Wall,  2004;  Tiggemann  &  Williamson,  2000)  e  maior  número de problemas associados (Papalia et al., 2004). Todavia, estas diferenças na imagem corporal  entre  sexos  só  tendem  a  emergir  após  a  puberdade  (F(1,1098)=8.70,  p<0.01),  pelo  que  no  período 

anterior não se verificam diferenças significativas entre raparigas e rapazes pré‐pubertários (Benjet &  Hernandéz‐Guzmán, 2001). Em casos mais problemáticos de insatisfação corporal e de problemas de  auto‐imagem, as adolescentes tendem a reportar diversas práticas dietéticas maléficas e distúrbios  alimentares  que  envolvem  padrões  anormais  de  ingestão  de  alimentos,  tais  como  a  anorexia  e  a  bulimia nervosa (Barker & Galambos, 2003; Lam et al., 2002; Lin & Kulik, 2002; Papalia et al., 2004).  Na  verdade  e  como  breve  explicação  desta  conjuntura,  salienta‐se  que  as  mudanças  físicas  experienciadas pelas raparigas durante a pubescência, tal como o aumento da massa gorda, resultam  num  aspecto  físico  discordante  do  ideal  cultural  internalizado  de  magreza  feminina  (Davison  &  McCabe, 2006; Hausenblas & Downs, 2001), pelo que este somatótipo tende a ser, muitas das vezes,  dificilmente atingível e pouco saudável (Dittmar, 2005; Tiggemann, 2001b). Por sua vez, as alterações  físicas dos rapazes são mais ajustadas às exigências/estereótipos socioculturais, tais como o aumento  da  estatura  e  musculatura  corporal  (Asci,  1997;  Papalia  et  al.,  2004;  Ricciardelli  &  McCabe,  2003;  Sprinthall & Collins, 2003). 

  De  acordo  com  a  teoria  sociocultural,  a  insatisfação  corporal  deve‐se  às  seguintes  propensões (Dittmar, 2005; Lam et al., 2002; Morrison et al., 2004): a) o ideal de magreza feminina e  musculatura  masculina  é  promulgado  pelas  sociedades  ocidentais;  b)  os  indivíduos  tendem  a  adoptarem o “corpo como objecto” ao invés de uma orientação do “corpo como processo”; e, c) a  magreza/musculatura  é  uma  assumpção  sociocultural  que  enfatiza  a  atractividade  física  e  abjura  o  inverso  (obesidade).  Embora  alguma  da  evidência  empírica  tenha  corroborado  algumas  destas  proposições,  outra  não  têm  obtido  idênticos  resultados  (e.g.  Morrison  et  al.,  2004).  No  entanto,  a 

teoria  da  comparação  social  (Festinger,  1954)  preconiza  que  quando  uma  pessoa  se  compara  com  alguém  que  possui  um  melhor  atributo  numa  dada  dimensão,  verifica‐se  um  efeito  detrimental  na  auto‐estima e bem‐estar desse indivíduo. Os estudos de Lin e Kulik (2002) e de Durkin e Paxton (2002)  providenciaram algum suporte empírico para esta assumpção, na medida em que constataram que  quando  as  adolescentes  eram  confrontadas  com  silhuetas  femininas  mais  magras  (imagens  promotoras de corpos ideais), estas tendiam a apresentar índices de satisfação corporal e confiança  em si próprias mais baixos, pelo que no estudo de Lin e Kulik (2002) esse efeito foi mais nefasto para  aquelas que não namoravam, pois também evidenciaram níveis de ansiedade superiores. 

  De  entre  os  inúmeros  estudos  desenvolvidos,  emergiram  um  conjunto  diversificado  de  factores de risco, abrangendo as dimensões individual, interpessoal, comportamental e sociocultural.  Barker e Galambos (2003) analisaram o nível maturacional, as percepções de comentários, críticas e  pressões  negativas,  a  natureza  das  relações  com  os  pais  e  os  pares,  a  internalização  de  ideais  socioculturais  específicos  ao  sexo  e  a  influência  dos  meios  de  comunicação  (televisão,  revistas,  internet  e  moda).  Desta  concernência  de  variáveis,  os  autores  verificaram  que  as  raparigas  com  maior  peso  corporal  (e  IMC),  maior  preocupação  com  o  somatótipo  e  que  sofriam  mais  pressões/críticas negativas acerca da sua aparência e os rapazes que percepcionavam maior número  de  comentários  críticos  acerca  do  seu  aspecto,  eram  aqueles  que  reportavam  menores  níveis  de  satisfação corporal. Outros autores (Canpolat et al., 2005; Cordeiro, 2005; Davison & McCabe, 2006;  Ferron,  1997;  Morrison  et  al.,  2004;  Tiggemann,  2001b)  também  verificaram  associações  entre  a  insatisfação corporal e a prevalência de autopercepções negativas associadas a um ideal de magreza,  menores índices de auto‐conceito e auto‐estima, menores autopercepções de atractividade física e  piores relações sociais com os pares, dado sentirem que são frequentemente criticados por estes.    Além disto, Lam et al. (2002) também constataram que as percepções de se sentirem gordas  mediaram  o  efeito  da  satisfação  corporal  na  pressão  para  enveredar  em  práticas  dietéticas.  Neste  ponto,  diversos  estudos  sugerem  que  a  actividade  física  desempenha  um  papel  preponderante  na  melhoria  das  autopercepções  físicas  e  sociais  (Asci,  1997;  Hausenblas  &  Downs,  2001;  Kirkcaldy,  Shepard  &  Siefen,  2002;  Tiggemann,  2001b;  Vasconcelos‐Raposo  et  al.,  2004),  embora  outros  não  tenham obtido qualquer relação ou uma associação contrária a esta assumpção (Neumark‐Sztainer  et al., 2004; Russell, 2002; Tiggemann & Williamson, 2000). 

  No  global,  a  evidência  teórico‐empírica  salienta  que  a  satisfação  com  a  imagem/aparência  corporal  representa  um  importante  domínio  de  compreensão  da  auto‐estima  e  bem‐estar  dos  adolescentes,  existindo  mesmo  algumas  abordagens  terapêuticas  educacionais  que  se  centram  no  desenvolvimento  de  aspectos  da  auto‐estima  (aceitação  social,  aparência  física  e  capacidades/habilidades  físicas),  de  forma  a  diminuir  a  discrepância  entre  o  self  percebido  e  o  self  socioculturalmente padronizado (e.g. O’Dea & Abraham, 2000). Mais ainda, a elevada prevalência de  raparigas (11 anos – 35.5%, 13 anos – 38.3% e 15 anos – 48.0%) e rapazes (11 anos – 23.4%, 13 anos  – 25.3% e 15 anos – 24.1%) portugueses insatisfeitos com o seu peso corporal (Mulvihill, Németh &  Vereecken,  2004)  aponta  para  uma  necessidade  de  uma  melhor  compreensão  da  relação  entre  a  satisfação  corporal  e  o  funcionamento  psicológico  positivo  enquanto  delimitado  pelas  seis  dimensões do modelo PWB.