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As ações do Judiciário Trabalhista no contexto de hegemonia neoliberal

O mercado de trabalho e o padrão de regulação do trabalho no Brasil

4. Os anos 90: avanço da flexibilização e fragilização das instituições públicas

4.3 A Justiça do Trabalho: resistência x flexibilização

4.3.2 As ações do Judiciário Trabalhista no contexto de hegemonia neoliberal

As explicitações das contradições e das diferentes concepções se dão também no interior do próprio Poder Judiciário. Em linha geral, a tendência nos anos 80, acompanhando o movimento mais geral da sociedade, foi de fortalecer a instituição e de ampliar a função na vigilância dos direitos - vide o crescimento fantástico do número de reclamantes -, além de buscar facilitar o acesso e consolidar normas coletivas mais vantajosas aos trabalhadores. Agora, a partir dos anos 90, a tendência se inverte, apesar de continuar sendo um lócus de resistência, dada a sua relativa autonomia enquanto instituição pública. A reversão diz respeito a uma certa adaptação de muitas instâncias e magistrados ao contexto hegemônico neoliberal.

Como exemplo, vale citar alguns posicionamentos do TST que fortalecem a lógica de adaptação ao contexto liberalizante.

Do ponto de vista coletivo, houve decisões na perspectiva da limitação do número dos dirigentes, 157 sendo esta uma resolução de intervenção na vida sindical que contraria o princípio da liberdade sindical. Ao mesmo tempo, predominou um entendimento de que a contribuição assistencial e/ou confederativa só poderia ser descontada dos sócios,158 agora invocando o princípio da defesa da liberdade sindical, o que constitui uma contradição com a limitação do número de dirigentes. Na mesma perspectiva, predominou a visão do não reconhecimento do direito de negociação coletiva aos servidores públicos, apesar de estes terem o direito de sindicalização e de greve. Além disso, houve a consolidação de uma jurisprudência sobre greve abusiva, com multas pesadíssimas às entidades de trabalhadores. Portanto, a tendência desses entendimentos foi no sentido de fragilizar a organização e a mobilização dos trabalhadores, algo coadunado com a lógica política predominante nos anos 90.

Outra iniciativa de ajustamento ao contexto dos anos 90 foi o cancelamento ou modificação de diversos Precedentes Normativos do TST,159 que são

[...] instrumentos utilizados para fundamentar e orientar o julgamento de cláusulas, em processos de dissídios coletivos em trâmite nas Delegacias Regionais do Trabalho, ou em primeiro grau, quando se tratam de categorias profissionais. Entre os precedentes cancelados estavam o que garantia ao empregado vítima de acidente de trabalho 180 dias de estabilidade no emprego; o que proibia a contratação de mão-de-obra locada, exceto os casos previstos em lei; o que assegurava o pagamento das horas extras com o adicional de 100% sobre a hora normal; o que concedia aviso prévio de 60 dias aos empregados dispensados sem justa causa; e o que assegurava ao empregado designado ou promovido o direito de receber integralmente o salário da nova função (DIEESE, JORNAL do DIAP, 07/99).160

Portanto, trata-se de uma decisão que rebaixa o patamar das cláusulas do julgamento de dissídio, o que caracteriza perda de direitos. Com isso, o TST está buscando desestimular os

157

Na Seção Especializada em Dissídios Coletivos, de 01/07/98, o TST contribuiu para colocar limitações à autonomia sindical e enfraquecer o seu poder de pressão, ao entender que continuam em vigor os artigos 522 e 543, onde a estabilidade é limitada a 7 dirigentes efetivos. Há um entendimento de que o número máximo de dirigentes com estabilidade são 7 membros efetivos da diretoria e 3 do Conselho Fiscal. É um entendimento polêmico, mas tem servido de pretexto para a empresa pressionar e acuar o sindicato mais combativo.

158

O TST, em seu Precedente Normativo nº 119, estabeleceu que os descontos para o sindicato não constituem matéria de acordo e convenção coletiva, portanto, não podem ser arrecadados de toda a categoria.

159

Por meio do Processo TST-MA- 455.213/1998, o Tribunal Superior do Trabalho cancelou 28 dos 119 precedentes normativos.

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sindicatos a ajuizarem dissídios coletivos, forjando que as sentenças se aproximem do patamar assegurado em lei.

O esvaziamento do poder normativo também ocorre por uma série de medidas que dificultam o ajuizamento do dissídio, exigindo provas de tentativa de negociação frustrada e burocratizando o processo, o que praticamente inviabiliza o acesso pela dificuldade de cumprir todas as formalidades. A instrução normativa nº 04/93, cancelada recentemente pelo TST, estabelecia um regramento processual rígido que levava à extinção do dissídio pelo não cumprimento das formalidades.161 Além disso, o TST, especialmente entre meados dos anos 90 até 2002, sinalizou em alguns julgamentos sua postura de desregulamentar direitos inscritos nos contratos coletivos, como ocorreu, por exemplo, no caso dos trabalhadores da Petrobrás e do Banco do Brasil. Ou seja, a retirada de direitos constitui-se em uma inibição para sua utilização, pois a entidade sindical corre o risco de sair com uma sentença contendo regras mais desfavoráveis do que tinha até então.

Por outro lado, alguns entendimentos da Justiça do Trabalho, especialmente dos Tribunais Regionais mais progressistas e do TST após 2002, constituíram-se em um mecanismo de resistência ao processo de desconstrução dos direitos trabalhistas, particularmente ao condenar as situações em que fica caracterizada a relação de emprego disfarçada, tais como o trabalho cooperativado, o terceirizado, o estágio etc. Assim, a Justiça do Trabalho foi um fator, entre outros, de inibição de práticas fraudulentas e flexibilizadoras.162

Após 2002, no Judiciário Trabalhista, especialmente na sua Corte Suprema, o viés liberalizante perdeu espaço e a lógica foi de buscar recuperar o seu papel histórico de ser vigilante ao cumprimento da legislação e de estabelecer interpretações contra a perspectiva liberalizante.

Além disso, o crescimento da formalização, no período recente, pode ter alguma contribuição da Justiça do Trabalho. É verdade que a principal explicação é econômica, mas o entendimento da Justiça do Trabalho, em decisões de alguns Regionais, reconhecendo a responsabilidade subsidiária, majoritariamente, ou solidária, da empresa tomadora de serviços

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Há uma tendência de descentralização das negociações e do avanço da autocomposição dos conflitos coletivos. Conforme Pesquisa Sindical do IBGE/2001, entre 1991 e 2001, os instrumentos normativos originados da Justiça do Trabalho caíram de 33% para 12% do total dos contratos coletivos de trabalho.

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terceirizados em relação aos trabalhadores contratados pelas terceiras, está fazendo com que haja uma política de muitas firmas e órgãos públicos de fiscalização no cumprimento da legislação trabalhista e previdenciária da sua contratada para não ter passivo trabalhista no futuro. Alguns setores, marcadamente terceirizáveis, têm um índice de formalização muito alto, como é o caso da área de segurança e asseio e conservação (BALTAR, MORETTO e KREIN, 2006).

A questão da terceirização é um exemplo paradigmático para se analisar a mudança da fisionomia da Justiça do Trabalho entre os anos 80 e 90. Até 1993, prevalecia o entendimento expresso no antigo Enunciado 256/1986 do TST, que praticamente proibia a terceirização. Em 1993163, o TST editou a súmula 331, que viabiliza legalmente a prática da terceirização, colocando, no entanto, a questão da responsabilidade subsidiária como contrapartida para garantir algum cumprimento da legislação. Em síntese, reserva uma proteção mínima, mas legitima as práticas de terceirização em massa, como será discutido no Capítulo 2.

4.3.3 A inversão dos princípios do direito do trabalho: “direito do trabalho ou ao