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4 GEPROMAI: UM CAMINHO E UM CONTEXTO PARA ESTUDAR

4.9 As narrativas colaborativas

Produzir e fazer a leitura relatos narrativos sobre os encontros do grupo, escrever, apresentar e analisar narrativas sobre as práticas de ensinar e aprender Matemática para/com as crianças, registrar por meio de narrativas orais e escritas as aprendizagens pessoais desenvolvidas decorrentes da participação e das interlocuções com colegas e com os textos estudados, compuseram um modo próprio de nossa organização no decorrer do processo formativo no GEProMAI.

Entretanto, os participantes regularmente comentavam sobre o desejo de que os encontros do grupo fossem mais frequentes, que nossas interlocuções fossem mais intensas. Mas a escassez de tempo dos professores para participar de outros momentos presenciais se constituiu em um limite e um desafio. Essa situação nos mobilizou a buscar novos caminhos para conversar sobre aprender e ensinar Matemática na infância, e diante disso buscamos nas ferramentas tecnológicas novos modos de interação. Em decorrência disso, a escrita colaborativa e a rede social WhatsApp passaram a fazer parte das nossas práticas de formação.

É importante destacar que a potencialidade formativa da produção de textos colaborativos por professores é um assunto pouco explorado nos estudos que abordam a escrita de narrativas em seu processo de formação. No presente trabalho, denominamos “narrativas colaborativas” os textos que receberam a interferência de outros participantes.

Como já mencionado, durante os encontros um dos participantes se voluntariava a produzir a narrativa inicial sobre suas aprendizagens e assuntos discutidos presencialmente no grupo e, posteriormente, disponibilizava-a na WEB (Google Docs). Após avisar os demais participantes, cada um, em seu tempo e disponibilidade, acessava o texto, fazia a leitura, complementava, tecia outros comentários e/ou indicava acréscimos, deixava recados aos colegas e sugeria leituras de outros textos. Ao editar o texto, o participante inseria seu nome e fazia suas observações na narrativa produzida, porém ninguém podia excluir ou corrigir o que fora escrito por outro colega. Se houvesse algo escrito de modo equivocado, os outros participantes indicavam ao autor daquela parte do texto o que sugeriam como alteração. Houve episódios em que o ocorrido no encontro foi compreendido de modo diferente daquele indicado pelo primeiro narrador, oferecendo dúvidas sobre a necessidade de alteração do texto. Nesses casos, o assunto voltava a ser discutido em encontro posterior, para que fosse alterado, especialmente no que se referia a conceitos matemáticos e pedagógicos. Certamente, este também é um processo que permite avanços, tanto no que se refere à docência, quanto à aprendizagem de conteúdos matemáticos e, para além, no trato com a escrita de texto.

Enfatizo que essa possibilidade de editar o texto do colega era uma ação já combinada entre os participantes do grupo. Constituiu-se em ação voluntária, não

havendo obrigatoriedade dessa prática, o que também se configura num processo colaborativo.

No grupo, entendemos que essa escrita era colaborativa porque os participantes se propunham a expressar e a compartilhar suas ideias, dúvidas, sugestões, compreensões, no sentido de detalhar e aprofundar as discussões sobre os assuntos tratados, de modo a colaborar explicitamente com o participante responsável pela escrita da narrativa inicial e com os demais participantes do grupo, pois as interferências de um participante contribuíam para a aprendizagem dos demais.

O diagrama que apresento a seguir pretende mostrar o movimento da escrita colaborativa no grupo.

Figura 3 - Organização da interlocução das narrativas colaborativas

Considerando o modo como se organiza a produção da narrativa colaborativa pelos participantes do GEProMAI, elaborei o diagrama destacando o aspecto formativo dessa prática, que viabilizava que os participantes narrassem as aprendizagens individuais e coletivas ocorridas nos contextos dos encontros ou nos momentos individuais de reflexão sobre o vivido. Essas ações se materializavam na escrita inicial do primeiro autor de cada texto, ou na interferência no texto já produzido e disponibilizado no Google Docs. As narrativas viabilizavam também o registro de um percurso histórico do grupo, o que potencializava a realização de investigações sobre, no e com o grupo de estudos. A colaboração nas narrativas possibilitava a aprendizagem com a escrita do outro e uma interlocução ágil entre os participantes em contextos que ultrapassavam, como já destacado, o momento presencial do encontro. Todos esses elementos articulados uns aos outros interferiram positivamente na manutenção da dialogicidade e na autoria coletiva pelo grupo.

Ao buscar na literatura estudos sobre a produção de narrativas, de modo coletivo ou colaborativo, que utilizassem ferramentas tecnológicas de interação via internet no processo de formação docente, encontrei nos estudos desenvolvidos pela professora Margareth Axt, docente da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, aspectos teóricos e metodológicos que me ajudaram a compreender as possibilidades formativas dessa prática desenvolvida no GEProMAI.

O primeiro texto que tive contato sobre os estudos dessa autora tem como título “Uma singular pragmática do escrever: um diário coletivo (LAZZAROTTO; AXT, 2012). Nele, me chamou a atenção a descrição de uma situação em que as autoras comentam sobre a necessidade de escrever um diário coletivo, que parece aproximar-se muito dos nossos sentimentos ao produzirmos nossas narrativas colaborativas e também às interações via WhatsApp no grupo GEProMAI:

(...) ao invés de ficarmos sós com nossas perguntas e experiências, ou nos remetermos somente a um diário de campo individual, ou ainda a um arquivo solitário no computador que aguarda o dia da reunião presencial, o caminho é marcado pelo incessante acesso a uma lista de discussão (LAZZAROTTO; AXT, 2012)

Essa experiência de escrever e aguardar uma resposta, de provocar uma interação com os demais participantes antes do encontro presencial, permitiu uma discussão em rede, que expandiu o processo de escrita pela possibilidade de

conectar os participantes do grupo compartilhando algo comum: o ensinar e aprender Matemática na infância.

A interação entre pessoas em ambientes virtuais, como, por exemplo, a escrita de diários coletivos, edição de mídias diversas, escrita em listas de discussões, produções coletivas por meio da utilização de ferramentas computacionais de trabalho em grupo, elaborações coletivas em hiperdocumentos, é permeada, entre outros aspectos, pela polifonia e pelo dialogismo (LAZAROTTO; AXT, 2012; AXT et al., 2003; AXT, 2008), conceitos esses fundamentados em Bakhtin.

Como já comentei anteriormente, o dialogismo coloca em destaque a importância da presença do outro ou de outrem no diálogo:

[...] essa alternância dos sujeitos falantes que traça fronteiras estritas entre os enunciados nas diversas esferas da atividade e da existência humana, conforme as diferentes atribuições da língua e as condições e situações variadas da comunicação (BAKTHIN, 2003, p. 295).

A polifonia é definida pela “interação de personagens no autor, uma multiplicidade de vozes numa relação dialógica” (LAZAROTTO; AXT, 2012, p. 178). A dialogia e a polifonia se fizeram presentes nas produções colaborativas dos participantes do GEProMAI, tanto pela interferência direta nos textos, quanto pela utilização da ferramenta “comentar” que compõe o Google Docs, o que permitiu um diálogo entre os autores, sem a interferência direta no texto.

A partir da experiência com o diário coletivo, Lazzarotto e Axt (2012) salientam que a escrita possibilita a construção de grafias inventivas e estéticas para expressar a multiplicidade dos modos de aprender e de praticar a psicologia. Acredito que, do mesmo modo, a produção de narrativas colaborativas também permite a expressão de múltiplos modos de aprender Matemática e desenvolver seu ensino com as crianças.

Outro aspecto que considero importante enfatizar é que a escrita coletiva ou colaborativa em um ambiente virtual remete “a um lugar de interseção com as tecnologias digitais que possibilitam diferentes modos de produção e de vivência, não apenas da narratividade, mas da experiência em Educação” (AXT et al., 2001, p. 13). Ao abordar as possibilidades da escrita colaborativa em ambiente virtual, os autores enfatizam que estes:

[...] compuseram um conjunto de condições favoráveis à negociação, à cooperação, ao respeito às individualidades, tempos e limites de cada um, a tomadas de decisão voltadas para a inclusão e auto-inclusão na atividade,

caracterizando assim uma metodologia/prática educativa, a distância, comprometida com princípios éticos-estéticos de reciprocidade, autonomia e autoria (AXT et al., 2001, p. 136-137).

As considerações apresentadas por Axt et al. (2001) evidenciam que a escrita colaborativa das narrativas, mediada por ferramentas tecnológicas, contribui para o processo educativo. Ressaltam ainda que o ambiente virtual poder ser acessado independentemente do tempo e do espaço, o que favorece a inclusão e auto-inclusão nas atividades.

Ao realizarmos a prática de escrever, ler, complementar com outras aprendizagens, inserir comentários a serem esclarecidos por outros participantes do grupo nessa narrativa coletiva, observarmos uma continuidade dos encontros e do processo formativo em outros espaços e tempos que ultrapassavam o cronograma e o local físico onde nos reunimos. Como afirmam Lazzarotto e Axt (2012) “a conexão em rede com a matéria escrita de acesso permanente possibilita o contato em qualquer tempo com o que está sendo produzido-escrito” (p. 125). A escrita colaborativa das narrativas evidencia ainda o processo dialógico que reflete a postura dos autores que possibilita que as produções sejam enriquecidas e transformadas, processo este que é valorizado também nos encontros presenciais.