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3. A HISTÓRIA EM CADA LÁGRIMA

3.2 As quedas da imagem: descontinuidades do erotismo

Podemos suspeitar que as ligações entre a animalidade e o erotismo não são recentes, do mesmo modo que existe ao longo do tempo uma construção que faz com que a ligação telúrica da animalidade se conecte com o que seria a monstruosidade ou, ainda, com uma imagerie do inferno. As imagens eróticas, no entanto, quando apresentadas na pintura medieval, foram relegadas ao inferno, sendo que o interdito do erotismo lhe dava o lugar do pecado. É a partir de então que a pele começa a ser perfurada, cortada e atingida com a pungência que precede toda uma concepção sádica do sofrimento, concepção esta que chega a ser apresentada por Bataille: “Desde o princípio, na entrada desse mundo em um erotismo distante, frequentemente brutal, nós nos encontramos diante do horrível acordo entre o erotismo e o sadismo.”31

Diante da montagem e da disposição de imagens apresentadas por Bataille, como as de Albert Dürer, Lucas Cranach, Van der Weyden, Carpaccio ou Baldung Grien, existe

28 BATAILLE, Georges. Œuvres Complètes IX. Paris: Gallimard, 1979. p. 15. “vieilles de quelque vingt mille ans, ces peintures ont la fraîcheur de la jeunesse.”

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Uma leitura pontual da animalidade como um “signo cego”, a partir de Georges Bataille, está desenvolvida no artigo “Animalidade: signo cego, espaço negro” (OLIVEIRA, Eduardo Jorge de. Animalidade: signo cego, espaço negro. Em Tese, Belo Horizonte, v. 17, n. 3, set./dez. 2011. Disponível em: <http://www.letras.ufmg.br/poslit/08_publicacoes_pgs/Em%20Tese%2017/17-3/TEXTO%204%20 EDUARDO. pdf>. Último acesso em: 24 nov. 2012).

30 BATAILLE, Œuvres Complètes IX, p. 12. “Nous voyons à Lascaux une sorte de ronde, une cavalcade animale, se poursuivant sur les parois. Mais une telle animalité n’en est pas moins le premier signe pour nous, le signe aveugle, et pourtant le signe sensible de notre présence dans l’univers.”

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BATAILLE, Les larmes d’Éros, p. 92. “Dès l’abord à l’entrée de ce monde d’un érotisme lointain, souvent brutal, nous nous trouvons devant l’horrible accord de l’érotisme et du sadisme.”

uma conexão do diabólico com o sádico no que diz respeito ao erotismo, pois o autor distingue a atividade sexual do erotismo, distinção esta que teria ligações com o curso de Kojève sobre Hegel: “a simples atividade sexual é diferente do erotismo; a primeira é inata na vida animal e apenas a vida humana apresenta uma atividade que talvez defina um aspecto ‘diabólico’, ao qual convém o nome erotismo.”32

O inferno participa do mundo, ele está ligado à terra. Ele participa com distintas texturas, com a lama e outras texturas terrosas e escatológicas. Talvez seja diante dessas texturas que os aspectos fisiológicos do corpo avizinhem erotismo e animalidade, a partir de uma iconografia erótica organizada por Georges Bataille. Em Bataille, no entanto, a contradição é sempre performativa. Atravessando essa contradição, Muriel Pic busca na leitura do céu, em Le coupable, uma legibilidade do não-saber. Na sua leitura, o céu é meditado e sua medida, em um sentido até oposto ao de Mallarmé, seria “a desmesura da página”33, estando a desmesura do corpo na desmesura da página. Assim Bataille introduziria o corpo na desmesura da história, e o homem na desmesura da animalidade.

Aliás, seu pensamento e sua produção literária se ligam por uma noção de corpo, mas também por um modo particular de pensá-lo em relação à sua própria história. Nos planos34 de Georges Bataille para a composição de uma história universal, Éléments pour

l’écriture d’une “Histoire Universelle”, a tortura (La torture) ocupa o primeiro lugar da lista.

Na garrafa atirada ao mar (La bouteille à la mer), existe o princípio de apresentar um pequeno número de fatos precisos, pois, para Bataille, não se pode escrever um romance sem suplícios.35 Assim, esses elementos podem ser lidos como uma localização histórica em sua própria obra. Seguindo por esse viés, Les larmes d’Éros pode ser lido como outra garrafa atirada ao mar. Nesse caso, trata-se de um autor-historiador que monta e organiza suas imagens, embora uma concepção de história tenha ficado dispersa em listas e em obras como “os tomos sucessivos de A parte maudita (O consumo, A soberania) e ainda L’érotisme,

32 BATAILLE, Les larmes d’Éros, p. 11. “La simple activité sexuelle est différente de l’érotisme ; la première est donnée dans la vie animale et seule la vie humaine présente une activité que définit peut-être un aspect ‘diabolique’.”

33 PIC, Muriel. Georges Bataille. Lisibilité du non-savoir. In: CASTIONI, Barbara; PIC, Muriel; VAN ELSLANDE, Jean-Pierre. La pensée sans abri. Non-savoir et littérature. Nantes: Éditions Cécile Defaut, 2012. p. 103-104.

34 Tais planos estão depositados na Biblioteca Nacional da França (BNF), no Departamento de Manuscritos, Fundo Bataille, Caixa X, Dossiê H, com folhas numeradas, e consistem em cinco planos em doze folhas.

35 “O fato é que não se pode escrever um romance sem suplícios” (“Le fait que l’on ne peut écrire un roman sans supplices”). FERRI, Laurent; GAUTHIER, Christophe (Org.). L’Histoire-Bataille. L’écriture de l’histoire dans l’œuvre de Georges Bataille. Paris: École de Chartes, 2006. p. 134.

Lascaux ou la naissance de l’art, Théorie de la religion, Les larmes d’Éros etc.”36 J. M. Lo Duca, na introdução da edição de 1981, expõe que “de Gautier d’Agoty às pranchas de Cranach e aos suplícios cristãos ou chineses, a imagem dizia tudo em um atalho pelo qual as palavras não tinham sido mais que um corrimão”.37 Nessa incursão por Les larmes d’Éros, desconfiamos de uma imagem que exista como atalho e de palavras que funcionem como um corrimão.

Michel Surya, por outro lado, ao dispensar “atalho” e “corrimão” apresenta a noção de escrita de uma história que Bataille desejava “universal”. Esse projeto, ao apontar para um caminho inviável e inacabado, evidencia um conjunto de “quedas”: Bataille, ao tentar elaborar uma história universal, expõe um conjunto de descontinuidades em relação a essas quedas, essas rupturas que criam um problema diacrônico para a própria história. Ele não fez mais que, sem dúvida, mostrar que não restam aqui mais que “quedas”.38 São estas mesmas quedas que se apresentam nestes dois momentos de ideias inacabadas contidas em projetos ambiciosos, como uma “fenomenologia erótica” e uma “escrita da história universal”. Quedas que sugerem toda uma imanência em seu texto e pensamento, enfim, respostas a um desejo erótico que se situa diante de outras maneiras de nomear a “pequena morte” e a “morte final” que podem ser ainda uma “alegria insuportável” e uma “dor final”.39

Tais “quedas” possuem um valor de crítica em torno dos eixos de “continuidade” e “descontinuidade”, fundamentais para uma leitura mais ampla de L’érotisme. É ainda em torno de tais “quedas” que abordamos o legado do erotismo como uma “experiência diabólica”, abrangendo a compreensão entre algumas imagens inscritas na ordem do sagrado e do sacrifício. No entanto, mesmo que categorias gerais como o mundo e a história, por exemplo, se pautem em uma anatomia demasiado humana, Bataille se vale de ambas para criar verdadeiras ficções heurísticas do universo sem a presença humana, tendo apenas a visão

36 Nas palavras de Michel Surya: “Os tomos sucessivos de La Part maudite (La Consumation, La Souveraineté), assim também como L’érotisme, Lascaux, Théorie de la religion, Les Larmes d’Éros etc. formam essas ‘quedas’ admiráveis, essenciais (são livros inteiros mesmo que eles não representem a completude desta ‘História’)” (SURYA, Michel. Georges Bataille. Une liberté souveraine. Ville d’Orléans: Fourbis, 1997. p. 11). “Les tomes successifs de La Part maudite (La Consumation, La Souveraineté), mais aussi bien L’Érotisme, Lascaux,

Théorie de la religion, Les Larmes d’Éros, etc. forment ces ‘chutes’ admirables, essentielles (ce sont des livres à

part entière même s’ils ne représentent pas l’entièreté de cette ‘Histoire’).”

37 LO DUCA, 1997, p. VI apud BATAILLE, Les larmes d’Éros, grifo nosso. “de Gautier d’Agoty, aux planches de Cranach et aux supplices chrétiens ou chinois, l’image disait tout en un raccourci pour lequel les mots n’avaient été qu’un garde-fou.”

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“Embora não haja dúvida que Bataille tenha tido a preocupação com aquilo que ele escrevia lhe servindo de um projeto que ele mesmo queria como universal, desse projeto não resta mais que quedas” (SURYA, Georges

Bataille, p. 10-11). “S’il ne fait pas de doute que Bataille eut le souci que ce qu’il écrivait alors servît le projet

d’une histoire que lui-même voulait universelle, il ne fait pas moins de doute que ne restent de celui-ci que des ‘chutes’”.

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do animal. Essa seria uma forma de incorporar as leituras de Hegel nos cursos de Kojève, precisamente quando este equivale o homem à ação e aponta que a ausência do homem não causaria nenhum dano ao mundo, mas suscitaria um universo sem ação.

A presença da “queda” na história da humanidade se vale de dois sentidos. O primeiro deles é toda a concepção de queda herdada do cristianismo, inclusive com a de anjo caído, sendo que a queda, mais precisamente, pode remeter à etimologia do termo “sintoma”, que significa “queda”. Essa “queda” também se refere à queda da “figura humana”, como acontece ao longo da revista Documents. Georges Didi-Huberman lê etimologicamente o “sintoma” por esse viés: “eis porque o movimento que Bataille valoriza de imediato é a

queda, que deteriora e humilha a ‘Figura humana’, em vista de um esmagamento que significa

– o tempo de uma queda, justamente, o temo de um lapso ou de um sintoma, palavras que significam queda.”40

Bataille associa o erotismo a uma questão diabólica, analisando a exclusão do erotismo pela sua condenação, pois existe uma concepção de finalidade: “na perspectiva cristã, o erotismo era comprometedor, ele retardava pelo menos o resultado final”.41 O que seria, em linhas gerais, a reprodução humana, dito de outro modo, uma forma de garantir a existência da espécie. Isso interessa a Bataille porque a figuração do erotismo como um reflexo das paixões, na Idade Média, eclode na pintura e ainda mesmo na literatura, quando ele cita Dante. Enfim, o erotismo foi relegado ao inferno, o que implica em mais uma camada histórica que faz com que a animalidade seja ligada mais diretamente à sexualidade.

40 “voilà pourquoi le mouvement que Bataille valorise d’abord est la chute, qui abîme et humilie la ‘Figure humaine’, la voue à un écrasement qui signifie – le temps d’une chute, justement, le temps d’un lapsus ou d’un

symptôme, mots qui signifient tous deux la chute” (DIDI-HUBERMAN, Georges. La ressemblance informe ou le gai savoir visuel selon Georges Bataille. Paris: Macula, 1995. p. 176-177). Georges Didi-Huberman ainda faz

essa passagem do “diabólico” ao “sintoma” em Invention de l’histerie, assim como na organização da nova edição do livro Les demoniaques dans l’art, de Charcot e Richter, de 1887. Na introdução da reedição desse livro, Pierre Fédida escreve sobre essa “forma monstruosa feita de uma mistura de formas animais variadas” “une forme monstrueuse faite d’un mélange de formes animales variées”: “é próprio da crise demoníaca entregar o corpo a si-mesmo e deixá-lo apreender tensões enrijecidas na sua forma burguesa socialmente reconhecível fora do comércio humano convencional. Nas figuras da arte, essa possessão do corpo recebe os traços mitológicos do diabo, mas com a diferença que aquele, geralmente escapando pela boca, tem uma figura semi- humana, semianimal ou compõe uma forma monstruosa feita de uma mistura de formas animais variadas” (FÉDIDA, Pierre. Introduction. CHARCOT; RICHER. Les démoniaques dans l’art suivi de “la foi qui guérit”. Paris: Macula, 1984. p. IX). “le propre de la crise démoniaque est de livrer le corps à lui-même et de laisser s’emparer en tensions raidies de sa forme bourgeoise socialement reconnaissable lors du commerce humain conventionnel. Dans les figures de l’art cette possession du corps reçoit les traits mythologiques du diable mais à ceci près que celui-ci, s’échappant généralement de la bouche, a une figure mi-humaine mi-animale ou composant une forme monstrueuse feite d’un mélange de formes animales variées.”

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BATAILLE, Les larmes d’Éros, p. 77. “Dans la perspective chrétienne, l’érotisme compromettait, il retardait du moins le résultat final.”

Figura 8 – Lucrécia, de Lucas Cranach

Fonte: BATAILLE, Les larmes d’Éros, p. 84.

Figura 9 – La Scie, de Lucas Cranach

Fonte: BATAILLE, Les larmes d’Éros, p. 86.

Quando fazemos esta questão emergir à superfície, notamos que a pele, nas imagens selecionadas por Georges Bataille em Les larmes d’Éros, são apresentadas como

uma superfície supliciada, isto é, perfurada como na Lucrécia,42 de Dürer, ou rasgada em um suplício como em La scie, de Cranach: “nós devemos conceder mais que um sentimento engraçado ao homem que representa uma longa serra cortando, a partir da coxa, um supliciado nu, suspenso pelos pés.”43 Nesse livro, além disso, existe um verdadeiro elogio ao maneirismo, não apenas pela escolha de determinadas imagens, mas pelo fato de que existe uma sensação de liberdade da pintura: “o Maneirismo liberou a pintura! Mas é apenas no século XVIII que surge o erotismo, seguro de si, o erotismo libertino.”44 Assim, é bom entender que a imagem do anjo não surge por contraste, mas, poderíamos dizer, por um “capricho” que guarda seus laços fundamentais com o paganismo, acrescentando ainda que existe uma espécie de anatomia do anjo que merece ser feita, à qual esta tese apresenta uma pequena contribuição, uma vez que a questão que nos guia é que tipo de transbordamento do humano o anjo apresenta e quais seriam suas condições de animalidade.

As ligações, portanto, entre um tipo de anatomia no século XVI e uma concepção de anjo no mesmo período se encontram em algumas imagens de Les larmes d’Éros. É justo no projeto de uma “fenomenologia erótica” que Georges Bataille anota que “a verdade da vida está nas lágrimas; evidentemente, ela é o tempo”.45 Diante de imagens dolorosas, de uma iconografia que não despreza o uso dos prazeres, como posicionamos o anjo? O desafio diante de uma das imagens no referido livro de Bataille é lidar com um anjo encarnado em uma prancha anatômica.

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Para aproximar Georges Bataille de um de seus contemporâneos, transcrevemos o verbete “Lucrécia”, que está em A idade viril, de Michel Leiris: “Lucrécia, mulher de Tarquínio Colatino, parente de Tarquínio, o Soberbo, morta em 510 a.C., ilustre pelo seu fim trágico que teria ocasionado a queda da realeza romana. Durante o cerco a Árdea, os príncipes da família real quiseram saber como se comportavam suas mulheres em sua ausência. Montam a cavalo, chegam à noite em Roma e encontram suas esposas passando o tempo alegremente. Apenas Lucrécia se ocupava em fiar a lã com acompanhantes. Sua beleza impressionou Sextus Tarquínio. Alguns dias depois, ele voltou a Roma, foi à casa de Lucrécia, pediu-lhe hospitalidade e, à noite, penetrando em seus aposentos, ameaçou matá-la se ela lhe resistisse, e espalhar o boato de que fora morta porque traía o marido; Lucrécia cedeu; mas, mandando chamar no dia seguinte seu pai e seu marido, contou-lhes o ultraje que sofrera e matou-se com uma punhadada diante deles. Imediatamente, Junius Brutus, brandindo esse punhal ensanguentado, conclama o povo à revolta, e a deposição dos Tarquínios é proclamada” (LEIRIS, Michel. A

idade viril. São Paulo: Cosac Naify, 2003. p. 67).

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BATAILLE, Les larmes d’Éros, p. 92. “nous devons accorder plus qu’un sentiment amusé à l’homme qui représenta une longue scie découpant, à partir de l’entrejambe, un supplicité nu, pendu par les pieds.”

44 BATAILLE, Les larmes d’Éros, p. 94. “le Maniérisme en libéra la peinture! Mais c’est au XVIIIe siècle seulement que se fit jour l’érotisme, sûr de lui, l’érotisme libertin.”

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“La vérité de la vie est dans les larmes évidemment elle est le temps” (BATAILLE, Georges. Œuvres