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c) Dopamina e companheiros: afeto positivo e negativo

No documento O Poder das Emoções (páginas 168-174)

Alguns autores consideram o afeto positivo e o negativo como extremos de um mesmo continuum. Outros afirmam que durante o afeto negativo a pessoa tem baixos níveis de dopamina. Essas idéias

estão erradas.

Podemos especular que: 1- o afeto positivo (ânimo, satisfação, alerta) está associado ao aumento dos níveis de dopamina cerebral (além de outros neurotransmissores como a noradrenalina e a serotonina) embora não se possa afirmar que a dopamina cerebral causa os sentimentos de prazer associado ao afeto positivo; 2 – tem sido observada mudança no processamento cognitivo associado ao aumento do afeto positivo; 3 – as pessoas com afeto positivo mais elevado percebem as tarefas de um modo mais agradável, interessante e mais fáceis. A riqueza da tarefa relaciona-se com a sua complexidade, variedade e diversidade e supõe-se que o afeto positivo possibilita mais associações para um mesmo fato; 4 – um afeto positivo mais expressivo irá facilitar a probabilidade de tentar outras soluções para um mesmo problema, o que poderá obter um melhor resultado final. De outro modo, o afeto positivo, um pouco elevado (não muito), aumenta a variedade de procuras entre alternativas mais saudáveis e agradáveis, mais do que entre as perigosas; melhora a performance em diversas tarefas que são indicadoras de criatividade ou inovação na solução de problemas e cria uma maior memória disponível (mais lembranças) para agir diante de situações semelhantes. Por outro lado, o afeto positivo baixo ou achatado provoca o oposto do relatado acima. Uma pessoa pode ter o afeto positivo baixo (pouca dopamina) e o afeto negativo alto (ansiedade devido aos estresses), pode ter os dois afetos altos (animado e nervoso) e, também, os dois baixos.

O afeto positivo muito elevado, por exemplo, devido ao efeito de algumas drogas, bem como de algumas psicoses, como o Transtorno Bipolar Maníaco, apresenta uma conduta de altíssima euforia (alto grau de afeto positivo, de ânimo) devido a uma grande produção da dopamina. Nesses casos há um exagero nas ações e metas ao mesmo tempo, o que torna a conduta pouco ou nada eficiente, pois não há um objetivo claro e continuado a ser perseguido.

Ora, se a liberação de dopamina das células na área ventral tegmentar correlaciona-se ao afeto positivo, podemos deduzir que o afeto

positivo (entusiasmo pela ação) deverá seguir as mesmas regras, isto é, ele será maior quando a recompensa não é provável de acontecer, ou seja, um ganho não rotineiro ou inesperado. Há evidências na literatura científica para isso: a produção e elevação do afeto positivo envolvem acontecimentos improváveis de ocorrerem, como receber um presente não esperado, ganhar na sena, ter êxito num acontecimento incerto, realizar uma conquista difícil, etc.

A alegria dura pouco. Após a percepção de entusiasmo e euforia, o organismo produz um freio na produção dos neurotransmissores do afeto positivo. Isso vai impedir o organismo de continuar a gozar indefinidamente o prazer inicial. O próprio organismo produz essas substâncias/freios, ou seja, os antagonistas das substâncias liberadas. Esses têm como função inibir o prazer obtido. Há, nesses casos, uma diminuição das ações já em andamento visando o objetivo inicial e queda no prazer obtido pelo alvo (alimento, sexo, conversa) consumido.

Não é difícil lembrar de situações que mostram o descrito acima. Uma comida saborosa torna-se, depois de algum tempo, indigesta, uma água apetitosa é intragável após alguns goles, etc. Após certo tempo de consumação o alimento desejado ardentemente (a água, o sexo, o esporte, o bate-papo, etc.), bem como o prazer sentido, é interrompido e passamos a ter mais vontade de escapar do antes desejado. Todos nós percebemos que um relacionamento altamente cobiçado provoca grandes emoções de prazer no seu início (maior liberação de dopamina). Entretanto, aos poucos, ele vai ficando pífio e “sem graça” (menor produção de dopamina). Alguns crêem que um amor muito intenso inicial, uma paixão avassaladora (acredito que, também, outras “paixões”, como ser médico, ser proprietário de um sítio, a compra do primeiro carro, etc.), associa-se a uma alta produção de dopamina no seu início, além de uma baixa liberação de serotonina, levando o indivíduo a se tornar impulsivo e obsessivo (ficar

pensando obsessivamente na amada ou no carro). Entretanto, logo após os primeiros encontros (ou os primeiro dias no belo sítio, praia, consultório), ao aumentar a serotonina, a paixão diminui e, muitas vezes, termina.

Há estudos mostrando que os obesos poderiam ter, geneticamente, transtornos em alguns dos neurotransmissores e ou nos receptores, semelhante ao explicado anteriormente. Suspeita-se que nesses casos haveria pouca ou nenhuma produção dos antagonistas do prazer, isto é, haveria uma ausência da produção do freio; o obeso continuaria o prazer de comer muito. Uma segunda hipótese acerca dos obesos é a de que, apesar dos antagonistas serem produzidos e liberados nas quantidades normais, eles teriam pouca ou nenhuma ação em virtude de um defeito nos receptores, isso é, esses não responderiam às ordens de frear. O receptor é o local onde o neurotransmissor liberado irá agir, ou melhor, interagir. A substância química do neurotransmissor interage com a substância do receptor, dando origem, neste último, a estimulações ou inibições. Parece ocorrer um fato semelhante com alguns alcoólatras; eles só sentem o bem-estar da bebida.

De todos os órgãos dos sentidos, o olfato parece ser o que mais direta e imediatamente produz uma resposta afetiva. Estudos mostraram que os odores agradáveis não induzem, necessariamente, afetos positivos. Por outro lado, os odores agradáveis ajudam a conduta e melhoram a atuação em tarefas variadas, da mesma maneira como outras estratégias produzem afetos positivos, como ouvir certa melodia ou poesia, assistir a uma bela dança, a um jogo e, ainda, receber um presente, de preferência não esperado… O odor desagradável e a dor podem produzir a emoção “raiva”, por isso é comum xingar um nome feio após bater o joelho na mesa ou cortar o dedo ao descascar a laranja e ficar mais agressivo num ambiente com mau cheiro.

Um outro aspecto diz respeito ao tempo de duração da descarga de dopamina após sua liberação. A dopamina nas células VTA (projeção dopaminérgica das células na área ventral tegmentar (mesolímbica))

são liberadas apenas por alguns segundos diante de uma recompensa. Entretanto, a elevação do afeto positivo causado pelo presente

permanece por 30 minutos ou mais. As explicações falam que a estimulação de uma área cerebral por 10 segundos aumenta a liberação de dopamina na área do núcleo acumbente por mais de 30 minutos. Desse modo, a dopamina continua a ser liberada após a parada da estimulação.

No caso do sistema dopaminérgico ser danificado, o animal exibirá, como resultado, um comportamento de inércia. Por outro lado, se o sistema intacto for estimulado, elétrica ou farmacologicamente, diversas ações e mudanças fisiológicas são revigoradas. Podemos afirmar que a excitação desses circuitos altera a sensibilidade habitual dos sistemas sensoriais importantes e essenciais para que haja ordem e coerência nos comportamentos provocados ou despertados.

A excitação eletricamente induzida do sistema dopaminérgico leva a um processamento cortical mais efetivo relacionado às áreas despertadas, como a da alimentação, sexo, companheirismo, perigo, etc. O contrário é verdadeiro. A diminuição, como a existente no

Transtorno de Déficit de Atenção, leva o portador a uma constante mudança da atenção por não conseguir fixá-la no objetivo pretendido ou iniciado. Parece haver, também, uma menor capacidade para fixar, ao mesmo tempo, diversas metas possíveis.

O afeto negativo (AN) ou desagradável não é simplesmente o oposto do afeto positivo (AP) na conduta ou na cognição; ele parece ser mediado por sistemas diferentes dos relacionados ao afeto positivo. A diminuição da dopamina relaciona-se, sim, com anedonia (com a menor intensidade da emoção ou afeto positivo), isto é, com um afeto achatado, com a perda do prazer e sem vontade (abúlico), com a

depressão. A pessoa deprimida, mesmo levemente, tem sua habilidade diminuída ao resolver dificuldades, pois pensa lentamente, tem suas representações mentais mais pobres e uma imaginação mais negativa. Os antidepressivos, quando produzem resultados, transformam a

maneira de “enxergar e decifrar o mundo” do deprimido. O leitor deve ficar ciente que essa hipótese acerca da depressão catecolaminérgica é limitada e incompleta.

No afeto negativo ocorrem emoções ou afetos diversos, todos eles desagradáveis, geralmente associados aos eventos estressantes enfrentados como ansiedade (medo), fobia, raiva, dentre outros. Não é raro ocorrer esse quadro de indiferença, preguiça e pouca produtividade nos indivíduos que usam medicamentos para hipertensão arterial, para diminuir o colesterol, para combater a

ansiedade, insônia e para alergia (anti-histamínicos), bem como outros. Por fim, chamo a atenção, especificamente, para algumas drogas

receitadas por todos os psiquiatras; algumas delas conhecidas também pelo público. Essas drogas são medicamentos que têm efeito oposto ao da cocaína e da anfetamina, isto é, eles provocam, não uma euforia e bem-estar, mas sim o mal-estar, o desânimo. Esse quadro de apatia é provocado pela depleção (queda do neurotransmissor) da dopamina no núcleo acumbente. Entre esses medicamentos psiquiátricos

estão os utilizados nos tratamentos de pacientes portadores de

esquizofrenias, manias e outras agitações: Haldol ou Haloperidol, Amplictil, Stelazine e diversos outros.

Esses medicamentos, além de bloquearem os efeitos da dopamina (antagonistas), também produzem efeitos bizarros, como os de movimentos disfuncionais, aumentando a dificuldade para aprender e recordar, levando esses pacientes, com frequência, a serem

menos motivados. Em todos esses casos nota-se, frequentemente, uma diminuição do afeto positivo e, portanto, desânimo, cansaço, menor capacidade física e cognitiva; esses sintomas e sinais variam com a pessoa e a dosagem. Esse quadro melhora diminuindo ou interrompendo a medicação e, também, através do uso de algumas substâncias, entre elas o biperideno, usado também para o tratamento da Doença de Parkinson. Este medicamento tem como função

Os circuitos emotivos podem ser estimulados por percepções de coisas, fatos ou eventos do meio que ficaram condicionados (ligados) ou associados ao prazer ou sofrimento no instante do fato. O

sistema mesolímbico dopaminérgico exibe uma liberação vigorosa de dopamina durante a fase antecipatória do comportamento condicionado apetitivo, isto é, antes do indivíduo alcançar a meta desejada, como o bife suculento. Nesse caso, vários fatores do meio, que antes eram neutros, se tornam “ligados” aos prazeres ou aos sofrimentos surgidos. No caso do bife a pessoa pode lembrar dele diante de um cheiro semelhante, ao passar pelo restaurante onde comeu o bife, ao conversar sobre comida gostosa, etc. Todos nós temos nossas recordações alegres, tristes ou de entusiasmo ao escutar certas melodias que foram ouvidas durante nossos períodos de felicidade ou de sofrimento.

No documento O Poder das Emoções (páginas 168-174)