Do ponto de vista neuronal, não do cognitivo e ou comportamental, podemos afirmar que resolver uma perturbação ocorrida no organismo (a causada pela buzina do carro) nada mais é que ativar (pôr em
funcionamento, desencadear ou disparar) certas representações neurais (circuitos, áreas, substâncias químicas, núcleos neuronais). De outro modo, são postas para funcionar as estruturas e outras informações constituídas de células nervosas ou de seus processos, existentes no cérebro do indivíduo. É impensável diante desse ou daquele problema utilizar-se das representações ligadas às estruturas cerebrais existentes no cérebro de meu amigo ou inimigo ou resolver um problema sem fazer uso das próprias estruturas neurais do indivíduo particular. Assim, uma boa solução dependerá de um bom cérebro, do mais capaz de ser ativado, de fazer uma melhor análise e de tomar as melhores decisões diante do evento ocorrido.
Algumas soluções de problemas do organismo fazem uso de
representação mental, isto é, de operações através das quais a mente tem presente em si mesma a imagem, a idéia, ou, ainda, o conceito que corresponde a um objeto ou situação existente fora da consciência do indivíduo. Entretanto, deve ser lembrado que a maioria das
soluções de problemas produzidas por nosso organismo é automática e inconsciente, isto é, não faz uso de representação ou mapa mental, e, portanto, não usa raciocínios complexos.
As estruturas nervosas e químicas existentes no cérebro de cada adulto se desenvolveram de diferentes modos (genoma e experiências diferentes) e são apropriadas e singulares para cada pessoa. Portanto, a ativação das diversas regiões, sendo única para cada indivíduo, uma vez estimulada, irá produzir uma representação (imagem interna) e comportamento apropriados para cada indivíduo, num determinado
local e tempo. De modo simples, percebemos e reagimos às
informações (problemas) vivenciadas do mundo externo ou interno (o que acontece dentro de nosso organismo) de modo singular, e cada indivíduo vive, emociona-se e comporta-se em seu mundo próprio. Alguns autores usam o termo “representações neurais”, que não deve ser confundido com “representações psicológicas”, para denominar o conhecimento inato existente no cérebro do recém-nascido somado às mudanças anatômicas produzidas no cérebro particular de um indivíduo. De outro modo, “representações neurais” seriam as disposições neurais existentes no cérebro do recém-nascido somadas às modificações elétricas, bioquímicas e anatômicas nele produzidos durante a história de vida de um indivíduo (chamadas de plasticidades), ou seja, as modificações ocorridas no cérebro devido às experiências de cada um.
Nascemos com algumas representações neurais básicas que nos permitem sobreviver de maneira simples/biológica com a ajuda de “criadores”. Essas representações neurais iniciais são, em virtude das experiências enfrentadas, modificadas em alguns aspectos através do aprendizado e da memorização particular de cada pessoa (produção de novas mudanças no cérebro). Se José encontrar Maria, uma mulher que ele não conhecia, e decorar o número do seu telefone, bem como alguns fatos acerca de sua vida, as representações neurais dele, isto é, uma parte da anatomia do seu cérebro, irão ser alteradas temporariamente ou para sempre, conforme a potência dessas modificações.
Portanto, fazendo parte de uma mesma espécie, possuímos uma organização corporal que nos leva a ser classificados como seres humanos. Entretanto, do mesmo modo como temos nomes, CPFs, fisionomias, DNAs e impressões digitais diferentes e como vivemos histórias particulares, indo do nascimento à morte, não só temos ao nascer estruturas neurais ligeiramente variadas, como, principalmente, construímos estruturas muito distintas quando comparadas com um
outro indivíduo. Cada ser humano irá, durante sua vida, experimentar fatos e situações altamente diversas. Assim, somos categorizados como indivíduos não-iguais, ou seja, percebemos, integramos e resolvemos os problemas do mundo conforme o nosso cérebro, pois esse é plástico ou moldável.
Apesar de estarmos aprisionados aos genes típicos de nossa espécie, não estamos presos às mesmas experiências. O vivenciado por cada um de nós irá estimular e modificar, de modo diferente, o cérebro de José, de Maria e de qualquer outra pessoa. Cada cérebro particular será marcado de modo diverso, provocando mudanças distintas, sejam físicas, anatômicas, bioquímicas e microestruturas nos circuitos de neurônios, alterando, mais ou menos, num e outro indivíduo, suas conexões, corpos celulares, dendritos, axônios, sinapses e mudanças bioquímicas, fazendo-o diferente do que era e dos outros indivíduos; essas mudanças recebem o nome de “plasticidade neural”.
Toda e qualquer experiência vivida por Maria ou João (também experimentada por você, meu caro leitor) irá provocar, por segundos, minutos ou por toda a vida, mudanças anatômicas estruturais e químicas denominadas “plasticidade neural” ou também “mudanças neurais”. A plasticidade neural nada mais é do que modificações anatômicas, bioquímicas e microestruturas em nosso cérebro. Essas mudanças, por sua vez, dependendo do momento, se transformam em imagens, que são percebidas diferentemente por cada indivíduo, além de serem sentidas como sendo uma percepção de uma pessoa particular e não de outra.
Não estou exagerando: seu cérebro será modificado após sofrer um grave acidente (uma briga, um atropelamento, uma queda, etc.), mas também será modificado (caso não seja o acidentado) após ter assistido o trágico acidente quando caminhava tranquilamente pela rua. Mas tem mais: seu cérebro será ainda afetado caso não seja o acidentado, nem o observador do desastre, mas simplesmente o leitor das notícias acerca do desastre ocorrido. Em todos os três casos
(acidentado, testemunha do desastre e leitor da notícia) os cérebros desses três personagens de nossa história foram estimulados por esses eventos – de forma desigual, é claro – e, por isso, serão modificados pelos diferentes estímulos recebidos. Concluindo: a profundidade da plasticidade neural (marcas no encéfalo) será diferente. Assim, o leitor da notícia provavelmente esquecerá mais rapidamente o que leu, e, portanto, a marca em seu cérebro poderá ter menor importância que a dos outros, principalmente do personagem acidentado. Só Deus sabe. O que é aprendido (memorizado, plastificado) através de nossas experiências, como a percepção de uma pessoa, a dor da separação e a alegria de um encontro desejado, tudo isso modificará a
estrutura física, química e anatômica do encéfalo, por algum ou por muito tempo, dependendo da importância e impacto do estímulo. Nós pensamos, falamos e agimos fazendo uso das “plasticidades” impressas, armazenadas e lembradas no momento de nossas ações, todas existentes em nosso cérebro. Não há outro modo.
A construção final mais eficiente erigida em nosso encéfalo (que só terminará com nossa morte) dependerá da boa estrutura inicial do organismo, do ambiente humano e físico encontrado, das ações tomadas diante da vida; tudo isso irá cooperar para que as “marcas” no encéfalo facilitem ou dificultem a vida do indivíduo.
Não devemos nos esquecer, mesmo enfatizar, o importante papel do acaso. Qualquer pessoa deve se lembrar que, por um acaso, ela encontrou uma outra pessoa que iniciou uma mudança em sua vida. No início foi uma pequena modificação, mas, com o tempo, essa transformação foi crescendo e crescendo e foi dando ramos e folhas. Tempos depois você era outro, sua vida não era mais a mesma.
Também, pode ter acontecido que, por um acaso, você fez uma viagem e sofreu um acidente que transformou você numa outra pessoa. Um dia foi, por azar, ao cinema e lá conheceu Joana ou Pedro e nunca mais viveu em paz após ter decidido se casar com um deles. Mas tem mais: por acaso conversou com um professor que lhe falou certas coisas e
essas, por sua vez, fizeram a grande virada em seus planos. Cada um de nós tem a sua memória autobiográfica, uma história de vida particular. Recupere-a por instantes e veja se tenho ou não razão de dar tanta importância aos azares (sortes) da vida. Em resumo: o perfil imprevisível (aleatório) das experiências singulares de cada indivíduo durante sua vida tem realmente uma grande importância na construção final dos circuitos cerebrais, tanto direta como indiretamente. Através das experiências do organismo no meio ambiente os circuitos inatos serão estimulados. Estes, por sua vez, irão estimular a construção dos novos circuitos cerebrais na parte mais “elevada” do cérebro. Assim, pouco a pouco, seu cérebro e sua vida vão ficando diferentes.
Resumidamente: a partir de um mecanismo pré-organizado, existente no nascimento desse projeto ou esboço inicial, é fabricado, sempre se transformando, o ser humano adulto e individual. Para que ocorra um desenvolvimento satisfatório, bem adaptado, torna-se necessário que o conjunto de elementos que concorrem para a atividade ou funcionamento dessa estrutura orgânica, o modelo, projeto inicial ou pré-homem esteja ligado, em sintonia, com o “mecanismo” existente no meio ambiente sócio-cultural (seu nicho), ou seja, tenha sorte. A importância da adaptabilidade de cada organismo individual ao “nicho” ou meio onde ele está inserido (cada macaco em seu galho) não é apenas para efeito da regulação biológica básica da pessoa. É esse acoplamento que permitirá ao ser humano classificar, valorizar e interpretar adequadamente os fatos ou os fenômenos vivenciados. Deve ser lembrado que as estruturas formadas para serem postas em ação num dado momento diante de um problema, por cada um de nós no dia-a-dia, podem ser eficientes ou não-eficientes, isto é, acertarem ou falharem para alcançar a solução pretendida diante das situações enfrentadas. De outro modo, nossas estruturas neurais podem ser mais “inteligentes” ou mais “idiotas” para ajudar-nos a resolver nossos