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CIRURGIA PLÁSTICA E DANO MORAL

No documento Revista V. 106 n. 2 (páginas 141-145)

R EVI STA DE D OUTRI NA E J URI SPRUD êNCI A . 50. B RAS íLI A . 106 (2). JURI SPRUD êNCI A / JAN- JUN 2015

A autora e os réus apelaram. nas razões recursais, a autora requereu a reforma da sentença a fim de não arcar com o pagamento referente aos honorários periciais, visto que as outras partes assumiram solidariamente tal obrigação. Pleiteou também o não pagamento de honorários advoca- tícios em favor da empresa fabricante de prótese mamária, mesmo sendo sucumbente da demanda em 2/3 dos pedidos.

A primeira ré, clínica de estética, postulou a exclusão de sua responsabilidade ou, alternativamen- te, a redução do valor arbitrado a título de dano moral, sustentando não ter qualquer vínculo empregatício com o médico, tendo apenas firmado contrato tácito de concessão de uso de espaço com o cirurgião.

O médico, segundo réu, requereu a improcedência do pedido de indenização por dano moral, ou sua redução, aduzindo que informou a autora de forma clara e adequada sobre todos os riscos e benefícios da intervenção cirúrgica realizada, esclarecendo-a inclusive quanto à possibilidade de utilização de próteses de tamanhos e volumes diferentes. Alegou ter especialização em ginecologia, mastologia e lipoplastia, tendo, portanto, conhecimentos científicos e práticos para realizar cirur- gias desse porte. Asseverou, por fim, não ter agido com dolo, negligência ou imprudência.

A terceira ré, empresa fabricante de prótese, pediu a exclusão de sua condenação ao paga- mento de R$ 3.000,00 (três mil reais), em decorrência da conversão da obrigação de apresentar as notas fiscais em perdas e danos, ou a redução do valor arbitrado.

em relação ao pedido da primeira ré, a e. Relatora, Desembargadora vera Andrighi, enten- deu não haver qualquer vínculo, seja trabalhista ou comercial, entre o médico e a clínica onde foi realizado o procedimento cirúrgico. Sustentou que a autora não apontou nenhuma falha no serviço por parte da clínica de estética, não podendo ser invocada sua responsabilidade solidária.

Para corroborar seu posicionamento, a ilustre Relatora colacionou o seguinte julgado:

“PROceSSO cIvIL e cIvIL. InDenIzAçãO. DAnOS mORAIS. eRRO mÉDIcO. vIOLAçãO DOS ARTS. 131 e 458 DO cPc. IneXISTêncIA. ReSPOnSABILIDADe DO HOSPITAL AFAS- TADA. cOmPROvAçãO DO DAnO. SúmuLA n. 7/STJ. QUANTUM InDenIzATÓRIO. RevI- SãO. ImPOSSIBILIDADe. DIveRGêncIA JuRISPRuDencIAL. BASeS FáTIcAS DISTInTAS. 1. não há por que falar em violação dos arts. 131 e 458 do cPc quando o acórdão recorrido diri- me, de forma expressa, congruente e motivada, as questões suscitadas nas razões recursais. 2. nas hipóteses de dano decorrente de falha técnica restrita ao profissional médico, mormente quando este não tem nenhum vínculo com a clínica – seja de emprego, seja de mera preposição –, não cabe atribuir ao hospital a obrigação de indenizar.

3. É inviável, em sede de recurso especial, revisar a orientação perfilhada pelas instâncias ordinárias quando alicerçado o convencimento do julgador em elementos fático-proba- tórios presentes nos autos – interpretação da Súmula n. 7 do STJ.

4. não se conhece da divergência jurisprudencial quando os julgados dissidentes cuidam de situações fáticas diversas.

5. Recurso especial parcialmente conhecido e parcialmente provido.” (STJ, 4ª Turma, Resp nº 1019404/Rn, Relator ministro João Otávio de noronha, DJe de 01/04/2011).

Quanto ao pedido da terceira ré, empresa fabricante de prótese, a e. Relatora assinalou que, conforme dedução do relatório pericial, as próteses implantadas não apresentaram nenhuma anor- malidade, não se tratando de prótese reutilizável. Destacou que o perito técnico afirmou que, no

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caso de reutilização, poderia ocorrer ruptura precoce, situação não evidenciada em razão de as pró- teses se encontrarem intactas no momento da segunda cirurgia a que a autora foi submetida.

Dessa forma, concluiu não haver razoabilidade na condenação da terceira ré em exibir as notas fiscais referentes às próteses contestadas, nem sua conversão em perdas e danos, visto que o interesse da autora, quanto à exibição dos referidos documentos, era apenas de comprovar que as próteses eram reutilizadas.

no tocante à apelação do cirurgião, segundo réu, consignou a e. Relatora que a cirurgia es- tética se caracteriza em obrigação de resultado, uma vez que o médico se compromete a alcançar um resultado específico, e que, não o alcançando, presume-se a culpa do cirurgião. na hipótese, foi evidenciado que o resultado alcançado não era o esperado pela autora. nesse sentido, segue parte elucidativa de seu voto:

A responsabilidade do médico é subjetiva, art. 14, § 4º, do cDc. Outrossim, a cirurgia estética é uma obrigação de resultado, pois o contratado se compromete a alcançar um resultado específico, que constitui o cerne da própria obrigação. Ressalte-se que, na de- manda, a intervenção cirúrgica teve unicamente finalidade de atender ao desejo da auto- ra de melhorar sua estética corporal. Registre-se, ainda, que, em não alcançado o resul- tado pretendido, presume-se a culpa do médico, devendo o contratado comprovar causas excludentes de responsabilidade, como a culpa de terceiro, a culpa exclusiva da vítima ou situações de caso fortuito ou força maior (TJDFT, 6ª Turma cível, Acórdão 839709, APc 20110910057634, Relatora Desa. vera Andrighi).

Salientou que a relação oriunda do contrato de serviços médicos para realização de cirurgia estética se submete ao código consumerista, que reconhece a vulnerabilidade do consumidor, bem como garante a viabilização da aplicação dos princípios da informação, da transparência e da boa-fé.

Acrescentou que o cirurgião deveria ter repassado informações claras e precisas sobre os re- sultados possivelmente alcançáveis em uma cirurgia estética, obtendo, inclusive, o consentimento da paciente sobre os riscos e eventuais problemas que poderiam surgir com o tratamento proposto, nos termos do art. 6º, inciso II, do código de Defesa do consumidor.

em seus fundamentos, a e. Relatora enfatizou que a autora não foi informada sobre os volu- mes das próteses implantadas, tampouco sobre os outros modelos de próteses com volumes dife- renciados disponíveis no mercado, ficando claro que o médico não cumpriu adequadamente com o dever de prestar a informação e de obter o consentimento da autora, ainda que tácito.

no que tange à declaração da autora de que sentia fortes dores nas mamas, a e. Relatora aduziu que tal afirmação não encontra respaldo nas provas constantes dos autos, pois a autora só procurou outro médico para fazer novo implante quase quatro anos depois da primeira cirurgia, não sendo plausível que demorasse tanto tempo para procurar outro especialista se sentisse fortes desconfortos. Observou ainda que o relatório do cirurgião plástico que fez a segunda cirurgia afir- mou que a autora o procurou para implantar próteses de tamanhos maiores, não fazendo qualquer referência sobre queixa de dores.

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no entanto, em que pese a e. Relatora ter reconhecido a responsabilidade do cirurgião por falha no serviço, observou que a recomposição do patrimônio da autora já havia ocorrido por oca- sião do ajuizamento da ação, pois o médico pagou R$ 8.000,00 (oito mil reais) à autora pelo dano causado, valor inclusive superior ao gasto na primeira cirurgia, não havendo dano material a ser indenizado, ficando, portanto, prejudicado o pedido da autora.

em relação ao dano moral, aduziu a e. Relatora que o descontentamento da autora com o re- sultado final da cirurgia não passou de mero aborrecimento ou desconforto em relação ao resultado final da cirurgia, não gerando sofrimento extraordinário, nem tampouco ofensa a sua integridade física ou psíquica, sobretudo quando se verificou que a autora demorou quase quatro anos para tro- car de prótese. Assim, entendeu pela improcedência do pedido de indenização por dano moral.

Desse modo, a egrégia 6ª Turma cível, por unanimidade, proveu o recurso dos réus e julgou prejudicado o recurso da autora, nos termos do voto proferido pela e. Desembargadora vera Andri- ghi. condenou, ainda, a autora ao pagamento das custas e honorários advocatícios para cada um dos réus, bem como ao pagamento dos honorários periciais.

R EVI STA DE D OUTRI NA E J URI SPRUD êNCI A . 50. B RAS íLI A . 106 (2). JURI SPRUD êNCI A / JAN- JUN 2015 Acórdão 852498 Desa Nilsoni de Freitas Relatora – 3a Turma Criminal

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