CAPÍTULO V PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
5.1 Coleta de dados
A plataforma escolhida para a coleta de dados foi o Twitter. Esta escolha se deve ao grande impacto que ela tem por sua principal característica: postagens curtas, de até 280 caracteres, o que produz mensagens diretas a serem compartilhadas e interagidas pelos usuários da plataforma. A escolha se deve também pela maioria das contas serem públicas e a informação circular de forma mais livre, já que, dentre as mídias sociais, o Twitter tem menos influência dos algoritmos. O segundo fator é de que a coleta de dados que a plataforma possibilita é melhor e de mais fácil acesso do que nas outras plataformas.
Outro fator que levou a escolha da plataforma foi uma pesquisa realizada pelo próprio Twitter que entrevistou dois mil usuários no Brasil e registrou que 70% dos participantes o utilizam para se informar sobre política (NEWS, 2018). Destes, mais de 60% creem que as postagens dos candidatos auxiliam na escolha do voto, além de eliminar a indecisão em quem votar. Um dos aspectos mais importantes da pesquisa é que 47% dos entrevistados alegam que a importância do Twitter em decidir o voto se deve a ter acesso às informações diretas da fonte, sem intermediários como a mídia.
A metodologia escolhida para esta etapa do trabalho foi a análise de redes. Para Regina Maria Marteleto (2001, p.72) acredita que as redes são uma ferramenta organizacional das relações pessoais. A autora completa:
O estudo das redes coloca assim em evidência um dado da realidade social contemporânea que ainda está sendo pouco explorado, ou seja, de que os indivíduos, dotados derecursos e capacidades propositivas, organizam suas açõesnos próprios espaços políticos em função de socializações e mobilizações suscitadas pelo próprio desenvolvimento das redes. Mesmo nascendo em uma esfera informal derelações sociais, os efeitos das redes podem ser percebidos fora de seu espaço, nas interações com o Estado, a sociedade ou outras instituições representativas. Decisões micro são influenciadas pelo macro, tendo a rede como intermediária.
Nesta direção, analisar redes pode indicar como um determinado grupo se comporta através de seus processos comunicacionais e organizacionais. Como conclui Marteleto (2001, p.72):
A análise de redes estabelece um novo paradigma na pesquisa sobre a estrutura social. Para estudar como os comportamentos ou as opiniões dos indivíduos dependem das estruturas nas quais eles se inserem, a unidade de análise não são os atributos individuais (classe, sexo, idade,gênero), mas o conjunto de relações que os indivíduos estabelecem através das suas interações uns com os outros. A estrutura é apreendida concretamente como uma rede de relações e de limitações que pesa sobre as escolhas, as orientações, os comportamentos, as opiniões dos indivíduos.
Para isso, foram escolhidos seis conjuntos de palavras que são conflitantes entre os militantes na plataforma digital. O primeiro é Bozonaro e Petralha. Bozonaro surgiu quando a marca de roupas Cavalera criou uma camista onde colocaram a imagem de Jair Bolsonaro maquiado como o palhaço Bozo e com os dizeres Bozonaro em forma de santinho, com o número de legenda 66.666. A imagem viralizou nas mídias sociais, principalmente porque os apoiadores ao ainda candidato a presidência atacaram a marca e a criadora da camiseta sofreu ameaças físicas (Criador da camiseta "Bozonaro" é ameaçado por apoiadores do candidato, 2018). A repercussão fez com que o apelido pegasse e começasse a ser usado aos opositores de Bolsonaro para atacarem a ele e aos seus seguidores.
O termo Petralha foi criado pelo jornalista Reinaldo Azevedo, notório crítico aos governos petistas, e é a união de PT (Partido dos Trabalhadores) com os Irmãos Metralhas, personagens dos quadrinhos que eram ladrões. Em 2016, o jornal americano Washington Post classificou a palavra como umas das seis principais para se entender o Brasil e a sua política (SIMS, 2016). Desde então, opositores do PT utilizam o termo para relacionar os quadros do partido e seus militantes a corruptos.
O segundo conjunto é Coxinha e Mortadela. O termo Coxinha surgiu na década de 1980, como um xingamento direcionado a policiais em São Paulo. Isso se deve porque, quando estavam em ronda, paravam em alguma padaria para comer o salgado de mesmo nome e, nesta ação, expulsavam dali os jovens que moravam nas comunidades, que saiam dali chamando os policiais de Coxinha. Desde então, o termo passou a ser utilizado para aqueles que defendem os establishment, que defende os privilégios das classes altas e acredita pertencer a esta classe (SCHMIDT, 2017). Nas mídias sociais, o termo é utilizado por militantes de esquerda para atacarem os defensores da direita.
Já Mortadela faz referência ao lanche que militantes petistas e das centrais sindicais recebiam em suas manifestações pró-governo Dilma Roussef durante as crises que a
presidente teve e que culminou em seu impeachment. O termo começou a ser usado como um contraponto a Coxinha, uma maneira de responder o termo pejorativo usado contra os militantes de direita (PRADO, 2016). As escolhas das palavras se justificam por estes motivos, por serem antagônicas.
O terceiro conjunto traz as palavras Direita e Esquerda. Os conceitos de Direita e Esquerda são bem amplos, contam com uma vasta bibliografia e continuam a suscitar discussões sobre os temas. Neste trabalho, as questões serão abordadas em como estes dois conceitos são discutidos dentro das mídias sociais e no contexto político brasileiro atual, com ênfase no que os defensores acreditam o que estes conceitos significam. Esta abordagem condiz com o trabalho, com o objetivo de analisar o embate dos militantes nas mídias sociais, temas que também foram abordados no capítulo sobre os Trolls.
A Direita nas mídias sociais brasileiras se caracterizou por criar um discurso anti-PT, contra a corrupção e o comunismo.
A produção do discurso que conseguiu associar o Partido dos Trabalhadores com a corrupção e os “perigos do comunismo”, permitiu formar uma frente ampla de direita que se articulou na construção de uma identidade de um “nós” (cidadãos de bem) em oposição a “eles” (esquerda, petistas, comunistas) (PENTEADO e LERNER, 2018).
A construção do discurso de direita nas mídias sociais fez com que a esquerda reagisse com o discurso contrário: rebatem serem chamados de comunistas, com fascistas, elite, racistas, homofóbicos, entre outros (palavras utilizadas para a análise dos dados neste trabalho). Portanto, o embate entre ambos os lados tomou uma dimensão de inimizade.
O quarto conjunto é Fascista e Comunista. Na militância virtual, o termo fascista é utilizado para acusar os defensores à direita de serem autoritários, racistas e a favor das elites (BERTONHA, 2015). O contrário se vale para o termo comunista, utilizado pelos militantes de direita para acusarem governos de esquerda de serem autoritários. Neste contexto, ambos os lados se acusam de quererem implantar, ou defender, um governo autoritário que minará a liberdade.
Lula e Jair Bolsonaro foram os principais nomes da campanha presidencial de 2018, e compõe o quinto conjunto de palavras. Cada um representava um lado do debate, Lula a esquerda e Bolsonaro a direita. Foram os principais personagens citados nas discussões nas redes e os responsáveis centrais na polarização do debate.
Podemos supor que esses candidatos são resultados desse movimento de polarização. Lula, que assumiu uma postura mais conciliadora, se encaixa no perfil da esquerda menos radical [...]. No entanto, o perfil mais agressivo de
Jair Bolsonaro condiz com um grupo mais radical que vem crescendo na direita (VICENTE e AZEVEDO, 2018).
O sexto e último conjunto de palavras é Lulismo e Bolsominions. O termo lulismo começou a ser utilizado para descrever os governos petistas, que durou de 2003 a 2014, através da campanha de imagem feita no ex-presidente Lula (BORGES e VIDIGAL, 2018). Pela direita, começou a ser utilizado de forma pejorativa para relacionar os problemas sociais do país ao período lulista e para designar seus seguidores. Bolsominions segue o mesmo teor. Começou a ser utilizado pelos militantes de esquerda para descrever os seguidores fanáticos de Jair Bolsonaro. “Seguem o líder, a quem chamam de mito, e dão vazão aos recalques narcísicos atacando as diferenças de grupos que elegem como rivais. Daí a constante referência agressiva a homossexuais, negros e feministas” (PENA, 2016, online).
Diante deste contexto, a coleta de dados foi realizada no Twitter durante os três meses (agosto, setembro e outubro) da eleição presidencial de 2018. Os objetivos foram de encontrar a) a existência das bolhas ideológicas e b) a ocorrência de ataques virtuais que se caracterizam como trolling. Para atingir estes objetivos, a coleta de dados foi feita com o uso de palavras que normalmente são utilizadas para atacar adversários ideológicos. Como descrito, a intenção é a de identificar o trolling e não os nós mais influentes das redes, por isso a escolha de fazer a coleta de dados através de palavras. Os termos escolhidos são conflitantes, como demonstra a Tabela 1 abaixo:
Tabela 1 Bozonaro Petralha Coxinha Mortadela Direita Esquerda Fascista Comunista Lula Bolsonaro Lulismo Bolsominions
Como se observa na tabela, as palavras escolhidas são termos utilizados pelos usuários para se atacarem nos embates virtuais, de forma pejorativa. A coleta utilizou ferramentas para a sua realização, por isso é importante detalhar os softwares utilizados tanto para a coleta quanto para a análise dos dados, já que foram estes que permitiram a realização da pesquisa.