CAPÍTULO III – O USUÁRIO COMO PRODUTO
3.2 Hipervisibilidade
A proliferação dos dispositivos móveis conectados à internet promoveu ainda mais a socialização da rede. Aplicativos que focam na interação social são a espinha dorsal da digitalização atual e mídias sociais como o Facebook são tão importantes para os indivíduos
quanto as suas relações familiares. É neste contexto onde os usuários da rede cada vez mais se expõe em suas mídias sociais, sem se preocupar com as consequências de tornarem suas vidas visíveis a todos, que o filtro-bolha atua.
O historiador e cientista político, Andrew Keen (2012, p.21-22), afirma que estamos todos em exposição nas mídias sociais, ou seja, vivemos em uma era de Hipervisibilidade. Para o pesquisador, “nesse mundo transparente, estamos ao mesmo tempo em toda parte e em parte alguma, a irrealidade absoluta é a presença real; o totalmente falso é também o totalmente real. Isso, como percebi, era o retrato mais verdadeiramente falso da vida conectada do século XXI” (2012, p.22, grifos do autor). A análise de Keen demonstra como a arquitetura da web atual é feita para incentivar cada vez mais o compartilhamento de dados pessoais. O matemático e um dos fundadores do site de relacionamentos OkCupid, Christian Rudder (2015, p.60), indica que:
Hoje não é preciso confiar na sorte para preservar e saber o que alguém estava pensando ou como falava, e não precisamos que uma pessoa represente várias. Está tudo preservado, não só o texto de um homem falando para a esposa antes da batalha como de todos para todos, antes, depois e até durante cada uma das nossas batalhas pessoais.
Francisco Rui Cádima (2015, p.80), pesquisador sobre comunicação social, entende que as trocas de informações atuais tendem ao universal e a uma “paisagem ‘comum’” (grifos do autor). Para ele:
São as mediapaisagens que nos trazem novos fluxos de informação, reforçados e interconectados pelas tecnologias digitais, as quais recriam extensos repertórios de textos e imagens, novas narrativas, múltiplas formas culturais, novas identidades mediatizadas emergentes na interação com a diversidade de “outros” (2015, p.80, grifo do autor).
Andrew Keen (2012, p.21) descreve que a internet junto com seus dispositivos móveis e com os aplicativos sociais, colocou os indivíduos em permanente exposição, “todos somos apenas imagens de nós mesmos neste admirável mundo novo transparente”. Para Keen, a imagem exposta na rede é tão importante quanto a imagem que apresentamos no espaço físico, ou seja, as tecnologias digitais ao se integrarem no cotidiano social, a divisão entre ciberespaço e mundo real, se rompe, e o natural para o indivíduo contemporâneo é o de se expor na rede, pois essa visibilidade impacta nas suas relações socias. Nesta direção, Keen conclui:
Em vez de nos unir entre os pilares digitais de uma polis aristotélica, a mídia social de hoje na verdade estilhaça nossas identidades, de modo que sempre existimos fora de nós mesmos, incapazes de nos concentrar no aqui e agora, aferrados demais à nossa própria imagem, perpetuamente revelando nossa
localização atual, nossa privacidade sacrificada à tirania utilitária de uma
rede coletiva (KEEN, 2012, p.23, grifos do autor).
A afirmação do autor indica que deixamos nossa privacidade de lado para partilharmos nossas informações sem nenhum pudor, já que as tecnologias digitais promovem esta prática, e não o fazer é estar de fora das relações sociais mediadas pelas tecnologias digitais. Andrew Keen (2012, p.31) enfatiza que “todos nos tornamos wikileakers- em versões menos famosas e não menos subversivas de Julian Assange- de nossas próprias vidas e agora também da vida dos outros” (grifos do autor). Keen afirma que os usuários das mídias sociais, ao comparar com o site WikiLeaks, responsável por vazamentos de documentos secretos de governos e instituições, se tornaram informantes de si mesmos, expondo segredos e particularidades que antes da digitalização da sociedade ficariam no âmbito privado ou seria partilhado com pessoas próximas a este indivíduo.
Erika Oikawa (2016, p.94) analisa que o ambiente virtual é pautado pela performance do usuário em suas mídias sociais. A pesquisadora utiliza a proposta de Erving Goffman, que entende performance como:
O homem em sociedade, a todo momento, age como um ator diante de seu público: desempenhando diferentes papéis e tentando controlar as impressões que os outros possam ter dele, por meio de diferentes modos de agir e de se comportar, que variam de acordo com os seus propósitos e suas motivações (OIKAWA, 2016, p.94).
Para Oikawa, as interações na rede acontecem a partir de como o indivíduo se apresenta nas mídias sociais. A autora baseia sua afirmação nas considerações que Maria Elisa Máximo faz sobre ao investigar as ações dos usuários em seus blogs, onde:
[...] não basta ser o que se deseja ser, mas também é preciso ser aquilo que os outros esperam que seja. Isto resulta num processo de negociação permanente que se evidencia na escolha das falas, do que se escreve e de como se escreve, bem como na escolha de cada item, de cada imagem, de cada informação, de cada detalhe que compõe um blog (MÁXIMO apud OIKAWA, 2016, p.95).
Nesta direção, os usuários das mídias sociais realizam performances para serem aceitos entre os participantes da rede. Paula Sibilia (apud OIKAWA, 2016, p.100) introduz o conceito de vitrines midiáticas, onde os usuários transformam sua privacidade em espetáculo e tratam essa performance como uma marca. A gerenciam para ganhar mais visibilidade e assim atingir um maior status de atenção dentro da rede, tanto para os amigos próximos quanto aos estranhos. Um dos aspectos deste gerenciamento da marca pessoal nas mídias sociais, está na aparência. Christian Rudder (2015, p.130) destaca:
[...] O mito da beleza, (para) as mídias sociais representam o Dia do Juízo Final. A sua foto está anexada a praticamente tudo, cada currículo, cada inscrição em site, cada post. Se as pessoas querem saber o que você está fazendo, elas verão sua aparência. Não porque deveriam e só porque isso é possível [...]. Há apenas dez anos era quase impossível ligar o nome de uma pessoa a foto dela. Agora, basta jogá-lo no Google (todo mundo faz isso) e surge a miniatura de foto vinda de alguma rede social.
Rudder (2015, p.130) continua ao dizer que os usuários das mídias sociais sempre escolhem a melhor foto para publicarem e completa:
Escolham com sabedoria, amigos, porque ela define você de um jeito inédito. Há um impulso nessa tendência que pode não ser óbvio para quem trabalha na indústria. O novo padrão de design usado nos últimos dois anos, mais aberto e centrado nas imagens [...], dá mais importância não só às fotos, mas especificamente à beleza (2015, p.130, grifos do autor).
Porém, não é apenas a beleza física que define uma boa visibilidade nas mídias sociais para o usuário, mas também suas opiniões. As mídias sociais permitiram ao indivíduo se unir com aqueles que possuem as mesmas impressões de mundo e divulgar suas ideias sem nenhum pudor ou censura de que será repudiado, ao contrário, encontra voz em combater ideias contrárias as suas. Rudder (2015, p.141) analisa:
Assim, desse jeito irregular, nossos pensamentos ocultos estão ganhando o mundo. Com uma boa dose de criatividade na hora de digitar, alguns truques para driblar problemas e um pouco de matemática, estamos levando esse monólogo interno da humanidade a um público mais amplo. Expomos nosso lado nocivo e também o lado ridículo, e para esses impulsos nocivos os dados das buscas fornecem a exposição necessária.
Rudder (2015, p.141) continua:
Não é mais publicamente aceitável dizer algo racista, mas agora podemos saber que essas palavras ainda estão sendo faladas, mesmo quando a influência de desejabilidade social nos diz o contrário. Além disso, embora esse poder de detectar atitudes ocultas latentes seja novo, o poder de explorá- los não é, e isso faz com que esses dados sejam ainda mais importantes. Os pensamentos obscuros citados por Rudder estão sendo proliferados pelas mídias sociais através de grupos que pretendem defender uma causa ou ideia. Bradley Campbell e Jason Manning (2014, p.2) utilizam o conceito de microagressões, cunhado por Derald Wing Sue, para descrever os ataques feitos nas mídias sociais hoje devido a hipervisibilidade proporcionado pelos seus usuários. Microagressões podem ser definidas como “as indulgências diárias, verbais, comportamentais e ambientais, breves e comuns, que sejam intencionais ou não intencionais, que comuniquem hostilidade, depreciação ou negar uma
raça, sexo e orientação sexual, religiosos e insultos à pessoa ou ao grupo alvo” (SUE apud CAMPBELL; MANNING, 2014, p.2, tradução nossa35).
Campbell e Manning (2014, p.3) continuam a analisar as microagressões e descrevem que elas acontecem nas mídias sociais, em páginas onde são encorajadas as postagens que insultem pessoas e grupos os quais discordam, inclusive colegas de trabalhos e familiares. Campbell e Manning (2014, p.13) descrevem que um dos fatores para existir uma colaboração online focada em difamação e embate se deve a atomatização social, onde o usuário como ser individual consegue suprir suas necessidades pessoais, tal como a falta de aceitação, em grupos que o acolhem como um igual. Christian Rudder (2015, p.151) analisa que os usuários das mídias sociais não precisam se conhecer ou ter algo em comum, mas “uma hashtag a mão”. Para o pesquisador, “o alcance das mídias sociais faz com que a força desses agrupamentos seja imensa” (2015, p.151).
Rudder (2015, p.153), analisa que o capital social gerado pelas mídias sociais depende da quantidade de seguidores que irão aceitar as opiniões postadas. Em suas palavras: “Seja o primeiro a espalhar a notícia e recebe mais retuítes. Diga algo especialmente perspicaz e os seguidores o aplaudirão de pé” (2015, p.153). Rudder (2015, p.153) aprofunda sua análise ao dizer que a internet:
Transformou todos em figuras públicas. Antes, os indivíduos com status eram líderes e depois passaram a ser celebridades e presidentes, mas a foice niveladora da tecnologia mostrou seu lado reverso. Se qualquer um pode virar celebridade da noite para o dia, qualquer um pode virar um pária com a mesma rapidez. Um dos assuntos abordados pelos evangelistas da Internet de que menos gosto diz respeito à tecnologia dando poder às pessoas. Inevitavelmente, quem ganha poder é o palestrante e seus investidores. Mas aqui encontramos um pouco de verdade no clichê: as mídias sociais dão tanto poder ao usuário ao ponto de fazer com que valha a pena destruí-lo. Ao mesmo tempo, ela dá a todos as ferramentas para fazê-lo.
As celebridades virtuais citadas por Rudder, ganharam grande poder de influência sobre os usuários de mídias sociais, já que muitos as usam como fonte primeira de informação. Um exemplo de como a hipervisibilidade, onde tudo pode ser publicado, está no caso das adolescentes Audrei Potts, de 15 anos, e Daisy Coleman, de 14, retratados no documentário Audrei & Daisy (2016). As adolescentes sofreram abusos sexuais, a primeira ao ficar embriagada em uma festa com os amigos, que a despiram, escreveram palavras obscenas em seu corpo e tiraram fotos, posteriormente publicadas na rede. A segunda, foi violentada
35 Do original: the brief and commonplace daily verbal, behavioral, and environmental indignities, whether intentional or unintentional, that communicate hostile, derogatory, or negative racial, gender, and sexual orientation, and religious slights and insults to the target person or group.
por um amigo do irmão também depois de se embriagar, onde um vídeo foi gravado e postado na internet.
Audrei começou a receber uma série de mensagens através de suas mídias sociais, principalmente o Facebook, sobre o conteúdo das fotos. As mensagens a difamavam, a chamando de ‘mulher fácil’, entre outros xingamentos mais pesados. A exposição que Audrei teve na rede culminou com a adolescente cometendo suicídio.
Daisy sofreu a mesma exposição, porém, com o agravante de que a sociedade onde ela morava, uma pequena cidade no interior dos Estados Unidos, não acreditou nela e a culpou por querer incriminar o estuprador, mesmo que este tenha admitido o abuso. Daisy também recebeu diversas mensagens em sua timeline do Facebook a difamando, a adolescente também tentou cometer suicídio, mas não conseguiu. Hoje, Daisy vive com diversos problemas psicológicos e convive ainda com alguns ataques feitos virtualmente. O exemplo das adolescentes demonstra o poder que as mídias sociais têm de destruir a vida de um indivíduo, e os perigos da hipervisibilidade na rede.
Então, diante da análise da hipervisibilidade, verifica-se que uma de suas consequências é a disseminação do discurso de ódio e das fakes News. Os pesquisadores Virgilio Almeida, Danilo Doneda e Ronaldo Lemos (2018, online), analisam que “soluções legislativas que procuram entregar para o Judiciário a tarefa de punir notícias falsas, arbitrando o que é falso ou verdadeiro, têm como consequência atacar diretamente a liberdade de expressão e de informação – e correm o risco de serem ineficazes”.