CAPÍTULO IV OS TROLLS
4.9 O Gamergate
Em 2014, a desenvolvedora de games Zoe Quinn criou um jogo chamado Depression Quest, que tratava sobre depressão, principalmente ligado ao mundo dos jogos e o relacionamento que este possui em relação as minorias e as mulheres. O jogo de Quinn recebeu críticas positivas da mídia especializada em jogos independentes, como explica Angela Nagle (2017, p.21). Ainda segundo a autora, o que seguiu deste ponto em diante foi uma guerra sobre a ética no jornalismo de games e a entrada das mulheres neste espectro social, ou seja, virou uma batalha contra as feministas e jornalistas que defendem suas causas. “Isto se tornou possivelmente o maior flame war na história da internet até agora, uma reação exagerada em grande escala, onde todos acusam todos de mentirem ou de terem intenções maliciosas”, completa Nagle (2017, p.21, tradução nossa58).
Está escalada de ataques se iniciou quando Eron Gjoni, ex-namorado de Quinn, postou no 4chan que ela o teria traído. Junto com a acusação, Gjoni também publicou uma série de mensagens que trocou com Quinn, além de fotos íntimas de nudez, em resumo, ela sofreu o doxxing. A partir daí, como apresenta Nagle (2017, p.21), começam a utilizar suas imagens como pornô vingativo (quando imagens ou vídeos íntimos, normalmente postado por ex- companheiros, com a intenção de constranger a vítima), enviados a seus empregadores e familiares, além de ameaças de morte e estupro. A hashtag #gamergate foi popularizada pelo ator Adam Baldwin, junto com link que levava a um vídeo onde era feita uma denúncia que um dos jornalistas que fez uma crítica positiva ao jogo de Quinn, só a fez porque ambos tinham um relacionamento amoroso, o que se provou depois ser mentira (PARKIN, 2014).
Desse ponto em diante, outras feministas envolvidas nos mundos dos games, como desenvolvedoras ou críticas, começaram a serem atacadas com a mesma veemência. Nagle
58 Do original: It became possibly the biggest flame war in the history of the internet so far, na overreaction on grand scale, in wich everyone accused everyone else of lying and malicious intent.
(2017, p.21) explica que a situação ficou tão fora de controle, que o criador e administrador do 4chan excluiu a aba onde se discutia o Gamergate, que levou a saída de diversos membros do fórum e migraram para o 8chan, que permite postagens ainda mais libertinas.
Nagle (2017, p.23-24) analisa que o episódio do Gamergate espalhou as táticas dos trolls, antes confinadas nos chans, para a direita conectada nas mídias sociais. Esta vinda à tona da cultura channer aproximou apoiadores da extrema-direita e antifeministas para as mídias mainstream online e influenciou um grupo de jovens, em sua maior parte garotos, que se organizaram em torno de uma ideia de batalhar nesta guerra cultural promovida pela esquerda, contra o feminismo que, supostamente, queria ‘mudar’ como os games são feitos e jogados. Um dos principais disseminadores desta ideia foi o já citado Milo Yiannopoulos.
O influenciador da direita alternativa tentou a carreira jornalística e empreendedora, sem resultados, passou então a atacar o feminismo e o establishment no Twitter, onde conseguiu reunir uma audiência relevante (LEES, 2016). Em 2016, Yiannopoulos, devido a sua atenção em defender os ideais da direita alternativa, foi convidado a trabalhar no site de notícias Brietbart, cujo dono é outro personagem importante, Steve Bannon.
O estrategista de campanha de Donald Trump, em 2016, cresceu em uma comunidade operária nos Estados Unidos e serviu a Marinha, onde pensou em seguir carreira, mas desistiu. Trabalhou no banco de investimentos Goldman Sachs, depois tentou a sorte em Hollywood, para no fim produzir seus próprios documentários a favor da direita, mas todos estes empreendimentos não obtiveram resultados além das bolhas ideológicas, porém o ajudou a levantar uma fortuna estimada entre US$ 12 a US$ 50 milhões (ALEXANDER, 2018). Porém, seu envolvimento com o Gamergate passa por uma construção de uma análise que Bannon fez da comunidade gamer quando este trabalhou, em 2007, na empresa Internet Gaming Entertainment (IGE), que vendia itens dentro do jogo multiplayer online World of Warcraft. A empresa foi fechada por ter sido acusada pela desenvolvedora do jogo, a Activision Blizzard, de vender itens ilegais aos jogadores. Então, ela muda de nome para Affinity Media, e passa a criar sites sobre games (GRAYSON, 2016).
Em 2012, Bannon cria o Breitbart News e, como aponta o pesquisador Jeffrey Alexander (2018, p.1012), sobre a missão do portal:
O próprio Bannon conta ao público: “É preciso ter o espírito de um guerreiro!” E assim ele descreveu o éthos do Breitbart: “Nossa grande crença, um de nossos princípios organizadores centrais na página, é: estamos em guerra... É guerra. É guerra. Dia a dia, propagamos: a América está em guerra, a América está em guerra. Estamos em guerra”.
No cerne da ideologia Bannon há uma série de contrastes extraordinariamente simplificadores entre bom e mau, sagrado e profano. Essa série semiótica cria perigosos outros, cuja existência contínua ameaça a boa gente que constitui o que Bannon descreve como a “verdadeira América” (2018, p.1013).
Bannon utiliza o Breitbart para disseminar esta ideologia, ao pregar nas matérias o desprezo a imigrantes não brancos, exalta a conspiração do globalismo, louva a propriedade privada e vê o pobre como desqualificado, o cristianismo como única religião possível e que as elites financeiras prejudicam o povo, “essa entidade vaga, misteriosa, que ele e outros populistas evocam de forma tão reverente”, completa Alexander (2018, p.1013). Este histórico de Bannon revela que o Gamergate abriu as portas para que ele disseminasse suas ideias, já que o movimento confrontava a mídia e as pautas progressistas, consideradas inimigas pelo defensor da direita alternativa. Bannon também foi fundador e vice-presidente da Cambridge Analityca, responsável pela campanha de Trump e acusada de violar a privacidade de mais de 230 milhões de contas do Facebook. Com esses dados, a empresa traçou o perfil psicológico dos eleitores americanos, sendo decisivo na campanha vitoriosa de Trump a Casa Branca (CADWALLDR, 2018). Existe a suspeita de que a mesma tática também foi utilizada em outras eleições ao redor do globo, como o Brexit, no Reino Unido, e no Brasil (DAYRELL e BAGRATINI, 2017).
Yiannopoulos foi recrutado por Bannon para fazer parte do Brietbart, em 2015, e passou uma missão para ele: capitalizar os acontecimentos do Gamergate para a causa da direita alternativa. Yiannopoulos começa a articular uma série de táticas que envolvem os membros do 4chan e do 8chan e começa a produzir uma série de matérias sobre o tema e a organizar ataques, principalmente às mulheres, que supostamente estariam envolvidas no escândalo (BERNSTEIN, 2017). Nos dias atuais, Yiannopoulos já não possui a mesma influência e sucesso de antes, e Bannon saiu da Casa Branca e voltou ao Brietbart, porém suas ideias já ficaram enraizadas na guerra cultural pela qual passa a política. Como Jeffrey Alexander (2018, p.1018) conclui:
Bannon funciona como uma droga para melhora de desempenho. O segredo de seu poder sobre Trump, e sobre um amplo segmento do povo americano, tem sido suas habilidades mitopoéticas, escrever o roteiro, preparar o palco, encontrar os atores e dirigir a encenação de forma tão eficaz, que as ideias antidemocráticas cheguem a parecer, para muitos americanos, sensíveis e inspiradoras, ao passo que as ideias democráticas parecem irracionais e profanas.
O escopo dessa influência também passa pelos trolls. O Gamergate serviu para que os trolls saíssem dos chans e vissem para o mainstream das mídias sociais e passassem a
defender as ideias da direita alternativa. Esta influência começa a atingir os outros membros das mídias sociais que nunca frequentaram os chans e agem como trolls. Esse fenômeno começou a ser chamado de trollplex, ou seja, o complexo troll que cada vez mais começa a se tornar o lugar comum no debate feito online. Porém, é necessário entender um pouco mais sobre esta guerra cultural e como os trolls channers a encaram e como a denominam.