CAPÍTULO II – A SOCIEDADE CONECTADA
2.3 Dataísmo
O historiador Yuval Noah Harari (2016, p.370) descreve que há na sociedade científica atual a fé que ele denomina de dataísmo. Segundo Harari, o dataísmo consiste que o universo é feito através de um fluxo de informações onde qualquer fenômeno é quantificado segundo ao seu processamento de dados. Harari (2016, p.370) explica que o dataísmo veio da confluência de duas áreas da ciência: o evolucionismo darwinista e a ciência da computação.
O dataísmo reúne os dois, assinalando exatamente as mesmas leis matemáticas se aplicam tantos aos algoritmos bioquímicos como aos eletrônicos. O dataísmo, portanto, faz ruir a barreira entre animais e máquinas com a expectativa de que, eventualmente, os algoritmos eletrônicos decifrem e superem os algoritmos bioquímicos (HARARI, 2016, p.370).
Harari (2016, p.370-371) continua sua análise ao indicar que “para políticos, homens de negócios e consumidores comuns, o dataísmo oferece tecnologias inovadoras e poderes inéditos e imensos”. A afirmação do historiador se faz presente na proliferação de dispositivos digitais e nas suas promessas de melhorar a relação com o capital, diminuir a burocracia e promover uma melhor comunicação interpessoal. John Naisbitt (2006, p.18-19) descreve essas promessas:
Ela promete nos tornar melhores, mais espertos e inteligentes, aumentar nosso desempenho e nos fazer mais felizes. Promete ser mais rápida, mais barata e mais fácil do que tudo o que já apareceu antes. A tecnologia jura que nos oferece segurança, estabilidade, privacidade e controle, ao mesmo tempo que traz paz à nossa mente e nos mantém livres de preocupações. A tecnologia promete nos conectar com o mundo todo e nos manter próximos dos nossos amigos e da nossa família. Ela registra e nos traz à lembrança momentos preciosos da vida.
Yuval Noah Harari (2016, p.370-371), também atesta que o dataísmo não atinge apenas aos consumidores e a área empresarial com suas promessas, mas também a comunidade científica. Para o historiador, o dataísmo cria “uma teoria única e abrangente capaz de unificar todas as disciplinas científicas, da literatura e musicologia à economia e à biologia” (2016, p.370-371). Harari (2016, p.371) explica que esta crença nos dados entende que não são apenas as máquinas que possuem algoritmos, mas também os seres vivos e, mais além, “não são apenas os organismos individuais que estão sendo considerados sistemas de processamento de dados- são sociedades inteiras, como colmeias de abelhas, colônias de bactérias, florestas e cidades humanas” (2016, p.371). Nesta direção, o dataísmo indica que a vida e os aspectos materiais e imateriais dela são quantificáveis e que as tecnologias podem encontrar soluções práticas para os problemas de se viver em sociedade.
A tendência de se adotar as promessas do dataísmo são encontradas ao analisar as inovações tecnológicas que surgem no século XXI. Frédéric Martel (2015, p.12) acredita que a internet cada vez mais se torna “smart”, que em inglês significa inteligente ou astucioso. Para o autor, smart remete as tecnologias que possuem usos diferentes:
fala-se de smartphone, de smart city (cidade inteligente), de smart grid (rede de energia inteligente), de smart economy, de smart window (janelas que mudam de cor para se adaptar à luz e ao calor), de smart TV (televisão conectada ou social TV, que se desenvolve graças as redes sociais), de smart power, para falar como Joseph Nye e Barack Obama, e de um mundo smarter (MARTEL, 2015, p.12).
A concepção de uma sociedade “smart”, como descreve Martel, se encontra no que Harari (2016, p.384) vai chamar de mandamentos do dataísmo. Para Harari, o primeiro mandamento infere que “um dataísta tem de maximizar o fluxo de dados conectando-se cada
vez a mais mídias, produzindo e consumindo mais e mais informação”. A proliferação de dispositivos smart é a prova de que este mandamento está em total concordância com os hábitos de uma sociedade conectada. Martel (2015, p.12-13) analisa que smart, então, se tornou o sinônimo de internet e permite entender a digitalização da sociedade junto com as tecnologias e suas aplicações. Neste sentido, Harari (2016, p.384-385) descreve o segundo mandamento de um dataísta, onde:
É conectar tudo ao sistema, inclusive hereges que não querem ser conectados. E “tudo” quer dizer mais do que humanos. Quer dizer tudo quanto é coisa. Meu corpo, é claro, mas também os carros na rua, as geladeiras na cozinha, as galinhas em sua gaiola e as árvores na floresta- tudo deveria se conectar à internet de todas as coisas (grifos do autor). Harari (2016, p.385) conclui que no dataísmo o maior direito a ser defendido é a de liberdade de informação. O historiador defende que a liberdade de informação é um valor realmente inovador, que não acontece desde a Revolução Francesa, porém, descreve que liberdade de informação não indica o “velho ideal de liberdade de expressão”:
A liberdade de expressão foi dada aos humanos e protegeu seu direito de pensar e dizer o que quisessem- inclusive o direito de manter a boca fechada e seus pensamentos para si. A liberdade de informação, em contraste, não é dada aos humanos. Ela é dada à informação. Mais do que isso, esse novo valor choca-se com a tradicional liberdade de expressão, ao privilegiar o direito da informação circular livremente em detrimento do direito dos humanos de manterem os dados para si e impedirem sua movimentação (HARARI, 2016, p.385).
Diante deste contexto de uma crença nos dados e de que a informação está livre para ser compartilhada, o significado de social também começa a se modificar em uma sociedade dataísta. José Van Dijck (2016, p.380) analisa que na sociedade digitalizada, o social engloba tanto a conexão humana como a conectividade automática, ou seja, mediada pelos dispositivos digitais. O autor acrescenta que o social das redes significa fazer da sociabilidade um aspecto técnico. Para Van Dijck (2016, p.389), “esta sociabilidade tecnologicamente codificada converte as atividades das pessoas em fenômenos formais, gerenciados e manipulados, o que permite as plataformas dirigirem a sociabilidade das rotinas cotidianas dos usuários” (tradução nossa18).
A digitalização na qual passa a sociedade começa a deliberar às aplicações decisões (ou práticas) antes feitas pelas pessoas, em uma hibridização entre softwares e vida real. Para
18 Do original: Esta socialidad tecnologicamente codificada convierte las atividades de las personas en fenómenos formales, gestionables y manipulables, lo que permite a las plataformas dirigir la socialidad de las rutinas cotidianas de los usuarios.
o sociólogo Massimo Di Felice (2017, p.11), existe a necessidade de se pensar em uma nova forma de comunicação após a digitalização da sociedade. Para o pesquisador:
Após a difusão da banda larga e da Internet das coisas, dos Big Data e das diversas formas de conexão de todo tipo de superfície, tem contribuído para a criação de ambientes comunicativos reticulares e interativos, semelhantes a ecossistemas no interior dos quais, mais do que a simples transmissão de informações, criam-se condições habitativas específicas, capazes de alterar o estatuto inicial de natureza dos membros, humanos e não humanos, e de fomentar processos de hibridização e de transespecificidade (2017, p.11). Diante deste contexto, o dataísmo tem sua relevância no que tange à uma sociabilização mediada por dispositivos digitais que não apenas influem nas interações, mas também no habitar. Ainda para Di Felice (2017, p.101) há ainda uma relação mais profunda entre ser humano e tecnologia. Para ele:
O que resulta claro na passagem das ecologias comunicativas eletrônicas àquelas em rede é que nessas o processo comunicativo é completamente dependente de múltiplas interações, que se instauram não apenas entre indivíduos e tecnologias (media), mas entre um conjunto múltiplo de interações e conexões entre fluxos informativos, dispositivos móveis, banco de dados e aplicativos com várias funções (2017, p.101).
Di Felice (2017, p.124) explica que estes aplicativos permitem a criação de interações em múltiplos formatos, tais como vídeo e música, mas também permite “outra e qualitativa contribuição à especificidade das relações e da participação on-line”, devido aos dispositivos móveis:
[...] isto é, a propagação, no mercado, de dispositivos móveis e as formas de acesso wi-fi que têm permitido a difusão de um novo tipo de sociabilidade atópica e Always online, que significaria uma alteração qualitativa das relações sociais e das dinâmicas de interação (2017, p.124).
Ainda para Di Felice (2017, p.125), o acesso contínuo que os dispositivos móveis oferecem alteram a própria estrutura social e, por consequência, as interações. O sociólogo atesta que:
O que, de fato, a comunicação a fibra ótica e a cloud computing – externalizando os dados do computador e as interações – produzem é a criação de ambientes de compartilhamento, no interior dos quais se acessa não somente informação, mas também relações, interações, conhecimento, conteúdos, afetividades etc. Tais ambientes constituem ecologias comunicativas e condições habitativas com características dinâmicas e interações próprias (DI FELICE, 2017, p.125).
Nesta direção, o habitar também começa a sofrer mudanças. Di Felice (2017, p.13) descreve que as tecnologias digitais com a difusão com que o autor classifica de social networks, origina uma forma de conexão não apenas social, que também conecta, em tempo
real, “pessoas, dispositivos, informações, territórios e dados de toda a espécie”. Para Di Felice, estas novas formas de interação, baseadas nos dados, representa uma mudança no habitar, um espaço onde tecnologias, humanos e natureza convergem e interagem, um espaço híbrido.