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Deus Vult, Homens Sanctus e Incels

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CAPÍTULO IV OS TROLLS

4.10 Deus Vult, Homens Sanctus e Incels

O tom bélico criado por Bannon se disseminou entre a direita alternativa mundial e ditou o discurso de seus seguidores. O professor de história medieval, Paulo Pachá (2019, online), destaca outro ponto: a retomada de um discurso da necessidade em realizar novas Cruzadas para salvar o Ocidente contra as forças islâmicas e do que chamam de Marxismo Cultural. Este conceito criado pela direita alternativa indica a existência de “um grande movimento internacional de esquerda, chamado marxismo cultural, cujo objetivo é redefinir os conceitos mais sólidos da civilização ocidental, como família, patriotismo, artes clássicas e respeito às leis e à tradição”, explica Tiago Cordeiro (2019, online).

O marxismo cultural reforça o discurso da direita alternativa propagada por Bannon de uma necessidade da guerra cultural em prol da civilização ocidental, daí o uso de uma simbologia que remete as Cruzadas. Pachá (2019, online) destaca o tweet de Felipe Garcia Martins, atual assessor para assuntos internacionais da presidência, após a vitória de Jair Bolsonaro, onde postou que: “Está decretada a nova cruzada. Deus Vult!” e “A nova era chegou. É tudo nosso! Deus Vult!”.

O termo significa ‘Deus quer’, em latim, e data de 1905, quando o papa Urbano II anunciou a primeira Cruzada e teve como resposta do povo o grito de ‘Deus Vult’. Apesar do exemplo brasileiro, o termo se faz presente em textos, mídias sociais, camisetas e até tatuagens de apoiadores da direita alternativa desde que Donald Trump se lançou candidato em 2016 (RUDNITZKI e OLIVEIRA, 2019).

A atração que a direita alternativa tem por esta narrativa é explicada por Pachá (apud RUDNITZKI e OLIVEIRA, 2019, online):

Essas ideias de Cruzada e de Idade Média têm a ver com uma visão bastante idealizada e bastante parcial do que foi o período. O que atrai esses grupos é pensar que foi um tempo patriarcal, branco e cristão. Essa Idade Média nunca existiu, mas tem esse papel no pensamento desses grupos.

As Cruzadas são especialmente exaltadas porque são um momento no qual esses três elementos [patriarcal, cristã e branca] estão muito bem representados. Nessa visão das Cruzadas, você teria um movimento bélico liderado por um grupo visto como majoritariamente masculino; um elemento que envolve a questão religiosa – as Cruzadas como primordialmente um conflito religioso entre cristianismo e islamismo – e, além disso, a ideia de uma disputa plurissecular entre Ocidente e Oriente.

Pachá (apud RUDNITZKI e OLIVEIRA, 2019, online), ainda destaca como o papel imaginário do homem, como dominante, é importante para este pensamento:

A outra questão que também vai ser um alvo claro para esses grupos é o feminismo. Esses grupos vão numa versão parcial e absurda da Idade Média e procuram um passado idealizado. Para eles, na Idade Média os homens eram viris, eram efetivamente masculinos, poderosos, podiam defender a sociedade. E as mulheres eram, entre muitas aspas, “mulheres de verdade”, mulheres que eram submissas aos homens, que estavam preocupadas em cuidar da família.

O professor também cita o racismo como outro fator que integra o ideário destes grupos, onde o homem branco, baseado no estereótipo europeu, é o único civilizado e capaz de levar ao desenvolvimento econômico-social. Nesta direção, dentro dos chans, os trolls também adotaram o Deus Vult e o imaginário medieval e começaram a se chamarem de santos, para se referirem estarem em uma missão divina para salvarem a civilização ocidental.

Se autodenominam de Homens Sanctus, ou Homens Santos, cuja intenção é realizar, em algum momento, um Actum Sanctus, ou Ato Santo. A ativista feminista Lola Aranovich (2012, online), que por sua militância é perseguida por estes grupos, analisa que os fóruns onde eles atuam é composto por mensagens que defendem a morte de homossexuais, afrodescendentes, defensores da esquerda e feministas. Como descrito anteriormente por Pachá, e com base na construção ideológica feita por Bannon, os Homens Sanctos pretendem eliminar qualquer ameaça a sociedade ocidental, preservar a branquitude e colocar o homem como dominante, relegando as mulheres o papel de submissas aos desejos masculinos.

Neste ponto, outro fator que pode fazer parte da personalidade de um Sancto, é o Incel. O termo é uma abreviação em inglês para involuntary celibacy (celibato involuntário), e indica pessoas, em sua maioria homens, que ainda não tiveram relações sexuais, mas não por opção, por não conseguirem. Assim, culpam a pessoa do sexo oposto, normalmente mulheres (PADRÃO, 2019). Lucia Nguyen (2018, p.53) analisa que os Incels sacralizam um pacto e que precisam protegê-lo. Alienam a sociedade ao usarem termos pejorativos, como normies, e que seus fóruns (os chans e algumas páginas do Reddit) funcionam como escolas para treinarem gladiadores ideológicos. Ao se autoproclamarem como vítimas, continua Nguyen

(2018, p.53), também se declaram vitoriosos por terem um pensamento superior ao resto da população.

O Ato Sancto, então, seria a conclusão de toda esta ideologia bélica criada pela direita alternativa e que alimenta os trolls, e se referem a atos de violência, tanto física (e até mesmo fatal), quanto de assédio em mídias sociais. Alguns episódios destes atos são trágicos, como o massacre em uma escola no Realengo, em 2011 (SCHUINDT, 2019), onde um atirador ceifou a vida de 12 pessoas, em sua maioria mulheres. O assassinato em massa em uma escola em Suzano, em 2019 (CORDEIRO, 2019), quando dois jovens mataram sete pessoas, sendo cinco estudante. Para finalizar, o Ato Sancto são as ameaças feitas ao ex-deputado federal Jean Wyllys, que fez com que o parlamentar renunciasse ao mandato e se refugiasse fora do país. Curioso notar que neste caso um dos membros do grupo que ameaçaram Wyllys, o Dogolachan, já estava preso desde 2018 (BRANDT, MACEDO e MORAES, 2019).

A cruzada moral na qual acredita os trolls como demonstrado no Gamergate e nos Atos Sanctos, apresentam a grande influência que estes possuem nas mídias sociais. Com o tempo, seus atos deixaram os chans e o submundo da web e começaram a influenciar o debate feito online, onde eclode no mainstream das redes estes gladiadores ideológicos preparados para atuarem em sua guerra cultural.

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