Capítulo 4. O poder pastoral
4.2. As condutas pastorais
Os indivíduos precisam seguir o caminho da salvação e necessitam ser conduzidos – assim como toda a comunidade – por tal via (FOUCAULT, 2008a, p. 222). Precisam seguir a lei de Deus e aceitá-la como verdade. Mas a especificidade do pastorado está, de acordo com Foucault, muito mais próxima às relações de “tenacidade e complexidade” entre o pastor e o rebanho, do que necessariamente aos fundamentos da salvação, lei e verdade. E é a essas especificidades que Foucault dedica sua análise sobre o poder pastoral.
O pastor cristão é um administrador constante, pois, por ser o responsável por seu rebanho, compartilha tanto os méritos quanto os deméritos de suas ovelhas. O pastorado é uma economia cotidiana muito detalhada, que é capaz de salvar e dar a paz ao rebanho, e ao próprio pastor. O primeiro ponto ou regra que guiam a pastoralidade é justamente aquilo que Foucault chama de “distributividade integral” do pastorado (FOUCAULT, 2008a, p 224), ou seja, aquilo que implica uma responsabilidade compartilhada que utiliza, inclusive, da possibilidade do sacrifício de uma ovelha desgarrada, em prol de todo o rebanho.
26 São João Crisóstomo (347-407), viveu em Constantinopla, e é considerado um dos “Doutores” da Igreja Católica.
27 São Cipriano (Táscio Cecílio Cipriano),viveu em Cartago no século III, e é considerado um dos mártires da Igreja Católica, pois foi perseguido e morto pelo Império Romano antes desse aceitar o cristianismo no século IV.
28 Santo Ambrósio (340-397) é considerado um dos quatro doutores máximos da Igreja Católica, foi bispo de Milão, e quem concedeu o batizado católico a Santo Agostinho.
29 São Gregório, ou Gregório, o Grande (540-604) foi o 64º Papa da Igreja Católica, e também é considerado um dos Doutores da Igreja.
100 Essa distributividade integral tem outros quatro princípios que regem a prática pastoral. O primeiro é a responsabilidade analítica, na qual o pastor responde tanto por todo o rebanho quanto por cada uma das ovelhas. O segundo é a transferência exaustiva e instantânea, na qual toda a ação do rebanho e de cada ovelha é uma ação do próprio pastor, que terá que responder por elas como que se respondesse por si. A terceira é a inversão do sacrifício, ou seja, o pastor deve estar disposto a morrer pelo rebanho, se necessário, pois quem deve pagar pelo pecado das ovelhas é o pastor. E o quarto e último princípio é o da correspondência alternativa, quando o rebanho é rebelde e indócil, o faz com que o pastor tenha encontrado a sua própria salvação, ao ter lutado contra e por essas ovelhas que insistiram em não seguir o caminho de Deus.
Esse conjunto de princípios mostra que o rebanho ou obedece de modo efetivo o pastor, ou não conseguirá se salvar das chamas do inferno. O pastor, ao agir como “o cura” da alma, exige que o seu rebanho siga fielmente a todas as prescrições ditadas, de modo que a doença/pecado regrida, seja eliminada e não volte nunca mais.
Para tanto, é necessário que o rebanho obedeça piamente e cegamente o pastor. Essa obediência, como uma virtude, acaba se tornando a própria salvação. Mais do que um caminho para tal, obediência se torna o próprio fim da prática pastoral (FOUCAULT, 2012, p. 360). E é na apatheia, como vontade de ausência na paixão30, e como livramento de uma obstinação (FOUCAULT, 2012, p. 361), que o rebanho precisa se forçar para conseguir fugir do mal da tentação interna, para poder ser suficientemente e constantemente obediente ao pastor.
Observando principalmente os textos Regula Pastoralis de Santo Ambrósio e
Liber Pastoralis de São Gregório, Foucault afirma que o pastor, para sua
comunidade e com o rebanho, tem uma tarefa primordial, que é o ensino. E não somente um ensino como missão de verdade, mas como direção de conduta cotidiana e como um direcionamento de consciência (FOUCAULT, 2008a, p. 238- 239).
O pastor, ao ensinar a vigilância sobre as práticas diárias de suas ovelhas, tanto vigia o comportamento – ao saber o que as pessoas fazem cotidianamente –
30 Foucault, 2008, p. 235-236. Aqui Foucault aborda principalmente as noções ideais das regras de São Bento sobre o que seriam os bons monges.
101 quanto permitem que elas sejam vigilantes constantemente sobre a sua própria conduta:
A conduta é, de fato, a atividade que consiste em conduzir, a condução, se vocês quiserem, mas é também a maneira como uma pessoa se conduz, a maneira como se deixa conduzir, a maneira como é conduzida e como, afinal de contas, ela se comporta sob o efeito de uma conduta que seria ato de conduta e de condução. (FOUCAULT, 2008a, p. 255)
Essa conduta, além de ser generalizada, ainda precisa ser específica a cada uma das ovelhas, e é por isso que é necessário o trabalho de direcionamento das consciências, a qual será primordial para o salvamento individual dessas ovelhas. E se cada uma buscar cegamente a sua salvação, é muito provável que todo o rebanho se salve. E aqui há o deslocamento da prática pastoral para a educação ambiental pode ser previamente realizado – e justificado como um dos escopos dessa tese – pois, ao se tratar como a prática que tornará possível a tomada de consciência que permitirá aos seres humanos serem salvos da hecatombe ecológica cada vez mais iminente, a educação ambiental busca se implantar justamente como a direcionadora de condutas e consciências que buscará a redenção humana. Mas, nesse caso, não em relação à salvação e à vida eterna, mas em relação à própria existência e perpetuação da humanidade no planeta. É possível até partir do pressuposto que a própria mortificação e renúncia ao mundo (FOUCAULT, 2012, p. 362) é que serão necessárias como forma de preservar esse próprio mundo.
No entanto, Foucault sugere que o pastor precisava conhecer o estado de cada ovelha no rebanho antes de começar a conduzi-la pelo caminho da salvação, além de muitas vezes precisar provê-la e salvá-las das recaídas em tentação (FOUCAULT, 2012, p. 361). Para se assegurar disso, a prática pastoral cristã se apropriou de duas ferramentas helênicas: o exame de consciência e a direção de consciência (FOUCAULT, 2012, p. 361). Se na Grécia clássica as duas práticas eram episódicas, esporádicas e voluntárias, no cristianismo são obrigatórias, cotidianas e perpétuas (FOUCAULT, 2008a, p. 401).
Essas duas práticas são tão enaltecidas por Foucault, que ele afirma enfaticamente que não é possível entender a história da sujeição no Ocidente, sem entender a pastoral cristã e suas práticas de individuação por meio da direção e do
102 exame de consciência. A primeira era justamente a prática de se deixar conduzir a cada passo dado. É necessário obedecer ao pastor a todo o instante, para não se correr o risco de se desgarrar e de se perder. Por sua vez, o exame era a inteira abertura da alma da ovelha ao pastor (FOUCAULT, 2012, p. 361), ou seja, ao dizer as tentações, desejos e pecados pensados e feitos, o confesso busca ajuda para o redirecionamento de sua alma:
[...] em relação à verdade, embora o cristianismo, o pastor cristão, de fato ensine a verdade, embora obrigue aos homens, às ovelhas, a aceitar certa verdade, o pastorado cristão inova absolutamente ao implantar uma estrutura, uma técnica, ao mesmo tempo de poder, de investigação do exame de si e dos outros. Pela qual certa verdade, verdade secreta, verdade da interioridade, verdade oculta, vai ser o elemento pelo qual se exercerá a obediência, será assegurada a relação de obediência integral, e através do que passará justamente a economia dos méritos e deméritos. (FOUCAULT, 2008a, p. 242)
O pastorado, conclui Foucault a aula de 22 de fevereiro de 1978, é o prelúdio da governamentalidade. Em primeiro lugar, por estabelecer diversos tipos de relações sobre os primados da salvação, da lei e da verdade. Em segundo, por constituir o sujeito obediente, que o é pela extração da verdade que lhe é imposta. Mas, antes de me debruçar sobre a governamentalidade, duas palavras finais sobre a pastoral e as condutas.
Mais do que um jogo entre Igreja e Estado, provavelmente as práticas políticas nas sociedades modernas estejam intrinsecamente integrada à dinâmica que existe entre o pastorado e o governo. Foucault sugere que, devido ao amplo fenômeno das insurreições de condutas nos últimos séculos da Idade Média, foi necessário ao pastorado não diminuir suas forças, mas justamente ao contrário, ou seja, ampliar o vigor e o poderio da prática pastoral, aumentando, assim, sua abrangência, pois, passa a atingir não mais somente as pequenas comunidades, mas populações cada vez maiores. Além disso, esse novo governo dos humanos passam a abordar problemas não observados pelos teóricos pastorais do fim da Antiguidade e do começo da Idade Média, como a própria vida material, a higiene e a educação das pessoas (FOUCAULT, 2008a, p. 308).
103 As condutas se multiplicam, intensificam e passam a direcionar as almas, não a partir de uma perspectiva somente eclesiástica e religiosa, mas principalmente a formação das crianças. É necessário intervir nas práticas sanitárias e sexuais não mais como um problema relativo unicamente à salvação das almas, mas como questões de saúde pública. Mas, se o esforço pelo direcionamento das condutas se mantém, a razão pastoral perde espaço para a razão de governar.
Essa perda ocorre, pois a imagem de Deus como um pastor, a partir do século XVII dá lugar a um Deus que não governa mais provisionando, vigiando, guiando e salvando as almas, mas que soberanamente governa a partir dos princípios físicos gerais que comandam o planeta (FOUCAULT, 2008a, p. 316). Governar a partir dos princípios naturais que regem o mundo não é mais governar sob os padrões e modelos de condutas, apesar do seu uso ser constantemente evocado nas práticas políticas contemporâneas e, especialmente, no exercício da educação ambiental. Mas, será transformado em exercícios de soberania definidos pelas artes de governar, que rapidamente darão espaço ao biopoder, em forma de anatomopolítica, biopolítica e ecopolítica.
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