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1. MOMENTO ATUAL CONCEITO TRATADOS INTERNACIONAIS CAUSAS

1.4. As apontadas como principais causas e consequências da corrupção

1.4.2. Consequências

Diz a Convenção penal sobre a Corrupção da União Europeia:

“Sublinhando que a corrupção constitui uma ameaça para o Estado de direito, a democracia e os direitos do homem, mina os princípios de boa administração, de equidade e de justiça social, falseia a concorrência, entrava o desenvolvimento económico e faz perigar à estabilidade das instituições democráticas e os fundamentos morais da sociedade.”249

Nesta linha de argumentação, tal como as causas, as consequências dos atos de corrupção remontam a diversas formas e estruturas, tudo a partir do ângulo a ser direcionado pelo aplicador do direito, pelo intérprete ou pela ciência empregada a descortinar tais consequências.

249 Disponível em http://www.gddc.pt/cooperacao/materia-penal/textos-

Surgem daí aspectos econômicos, culturais, sociais, filosóficos e jurídicos, muito embora seja praticamente impossível isolar absolutamente um destes aspectos dos outros.

O trecho transcrito, oriundo da União Europeia, confirma a assertiva há pouco empregada. Veja-se que as consequências ali apontadas vão desde nuances políticos (democracia e instituições democráticas), passam por aspectos jurídicos (Estado de Direito e justiça social) e econômicos (livre concorrência e desenvolvimento econômico) para encerrar em questões de natureza filosófica, sociológica e moral (fundamentos morais da sociedade).

Num passado não muito distante existiram teses defensivas da corrupção, denominadas revisionistas, que se ancoravam em discursos sedimentados nos aspectos positivos da corrupção para a modernização da economia e da sociedade em geral. Neste pormenor é imperiosa a menção à obra de Samuel P. Huntington, professor da Universidade de Harvard e autor das seguintes afirmações:

“Nesse sentido, a corrupção é um produto direto da ascensão de novos grupos, com novos recursos, e dos esforços desses grupos para se tornarem uma presença efetiva na espera política. A corrupção pode ser o meio de assimilar novos grupos no sistema político, usando-se meios irregulares porque o sistema foi incapaz de adaptar-se suficientemente depressa para proporcionar meios legítimos e aceitáveis.”250

“A corrupção serve para reduzir as pressões grupais para as mudanças de políticas, assim como a reforma serve para atenuar as pressões de classe para as mudanças estruturais.”251

“Assim como a corrupção produzida pela expansão da participação política contribui para a integração de novos grupos no sistema político, a corrupção decorrente da expansão da intervenção governamental pode contribuir para estimular o desenvolvimento econômico. A corrupção pode ser um meio de superar as normas tradicionais ou os regulamentos burocráticos que emperram o desenvolvimento.”252

Na atualidade, ao contrário, existe grande consenso253 em considerar os efeitos da corrupção amplamente nefastos consoante já visto

250 HUNTINGTON, Samuel P. A ordem política nas sociedades em mudança. São Paulo:

Editora Forense Universitária, 1975. p. 74.

251 HUNTINGTON, Samuel P. A ordem ..., p. 77. 252 HUNTINGTON, Samuel P. A ordem ..., p. 82.

253 MURIEL PATINO, María Victoria. Aproximación macroeconómica al fenómeno de la

acima. Eduardo A. FABIÁN CAPARRÓS, um dos maiores estudiosos sobre a corrupção, afirmou categoricamente que: “Sin embargo, los efectos positivos que puede generar el soborno a muy corto plazo constratan con las graves consecuencias que, a juicio de los expertos, produce sobre la economía

nacional y, en última instancia, sobre la de los particulares.”254

Assim é que, iniciando com vistas ao caráter econômico, os efeitos da corrupção atingem o grau e o volume de investimentos em um determinado país ou região, sendo já manifestamente comprovada a relação diretamente proporcional entre o grau de corrupção incidente em determinado país e as possibilidades de crescimento econômico em largo prazo.255

De acordo com MAURO, “conforme uma análise feita a partir dos índices de corrupção postulados pelo Business International (BI), uma evolução de um desvio-padrão no índice de corrupção provoca o aumento dos investimentos em 5% do PIB e a elevação em 0,5% da taxa anual de

crescimento do PIB per capita.”256

De outro lado, quando disseminada, a corrupção tende a gerar efeitos de maiores proporções e que atingem decisões de natureza política, bem como a qualidade do investimento público e a produtividade/efetividade do funcionalismo público e suas prestações.257 Tanto é assim que, a imperar a corrupção, o gasto público tende a se dirigir não a obras ou serviços com prioridade social e sim àqueles que possibilitem o ganho ilícito, o suborno e a propina.258 O uso do dinheiro público passa a ser viciado a partir da vontade viciada do corrupto259 o que pode ainda afetar a quantia do gasto público, pois parcela do dinheiro público gasto poderá ser desviado em favor do

Rodríguez Garcia e Eduardo A. Fabián Caparrós (coordinadores). Salamanca: Ratio Legis, 2004. p. 32. Da mesma forma BENITO SÁNCHEZ, Demelsa. El delito ..., p. 43.

254 FABIÁN CAPARRÓS, Eduardo A. La corrupción de los servidores públicos extranjeros e

internacionales (anotaciones para un derecho penal globalizado). In: La corrupción en un mundo globalizado: análisis interdisciplinar. Nicolás Rodríguez Garcia e Eduardo A. Fabián Caparrós (coordinadores). Salamanca: Ratio Legis, 2004. p. 230.

255 MALEM SEÑA, Jorge F. Globalización ..., p. 45.

256 MAURO, Paolo. Os efeitos da corrupção sobre crescimento, investimentos e gastos do

governo: uma análise de países representativos. In: A corrupção e a economia global. Kimberly Ann Elliott (organizadora). Brasília: Editora UnB, 2002. p. 140.

257 Cf. MALEM SEÑA, Jorge F. Globalización ..., p. 46.

258 Cf. MALEM SEÑA, Jorge F. Corrupción, racionalidad y educación moral. In: La

corrupción. Virgilio Zapatero (compilador). Ciudad de México: Ediciones Coyoacán, 2007. p. 174.

patrimônio de particulares e de funcionários corruptos260, quando não ocorre de o particular que se viu obrigado a pagar o suborno pretender recuperar seu custo a partir do preço cobrado – por ajustes no contrato – do poder público.261

A frase é de efeito, mas há de se dar razão a BENITO SÁNCHEZ ao afirmar que “los efectos económicos de la corrupción pueden ser devastadores, ya que ésta tiende a perpetuarse en el tiempo y a expandirse

en el espacio.”262 Atente-se, por exemplo, às consequências da corrupção

sobre a livre concorrência, interesse social inclusive protegido pela carta constitucional brasileira. Não se duvida que a incidência da corrupção acaba por sufragar a existência da liberdade da concorrência. Se não a elide por completo, ao menos diminui as possibilidades de competição justa entre fornecedores do governo, investidores, prestadores de serviços, industriais, entre outros. Gera-se, nas palavras de Edmundo OLIVEIRA, enfraquecimento e instabilidade nos negócios, particulares ou públicos263, favorecendo inclusive a geração de monopólios.264

As taxas de investimento de capitais, nacionais ou estrangeiros, também diminuem. Isso porque o investidor raciocina a partir da lógica custo- benefício e os países ou atividades contaminadas pela corrupção opõem-se ao correto desenvolvimento do negócio ou investimento a ser desenvolvido. O resultado é óbvio, fazendo com que o investidor direcione suas atividades a regiões e países não permeados pela corrupção.265

Afirma-se também que a corrupção prejudica a economia sob a leitura do consumo, diminuindo-o. Parte da renda das famílias, sob a égide de práticas corruptas, terá de ser destinada ao pagamento de propinas e

260 MURIEL PATINO, María Victoria. Aproximación ..., p. 33. 261 MURIEL PATINO, María Victoria. Aproximación ..., p. 33. 262 BENITO SÁNCHEZ, Demelsa. El delito ..., p. 43.

263 OLIVEIRA, Edmundo. Crimes ..., p. 135.

264 “Así, los leales competidores serán expulsados del mercado, suprimiéndose la libre

competencia que debe presidir las relaciones económicas, lo que conducirá a una progresiva monopolización del mercado en cuestión.” BENITO SÁNCHEZ, Demelsa. El delito de corrupción ..., p. 47.

subornos, diminuindo a taxa de consumo de tais pessoas, cujos efeitos afetam a indústria e a economia nacional.266

MURIEL PATINO assim pontua:

“El resultado conjunto de los argumentos anteriores es ciertamente perverso para la economía del país en el que la corrupción está presente: una contracción tanto de la demanda como de la oferta agregadas conllevan resultados macroeconómicos de reducción del nivel de producción y de las posibilidades de crecimiento futuras, la consiguiente reducción del nivel de empleo, y un aumento del nivel de precios.”267

O desenvolvimento dos seres humanos e das sociedades aos quais se inserem também se vê afetado. De acordo com comprovações empíricas já realizadas, existe direta relação entre taxas de crescimento econômico e diminuição de taxas de pobreza. Existindo crescimento econômico (claramente prejudicado pelas práticas corruptas) ocorre, em maior ou menor percentagem, a diminuição dos níveis de pobreza de determinada sociedade.268 Associe-se a isso que a corrupção também pode contribuir à concentração de capital em poder de grupos específicos já melhor situados economicamente, o que terá impacto direto na manutenção de eventual desigualdade distributiva e impedirá a ascensão social de determinada classe ou grupo de pessoas.269

No plano administrativo a corrupção prejudica o próprio funcionamento da administração pública, a partir da geração de ressentimento e frustração de funcionários honestos e probos em comparação a funcionários que atentam contra a moralidade, efetividade e bom andamento a partir de atos ilícitos administrativos e/ou penais.270 Neste ponto também não há dúvida de que o Estado perde força administrativa271 a cada ato de corrupção praticado e ainda mais se a corrupção se torna sistêmica ou involucrada a tal ponto de coordenar as práticas administrativas, transformando-se em um mero “instrumento nas mãos de corruptos.”272

266 MURIEL PATINO, María Victoria. Aproximación ..., p. 33. 267 MURIEL PATINO, María Victoria. Aproximación ..., p. 33. 268 MURIEL PATINO, María Victoria. Aproximación ..., p. 36. 269 MURIEL PATINO, María Victoria. Aproximación ..., p. 36. 270 MALEM SEÑA, Jorge F. La corrupción ..., p. 69.

271 Cf. MALEM SENÃ, Jorge F. Corrupción ..., p. 174. 272 MALEM SENÃ, Jorge F. Corrupción ..., p. 174.

Quanto à democracia, a corrupção consegue minar sua característica principal. Democracia e corrupção se repelem mútua e diretamente, se considerada a realidade de que o acordo corrupto ofende a regra de ouro da democracia (a de que a cada uma pessoa tem-se um voto), com o que a democracia se transmuta em simples ideologia sem utilidade prática efetiva.273 Com isso não é de se estranhar que a confiança do cidadão se perca por completo e implique diretamente sobre as bases nas quais se assenta o Estado Democrático de Direito274, desaguando em desencanto e desinteresse com a cidadania e seu exercício.275

A incidência da corrupção no Poder Judiciário traz consigo o consectário lógico de perda da noção de prevenção geral que supostamente está arraigado à sanção de natureza criminal.276

Por fim, uma pequena nota mais concreta e direcionada ao caso brasileiro. Em estudo277 datado de março de 2010, produzido pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), estima que o custo médio anual da corrupção para o Brasil, em números históricos de 2008, época da conclusão do estudo, seria entre 1,38% a 2,3% do Produto Interno Bruto (PIB), ou seja, algo entre R$ 41,5 e R$ 69,1 bilhões.

1.5. A corrupção e o delito de corrupção. O recorte necessário à analise do