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Das barrocas

No documento História e Historiografia (páginas 84-87)

Presente na região Norte do estado cearense, a cidade por qual nos dedicamos a pensar, estima-se em um contingente populacional de 75.946 habitantes4, no qual se constitui simbolicamente como um agente centralizador e estratégico quando pensamos a sua inserção em setores econômicos e sociais junto a Microrregião da Ibiapaba5. Entre os habitantes locais, construiu-se o referencial de “A capital da Ibiapaba”, sendo uma associação bem presente no cotidiano desta co- munidade, em programas de rádio, discursos de campanha eleitoral, no burburinho dos comércios, encontra-se uma espécie de exaltação, dentro de muitas abordagens deste viés, nostálgico. Estes diálogos fazem menção ao seu aparente crescimento e produtividade em re- lação à infraestrutura, principalmente o agronegócio e o comércio frente aos municípios circunvizinhos. Sendo cortada por vias fede- rais e estaduais6, atua como um ponto de junção e passagem das di- nâmicas comerciais presentes na região da Ibiapaba e nas dimensões interestaduais com forte ligação com o Piauí e o Maranhão.

4 População estimada: Censo Demográfico, IBGE, 2019.

5 A partir de 2017, a subdivisão regional feita pelo IBGE, delimita a região da Ibiapaba como integrante da Região Geográfica Imediata de São Benedito-Ipu-Guaraciaba do Norte-Tianguá, composta de 11 municípios, constitui uma das quatro regiões imediatas que compõem a Re- gião Geográfica Intermediária de Sobral, que conta com 44 municípios. Divisão Regional do Brasil. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 2017. Disponível em: http://web. archive.org/web/20170901214147/http://www.ibge.gov.br/home/geociencias/geografia/defau lt_div_int.shtm. Acesso em: 20 nov. 2019.

Entre memória e História: Uma análise dos topônimos centrais na cidade de Tianguá-CE (1970-2000)

Tianguá, originária em região indígena, integrava as antigas ter- ras dos índios Tabajaras, parte da então Vila Viçosa Real da América, que é um dos frutos do crescimento da Missão Jesuítica da Ibiapaba (GASPAR, 2014), que foi fundada pelo Padre Antônio Vieira no ano de 1655. Marco este que configurava uma expansão significativa do catolicismo na Colônia portuguesa e um ponto na ocupação da Ibia- paba, assumindo, de certo modo, a função referencial de um elemen- to formador, tanto em aspectos religiosos e culturais como urbanos para as localidades que a circundam.

A colonização das terras que deram origem à cidade de Tianguá (perímetro urbano) data do ano 1854 a partir da 1ª Lei de Terras do Brasil (Lei nº 601 de 18.09.1850 regulamentada pelo Decreto Imperial nº 1.318 de 1854), quando o Capitão português João Batista Leal, fiscal das terras devolutas junto à câmara da Vila Viçosa, registrou em seu nome o então sítio Chapadinha do Barrocão (GASPAR, 2014, p. 9).

Uma das perspectivas, seguindo o norte atribuído pelo autor, o início de um processo urbanístico que se pode pensar no município se dá juntamente com uma formação eclesiástica (GASPAR, 2007). A partir da construção de um salão, uma pequena capela de taipa coberta de palhas em homenagem a Sant’Ana, é onde vão se orga- nizar as terras que compõem a zona urbana da cidade. No entorno da edificação ergueram as casas de latifundiários, pessoas influen- tes, enquanto os menos favorecidos ocupavam-se de postos mais dispersos, porém, é retratado que mesmo que sem um planejamento concreto em relação a ocupação deste meio, tem-se uma organização específica, sendo “suas vias eram retilíneas cortadas em formato de cruzes, semelhantes a um tabuleiro de xadrez” (GASPAR, 2007, p. 53). As terras registradas anteriormente por João Batista Leal, apare- cem no intuito de uma construção patrimonial em função da Santa, encontrou neste espaço da Ibiapaba um recanto produtivo quanto a criação de gados e o plantio da cana de açúcar, João, era residente na

História e Historiografia: experiência de pesquisa

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Vila Viçosa onde exerceu diferentes cargos públicos ao longo de sua estadia (GASPAR, 2007).

A partir do falecimento da esposa de João B. Leal, dona Isabel Francisca de Jesus, tem-se uma dispersão destas terras, sendo os bens do Capitão inventariados, o que incluía o sítio Barrocão7,

portanto, sendo partilhadas faixas de terras entre os seus herdei- ros. As transformações propostas junto ao direito agrário brasi- leiro, quanto ao processo de regulamentação das terras no Brasil, com a Lei de Terras, de 1850, já se constituíam em maiores nor- mas no intuito de uma organização das propriedades privadas. O que remetemos aqui é voltado a pensar a maleabilidade que essas alterações na legislação de terras trouxeram ao nosso contexto. Com a partição das terras, permitiu-se que pessoas de fora do inventário construído tivessem contato com as terras, onde nem todos os herdeiros residiam em suas porções, foram fracionadas em meio às negociações realizadas. Em nossas questões, não pre- tendemos aprofundar em aspectos mais burocráticos e políticos quanto à sociedade que se construía junto ao município e sim identificar e nortear elementos que nos permitam referenciar a natureza do espaço junto a historiografia local e as diferentes fun- cionalidades que ele ganha junto a cidade.

Estruturada sob as bases do sítio conhecido em primeiro momen- to de Chapadinha do Barrocão8, o município manteve o léxico ini-

cial enquanto Vila, ponto que acompanha e subtrai de sua realidade aspectos geográficos bem presentes. Aponta-se neste contexto, sob o índice pluviométrico local que proporciona intensas e constantes chuvas, influindo diretamente na multiplicação dessas cavidades pelo solo do povoado, e acaba por ganhar destaque neste imaginário. Posteriormente naquele mesmo ano, em 09 de setembro de 1890 a 7 Como referenciado no poema “Tianguá e seus Cognomes” de Valdecy Santos, o nome referen-

ciava o contexto físico e social da cidade, a frequência de barrocas.

8 Chapadinha, no sentido literal da palavra significa: “esplanada no alto do monte, da serra”, p. 99, [...], a palavra BARROCÃO quer dizer grande barroca, ou grande vala produzida por en- xurradas. Na língua dos tabajaras Ibiboca, que significa: a barroca, a cova. p. 101. Cf: GASPAR, João Bosco. Tianguá... Raízes de Sua História e de Sua Cultura. Ceará. Julho de 2007.

Entre memória e História: Uma análise dos topônimos centrais na cidade de Tianguá-CE (1970-2000)

localidade passa a se chamar Vila de “Tyanguá” em função do Decre- to Estadual nº 62, também pelas mãos do Governador do Ceará, Luiz A. Ferraz, assim como ilustra a edição do Jornal O Cearense (1890, p. 02)9 no dia 11 daquele mês: “A Villa do Barrocão, do Termo de

Viçosa, passou a denominar-se villa do Tyanguá”.

De origem Tupi Guarani, compreendemos a complexidade e a gama de significados que a expressão pode assumir com a língua nati- va, por conseguinte atribuímos a perspectiva de Gaspar (2007). Posto que o termo Tianguá, é uma aproximação com a língua portuguesa, derivando da grafia Tyanha-Guaba, que seria “Gancho que prende/ agarra as águas”, aparece como uma adaptação, no sentido de facilitar a pronúncia. O autor trabalha em função dessa variedade, mas traz o fator comum entre os distintos vocábulos que se constroem dentro das diferentes escritas, a alusão com a água. Posto em reflexão novamente o aspecto geográfico, sendo o povoado situado entre bifurcações for- madas, respectivamente, no encontro dos rios, Riachinho no extremo leste, e Frecheiras no extremo oeste da cidade. Outra concepção do mesmo, traz um aspecto social do termo, a localidade recebeu nos pe- ríodos de secas que assolaram o Ceará, em 1877 por diante, diversos flagelos que buscavam sobreviver em meio a escassez e que acabaram por se instalar na região, sendo o aspecto “acolhedor” do município no sentido de ser chamativo as populações que transitam por ela, o que não deixa de ser uma concepção também natural do conceito, visto o atrativo ser propício com as condições do clima.

No documento História e Historiografia (páginas 84-87)