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4. Fundamentos Constitucionais do Dever de Confidencialidade Fiscal

4.2. Direito à Reserva da Vida Íntima dos Contribuintes

Quando falamos no direito à reserva da vida íntima dos contribuintes, estamos a direcionar o nosso estudo no direito atribuídos aos sujeitos que impede a devassa da vida privada e íntima, relativamente a factos e informações que digam respeito à esfera mais reservada e íntima deste, e que não deve ser extraída para o domínio público, exceto nos casos excecionalmente previstos.

228 “[O] sigilo fiscal implica para os funcionários da Administração Fiscal a obrigação de guardar sigilo

relativamente ao ‘rendimento’ ou à ‘situação tributária dos contribuintes’ (vg. os seus bens, as receitas, as despesas, as deduções e despesas), na consideração de que esta informação tem caráter reservado desde que a sua difusão evidencie a situação patrimonial ou contributiva do titular dos dados, assim se pretendendo salvaguardar a confiança depositada pelo contribuinte na Administração Fiscal e, ao mesmo tempo, tutelar a intimidade da vida privada”. Cfr. Acórdão do Supremo Tribunal Administrativo de 16/11/2011, Processo 0838/11, Relator Dulce Manuel da Conceição Neto, disponível em http://www.dgsi.pt, consultado a última vez em 27/02/2016 (aspas no original e italico nosso).

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No entanto, e embora não possamos, por motivos de economia e de respeito pelos objetivos que nos guiam no presente estudo, entrar numa análise aprofundada da discussão doutrinal e jurisprudêncial sobre o sentido exato do conceito de privacidade, não podemos deixar de referir que os conceitos de “privacidade”, “intimidade” ou “reserva da vida íntima”, são conceitos terminológicos indiferenciados, sendo notória a proximidade terminológica entre os mesmos.

Como anteriormente referido, um dos principais fundamentos do sigilo fiscal prende-se com a proteção da reserva da vida privada dos contribuintes, funcionando como meio instrumental na proteção dos dados pessoais que, ao serem relevantes para efeitos tributários, devam ser cedidos à Administração Tributária para prossecução dos seus objetivos, nomeadamente como a arrecadação das receitas provindas do pagamento dos impostos em respeito pela verdade material efetiva. Porém e como

supra referimos, nem todos os dados tributários dos contribuintes podem gozar da

proteção atribuída por este dever de confidencialidade. Neste sentido, é importante trazer à colação o estudo do direito fundamental do direito à privacidade e à reserva da vida íntima, procurando, através deste, delimitar os limites que o sigilo deve abranger de modo a reforçar as relações de confiança entre administração tributária e contribuinte.

O direito fundamental de reserva da vida íntima, encontra-se consagrado, para a comunidade jurídica, na Constituição da República Portuguesa de 1976, estatuindo a tutela dos direitos de personalidade dos sujeitos, máxime, o direito à intimidade e à privacidade dos sujeitos. Estes direitos de personalidade, apesar do seu estudo advir em grande parte da doutrina civilística229, não podem ser considerados como “propriedade” única e exclusiva das relações de natureza privada, pois, apesar de ter sido a doutrina privatísta a aprofundar o seu estudo, estes, encontrando-se consagrados na Lei Fundamental como principal monumento legislativo, constituindo assim categoria do direito geral. Deste modo serão inteiramente aplicáveis nas várias relações dos sujeitos, como são as de direito público (e, por conseguinte, de direito tributário e fiscal).

229 Cfr. CARLOS MOTA PINTO, Teoria Geral do Direito Civil, 4ª Edição, Coimbra Editora, 2005, pp.212 e

seguintes; RABINDRANATH CAPELO DE SOUSA, O Direito Geral de Personalidade, Coimbra Editora, 1995; LUÍS CARVALHO FERNANDES, Direito Geral do Direito Civil, Vol. I, Introdução e Pressupostos da Relação Jurídica, 4ª Edição, Lisboa, Universidade Católica Editora, 2007, pp.193 e seguintes.

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Neste sentido, é importante delimitar o objeto deste direito fundamental, nomeadamente a sua delimitação real, a fim de determinar a fundamentação axiológica do dever de confidencialidade fiscal.

Para CARLOS MOTA PINTO230 , no direito à intimidade e à reserva da vida íntima estará em causa o “direito à reserva sobre a intimidade da vida privada, direito de resguardo, como é designado pela doutrina italiana, ou direito a uma esfera de segredo, para a teoria germânica, corresponde ao reconhecimento de uma merecida tutela quanto à natural aspiração da pessoa a uma esfera íntima de vida, ao direito de estar só (right to be let alone), na terminologia inglesa”.

Já para autores como RUI MEDEIROS e JORGE MIRANDA231, “estes direitos encontram-se hoje expressamente consagrados no artigo 26.º da CRP e são intimamente interligados, constituindo a reserva da intimidade da vida privada uma dimensão do direito, mais amplo, referente ao desenvolvimento da personalidade. Mas, não obstante se qualificar como um direito especial de personalidade, o direito à reserva da intimidade da vida privada não se esgota nele, pois está consagrado constitucionalmente como um direito autónomo. E neste ponto, não se confunde com o direito à privacy anglo-saxónica, que tem assumido contornos mais amplos, surgindo como expressão paradigmática de todos os direitos pessoais”.

Para CAPELO DE SOUSA232, a tutela do direito à reserva da vida íntima “abrange não só o respeito da intimidade da vida privada, [mas] em particular a intimidade da vida pessoal, familiar, doméstica, sentimental e sexual e inclusivamente os respetivos acontecimentos e trajetórias, mas ainda o respeito de outras camadas intermédias e periféricas da vida privada, como as reservas do domicílio e de lugares adjacentes, da correspondência e de outros meios de comunicação privada, dos dados pessoais informatizáveis, dos lazeres, dos rendimentos patrimoniais e de demais elementos privados da atividade profissional e económica, bem como também last but

not the least, a própria reserva sobre a individualidade privada do homem no seu ser

para si mesmo, v.g sobre o seu direito a estar só e sobre os carateres de acesso privado do seu corpo, da sua saúde, da sua sensibilidade e da sua estrutura intelectiva e

230 Cfr. CARLOS MOTA PINTO, Teoria Geral do Direito Civil, 4ª Edição, Coimbra Editora, 2005, p.209.

231 Cfr. JORGE MIRANDA, RUI MEDEIROS, Constituição da República Portuguesa Anotada, Tomo I, 2ª Edição,

Coimbra, Coimbra Editora, 2010, pp. 619 e seguintes

232 Cfr. RABINDRANATH CAPELO DE SOUSA, O Direito Geral de Personalidade, Coimbra Editora, 1995,

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volitiva”. Neste senda dogmática, MANUEL COSTA ANDRADE233 afirma que o direito à reserva da vida íntima implica “a proteção de uma área privada de reserva significa o reconhecimento do domínio do indivíduo sobre a sua esfera privada ou, noutros termos, a autodeterminação da pessoa sobre a sua esfera privada ou ainda a defesa contra a intromissão da sociedade ou do Estado na esfera privada”.

Também o Tribunal Constitucional se pronunciou sobre esta matéria, na medida em que para este douto tribunal, constitui “o direito de cada um a ver protegido o espaço interior ou familiar da pessoa ou do seu lar contra intromissões alheias, i. e., como um direito a uma esfera privada onde ninguém pode penetrar sem autorização do respetivo titular”, sendo que, do ponto de vista objetivo “o direito à reserva sobre a intimidade da vida privada inclui, como diferentes manifestações, o

direito à solidão, o direito ao anonimato e o direito à autodeterminação informativa;

que a fórmula ‘reserva de intimidade da vida privada’ não pode ser interpretada restritivamente, de modo a circunscrever a proteção constitucional à vida íntima, pois que tal implicaria deixar de cobrir todas as outras esferas da vida que devem igualmente ser resguardadas do público, como condição de salvaguarda da integridade e dignidade das pessoas; e que o facto de se recusar a equivalência entre “privacidade” e “intimidade” não impede que se não estabeleçam graduações entre diferentes esferas da vida privada, consoante a sua maior ou menor ligação aos atributos constitutivos da personalidade”234.

Tendo, deste modo, em conta todos estes contributos dados pela doutrina e pela jurisprudência, vislumbra-se possível afirmar que, o bem jurídico tutelado na proteção da privada privada e na reserva da vida intima, é na nossa humilde opinião, a proteção que a comunidade jurídica goza em relação às suas vivências mais íntimas, podendo ir desde o conjunto de informações mais pessoais até às respeitantes à vida profissional, uma vez que as informações e os acontecimentos que pretendam reservar para si, e que digam respeito à sua esfera mais resguardada, não devem ser subtraídos da sua esfera mais íntima se o seu titular não o desejar. Assim, estarão em causa, aqueles acontecimentos que o indivíduo pretende reservar para si, e que não pretenda

233 Cfr. MANUEL COSTA ANDRADE apud Acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa de 06/03/2012, processo

n.º 67/10.3TVPRT.L1-1 Relatora Ana Grácio, disponível em http://www.dgsi.pt. consultado a última vez em 24/11/2015.

234 Cfr. Acórdão do Tribunal Constitucional n.º 403/2015, de 17 de Setembro, disponível em

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partilhar com terceiros, e que abarcam as vivências íntimas, os locais que frequenta, bem como a intimidade da sua casa e determinadas informações pessoais como, por exemplo, as relacionadas com a saúde ou com a situação patrimonial e económica235.

Estes dados e informações que estejam relacionados com a vida privada e íntima dos sujeitos, e que por motivos de interesse estadual e coletivo estejam na posse das repartições públicas tributárias, não poderão assim ser revelados a terceiros, configurando-se como um limite ao direito de acesso e à informação previsto no artigo 268.º da CRP.

Pelo exposto, é consagrado jurídicamente através do dever de confidencialidade fiscal que impende sobre os agentes e funcionários da Administração Tributária, a proibição de revelar estes dados e informações que configuram-se como informações respeitantes à esfera mais íntima e pessoal dos contribuintes. Assim, e sem prejuízo dos demais fundamentos axiológicos, podemos dizer que este direito proteção da vida privada e à reserva da vida íntima funciona como fundamento de enorme importância na consagração e na operacionalidade do dever de sigilo fiscal, funcionando ainda como obstáculo legal ao acesso por terceiros aa esta informação existente nas repartições tributárias, pois a sua inexistência traría como principal consequência que este limite legal não existisse, sendo inteiramente acessível a qualquer sujeito a informação respeitante à esfera mais reservada e portanto sujeita a tutela.

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