5.2 Desvelando os efeitos argumentativos presentes nos artigos científicos
5.2.4 Discurso direto ratificando o discurso indireto
Tradicionalmente, algo semelhante ao que anteriormente foi indicado como “estado de espírito” é reconhecido pelo termo grego ethos. Há autores, entre esses Lipovetsky (2007), que relativizam a participação do “espírito do tempo” na determinação da moda, que compreendem que suas manifestações são expressões do ethos social. (SOUZA; GOMES; CAMPOS, 2013)
5.2.4 Discurso direto ratificando o discurso indireto
Nesse fenômeno, o locutor responsável pelo enunciado (L1) faz uso do relato de um segundo locutor (L2) em estilo indireto, sob a forma de arrazoado por autoridade, para expor um ponto de vista e, consequentemente, ratificar o que foi relatado, apresentando o discurso dessa mesma autoridade em estilo direto.
A seguir, podemos perceber como esse fenômeno acontece. CSCA2T20
A respeito de um leitor que não é senão uma função do texto, o teórico literário Michael Riffaterre (1973) estabelece, em sua “Estilística Estrutural”, a figura do arquileitor, como um leitor onisciente, com o qual, obviamente, um leitor real, comum, não poderia identificar-se, uma vez que não teria a plena ciência das possibilidades oferecidas pelo e no texto. “O arquileitor é uma soma de leituras (...). Nada mais é que um instrumento para assinalar os estímulos de um texto.” (RIFFATERRE, 1973: 46). (TRINDADE; SOUZA, 2014)
Em CSCA2T20, recorte de um artigo da área de Comunicação, que trata do ethos publicitário, temos a presença de dois locutores distintos: o locutor 1 (L1), Trindade e Souza, responsável pelo artigo e, consequentemente, por todo o trecho analisado;e o locutor 2 (L2), Riffaterre, responsável pelo trecho relatado em estilo indireto– a figura do arquileitor, como um leitor onisciente, com o qual, obviamente, um leitor real, comum, não poderia identificar-se, uma vez que não teria a plena ciência das possibilidades oferecidas pelo e no texto –, como também pelo trecho entre aspas, relatado em estilo direto: “O arquileitor é uma soma de leituras (...). Nada mais é que um instrumento para assinalar os estímulos de um texto.” (RIFFATERRE, 1973: 46).
No trecho supracitado, o locutor responsável pelo artigo (L1) traz um segundo locutor, Rifaterre, para o seu discurso, sob a forma de arrazoado por autoridade, com dois objetivos: o primeiro é apresentar o discurso de L2 como argumento por autoridade, pois se trata de uma autoridade constituída no assunto e usada por L1 para organizar o seu ponto de vista, ou seja, como fundamento para o que ele vai propor no artigo; o segundo é ratificar o discurso relatado inicialmente pela autoridade em estilo indireto com as palavras ipsis litteris do próprio L2, em estilo direto.
L1 introduz a voz do segundo locutor no discurso através do verbo modalizador deôntico de obrigatoriedade “estabelecer”, apresentando-a, assim, como uma determinação, uma prescrição. Nesse sentido, L1 orienta como o interlocutor deve compreender a informação, a voz da autoridade: trata-se de algo que foi estabelecido, por isso é obrigatório que se entenda daquela maneira e não de outra.
Assim, o caráter de acordo e engajamento de L1 com L2 permanece. Isso acontece em razão de o discurso relatado ser um arrazoado por autoridade, o que gera um comprometimento de L1 com a voz alheia, inicialmente através do relato em estilo indireto. Esse envolvimento de L1 com L2 é confirmado, posteriormente, com o relato da autoridade, em estilo direto, ratificando o que foi posto em estilo indireto. Nesse caso, a voz do locutor 2, relatada em estilo direto, funciona como uma justificativa, ou seja, como uma conclusão do ponto de vista apresentado anteriormente no estilo indireto. Assim, L1 faz uso do arrazoado por autoridade, em estilo direto, para confirmar e comprovar o que foi dito pela mesma autoridade e apresentado em estilo indireto.
Em investigação sobre gênero notícia realizada por Nascimento (2005), o autor constatou que esse fenômeno isenta L1 do dito de L2, assumindo uma postura de distanciamento e atribuindo a responsabilidade totalmente a L2. Diferentemente do que aconteceu na pesquisa de Nascimento, nesta investigação L1 faz uso desse fenômeno assumindo em seu posicionamento o ponto de vista de L2, pelo fato de L2 ser um arrazoado por autoridade e L1 querer validar o seu discurso cientificamente.
No recorte que segue é possível conferir mais ocorrências desse fenômeno argumentativo.
CEEA4T10
Assim, a Regressão Logística é uma técnica de análise que relaciona variáveis independentes, as quais podem ser métricas ou não métricas, a uma variável dependente
binária. FÁVERO et al (2009, p. 13) afirmam que a previsão resultante é um valor entre zero e um ou, de outra forma, a probabilidade de obtenção do valor um, sendo, portanto, uma técnica “[...] útil para aferição da probabilidade de ocorrência de um evento e para identificação das características dos elementos pertencentes a cada categoria estabelecida pela dicotomia da variável dependente”.
(ARTUSO; CHAVES NETO, 2014)
Em CEEA4T10, recorte de um artigo da área de estatística sobre análise discriminante e relação logística, há a presença de dois locutores distintos: o locutor 1 (L1), Artuso e Chaves Neto, responsável pelo artigo e, consequentemente, pelo recorte analisado – FÁVERO et al (2009, p. 13) afirmam que a previsão resultante é um valor entre zero e um ou, de outra forma, a probabilidade
de obtenção do valor um, sendo, portanto, uma técnica “[...] útil para aferição da probabilidade de ocorrência de um evento e para identificação das características dos elementos pertencentes a cada categoria estabelecida pela dicotomia da variável dependente” –; e o locutor 2 (L2), constituído por
Favero, Belfiore, Silva e Chan, responsável pelos trechos relatados em estilo indireto e direto:
a previsão resultante é um valor entre zero e um ou, de outra forma, a probabilidade de obtenção do valor um, sendo, portanto, uma técnica “[...] útil para aferição da probabilidade de ocorrência de um evento e para identificação das características dos elementos pertencentes a cada categoria estabelecida pela dicotomia da variável dependente”.
O locutor responsável por todo o enunciado, L1, introduz a voz do segundo locutor, L2, sob a forma de arrazoado por autoridade para justificar o ponto de vista de que “a Regressão Logística é uma técnica de análise que relaciona variáveis independentes, as quais podem ser métricas ou não métricas, a uma variável dependente binária”. L1 traz a voz da autoridade, inicialmente, em forma de estilo indireto para ilustrar uma regressão logística, fazendo uso de um exemplo: a previsão resultante é um valor entre zero e um ou, de outra forma, a probabilidade de obtenção do valor um. Após a ilustração com as palavras da autoridade, L1 se utiliza do relato em estilo direto para explicar a importância da técnica de regressão logística: “[...] útil para aferição da probabilidade de ocorrência de um evento e para identificação das características dos elementos pertencentes a cada categoria estabelecida pela dicotomia da variável dependente”.
O L1 apresenta a voz da autoridade por meio do verbo dicendi “afirmam”, indicando que esse enunciado deve ser entendido pelo interlocutor de um modo asseverativo (dizer + certeza), como uma afirmação, uma asserção. Logo, é possível perceber que o engajamento de L1 com a voz da autoridade se dá em razão do arrazoado por autoridade, por meio do fenômeno do estilo direto ratificando que está em estilo indireto e do uso do verbo dicendi modalizador asseverativo “afirmam”.
No fragmento que segue, verificam-se mais ocorrências desse fenômeno.
CSCA2T29
Segundo Fausto Neto, este novo cenário proporciona novas formas de interação entre as instâncias de produção e recepção, diferentes da ideia unidirecional que se atribuía à comunicação na “sociedade dos meios”. Esta ideia de circulação midiática identifica-se com a mensagem enquanto enunciação, que se realiza dentro de um contexto discursivo, em que a ideia de um “emissor” ou “produtor” que direciona sua mensagem ao “receptor” não deve ser trabalhada tal qual naquele esquema clássico.
Trata-se da complexificação do processo da comunicação e não de sua desobjetivação: não se trata da supressão dos lugares de produção e da recepção de discursos, mas de sua subordinação à configuração de novos regimes de discursividades nos quais o discurso está preso. Trata-se da ordem interdiscursiva onde a circulação – como terceiro – se oferece como um novo lugar de produção, funcionamento e regulação de sentidos. (FAUSTO NETO, 2010: 60) (TRINDADE; SOUZA, 2014)
Em CSCA2T29, recorte de um artigo da área de Comunicação, que trata do ethos publicitário, temos a presença do locutor 1 (L1), Trindade e Souza, responsável pelo artigo e por todo o trecho analisado; e do locutor 2 (L2), instituído por Fausto Neto, responsável pelo trecho relatado em estilo indireto – este novo cenário proporciona novas formas de interação entre as instâncias de produção e recepção, diferentes da ideia unidirecional que se atribuía à comunicação na “sociedade dos meios”. Esta ideia de circulação midiática identifica-se com a mensagem enquanto enunciação, que se realiza dentro de um contexto discursivo, em que a ideia de um “emissor” ou “produtor” que direciona sua mensagem ao “receptor” não deve ser trabalhada tal qual naquele esquema clássico –, bem como pelo trecho relatado em estilo direto: Trata-se da complexificação do processo da comunicação e não de sua desobjetivação: não se trata da supressão dos lugares de produção e da recepção de discursos, mas de sua subordinação à configuração de novos regimes de discursividades nos quais o discurso está preso. Trata-se da ordem interdiscursiva onde a circulação – como terceiro – se oferece como um novo lugar de produção, funcionamento e regulação de sentidos.
Nesse recorte, o locutor articulista (L1) primeiramente introduz a voz do L2, Fausto Neto, sob a forma de arrazoado por autoridade, em estilo indireto com o objetivo de apresentar a voz de L2 como argumento por autoridade para organizar o seu ponto de vista. Em seguida, L1 faz uso do dizer da autoridade, L2, por meio da configuração de relato em estilo direto para comprovar o discurso que foi apresentado em estilo indireto.
Nota-se, nesse caso, que o estilo direto foi usado por L1 como forma de ratificar o que foi apresentado em estilo indireto. Com o uso desse fenômeno, L1 mostra que o que está sendo dito em estilo direto ratifica o que foi dito inicialmente, ou seja, que L1 faz questão de fazer uso de uma asserção com a finalidade de comprovar outra asserção do mesmo locutor. Isso tem uma intenção maior que é usar o relato ipsis litteris com fins de prova do que foi afirmado indiretamente, gerando mais força argumentativa para o enunciado.
No excerto seguinte, aparecem ocorrência desses fenômenos com efeitos de sentidos semelhantes ao do trecho analisados anteriormente.
CHEA1T13
Para Deleuze (2005, p. 107), há uma novidade nos gregos que foi identificada por Foucault: um deslocamento duplo do poder, como relação de forças, e do saber, como forma estratificada, como código de virtude, sendo que, ao mesmo tempo, emerge uma constituição de si derivada de um código moral como regra de saber. No dizer de Deleuze, os gregos assim “[...] inventaram o sujeito, mas como uma derivada, como o produto de uma ‘subjetitvação’. Descobriram a ‘existência estética’, isto é, o forro, a relação consigo, a regra facultativa do homem livre [...]” (DELEUZE, 2005, p. 108).