CAPÍTULO III DO SOS-MULHER AO SIM
1. Do SOS-Mulher ao SIM: A Especificidade das PLPs
Os SOS-Mulher, que surgiram tanto em São Paulo quanto em Porto Alegre na década de 80, foram uns dos frutos da mobilização feminista em reação a "uma série de assassinatos ocorridos no início dos anos 80, perpetrados por maridos ou ex-cônjuges contra as suas companheiras" (Heilborn, 1996:93) e cujos réus eram absolvidos pela justificativa de legítima defesa da honra (cf. Soij e Montero,1985).
Os SOS-Mulher que refiro têm as suas particularidades, mas em linhas gerais foram concebidos como entidades de apoio às mulheres vítimas de violência, embasada numa prática feminista de conscientização das mulheres acerca de sua condição de oprimidas com o fito de fazer com que reconheçam uma experiência comum entre si, de maneira a criarem-se laços de solidariedade e mútua-ajuda para com isto resolverem juntas seus problemas. Este era o objetivo do SOS: a conversão das mulheres ao feminismo. No entanto, as coisas não se passam desta maneira, e ambos os serviços duram exatos três anos. Cabe ressaltar que a clientela preferencial consistia em mulheres das camadas populares urbanas, que iam ao serviço em busca de ajuda.
Como já havia sugerido anteriormente, creio que tanto o projeto de Formação de Promotoras Legais Populares quanto o projeto de implantação do Serviço de Informação à Mulher, concebidos pela ONG feminista Themis, têm nas experiências dos SOS-Mulher as suas fontes inspiradoras. A ONG Themis caracteriza tanto o projeto de Formação de PLPs quanto o SIM como um dos projetos "mais expressivos de combate e prevenção à violência doméstica e sexual no Brasil." O objetivo da Themis em implantar o SIM parte de uma vontade de "democratização do saber jurídico [neste sentido] entendemos que as promotoras legais populares podem desenvolver ações educativas e de ajuda e solidariedade. Ações que devem estar organizadas de forma coletiva para potencializar os resultados, junto a mulheres em situação de violência e extrema pobreza". (Cf. minuta do projeto de implantação do SIM, de outubro de 1996.)
A partir deste objetivo, as PLPs no SIM estariam capacitadas a desenvolver as seguintes atividades: "orientação e encaminhamento às mulheres sobre direitos básicos de cidadania, grupos e reuniões de estudos e debates sobre temas de interesse da comunidade, ações e campanhas públicas e atendimento jurídico e resolução de conflitos." Como já mencionei anteriormente, o serviço configura-se pragmaticamente no espaço de atuação das
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PLPs dentro de suas comunidades. Ali, elas recebem as mulheres demandantes do serviço, provêem informações sobre seus direitos e, de acordo com cada caso, fazem os encaminhamentos necessários. O SIM/Partenon foi inaugurado em meados de 1997 e tem uma trajetória peculiar, marcada pela constante mudança, quer de sede, quer de coordenação e corpo de atuantes, como apontei acima.
Através da literatura sobre os SOS-Mulher de São Paulo (Gregori, 1991 e Pontes, 1986) e o de Porto Alegre (Grossi, 1988), podem-se perceber certas semelhanças básicas entre aqueles serviços e o SIM. Contudo, há diferenças marcantes, sobretudo quando se comparam os atendimentos num e noutro serviço. Um outro aspecto importante diz respeito ao tempo de duração do curso de PLPs e do SIM, cujas primeiras experiências datam de 1993 e 1996 respectivamente, sendo que a demanda para a formação de mais PLPs crescem rapidamente em todo o país49. Mas quais seriam as bases destas diferenças, já que ambos os serviços têm como ponto de partida uma ideologia feminista de libertação da mulher?
Creio ser extremamente oportuna a comparação entre os dois tipos de serviços, a fim de compreender as especifícidades da experiência das PLPs. Cabe salientar que não se trata de uma avaliação dos serviços, por três razões: eu não estaria habilitada para tanto, as experiências dos diferentes SIM de Porto Alegre não são homogêneas e, finalmente, a própria história do SIM/Partenon é marcada por rupturas e mudanças devido à grande segmentação do grupo de PLPs/Partenon formadas, o que imprime um caráter um tanto descontínuo na oferta do serviço.
O meu intuito aqui é unicamente o de levantar hipóteses sobre o SIM/Partenon, a fim de trazer elementos que convirjam para a elucidação da principal questão norteadora desta dissertação: como a atuação no SIM e o fato de se ser PLP se relaciona com a particularidade da participação política das PLPs/Partenon atuantes. A minha hipótese aqui é que estas PLPs, por serem mulheres de grupos populares, experientes e atuantes na política comunitária, lançam mão dos conhecimentos feministas adquiridos no curso e os ressignificam de acordo com seus valores culturais, utilizando-os de forma "competente" na tentativa de consolidação de um espaço dentro do campo político. Ou seja, são mulheres que dominam os códigos,
49 Em 1998, a ONG Themis, a partir de um projeto em conjunto com o Ministério da Justiça, ofereceu um curso de capacitação em Direitos Humanos e Acesso à Justiça para várias ONGs de pequeno porte em todo o país. O objetivo de tal empreendimento era passar a experiência adquirida com o curso de formação de PLPs e ampliar seu escopo de ação, de acordo com o tipo de atuação de cada ONG participante do curso. Após a capacitação, as ONGs estariam aptas a implementar o curso de formação de agente de cidadania em seus locais de origem, sendo apoiados e assessorados pela Themis.
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utilizam-nos, manipulam-nos de acordo com os diferentes contextos, a fim de atingirem o seu objetivo de terem um lugar de destaque dentro do campo político de Porto Alegre, ao qual mais uam via de acesso se lhes apresentou.
A fim de salientar estas particularidades das PLPs, passo a empreender uma análise do SIM/Partenon, tendo sempre como referência comparativa as experiências dos SOS-Mulher que foram registradas. Focalizo a minha análise fundamentalmente em dois objetos: a divulgação dos serviços, onde discuto as não tão diferentes estratégias utilizadas para propagandear os SOS-Mulher e o SIM, e os atendimentos, nos quais residem as diferenças fundamentais entre os dois serviços.
1.1. A Divulgação'. Estratégia para Parcerias e Oferta de Serviços
Ao longo de minha pesquisa, ouvi incontáveis vezes o termo "divulgação”, da boca de minhas informantes. Emicamente, trata-se de um termo carregado de significados e central em suas atividades, e que me parece ter uma relação direta com as pretensões políticas de seu trabalho no SIM. Esta divulgação pode ser separada em duas formas diferentes de práticas das PLPs. A primeira delas diz respeito à divulgação de seu trabalho no campo político mais amplo. O segundo tipo de divulgação tem relação direta com a "clientela", ou seja, põe em perspectiva o tipo de apelo propagandístico utilizado pelas PLPs a fim de sensibilizar a potencial clientela do SIM.
Os primeiros plantões do SIM Itinerante foram momentos em que Alice, Elvira, Anete e eu organizávamos os cartazes e panfletos para propagandearmos, pelas redondezas, os horários e locais de funcionamento e as especialidades dos serviços oferecidos. Em seguida visitávamos escolas, delegacias de polícia, brigada militar, corpo de bombeiros, postos de saúde e associações de moradores, espaços em que sé encontram as "autoridades" locais - sujeitos detentores de um certo capital simbólico - com as quais é fundamental se fazer uma parceria para que o trabalho de PLP tenha respaldo50. Um outro espaço onde fizemos a divulgação do trabalho de PLP foi o da política institucional: Câmara de Vereadores, Assembléia Legislativa, Prefeitura Municipal, Partidos Políticos e órgãos públicos.
50 As categorias parceria e respaldo possuem um significado êmico muito particular e são centrais para se