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Efeitos da decisão e coisa julgada

CAPÍTULO 4 – CONTROLE CONCENTRADO DE CONSTITUCIONALIDADE

4.4 Ação direta de inconstitucionalidade

4.4.6 Decisão final

4.4.6.1 Efeitos da decisão e coisa julgada

A decisão proferida em sede de fiscalização abstrata de constitucionalidade

apresenta múltiplos efeitos.

Ocorrendo o trânsito em julgado da decisão proferida pelo Supremo Tribunal

Federal em ação direta de inconstitucionalidade, tal decisum não estará mais sujeito

a recurso e seu conteúdo tornar-se-á indiscutível e imutável, nos moldes do que

dispõe o artigo 467 do Código de Processo Civil.

311

tem legitimidade para embargos de declaração a acórdão proferido em ação direta de inconstitucionalidade, por se tratar de processo objetivo de controle de constitucionalidade em que a União não é parte e nem se admite a intervenção de terceiros. Com esse entendimento, o Tribunal não conheceu de embargos de declaração opostos pelo Advogado-Geral da União à decisão do Plenário do STF que indeferira pedido de medida cautelar em ação direta ajuizada pelo Procurador-Geral da República contra a Decisão Administrativa do Conselho de Administração do STJ que reconhecera a existência do direito ao reajuste de 11,98%, a partir de abril de 1994, resultado da conversão em URV dos vencimentos dos servidores da mencionada Corte. ADIn (EDcl) 2.323-DF, rel. Min. Ilmar Galvão, 16.5.2001.(ADI-2.323)”

308 AR-AgR 1.365/BA – Relator Ministro Moreira Alves – Julgamento: 03/06/1996 – DJU: 13/09/1996

– Disponível em: <http:www.stf.jus.br/portal/jurisprudencia/listarJurisprudencia.asp>. Acesso em: 29/03/2009. “Ementa: Ação rescisória para rescindir ação desta Corte prolatado em ação direta de inconstitucionalidade. Seu descabimento. – Este Tribunal, ao julgar, por seu Plenário, a ação rescisória n. 878, firmou o entendimento de que não cabe ação rescisória contra representação de inconstitucionalidade de lei em tese (RTJ 94/49 e segs.), que a atual Constituição denomina ação direta de inconstitucionalidade. Agravo regimental a que se nega provimento.”

309

MIRANDA, Jorge. Teoria do Estado e da Constituição. Coimbra: Editora Coimbra, 2002. p. 732-733.

310 BARROSO, Luís Roberto. O controle de constitucionalidade no direito brasileiro, cit., p. 174. 311 “Art. 467. Denomina-se coisa julgada material a eficácia, que torna imutável e indiscutível a

A função da coisa julgada, segundo Cândido Rangel Dinamarco, é a de

promover segurança nas relações jurídicas, estabilizando e imunizando a decisão

judicial e seus efeitos.

312

A coisa julgada tem como limite objetivo as questões decididas pelo

magistrado, cujo pronunciamento deverá se cingir ao objeto do litígio, que é

delimitado pelo pedido, ex vi do artigo 468 do Código de Processo Civil.

313

Luiz Guilherme Marinoni e Sérgio Cruz Arenhart prelecionam que a coisa

julgada agrega-se à declaração contida na sentença, tornando-a imutável e

indiscutível. Assim, se esse fenômeno incide sobre a declaração expressa na

sentença, é certo que a coisa julgada apenas atingirá a parte dispositiva, haja vista

que não há ainda propriamente julgamento no relatório e na fundamentação. O

magistrado certifica a vontade do direito que incide sobre o caso concreto apenas na

última etapa, ou seja, no dispositivo.

314

Em outros dizeres, “o que obtém a

autoridade da coisa julgada material é exclusivamente o preceito concreto formulado

na sentença, ou seja, é a ‘disposição’ nela contida, acerca da situação concreta

trazida para o juiz com o pedido de solução.”

315

Com efeito, a autoridade da coisa julgada não abrange o relatório, que é

mera narrativa e não contém juízo de valor, e nem a fundamentação da sentença,

que contém os fundamentos e alicerces sobre os quais se apoia o comando

concreto, conforme bem revela a expressa dicção do artigo 469 do Código de

Processo Civil.

316

Nessa ordem de ideias, importa sublinhar que é possível identificar duas

modalidades de eficácia associadas à coisa julgada, sendo a primeira a eficácia

preclusiva e, a segunda, a eficácia vinculativa.

317

312

DINAMARCO, Cândido Rangel. Instituições de direito processual civil. São Paulo: Malheiros, 2001. v. III, p. 296.

313 “Art. 468. A sentença, que julgar total ou parcialmente a lide, tem força de lei nos limites da lide e

das questões decididas.”

314

MARINONI, Luiz Guilherme; ARENHART, Sérgio Cruz. Manual do processo de conhecimento, cit., p. 624-625.

315 DINAMARCO, Cândido Rangel. Fundamentos do processo civil moderno. 5. ed. São Paulo:

Malheiros, 2002. v. I, p. 243.

316 “Art. 469. Não fazem coisa julgada: I – os motivos, ainda que importantes para determinar o

alcance da parte dispositiva da sentença; II – a verdade dos fatos, estabelecida como fundamento da sentença; III – a apreciação da questão prejudicial, decidida incidentemente no processo.”

A chamada eficácia preclusiva é um dos efeitos da coisa julgada, que vem

atingir os fundamentos do decisório que restou, em si mesmo, acobertado pela

autoridade da coisa julgada. Vale dizer, a matéria alcançada pela autoridade da

coisa julgada não poderá ser objeto de novo pronunciamento judicial.

318

A eficácia vinculativa, por seu turno, nada mais significa que a autoridade da

coisa julgada deverá ser respeitada e observada na solução de qualquer lide que

esteja logicamente vinculada à questão resolvida anteriormente, como ocorre, por

exemplo, na ação de alimentos em que, restando assentada a relação de

paternidade em demanda anterior, o magistrado não poderá rejeitar o pedido com

base na inexistência da relação.

319

Nos dias hodiernos, um tema que tem despertado profundos debates entre

os doutrinadores é a questão da relativização da coisa julgada.

320

Em regra, não é possível a revisão de uma decisão exarada com base em lei

que veio a ser posteriormente julgada inconstitucional, quando não mais caiba ação

rescisória e nem seja caso de oferecimento de embargos de devedor.

Não obstante isso, em que pese a coisa julgada ter por finalidade precípua

assegurar a estabilidade da decisão que soluciona o litígio judicial, o fato é que o

318 Luís Guilherme Marinoni e Sérgio Cruz Arenhart assinalam que a eficácia preclusiva da coisa

julgada é elemento protetor da decisão judicial, com expressa previsão no artigo 474 do Código de Processo Civil, cuja redação é no sentido de que “Passada em julgado a sentença de mérito, reputar-se-ão deduzidas e repelidas todas as alegações e defesas, que a parte poderia opor assim ao acolhimento como à rejeição do pedido.” Assim, para proteger a declaração transitada em julgado, todo o material atinente ao primeiro julgamento fica precluso, não podendo, pois, ser reapreciado judicialmente em ação subsequente. Todas as alegações deduzidas, bem como aquelas que seriam dedutíveis, por manterem relação direta com o material da primeira demanda, presumem-se oferecidas e repelidas pelo órgão jurisdicional. Tal não significa dizer que os motivos da sentença transitam em julgado, mas apenas que, sendo julgada a controvérsia e sendo elaborada a regra concreta do caso, todo o material utilizado como pressuposto para se alcançar essa declaração torna-se irrelevante e superado (Manual do processo de conhecimento, cit., p. 627-628).

319

BARROSO, Luís Roberto. O controle de constitucionalidade no direito brasileiro, cit., p. 174.

320 Há vozes que se levantam contra a relativização da coisa julgada, como a de Luiz Guilherme

Marinoni e Sérgio Cruz Arenhart, para quem “a coisa julgada não se sujeita – ou poderá se sujeitar – aos efeitos ‘ex tunc’ da declaração de inconstitucionalidade, e, assim, mesmo antes do art. 27 da Lei 9.868/99 – que, na realidade, com ela não tem relação –, já era imune a tais efeitos” (Manual do processo de conhecimento, cit., p. 650). Leonardo Greco, na mesma linha, entende que “a segurança jurídica, como direito fundamental, assegurada pela coisa julgada, não permite, como regra, a propositura de ação de revisão da coisa julgada como consequência da declaração de constitucionalidade ou de inconstitucionalidade pelo Supremo Tribunal Federal.” (Eficácia da declaração ‘erga omnes’ de constitucionalidade ou inconstitucionalidade em relação à coisa julgada anterior. Disponível em: <http://www.mundojuridico.adv.br>. Acesso em: 24 nov. 2009).

Supremo Tribunal tem reconhecido hipóteses em que há relativização da coisa

julgada por conta de pronúncia superveniente de inconstitucionalidade da lei.

321

Cândido Rangel Dinamarco pontua que, no âmbito da Excelsa Corte,

começou a surgir a consciência de uma coisa julgada inconstitucional, em que se

detecta a contrariedade a alguma garantia constitucional de significado tão elevado

quanto a auctoritas rei judicatae ou até de maior relevância e importância que a

segurança nas relações jurídicas. “Por isso, não ficam imunizadas as sentenças que

transgridam frontalmente um desses valores, porque não se legitima que, para evitar

a perenização de conflitos, se perenizem inconstitucionalidades de extrema

gravidade, ou injustiças intoleráveis e manifestas.”

322

Para Luís Roberto Barroso, o princípio da segurança jurídica não é revestido

de caráter absoluto, razão pela qual há que se atentar e se proceder à

ponderação

323

com outros princípios de igual estatura, como o da justiça ou da

321 RE-ED 328.812/AM – Relator Ministro Gilmar Mendes – Julgamento: 06/03/2008 – DJU:

02/05/2008 – Disponível em: <http:www.stf.jus.br/portal/jurisprudencia/listarJurisprudencia.asp>. Acesso em: 24/11/2009. “Ementa: Embargos de Declaração em Recurso Extraordinário. 2. Julgamento remetido ao Plenário pela Segunda Turma. Conhecimento. 3. É possível ao Plenário apreciar embargos de declaração opostos contra acórdão prolatado por órgão fracionário, quando o processo foi remetido pela Turma originalmente competente. Maioria. 4. Ação Rescisória. Matéria constitucional. Inaplicabilidade da Súmula 343/STF. 5. A manutenção de decisões das instâncias ordinárias divergentes da interpretação adotada pelo STF revela-se afrontosa à força normativa da Constituição e ao princípio da máxima efetividade da norma constitucional. 6. Cabe ação rescisória por ofensa à literal disposição constitucional, ainda que a decisão rescindenda tenha se baseado em interpretação controvertida ou seja anterior à orientação fixada pelo Supremo Tribunal Federal. 7. Embargos de Declaração rejeitados, mantida a conclusão da Segunda Turma para que o Tribunal a quo aprecie a ação rescisória.” RE 534.343/RS – Relator Ministro Cezar Peluso – Julgamento: 16/12/2008 – DJU: 13/03/2009 – Disponível em: <http:www.stf.jus.br/portal/jurisprudencia/listarJurisprudencia.asp>. Acesso em: 24/11/2009. “Ementa: RECURSO. Extraordinário. Criminal. Pena. Prisão. Regime de cumprimento. Fase de execução. Aplicação de lei superveniente mais benigna. Admissibilidade. Existência de coisa julgada material. Irrelevância. Eficácia operante sob cláusula ‘rebus sic stantibus’. Crime hediondo. Progressão de regime. Direito reconhecido. Aplicação da Lei n. 11.464/2007, que deu nova redação ao art. 2º, § 1º, da Lei n. 8.072/90, tido por inconstitucional. Declaração de inconstitucionalidade que beneficia o réu. Precedentes. Inteligência do art. 5º, XLVI, da CF, e 65 e seguintes da LEP, e da súmula 611. O trânsito em julgado de sentença penal condenatória não obsta a aplicação, no processo de execução, de lei superveniente mais benigna sobre o regime de cumprimento da pena, nem ‘a fortiori’ a eficácia imediata de declaração de inconstitucionalidade que do mesmo modo beneficie o condenado.” RE 93.412/SC – Relator Ministro Clóvis Ramalhete – Julgamento: 04/05/1982 – DJU: 04/06/1982 – Disponível em: <http:www.stf.jus.br/portal/jurisprudencia/listarJurisprudencia.asp>. Acesso em: 24/11/2009. “Ementa: DESAPROPRIAÇÃO. INDENIZAÇÃO (ATUALIZAÇÃO). EXTRAVIO DE AUTOS. NOVA AVALIAÇÃO. COISA JULGADA. Não ofende a coisa julgada a decisão que, na execução, determina nova avaliação para atualizar o valor do imóvel, constante de laudo antigo, tendo em vista atender a garantia constitucional da justa indenização, procrastinada por culpa da expropriante.Precedentes do STF. Recurso Extraordinário não conhecido.”

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DINAMARCO, Cândido Rangel. Instituições de direito processual civil, cit., v. III, p. 307.

323 No artigo nominado “Fundamentos teóricos e filosóficos do novo direito constitucional brasileiro –

pós-modernidade, teoria crítica e pós-positivismo”, ressalta Luís Roberto Barroso que a “ponderação de valores ou ponderação de interesses é a técnica pela qual se procura

moralidade, aplicando-se o princípio instrumental da razoabilidade-proporcio-

nalidade. Adverte, ainda, que essa será uma situação excepcionalíssima e que

“somente em situações-limite, de quase-ruptura do sistema, será legítima a

superação da garantia constitucional da coisa julgada.”

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