Um exemplo disso é a prática de indicação dos ―animais aliados‖, ou ―animais guardiões‖, ou ―totem animal‖, ―espirito animal‖ etc. Essa prática é comum entre os nativos norte-americanos e aparece de diversas formas em várias culturas. Mircea Eliade comenta que ―esses espíritos auxiliares de forma animal desempenham papel importante no preâmbulo da sessão xamânica, ou seja, na preparação da viagem extática aos céus ou aos infernos‖ (ELIADE, 2002, p 111). É comum entre os grupos de Neoxamanismo urbano a conhecida Jornada em Busca do Animal de Poder. Uma prática comum que praticamente todos os grupos utilizam como mecanismo de apropriação do Xamanismo. Eliade descreve melhor essa experiência:
Geralmente sua presença é evidenciada pela imitação feita pelo xamã das vozes dos animais ou de seu comportamento. O xamã tungue, que têm uma serpente como espírito auxiliar, esforça-se por imitar através de mímicas os movimentos do réptil durante a sessão; [...] Aparentemente essa imitação xamânica dos gestos e das vozes dos animais pode passar por ―possessão‖, mas talvez fosse amis exato dizer que o xamã toma posse de seus espíritos
auxiliares: é ele que se transforma em animal, do mesmo modo como obtém
resultado semelhante usando uma máscara de animal; ou então poderia falar de nova identidade do xamã, que se torna animal-espírito e ―fala‖, canta ou voa como os animais e pássaros. A ―linguagem dos animais‖ não passa de uma variante da ―linguagem dos espíritos‖, linguagem xamânica secreta [...] Gostaríamos de chamar a atenção para o seguinte aspecto: a presença de um espírito auxiliar na forma animal, o diálogo com este numa língua secreta ou a encarnação desse espírito-animal pelo xamã (mascaras, gestos, danças etc.) são também meios de mostrar que o xamã é capaz de abandonar sua condição humana, que é capaz, em suma, de ―morrer‖ (ELIADE, 2002, p 112-113).
Essa linguagem secreta representa uma linguagem metafórica, que o xamã toma contato ao se relacionar com o mundo espiritual, é uma linguagem universal, no sentido que convoca imagens materiais que podem ser observáveis pela audiência de observadores do transe xamânico. O conhecimento e poder sobre esses animais são muito importantes, visto que ―aprender a linguagem dos animais, sobretudo a dos pássaros, equivale, em qualquer parte do mundo, a conhecer os segredos da natureza e, portanto, a ser capaz de profetizar‖ (ELIADE, 2002, p 117).
O domínio sobre a natureza, e como diz Eliade, a principal característica de que o xamã pode viajar pela àrvore do mundo, entre mundo subterrâneo, intermediário e superior, representa para muitos uma capacidade extra-humana, que tem um chamariz muito forte dentro dos grupos de Neoxamanismo urbano, e que não pode deixar de figurar como uma das
características marcantes da ideologia de um grupo, o poder dos xamãs é a fonte de interesse com o mesmo.
Entre os quéchuas, os três mundos são representados por animais, o subterrâneo Uhu Pacha pela serpente, o intermediário Kai Pacha pelo puma, e o superior Hanan Pacha pelo condor, são conceitos relativos ao tempo/espaço dentro do pensamento andino (QESPI, 1994). Para a etnia Huni Kuin, do Acre, não existem prioritariamente animais guardiões, mas existe uma infinidade de histórias em que os animais trouxeram remédios, medicinas e rituais para esse povo, em especial a mamãe jiboia, que é um animal guardião de toda a comunidade, e todos de alguma forma tomam contato com ela. Os desenhos da pele da jiboia estão presentes em todo o vestuário e nos adornos do povo. (CAMARGO & VILLAR, 2013). Joseph Epes Brown em sua obra Animales Del Alma – Animales sagrados de los oglala sioux, comenta como é a busca pelo espírito animal:
Entre o povo de cultura nômade e os animais de seu habitat se exerce necessariamente uma interação intensa. Isso é evidente em uma ampla variedade de expressões culturais que projetam o que poderia chamar de visão total de mundo por parte do homem. Os sioux oglala das planícies norte americanas são um clássico exemplo deste tipo de cultura. Nas palavras de um deles, Bufalo Bravo de Standing Rock, ―quando tinha dez anos me coloquei considerar os montes e os rios, o céu no alto e os animais ao meu redor, e não, pude deixar de compreender que os fizera algum Poder muito grande. Tão ansioso estava em entender esse Poder que sai perguntando as arvores e aos arbustos‖. [...] qual é precisamente, o conceito oglala de poder que se manifesta através dos animais? Qual a relação entre a multiplicidade de tais ―poderes‖ e o conceito unitário de ―Ser Supremo‖? Quem é o ―espírito guardião‖ adquirido pelo índio, e qual é a relação entre este ―poder espirito‖ e o ―senhor‖ dos animais? (BROWN, 1994, p. 17). Esse encontro ocorre durante a Vision Quest, lamento por uma visão, busca da visão, uma cerimônia tradicional em que o índio vai para as planícies e cânions, e fica em jejum por uma dezena de dias em busca de uma profecia, ou em torno de uma missão que deverá guiá-lo na comunidade, essa visão em geral pode vir acompanhada da revelação do espírito guardião. O espírito é um elemento importante de aquisição de poder no Xamanismo, mas a conexão é através da ida do xamã ao mundo espiritual, esses espíritos, quando se apresentam nesta realidade, são bem palpáveis. Como mencionado, um espírito animal é muito importante para o xamã adquirir poder, e mesmo para toda comunidade.