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Especificação do processo: [grau de desenvolvimento]

7.1 O sistema de CONGRUÊNCIA

7.1.2 Especificação do processo: [grau de desenvolvimento]

A especificação do desdobramento do processo também pode ocorrer para que se indique o seu grau de desenvolvimento, para mais ou para menos. Em uma oração como deu

uma lida, não podemos afirmar tratar-se de, por exemplo, apenas uma leitura; continua não

especificada a quantidade de processos caracterizados como leitura. Nesse caso, a especificação não se refere à quantidade, e sim ao grau de desenvolvimento. Alguém pode ter lido um mesmo texto duas vezes, mesmo assim não ter lido adequadamente (grau de desenvolvimento diminuído); da mesma forma, alguém pode ter lido um texto uma única vez, e ter lido de uma maneira considerada acima de uma leitura comum (grau de desenvolvimento aumentado).

A título de exemplificação, vejamos as orações seguintes, com o verbo dar seguido das nominalizações lida, olhada e buscada:

(209) me empresta aí // deixa eu / <dar uma lida> // (bpubcv07)

(210) <acho que tá igual> // <dá uma olhada no espelho / Bruno> // <cortei bastante / mas eu acho que ficou bom> // (bfamcv24)

(211) eu acho que ela tem que primeiro olhar na internet // dar umas buscada / assim / porque senão vai + (bfamdl26)

Em todos esses casos, os participantes na função de Agente, constituintes das orações com dar uma lida, dar uma olhada e dar umas buscada não dispensam tempo e/ou esforço cognitivo necessário(s) para que se possa dizer que os eventos ler, olhar e buscar foram desenvolvidos de maneira satisfatória. Em outras palavras, o usuário da língua portuguesa tem em mente que os processos ler um livro, olhar-se no espelho e buscar algo na internet necessitam de um tempo e de uma atenção para o seu desenvolvimento ideal. Caso esse tempo e essa atenção sejam diferentes da representação mental do desenvolvimento considerado ideal, há uma alteração de grau e, assim, entra em cena a metáfora gramatical aqui estudada.

Nesses termos, a especificação do processo pode ser no sentido de quantificá-lo ou alterar o seu grau de desenvolvimento. Logo, a opção pelo termo [incongruente], no sistema de

pode não ser descartado, e sim associado a um número maior de orações quando essas são analisadas em um grau avançado de refinamento.

CONGRUÊNCIA, conduz ao sistema ESPECIFICAÇÃO DO PROCESSO, constituído dos termos [quantidade] e [grau de desenvolvimento], como demonstrado no sistema disposto na Figura 84.

Figura 84 – Refinamento do sistema de CONGRUÊNCIA

Fonte: O autor (2019).

A diferença entre as opções [quantidade] e [grau de desenvolvimento] é melhor percebida diante de nomes com a mesma raiz morfológica, como, por exemplo, resposta e

respondida, em (212) e (213), respectivamente.

(212) então o que que a gente faz nesse caso // porque tu tem que resolver / tu tem que dar uma resposta // (bpubmn11)

(213) pessoal deu uma respondida num tópico parecido, mas como o caso era um pouco diferente, resolvi criar um tópico com o assunto certo150

(214) respondi sua pergunta? (Corpus Brasileiro)

Apesar de ambos os exemplos (212) e (213) nos remeterem a orações congruentes com a forma verbal responder, como em (214), percebe-se uma diferença de expressão dos nomes na função de Escopo (resposta em (212) e respondida em (213)). O sistema exposto na Figura 84 capta essa diferença entre as duas orações demonstrando que deu uma resposta especifica o processo responder por meio da quantificação e deu uma respondida especifica por uma mudança no grau de desenvolvimento. Ou seja, (212) demonstra tratar-se de apenas uma resposta, (213) expressa o fato de a resposta (ou as respostas, já que não há uma delimitação quantitativa) não ter sido satisfatória.

A quantificação foi representada em forma de setas na Figura 84 para revelar o fato de que ao curso do processo é conferida uma completude. Recorreremos à Figura 85 para compreender a noção de grau de desenvolvimento. Caso um evento qualquer tenha seu grau de desenvolvimento alterado, ele será, a priori, diminuído151. Alguém que dar uma lida, por exemplo, não dispensou um tempo e/ou um esforço cognitivo suficiente para se dizer que a

150 Disponível em: <https://forum.imasters.com.br/topic/359523-resolvido%C2%A0altura-100-com-tableless/>. Acesso em: 20 out. 2018.

leitura foi satisfatória. Utilizando-se a mesma forma de representação em linhas é possível tornar mais clara a diferença entre um processo com um grau diminuído (representado com as setas curvadas dispostas sobre a linha) e outro não diminuído.

Figura 85 – Representação da intensificação dos eventos

Fonte: O autor (2019).

Consultando as orações metafóricas com o verbo dar, percebeu-se que os dois termos do sistema ESPECIFICAÇÃO DO PROCESSO abrangem todas as expressões metafóricas extraídas do corpus C-ORAL-BRASIL. Alguns dos exemplos são dispostos no Quadro 17.

Quadro 17 – Exemplos de realizações da opção [incongruente]

CONGRUÊNCIA ESPECIFICAÇÃO DO PROCESSO Exemplo

incongruente

quantidade dar (um/uma)...

giro, abraço, beijo, facada, chute, soco, pisão, resposta, informação, explicação, exemplo, ponto, pulo, anestesia, rentabilidade, choro, risada, sorriso, passeio, jeito etc.

grau de desenvolvimento dar (um/uma)...

mudada, lida, olhada, revisada, conferida, explicada, rodada, evaporada, baixada, escurecida, gelada, passeada, ajeitada etc. Fonte: O autor (2019). Exemplos extraídos do C-ORAL-BRASIL e do Corpus Brasileiro.

O quadro demonstra a possibilidade de uma mesma forma verbal estar associada a dois tipos de nominalizações, cada uma realizando um tipo diferente de especificação do processo. Como exemplos podemos citar responder (ver exemplos (212) a (214)), passear e ajeitar, com as respectivas nominalizações seguindo o verbo dar: resposta/ passeio/ jeito [incongruente: quantidade] e respondida/ passeada/ ajeitada [incongruente: grau de desenvolvimento].

Desse quadro, observa-se que o sufixo -ada é normalmente associado a expressões do tipo [incongruente: grau de desenvolvimento]. Esse sufixo, de fato, como já explorado por

Scher (2004; 2005), tende a conferir o valor de diminutividade (ou seja, reduz o grau de desenvolvimento do processo). Entretanto, é possível que esse sufixo não altere o grau de desenvolvimento do processo, como se verifica nos exemplos com dar uma facada, já apresentados, e também no exemplo com dar risada, na oração (215), em que ao processo rir, tal como acontece com o processo girar (ver Figura 82), é conferida completude, permitindo sua quantificação – nesse caso, uma quantificação indefinida (muitas risadas):

(215) cê [/1] cê &escuto + as aulas / es morrem de dar risada (bpubdl08)

Acontece que as formas facada e risada, na função de Escopo seguindo o verbo dar, não são enates152 das nominalizações mudada, lida, olhada, revisada, conferida etc., apesar de se assemelharem morfologicamente. Isso corresponde dizer que risada e mudada, por exemplo, não compartilham uma organização estrutural semelhante; para que essas palavras fossem

enates, deveríamos ter o par rida-mudada. Isso porque as nominalizações constituídas do sufixo -ada, quando realizam o termo [grau de desenvolvimento], são semelhantes aos femininos dos

particípios dos respectivos verbos dos quais derivam. Nesse sentido, facada e risada não são

enates de mudada, lida, olhada etc. porque distanciam-se dos respectivos particípios esfaqueado e rido (ver Quadro 18).

Quadro 18 – Paradigma de nominalizações com -ada baseado na forma particípio

especificação do processo verbo forma particípio nominalização constitutiva da metáfora gramatical

quantidade esfaquear esfaqueado *esfaqueada / facada

rir rido *rida / risada

grau de desenvolvimento

mudar mudado mudada

ler lido lida

olhar olhado olhada

revisar revisado revisada

conferir conferido conferida

explicar explicado explicada

rodar rodado rodada

evaporar evaporado evaporada

baixar baixado baixada

escurecer escurecido escurecida

gelar gelado gelada

passear passeado passeada

ajeitar ajeitado ajeitada

Fonte: O autor (2019). Exemplos extraídos do C-ORAL-BRASIL.

152 O termo enate refere-se às orações ou palavras com elementos constitutivos diferentes, mas com uma organização estrutural semelhante. Sobre a diferença entre enate e agnato, bem como a utilidade desses termos na descrição linguística, ver Capítulo 3, seção 3.2.2.

Para os verbos esfaquear e rir, não são possíveis as expressões dar uma esfaqueada e

dar uma rida, com esfaqueada e rida (estes sim enates de mudada, lida, olhada etc.) na

realização do termo [grau de desenvolvimento].

Na seção seguinte, aprofundamos a argumentação a respeito da constituição do sistema de CONGRUÊNCIA e o localizamos no sistema de TRANSITIVIDADE.