2.3 O sistema de TRANSITIVIDADE
2.3.1 O sistema de TIPO DE PROCESSO
São três os principais processos apontados por Halliday e Matthiessen (2004) para a língua inglesa e também identificados na língua portuguesa (CUNHA; SOUZA, 2007; FUZER; CABRAL, 2014): Processos Materiais, Processos Mentais e Processos Relacionais. Esses processos relacionam-se, respectivamente, aos mundos físico, da consciência e das relações abstratas. Ainda, nas regiões intermediárias entre cada um desses processos, há outros tipos: Comportamental, Verbal e Existencial (ver Figura 8, anteriormente apresentada, e Figura 15, a seguir).
Nas orações, processos são “tipicamente” (HALLIDAY; MATTHIESSEN, 2004, p. 177) realizados por grupos verbais, participantes por grupos nominais e circunstâncias por grupos adverbiais e sintagmas preposicionais. Desses elementos, no centro da oração está o processo, que é, em língua inglesa, sempre acompanhado por um participante e, opcionalmente, por uma circunstância.
Os tipos de orações são definidos não pelo grupo verbal em si, mas pelo processo que ela expressa, o qual pode ser identificado pelos tipos de participante presentes.
As orações materiais expressam ações e acontecimentos. São orações em que se tem um Ator, responsável pelo fluxo de energia para o desdobramento do processo, e, opcionalmente, dependendo da natureza transitiva ou intransitiva, o papel de participante Meta, representando o participante a quem o processo é estendido. Outros participantes podem fazer parte de uma oração material, a exemplo de Escopo, que constrói ou delimita o domínio de desdobramento
do processo, Recebedor (beneficiário de bens) e Cliente (beneficiário de serviços). A Figura 9, a seguir, exemplifica didaticamente as orações materiais com alguns de seus participantes.
Figura 9 – Orações materiais
O sobrevivente morrerá logo na Ásia
Ator Pr.: Material Circ. Circ.
O sequestrador matou o motorista
Ator Pr.: Material Meta
o filho do prefeito deu a ele um de seus valiosos cavalos manga-larga
Ator Pr.: Material Recebedor Meta
xá eu dar uma passadinha aqui
Ator Pr.: Material Escopo Circunstância
Fonte: O autor (2019). Orações extraídas do Corpus Brasileiro (o sobrevivente morrerá logo na Ásia; o sequestrador matou o motorista; o filho do prefeito deu a ele um de seus valiosos cavalos manga-larga)
e do C-ORAL-BRASIL (xá deu dar uma passadinha aqui (bpubdl07)).
As orações com Processos Mentais se distinguem por terem como participante inerente não o Ator, e sim o Experienciador, que é dotado de consciência e capaz de sentir, pensar, perceber e desejar. Esses processos ainda podem se estender a um outro participante, o Fenômeno, referente ao que é sentido (Processo Mental emotivo), pensado (Processo Mental cognitivo), percebido (Processo Mental perceptivo) ou desejado (Processo Mental desiderativo). A Figura 10, a seguir, exemplifica os Processos Mentais.
Figura 10 – Orações mentais
Ela gosta de você?
Experienciador Pr.: Mental emotivo Fenômeno
O rei refletiu longamente
Experienciador Pr.: Mental cognitivo Circunstância
Você viu o que ele fez
Experienciador Pr.: Mental perceptivo Fenômeno
a sociedade deseja um teto que não seja dúplex
Experienciador Pr.: Mental desiderativo Fenômeno
As orações relacionais distinguem-se das materiais e mentais por apresentarem mais frequentemente dois participantes, sendo a relação entre eles de atribuição (quando um atribui uma característica ao outro) ou de identificação (quando um identifica o outro). As orações relacionais atributivas possuem os papéis de participante Portador e Atributo; as orações relacionais identificativas possuem os papéis de participante Identificado e Identificador (ver Figura 11).
Figura 11 – Orações relacionais
Esse povo do Galáticos é muito palha
Portador Pr.: Relacional atributivo Atributo
Quem é o porco?
Identificado Pr.: Relacional identificativo Identificador
Fonte: O autor (2019). Orações extraídas do C-ORAL-BRASIL.
As orações do tipo verbal estão na fronteira entre as mentais e as relacionais. Da mesma forma que os Processos Mentais, os Processos Verbais se relacionam com o processamento simbólico, mas estes se diferenciam por se referirem à simbolização exterior (dizer), e não à simbolização interior (sentir/ pensar/ perceber/ desejar) – ver Halliday e Matthiessen (1999, p. 129). Os principais participantes são o Dizente, que expressa a fonte simbólica, e a Verbiagem, correspondente ao conteúdo simbólico. Ainda são recorrentes os participantes Receptor, a quem se dirige o conteúdo simbólico, e Alvo, atingido pelo processo. A Figura 12 exemplifica os Processos Verbais.
Figura 12 – Orações verbais
O tenente me contou do assédio contra sua mulher
Dizente Receptor Pr.: Verbal Verbiagem
No intervalo o técnico os repreendeu
Circunstância Dizente Alvo Pr.: Verbal
Fonte: O autor (2019). Orações extraídas do Corpus Brasileiro.
As orações comportamentais ocupam a fronteira entre as materiais e as mentais. Apresentam características mentais, por possuírem um participante geralmente consciente, e materiais, por realizarem processos de cunho fisiológico. O participante inerente à configuração da oração comportamental é o Comportante (ver Figura 13).
Figura 13 – Oração comportamental
Ele tossiu duas vezes
Comportante Pr.: Comportamental Circunstância
Fonte: O autor (2019). Oração extraída do Corpus Brasileiro.
Por fim, as orações existenciais estão na fronteira entre as materiais e as relacionais. Essas orações expressam a existência de algo ou alguém. Possuem um único papel de participante: o Existente. Os Processos Existenciais são prototipicamente realizados pelo verbo
haver (ver Figura 14):
Figura 14 – Oração existencial
Não havia marcas de tiro no corpo
Pr.: Existencial Existente Circunstância
Fonte: O autor (2019). Oração extraída do Corpus Brasileiro.
Além da representação em forma de rede de sistema, consoante exposto na Figura 7, Halliday (1994) cria um diagrama para a exposição dos tipos de processo. Esse diagrama, com a convergência de cores (ver Figura 15), possui a vantagem de demonstrar o princípio da “indeterminação sistêmica” (HALLIDAY; MATTHIESSEN, 2004, p. 173) entre os diferentes processos. Segundo esse princípio, não há fronteiras fixas entre as regiões da experiência; considerando-se a fronteira entre os Processos Materiais criativos e os Processos Existenciais, por exemplo, isso significa dizer que há orações com características próximas de ambas as regiões (por causa disso, é comum que uma mesma oração seja, comumente, classificada de maneira distinta por diferentes estudiosos especialistas da LSF, como demonstrado por O’Donnell, Zappavigna e Whitelaw (2009) e Gwilliams e Fontaine (2015)).
Figura 15 – A gramática da experiência: tipos de processo
Fonte: Halliday (1994); Halliday e Matthiessen (2004, p. 172).
Dada a apresentação do sistema de TIPO DE PROCESSO, a seção seguinte apresenta o sistema de AGÊNCIA.