6.3 Verbo dar Relacional
6.3.6 Verbo dar circunstancial
As orações relacionais também podem ser do tipo circunstancial. A seguir, a forma verbal dar é usada na realização de Processo Relacional atributivo circunstancial de tempo (exemplo (175)) e lugar (exemplos (176) a (178)).
(175) *ASI: a caminhada nũ é dia primeiro não / é dia cinco //
*CRI: e se dia cinco der durante a semana // [...] aí muda (bfamdl16) (176) aqui [este local] dá pra <porta> // (bpubcv01)
(177) A fachada do Comitê Olímpico na avenida de Gentilly dá para a Casa do Brasil. (Corpus Brasileiro)
(178) – Aqui não passa trenó – disse o homem. – Não há tráfego aqui.
– Mas este é o caminho que dá para o castelo. (Corpus Brasileiro)
Nessas orações, o Portador (dia cinco, aqui, a fachada do Comitê Olímpico na avenida
de Gentilly e o caminho) mantém, com o Atributo, uma relação de tempo (durante a semana)
ou lugar (pra porta, para a Casa do Brasil, para o castelo). Em todos os casos, o participante Portador é representado como um dos membros que compõem um determinado período temporal ou se dispõem em relação a um determinado lugar. A Figura 70 expressa a análise dessas orações.
Figura 70 – Verbo dar em orações relacionais de circunstância
aqui [este local] dá pra porta
A fachada do Comitê Olímpico na avenida de Gentilly
dá para a Casa do Brasil
este caminho dá para o castelo
Portador Processo atributivo
circunstancial: lugar
Atributo
dia cinco der durante a semana
Portador Processo atributivo
circunstancial: tempo
Atributo
Fonte: O autor (2019). Orações extraídas do C-ORAL-BRASIL (dia cinco der durante a semana (bfamdl16); aqui dá pra porta (bpubcv01)) e do Corpus Brasileiro (A fachada do Comitê Olímpico na
avenida de Gentilly dá para a Casa do Brasil; este caminho dá para o castelo).
No caso do verbo dar realizar um Processo Relacional atributivo circunstancial de lugar, são possíveis dois sentidos, a depender da natureza do participante Portador. Sendo o Portador um ponto de referência, como aqui, em (176), e a fachada do Comitê Olímpico na avenida de
Gentilly, em (177), é representado como situando-se em frente ao local especificado pelo
Atributo; sendo o Portador um ponto de ligação entre dois ou mais lugares (caminho, estrada, pista, rua, avenida etc., como em (178)), o Atributo é o local para onde ele se direciona. Em ambos os casos, verifica-se, tal como apontado por Halliday e Matthiessen (2004, p. 242), a natureza física e imóvel do participante Portador.
6.4 Verbo dar Verbal
Segundo Halliday e Matthiessen (1999), as figuras podem representar experiências simbólicas. Esse processamento simbólico pode ser tanto do tipo mental como do tipo verbal.
Na forma de representação verbal, tem-se, assim como nas representações mentais, o participante Simbolizador, que é, frequentemente, dotado de consciência.
No caso das orações verbais, o Simbolizador é denominado Dizente. Além desse participante, as orações verbais caracterizam-se pela possibilidade de projeção e pelos participantes Verbiagem – referente ao conteúdo do processamento semiótico/verbal – e Receptor – para quem é direcionado o processamento simbólico/verbal.
Das orações com processos realizados pela forma verbal dar, foram identificadas algumas que se enquadram no domínio verbal da gramática da experiência. As orações seguintes são apresentadas como exemplos:
(179) aliás / a amiga dela que usava / né / e [a amiga dela] deu o nome [do ácido bórico] pra ela // só que nũ deu por escrito / né <hhh> // (bfamcv19)
(180) aí / ela me deu> [o nome do remédio] por escrito // falou / compra pra mim // porque / eu tô com problema no dedo / &he / de lavar roupa // aí eu fui à farmácia / (bfamcv19) (181) e se ele pensar que é só o conteúdo / vai chegar e dar o conteúdo / ele não vai conseguir
fazer isso // que e' tem que procurar entender os outros fatores pra que e' consiga / né // ou seja / tem que ter jeito [/1] jogo de cintura // (bfammn15)
(182) ela mora / lá em beagá / ela me deu até o endereço / eu ia lá na casa dela lá visitar ela / <né> / (bpubdl11)
As orações de (179) a (182) apresentam um participante dotado de consciência, embora essa não seja uma característica definidora do Dizente. O Processo Verbal, nesses casos, apesar de não ser realizado pela forma prototípica dizer, também tem a ideia de compartilhamento de conteúdo simbólico. O conteúdo simbólico é realizado por grupos nominais como o nome (do
ácido bórico, do remédio etc.), o endereço, o conteúdo, uma dica etc. que ocupam a função de
Verbiagem. O participante com quem o Dizente compartilha o conteúdo simbólico é o Receptor, realizado por um sintagma preposicional encabeçado pela preposição para (pra ela) ou por um grupo nominal nucleado por um pronome oblíquo (como me).
Figura 71 – Processos Verbais com o verbo dar
ela me deu [o nome do
remédio]
por escrito
ela me deu o endereço
Dizente Receptor Pr.: Verbal Verbiagem Circ.: Meio
Agente Beneficiário Processo Extensão Circunstância
[a amiga dela] deu o nome [do ácido bórico] pra ela
[a amiga dela] deu [o nome do ácido bórico] [pra ela] por escrito
[ele] dar o conteúdo [para os
alunos]
Dizente Pr.: Verbal Verbiagem Receptor Circ.: Meio
Agente Processo Extensão Beneficiário Circunstância
Fonte: O autor (2019). Orações extraídas do C-ORAL-BRASIL.
Comparando-se essas orações com aquelas em que o verbo dar é transformativo de extensão, duas semelhanças são percebidas. A primeira se dá com os participantes do par Receptor-Recebedor: o Receptor é parecido com o Recebedor semanticamente e lexicogramaticalmente, por se referirem, geralmente, a um ser consciente e serem realizados por sintagma preposicional com a/para ou grupo nominal com pronome oblíquo. A segunda semelhança é percebida entre os participantes Dizente e Ator: o Ator, apesar de constituir orações materiais (que não apresentam restrições quanto à consciência de seus participantes (HALLIDAY; MATTHIESSEN, 2004)), quando diante do verbo dar transformativo de extensão é, também, tal como o Dizente, geralmente consciente; ambos o Dizente e o Ator também são realizados por um grupo nominal. Essa semelhança é percebida no modelo generalizado da transitividade (isto é, o modelo ergativo), no qual ambos Receptor e Recebedor são referidos como Beneficiário e ambos Dizente e Ator são referidos como Agente. (Ver Figura 72 a seguir.)
A diferença entre as orações analisadas nesta seção e aquelas em que o verbo dar é transformativo de extensão se dá entre os participantes do par Verbiagem-Meta e na natureza do elemento circunstancial. O participante na função de Verbiagem refere-se não a algo concreto passível de ser transferido, mas a um conteúdo simbólico – esse conteúdo simbólico, a bem dizer, não é transferido, mas compartilhado, pois o Dizente, ao transferi-lo, não deixa de tê-lo. Quanto ao elemento circunstancial, é comum encontrar, nas orações verbais, a presença de uma Circunstância de Meio indicando o meio de expressão (falado, escrito) utilizado no compartilhamento do conteúdo simbólico (como, por exemplo, por escrito, nos exemplos (179)
e (180)). Essa diferença é percebida até mesmo no modelo ergativo, para a qual o conteúdo simbólico nas orações verbais é representado na função Extensão e o objeto transferido nas orações materiais é representado na função de Meio (ver Figura 72).
Figura 72 – Similaridades e diferenças entre o verbo dar Material transformativo de extensão e o verbo dar Verbal
Oração verbal
ela me deu [o nome do
remédio]
por escrito pers. transitiva Dizente Receptor Pr.: Verbal Verbiagem Circ.: Meio pers. ergativa Meio Beneficiário Processo Extensão Circunstância Oração
material
ela me deu uma santinha pra mim rezar
pers. transitiva Ator Recebedor Pr.: Material Meta Circ.: Causa pers. ergativa Agente Beneficiário Processo Meio Circunstância
Fonte: O autor (2019). Orações extraídas do C-ORAL-BRASIL.
Assim, apesar de as orações apresentadas nesta seção também disporem do padrão geral
alguém dar algo a/para alguém, trata-se de elementos de sentidos diferentes, com uma
configuração própria, merecendo, portanto, uma classificação distinta.
6.5 Verbo dar Mental
Além das características das orações mentais apresentadas no Capítulo 2, seção 2.3.1, Halliday e Matthiessen (2004) ainda identificam a bidirecionalidade semântica, que aponta para orações semanticamente semelhantes com processos realizados por formas verbais distintas (ver Figura 73):
Figura 73 – Verbos gostar e agradar interpretados como orações mentais
Maria gostou do presente o presente agradou Maria
Experienciador Pr.: Mental Fenômeno Fenômeno Pr.: Mental Experienciador gr. nominal gr. verbal gr. nominal gr. nominal gr. verbal gr. nominal
Fonte: Halliday e Matthiessen (2004, p. 201).
Para Halliday e Matthiessen (2004), são comuns, na região mental da representação da experiência, pares de verbos voltados para essa bidirecionalidade: gostar-agradecer, acreditar-
convencer, temer-amedrontar etc. Verificamos que ambos os direcionamentos podem ser
de Escopo, indica a direção do tipo ‘gostar’; os exemplos (184) e (185) estão para a direção do tipo ‘agradar’.
(183) Ela tirou rapidamente os sapatos do pé, deu uma analisada, estavam perfeitos, e entregou à menina136
(184) [o viagra] dá duas vezes mais satisfação do que o grau três // pra ele e pra mulher // (bfammn16)
(185) [a notícia] me deu prazer (Corpus Brasileiro)
A exemplo do que acontece com as orações mentais em inglês, no português brasileiro o verbo dar pode estar acompanhado do participante Fenômeno realizado por uma oração:
(186) Sempre me deu prazer ironizar meu aspecto físico (Corpus Brasileiro)
A Figura 74, a seguir, expressa a análise das orações mentais aqui expostas:
Figura 74 – Análise das orações mentais com o verbo dar
Tipo ‘gostar’ Ela deu uma analisada [nos sapatos]
Experienciador Pr.: Mental Escopo Fenômeno
Tipo ‘agradar’
[a notícia] me deu prazer
Fenômeno Experienciador Pr.: Mental Escopo
[o viagra] dá duas vezes mais
satisfação do que o grau três
pra ele e pra mulher
Fenômeno Pr.: Mental Escopo Experienciador
Fonte: O autor (2019). Orações extraídas da Internet (Ela deu uma analisada [nos sapatos]), do Corpus Brasileiro ([a notícia] me deu prazer) e do C-ORAL-BRASIL ([o viagra] dá duas vezes mais
satisfação do que o grau três pra ele e pra mulher (bfammn16)).
O Experienciador nas orações do tipo ‘agradar’ é realizado de maneira semelhante ao Recebedor das orações materiais transformativas de extensão: (i) por meio de sintagma preposicional encabeçado pela preposição para/pra ou a; e (ii) por pronome pessoal do caso oblíquo (me, te, nos etc.). Essa semelhança pode estar relacionada ao fato de o Fenômeno, nesse tipo de oração mental, ter a função de Agente no modelo ergativo. Mas as orações mentais com o verbo dar se distinguem por sempre apresentarem a função Escopo e poderem ter o Fenômeno realizado por orações.