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CAPÍTULO II – Estatuto do juízo determinante: a legalidade da unidade

2. Estatuto e conteúdo do juízo determinante

O juízo, quando do cumprimento de seu princípio, faz remeter uma síntese para a apercepção:

“[...] um juízo mais não é do que a maneira de trazer à unidade objetiva da apercepção conhecimentos dados” (CRP B 141) [...] segundo princípios da determinação objectiva de todas as representações, na medida em que daí possa resultar um conhecimento, princípios esses que são todos derivados do princípio da unidade transcendental da apercepção. Só assim dessa relação surge um juízo, ou seja, uma relação objetivamente válida, que se distingue suficientemente de uma relação destas mesmas representações, na qual há validade apenas subjetiva, como por exemplo a que é obtida pelas leis da associação. (CRP B 142)

objetivamente válida. Seu princípio a priori se cumpre na ligação entre representações sob categorias do entendimento.29

O caso da associação pouco compete a um conhecimento, pois se um enlace não é estabelecido é devido à falta de determinações categoriais, como por exemplo a relação causal entre os objetos (CRP B 143).

Mesmo os juízos empíricos condicionam-se de modo determinante, implicando sempre em uma causalidade fundada em um princípio a priori. O caráter necessário das categorias se ajusta às condições dadas pela sensibilidade.

Kant parece, aqui, separar o princípio causal universal das leis causais particulares tão nitidamente quanto se poderia desejar. O princípio de que todo evento B tem uma causa A certamente é a priori e necessário. No entanto, leis causais particulares – instanciações particulares (via conceitos empíricos particulares) da generalização de que todos os acontecimentos do tipo A são seguidos por acontecimentos do tipo B – ficam completamente indeterminadas pelo princípio causal. (Friedman 2009:208)

A tese kantiana sobre o conhecimento consiste em fazer ultrapassar o argumento indutivo, insinuado como um método científico, substituindo-o por uma pretensão válida universalmente, dada no interior de nossa estrutura do entendimento. Esta pretensão inscrita em nossa mente e o uso sistemático dela consiste no ‘despertar do sono dogmático’ e sustento de nossa pretensão que ajuíza, por exemplo: ‘os corpos são pesados.’

Quando Kant afirma que ‘há uma conexão necessária entre causa e efeito’ (Friedman 2009:197), mesmo quando esta conexão seja dada por um conceito puro que não pode constranger os eventos empíricos mas tão somente os subsumir, faz superar a perspectiva de Hume sob uma operacionalidade lógica do juízo. Por isto o juízo é sempre caracterizado como determinante na primeira Crítica.

Podemos entender agora que o estatuto do juízo está comprometido com uma função do entendimento em dar objetividade e universalidade a uma representação, demarcando uma diferença essencial entre associação e determinação.

A associação é uma relação fundada na imaginação, ao passo que a determinação é fundada no entendimento. Neste sentido, um trabalho da imaginação

29 A citação pontua tão somente a função determinante da faculdade do juízo. Sabemos que esta

posição será revista na terceira Crítica, porém, fica em aberto a questão de como Kant relaciona definições tão estritas da primeira Crítica para com a terceira. Nossa percepção é a de que Kant mantém este princípio do juízo como definido na primeira Crítica. Porém descobre uma função separada da harmonia sintética da apercepção para o caso do juízo estético.

seria capaz de proferir o seguinte juízo, ‘há um corpo e uma sensação de peso na minha mão, enquanto que o entendimento permite-nos dizer, ‘o corpo representado possui um peso’.

Os processos de associação ligam-se à capacidade da imaginação. Seja enquanto reprodutivos (CRP A 100) ou produtivos (CRP B 151). É mais evidente entendermos a associação como que ligada ao processo reprodutivo da imaginação, pois que este pode dispor objetos entre si: “faculdade de representar um objeto, mesmo sem a presença deste na intuição” (CFJ B 151). Kant define a imaginação enquanto faculdade ligada à sensibilidade, e isto explica a relação entre associação e imaginação, pois que se situa anteriormente às síntese do entendimento, e portanto ‘associa’ e não ‘determina’ um múltiplo da intuição. Embora os esquemas da imaginação sirvam a uma “conformidade com as categorias” (CRP B 152), eles em sua autonomia apenas associam.

Quando tomamos o exemplo de associação em Kant, o objeto citado, embora objetivo, possui um modo de ligação que se refere somente à subjetividade: ‘Sinto o corpo e o peso em minha mão’. A mera associação não representa um juízo levado a cabo. A associação é ainda subjetiva e não dispõe da objetividade exigida por um juízo completo.

O juízo no exemplo empírico, ‘este corpo possui peso’, fundamenta-se em conceitos puros, possui um valor de verdade que pode ser colocado a prova para cada caso singular, e pode vir a estender este juízo, igualmente fundamentado em leis a

priori de nosso entendimento, para uma forma axiomática: ‘todos os corpos são

pesados’.

Notemos também que a associação pode tomar conceitos empíricos como base, pois como no exemplo de Kant, corpo, mão e sensação de peso, são objetividades enquanto tais, ou seja, são produtos determinados, embora o juízo que os ligue o faça apenas subjetivamente. Neste caso o juízo que os liga não estabelece qualquer conexão necessária.

A questão polêmica a respeito do juízo que expressamos quando de um corpo em nossa mão faz somente ressaltar a implausibilidade de tal ocorrência. Duas vezes que tenhamos um objeto na mão, saberíamos que o peso é do objeto, assim indica Hume30. Porém, afora fenômenos aos quais já tenhamos este hábito de ligação 30

29. [...] Se nos for apresentado um corpo de cor e consistência parecidas às do pão, que já comemos, não temos receio de repetir a experiência, certos de que ele nos proporcionará o mesmo alimento e sustento.” (Hume 1973:141)

determinante, fica patente a capacidade associativa própria da imaginação.

Compreendida a função do juízo determinante, deduz-se dela uma estrutura do conhecimento. Desta estrutura decorre o fundamento da estrutura da ciência, que percorre ascendentemente de juízos empíricos até as teorias tão fundamentais para o conhecimento da natureza. O juízo determinante é uma resolução da síntese intelectual do entendimento remetido à apercepção, o que faz com que sua estrutura conceitual se some a uma rede de conhecimentos ao qual se dá o nome de ciência.

A ciência por sua vez, esta rede de conhecimentos, toma ideias da razão para seu estabelecimento. Não vamos adentrar nas discussões acerca da legitimidade transcendental da razão no estabelecimento da ciência, mas apenas indicar duas referências a esta questão. Uma sugerida por Körner:

Kant soaria muito bem como um instrumentalista na filosofia da ciência. Isto é, ele estaria afirmando que termos teóricos funcionam na ciência como unificadores de conceitos e leis, que, por sua vez, se referem genuinamente à realidade empírica, e, também, que os termos teóricos por si mesmo, porém, não se referem a essa realidade. Eles são gerados como conveniências para o nosso uso, mas seria um grave erro teórico compreendê-los como se nos dessem um conhecimento mais adequado da realidade empírica do que aquele que adquirimos pelo uso de conceitos empíricos não teóricos. (Wartenberg 2009:279, 280)

E outra a qual Wartenberg discute esta possibilidade:

O único conhecimento a priori obtenível aos seres humanos está limitado à estrutura geral da experiência e aos objetos empíricos que perfazem o mundo fenomênico. Já que Kant procede a afirmar que a razão tem somente uma função regulativa, e não constitutiva, com respeito ao conhecimento, parece impossível atribuir a ele a visão de que a razão fornece um fundamento transcendental para a prática científica [...] embora ele atribua conhecimento transcendental à razão como a base para a prática científica, esse conhecimento não significa uma extensão ilegítima de nosso conhecimento a

priori além de seus limites legítimos. (Wartenberg 2009:280,281)

Como o papel da razão e uma eventual justificação transcendental da estrutura da ciência excedem nossos objetivos, permanecemos no estatuto do juízo determinante.

Este estatuto leva a cabo uma subsunção dos conceitos puros das categorias do entendimento sobre os esquemas da imaginação. O seu conteúdo é exibido pela apercepção de modo a estabelecer um conhecimento objetivo.

exigência da apercepção, e implica necessariamente em um regramento capaz de aferir objetividade, tendo uma exibição esquemática de seu conteúdo.

Assim, por exemplo, quando converto em percepção a intuição empírica de uma casa pela apreensão do diverso dessa intuição, tenho por fundamento a

unidade necessária do espaço e da intuição sensível externa em geral e como

que desenho a sua figura segundo a unidade sintética do diverso no espaço. Mas, se abstrair da forma do espaço a intuição de uma casa [grifo nosso], esta mesma unidade sintética tem a sua sede no entendimento e é a categoria da síntese do homogêneo numa intuição em geral, ou seja, a categoria da

quantidade, à qual deverá portanto ser totalmente conforme esta síntese da

apreensão, isto é, a percepção. (CRP B 162)

Desta maneira fica provado que a síntese da apreensão, que é empírica, tem que ser necessariamente conforme à síntese da apercepção, que é intelectual e está inteiramente contida a priori na categoria. É uma e a mesma espontaneidade, que ali sob o nome de imaginação, aqui sob o de entendimento, promove a ligação no diverso da intuição. (CRP B 163)

Fica assim o juízo determinante vinculado intrinsecamente ao entendimento e este à apercepção.

2.1 A exibição esquemática e simbólica dos juízos.

No capítulo anterior abordamos o tema da hipotipose para ilustrar questões concernentes à exibição do juízo reflexivo. Porém, como nos mostra Beckenkamp (2001) o procedimento de inferência analógica que constitui a exibição simbólica foi utilizado por Kant inicialmente para caracterizar a possibilidade de uma exibição de uma idéia da razão em uma imagem sensível:

É claro que na mitologia posteriormente reivindicada se trata de uma “simbólica universal” (cf. K.F.A. Schelling, SW I/6, Stuttgart, Cotta, 1856, p. 571) compartilhada por todo um coletivo, enquanto em Kant a necessidade de uma simbolização das idéias decorre naturalmente da limitação da própria razão, que faz com que “tenhamos sempre necessidade de uma certa analogia com seres da natureza, a fim de nos tornar apreensíveis disposições supra- sensíveis” [Die Religion, AA VI, 65 nota]. (Beckenkamp 2001:5)

A hipotipose esquemática se confunde com a estrutura da síntese da apercepção, torna-se direta, em contraposição à simbólica, pois é inerente ao juízo

determinar uma finalidade. A exibição é indireta no caso do juízo moral, dada sua incapacidade de se exibir sensivelmente, e no juízo da beleza, pois não possui representação, nem sensível (uma imagem da intuição) nem conceitual, mas apenas um sentimento puro.

Na primeira Crítica, a razão pura propõe modelos que superam a legalidade do entendimento, embora contribuam para ele (Wartenberg apud Guyer 2009). Um exemplo simples desta interferência encontramos na idéia da perfeição do objeto, que raramente encontramos nas medições científicas, mas que contribuem para a postulação de suas leis. (CRP A 664-666)

A exibição de um juízo determinante não requer sequer uma terminologia diferenciada como a de hipotipose para caracterizar sua exibição, pois que esta é direta, objetiva e se mostra imediatamente na apercepção.

O termo hipotipose é derivado de uma tradição retórica, de convencimento em um discurso. Kant o resignifica para tentar demonstrar por um meio sensível, uma idéia moral. O termo é criado para dar conta de uma situação onde o conhecimento moral não é capaz de se atrelar a um objeto, não é capaz de correspondência lógica em sentido ontológico (CRP A 664-666), ou seja, a hipotipose simbólica gera um ‘convencimento’ por uma exibição que é analógica. Nesta mesma linha interpretativa vemos o inverso acontecer, o termo apercepção não aparece nas páginas da terceira Crítica.