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Evolução da Mancha Urbana entre 1970 e 2010

4. INSTITUCIONALIDADE E DINÂMICA SOCIOPOLÍTICA

6.1. Evolução da Mancha Urbana entre 1970 e 2010

São Vicente foi o primeiro município criado no Estado de São Paulo. A Vila de São Vicente foi fundada em 1532. Até sua tornar-se município, São Vicente constituía um pequeno grupo de dez ou doze casas. É com a chegada de Martim Afonso que se inicia um processo de desenvolvimento econômico, especialmente com a plantação de cana-de-açúcar. Mas a lavoura canavieira mostrou uma rápida decadência, devido às grandes distâncias com os mercados consumidores europeus, assim como com áreas periodicamente recobertas por águas decorrentes de chuvas de verão, que formavam brejos e delimitavam um pequeno espaço agrícola, e condições climáticas que tornavam a terra.

Assim, logo no começo da exploração, a região já apresentava sinais de que a agricultura não seria adequada para aquele tipo de solo, tornando-se necessária a implementação de outro tipo atividade econômica para a área. Após a fundação do município, fundou-se o núcleo populacional que, posteriormente, viria a ser a cidade de Santos. O porto de São Vicente, situado anteriormente na atual Ponta da Praia, foi transferido para o interior do canal do estuário, local do atual porto de Santos.

Com poucas terras próprias para a utilização da agricultura, a economia da Ilha de São Vicente passou a depender cada vez mais do Porto de Santos, e com isto, tornava-se necessária a criação de uma rede urbana mínima para a execução das funções portuárias. Nesta configuração, a São Vicente restava a função de ligar o litoral com o planalto e com o exterior. Contudo já nos primeiros anos do povoamento, a Vila de Santos, fundada em 1545, passou a realizar essas conexões, porque seu porto, com capacidade para embarcações de grande porte, corrigia um problema do estuário de São Vicente que só comportava pequenas embarcações.

O crescimento da ocupação de São Vicente se deu, então, mais fortemente quando, a partir do final do século XIX, as atividades portuárias relacionadas à exportação de café impulsionaram uma forte expansão urbana em Santos, e por indução São Vicente também foi se expandindo. Nos últimos 25 anos do século XIX a população de São Vicente mais que duplicou, passando de 1.593 para 4.004 habitantes (Jakob, 2003). Na primeira metade do século XX o crescimento populacional de São Vicente foi constante, embora moderado. As áreas mais

densamente ocupadas eram a orla da baía de São Vicente, os bairros situados entre esta e o centro e, na periferia deste, concentravam-se alguns poucos bairros operários.

A segregação sócio espacial demarcou territórios desde, pelo menos, a década de 1940, quando a população mais pobre passou a ocupar o morro do Itararé, na praia do mesmo nome, instalando-se em terrenos pertencentes à Irmandade da Santa Casa de Santos, sob regime de aluguel de chão. Foi a maneira que esses moradores encontraram para permanecer junto às áreas mais centrais e também próximos à via por onde passava o bonde que ligava o centro de São Vicente a Santos, pela orla da praia.

Nesse período iniciou-se um movimento que perdura até os dias de hoje: o avanço da emergente classe média de Santos sobre os bairros de baixa renda de seu município e a migração das famílias aí residentes para a periferia, não só de Santos, como também para bairros de São Vicente, limítrofes ao município de Santos (Vila São Jorge, Vila Jóquei Clube, Vila Paraíso, entre outros), bairros estes que se formaram sobre áreas de várzeas com déficits de infraestrutura.

101 No final dos anos 1940, Santos possuía 80% do valor da produção industrial da Baixada, enquanto Cubatão e São Vicente participavam com apenas 9% e 5,5%, respectivamente. Santos, também, concentrava 99% do comércio, e 88% dos serviços da região. Assim, até os anos 1950, a estrutura econômica e urbana da região do litoral tinha como centro dinâmico o município de Santos (Jackob, 2003). Entretanto, a partir dos anos 1950, o parque industrial implantado no município de Cubatão passou a ser o responsável pelo dinamismo econômico e urbano da Baixada, tendo, então, o porto de Santos entrando em uma nova fase, se relacionando com o ciclo da

industrialização pesada. A influência de Santos como polo de atração de trabalhadores em função do porto, manteve-se ao longo do período, mas a implantação do polo industrial em Cubatão fez com que, a partir da década de 1940, o setor secundário da economia passasse a se constituir no maior empregador da região. Essa reconfiguração da economia regional lançou reflexos sobre São Vicente.

Como fator endógeno de crescimento, aparecem as atividades relacionadas ao lazer balneário, que se intensifica no final da década de 1940. A maior expressividade do turismo levava à geração de empregos ligados à

construção civil e à prestação de serviços no município. As orlas das praias do Itararé, Gonzaguinha e Milionários, já valorizadas como local de residência da população de alta renda desde as primeiras décadas do século XX passam a ser disputadas pelos turistas depois da abertura da Via Anchieta em 1947.

São Vicente desempenhou ao longo do período as funções de cidade turística e fronteira de expansão residencial requerida pelo desenvolvimento regional, o que se intensificará após os anos 1950.

A extraordinária expansão dos aglomerados santista e vicentino se deu, particularmente, a partir da década de 1940 na ilha de São Vicente. Enquanto na parte oriental da ilha a expansão foi sendo realizada dentro de uma diretriz administrativa, onde a Prefeitura e a Comissão do Saneamento seguiam de perto as áreas em

crescimento, na parte ocidental não foi assim, os loteamentos de terrenos e as formações das ‘vilas’ não obedeceram às posturas municipais (PLHIS, 2009).

A partir da década de 1950 a população de São Vicente cresceu aceleradamente, colocando a cidade na segunda posição da região em tamanho da população (atrás apenas de Santos), o que se fez acompanhar pelo aumento da segregação sócio espacial evidenciada pela a linha férrea da Sorocabana que passou a representar uma fronteira entre as classes sociais, separando, na estreita faixa entre a ferrovia e o mar, os bairros praianos e o centro. Na década de 60, a exiguidade desta faixa, já bastante ocupada, motivou a expansão urbana sobre a Ilha Porchat, após realização de aterro que a ligou em definitivo à Ilha de São Vicente. A partir deste momento, foram se formando os bairros operários que se localizavam a partir da linha férrea em direção ao norte e ao oeste, em terrenos baixos e alagadiços.

Nesta época, bairros populares surgiram em torno do eixo popularmente conhecido como “Linha 1” – formado pelas avenidas Nossa Senhora de Fátima, em Santos, e Antonio Emerich, em São Vicente –, porque por ele passava o “Bonde 1”, ligando o centro de São Vicente ao centro de Santos. A ocupação desse território nas décadas de 1950 a 1970 foi facilitada pela venda de lotes a preços acessíveis aos trabalhadores de Santos e do polo de Cubatão.

Na década de 1960 o Departamento Nacional de Obras Sanitárias (DNOS) iniciou a construção de diques em nome da recuperação dos manguezais e dos terrenos inundáveis. Isso contribuiu para que fosse ocupados os extremos oeste, norte e nordeste da porção insular nos anos 1960, o que trouxe graves implicações ambientais para o município e seu entorno, em especial a ocupação das áreas ambientalmente mais frágeis, como os mangues e as restingas.

O intenso crescimento populacional e econômico de Cubatão, Santos e Guarujá, na década de 1970, provocou, ainda, o deslocamento da população a outros municípios, principalmente para São Vicente e Praia Grande, que se

tornaram cidades-dormitórios, apresentando uma intensa aglomeração urbana e formando uma mancha contínua de aglomeração populacional. Até o começo da década de 1980, São Vicente manteve elevados índices de crescimento populacional. Favelas proliferaram sobre os diques construídos pelo DNOS e avançaram sobre o estuário de São Vicente, disseminando a construção sobre palafitas, própria para áreas sujeitas às oscilações de marés.

Como se pode observar na figura abaixo, no começo da década de 1980 a área insular do município já estava muito ocupada, restando apenas alguns pequenos fragmentos vazios. Nesta época já se percebe, também, a formação de núcleos urbanos de mais baixa renda na área continental, próximos à Serra do Mar, como Jardim Rio Branco e Vila Nova Mariana.

Figura. SÃO VICENTE – Mancha Urbana – 1979/1980

Fonte: Imagens Landsat 1979, 1980.

A partir dos anos 80 inaugurou-se um período de crise, que atravessou toda a década de 1990, marcada pela perda da importância da Baixada em relação a outras regiões do Estado de São Paulo. Várias causas influenciaram o declínio econômico da Baixada Santista no período. Para o município de São Vicente, com grande parte da população vinculada aos empregos do polo cubatense, do porto de Santos e da construção civil, os efeitos da crise foram sentido muito claramente, resultando, inclusive, no agravamento das condições habitacionais e na ocupação do território continental. A acessibilidade rodoviária tornou a área continental uma alternativa de moradia para os segmentos operários que buscavam a casa própria e para os quais os preços dos terrenos na área insular eram proibitivos. Assim, loteamentos foram implantados nas áreas anteriormente ocupadas pelas plantações de banana e, também, em áreas de manguezais e de mata atlântica desmatadas para esse fim. Executados sem uma diretriz geral, e ocupando faixas descontínuas, os loteamentos foram se articulando entre si e com as outras partes do território através da rodovia, que passou a servir como ligação urbana.

A crise econômica experimentada pela Baixada Santista até o final do século XX levou a uma grande expansão das áreas ocupadas por favelas em São Vicente e nos municípios centrais da RMBS. Estudos da Secretaria de

Planejamento de São Vicente, realizados com base nos Censos Demográficos de 1980 e 1991, mostram que o município foi o que mais absorveu o crescimento demográfico da Baixada naquele período: dos 215.226 novos habitantes da região, 32,5%, ou 75.728 habitantes, residiam em São Vicente (PLHIS, 2009). Um fator que colaborou com isso foi a abertura da ponte rodoviária sobre o canal dos Barreiros (Ponte “A Tribuna”), ligando a Ilha de São Vicente ao continente.

Como pode-se observar na figura abaixo, na década de 1980, toda área insular foi ocupada, não restando mais nenhum dos fragmentos vazios existentes na década anterior. Neste momento, a área continental, como relatado

103 acima, começa, também a ser ocupada mais intensamente, principalmente no entorno dos núcleos já ocupados no período anterior.

Figura. SÃO VICENTE – Mancha Urbana – 1991/1992

Fonte: Imagens Landsat 1991, 1992.

Na década de 1990 o crescimento populacional do município desacelera. Na área insular observa-se, ainda, um avanço na ocupação dos morros. Na área continental o movimento de crescimento no entorno das áreas ocupadas anteriormente permanece, criando novos bairros, como por exemplo, Nova São Vicente que aparece nesta época.

Figura. SÃO VICENTE – Mancha Urbana – 2000

Fonte: Imagens Landsat 2000

Na década de 2000 a taxa de crescimento populacional decresce ainda mais chegando a menos de 1% ao ano. A mancha urbana do município pouco se modifica nesta década, sendo que quase todo incremento populacional de quase 29.000 mil habitantes se instalou de forma a adensar o território já ocupado e não com expansão horizontal.

Figura. SÃO VICENTE – Mancha Urbana – 2011

Fonte: Imagens Landsat 2011