SUMÁRIO
2. AS PESQUISAS SOBRE O QUATERNÁRIO CONTINENTAL NO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL E NA BACIA DO RIO
2.2. CARACTERIZAÇÃO DA BACIA DO RIO PARDO
2.2.5. Formas de relevo e depósitos quaternários
Dutra (1974) aplicou ao médio curso do Rio Pardo o viés morfoclimático de Bigarella & Mousinho (1965a, b), Bigarella et al. (1965a, b) e outros, fundamentado no reconhecimento de superfícies de erosão e depósitos correlativos. Do Plioceno ao início do Pleistoceno (glaciação Nebraskan), teria predominado a sedimentação na periferia do vale. Inicialmente, a ocorrência generalizada de corridas de lama e detritos estaria relacionada à formação do pedimento P1 – que se situa a
esses depósitos foram parcialmente erodidos pela ação de canais fluviais entrelaçados, que promoveram a deposição de cascalhos e areias com cimentação ferruginosa no interior da bacia; finalmente, processos de coluviação e posterior pedogênese caracterizariam fase de clima úmido (DUTRA, 1974, p. 18-20). Essa sequência de eventos ter-se-ia repetido em dois ciclos; entretanto, no segundo ciclo não se desenvolveu outra superfície de aplainamento, apenas a expansão da área do pedimento P1.
Durante o Pleistoceno Médio e Superior (limite Nebraskan/Aftonian à glaciação Wisconsin), a sedimentação seria restrita à parte central do vale. Dois baixos terraços (Tc2 e Tc1) são constituídos por clastos
rudáceos e areias com abundantes restos vegetais na base, e por paleossolos argilosos no topo. Essas morfologias, associadas a rios meandrantes e condições climáticas de estepe úmida, podem ter sido geradas por variações do nível de base local; a presença de paleopavimento detrítico no topo dos paleossolos indicaria curto período de clima relativamente seco na transição do Pleistoceno para o Holoceno (DUTRA, 1974, p. 22-26). No interior da bacia também há dois terraços de várzea (Tv2 e Tv1) pequenos e descontínuos, que representariam
resposta complexa (agradação/degradação) a flutuações hidrológicas durante fases úmidas do Holoceno.
Baseado no enfoque da arquitetura deposicional (MIALL, 1985), Fett Júnior (2005) igualmente caracterizou formas de relevo e depósitos quaternários no médio curso do Rio Pardo. Em síntese, três padrões deposicionais foram identificados na área de estudo. O primeiro padrão é dominado pelo elemento arquitetônico barras e formas de leito cascalhosas (GB), que ocorre na base de diversos afloramentos ao longo das planícies de inundação do Rio Pardo e de seus afluentes. Predominam clastos rudáceos basálticos, arredondados a bem arredondados, moderadamente a muito bem selecionados (Fig. 13). Sobreposto aos cascalhos, o segundo padrão deposicional é representado pelo elemento arquitetônico depósitos finos de planície de inundação (FF). Maciços e com presença abundante de lamelas, os sedimentos lamosos e areno-lamosos têm seleção pobre; a deposição desse material teve início há 58.500 ± 6.900 anos (LOE) (Fig. 13). Os clastos rudáceos estariam associados à sedimentação em rios entrelaçados, sob condições climáticas frias e secas, durante o Estágio Isotópico Marinho 4. Por outro lado, os sedimentos finos provavelmente foram depositados por cursos de água anastomosados na transição para o Estágio Isotópico Marinho 3, marcada por clima relativamente quente e úmido (interestádio) (FETT JÚNIOR, 2005, p. 131-133). Ambos os padrões deposicionais também são encontrados em pedimento detrítico com
altitude de 80 m, que se situa no sopé do Morro do Facão, a leste de Candelária. A superfície dissecada da rocha – siltito avermelhado do Membro Alemoa da Formação Santa Maria – está recoberta por camada de cascalhos basálticos, subarredondados a arredondados, pobremente selecionados; acima, existe espessa sequência de unidades coluviais, de textura areno-lamosa e seleção pobre, cuja deposição começou há 48.700 ± 5.500 anos (LOE) (Fig. 14; FETT JÚNIOR, 2005, p. 135-137).
Figura 13 – Sequência da planície de inundação do Rio Pardo, com 5 m de espessura. A linha branca tracejada separa o primeiro padrão deposicional (elemento GB) do segundo (elemento FF) (foto do autor).
Figura 14 – Afloramento de pedimento detrítico no sopé do Morro do Facão. A linha branca tracejada delimita a camada basal de cascalhos; a seta preta indica a posição do martelo (foto do autor).
Finalmente, o terceiro padrão deposicional corresponde à sedimentação de pequeno leque aluvial, localizado junto à margem direita do Rio Pardo, a norte de Candelária. A sequência se distingue pela predominância do elemento arquitetônico sedimentos de fluxos gravitacionais (SG), constituído essencialmente por lama cascalhosa, maciça, de seleção muito pobre a pobre; há intercalações do elemento canal (CH), formado por unidades de clastos rudáceos basálticos, subangulares a arredondados, muito bem selecionados (Fig. 15). Na base do perfil, o afloramento do segundo padrão deposicional – elemento arquitetônico depósitos finos de planície de inundação (FF) – data de 64.000 ± 7.700 anos (LOE). Assim, a deposição do leque aluvial pode ter-se iniciado no Estágio Isotópico Marinho 3 e, talvez, estendeu- se ao longo do Último Máximo Glacial (EIM 2). Aparentemente, movimentos de massa com matriz lamosa ocorreriam em períodos de climas úmidos, enquanto cheias de alta energia de pequeno tributário do Rio Pardo depositariam cascalhos durante fases secas (FETT JÚNIOR, 2005, 137-138).
Figura 15 – Detalhe do padrão deposicional de pequeno leque aluvial, situado na margem direita do Rio Pardo. É possível observar a alternância de camadas constituídas por lama cascalhosa (elemento SG) e cascalhos (elemento CH). O nível datado não aparece na fotografia (foto do autor).
Existem algumas divergências importantes entre os estudos de Dutra (1974) e Fett Júnior (2005). Primeiramente, ressalta-se a diferença significativa de altitude do nível de pedimento – 200 m (DUTRA, 1974) e 80 m (FETT JÚNIOR, 2005). Dutra (1974) também supôs que a sedimentação na periferia do vale fosse mais antiga do que no interior. Conforme as três datações radiométricas apresentadas no trabalho de Fett Júnior (2005), os depósitos finos da planície de inundação do Rio Pardo e do pedimento detrítico do Morro do Facão são contemporâneos. Finalmente, Dutra (1974) conjeturou que as corridas de lama e detritos teriam ocorrido do Plioceno ao Pleistoceno Inferior; entretanto, a idade
obtida na base da sequência de sedimentos areno-lamosos do pedimento – 48.700 ± 5.500 anos – se insere no Pleistoceno Superior (FETT JÚNIOR, 2005).
Contrariamente, os resultados de ambas as pesquisas são convergentes em determinados aspectos. De acordo com Dutra (1974), somente entre o Plioceno e o Pleistoceno Inferior (glaciação Nebraskan) o clima ter-se-ia tornado semiárido, com a formação do pedimento P1.
Ao longo do Pleistoceno Médio e Superior (glaciações Kansan, Illinoian e Wisconsin), o médio curso do Rio Pardo seria caracterizado pela persistência de condições climáticas de estepe úmida; nesse período, variações do nível de base local teriam gerado dois baixos terraços com cascalheiras (Tc2 e Tc1) (DUTRA, 1974). Fett Júnior (2005) supõe que
tenha havido modificação do padrão de canal do Rio Pardo – de entrelaçado para anastomosado – na transição entre os Estágios Isotópicos Marinhos 4 e 3 (58.500 ± 6.900 anos), evento que coincide com o final de fase fria e seca e o início de fase relativamente quente e úmida (interestádio). Essas interpretações se contrapõem ao pressuposto da correspondência de climas semiáridos e úmidos com períodos glaciais e interglaciais, respectivamente. Portanto, a abordagem morfoclimática clássica parece inadequada para explicar a evolução do médio curso do Rio Pardo durante o Quaternário. Além da reconhecida influência de mudanças climáticas sobre o modelado da paisagem, existem indícios de que outros fatores – tais como oscilações do nível de base e/ou atividade tectônica – também teriam sido responsáveis pela gênese de algumas formas de relevo. Os dois estudos se fundamentam na integração entre Geomorfologia, Estratigrafia e Sedimentologia; porém, não foi feita nenhuma análise sobre os processos pedogenéticos associados aos paleossolos presentes nessa área (Paleopedologia) – à exceção da tentativa de correlação com paleossolos encontrados em outras regiões do Rio Grande do Sul (DUTRA, 1974). Assim, a investigação do significado paleoambiental de paleossolos pode contribuir na definição dos mecanismos que controlaram a evolução da paisagem do médio curso do Rio Pardo no decorrer do Quaternário.
2.3. OBJETIVOS
Diante do que foi apresentado nos itens anteriores, constata-se a incipiência do conhecimento sobre a evolução da paisagem durante o Quaternário no interior continental do Estado do Rio Grande do Sul e, consequentemente, na Bacia do Rio Pardo. É nesse contexto que se propõe a questão central da Tese: Como evoluiu a paisagem do médio curso do Rio Pardo durante os últimos 60.000 anos ou mais? O objetivo principal deste trabalho consiste em definir o significado paleoambiental de formas de relevo, depósitos sedimentares, paleossolos e solos em ambientes fluviais e de encosta no médio curso do Rio Pardo. Assim, o presente enfoque se baseia na análise integrada de elementos geomorfológicos, estratigráficos, sedimentológicos, paleopedológicos e geocronológicos. Os objetivos específicos são listados a seguir.
* Elaborar mapa geomorfológico do médio curso do Rio Pardo. * Caracterizar depósitos fluviais e coluviais, assim como paleossolos e solos formados nestes materiais.
* Classificar paleossolos e solos segundo sistemas taxonômicos específicos.
* Datar, por meio de métodos radiométricos, depósitos fluviais e coluviais e paleossolos.
* Definir sequência provisória de unidades aloestratigráficas para a área de estudo, juntamente com os tipos de paleossolos e solos associados às respectivas descontinuidades limitantes.
3. EVOLUÇÃO E SIGNIFICADO PALEOAMBIENTAL DO