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CAPÍTULO II AS MEDIDAS ADOTADAS PELA UNIÃO EUROPEIA

5. A prestação dos Estados-Membros no decorrer da crise migratória

5.4. Expressões de racismo, xenofobia, intolerância e crimes de ódio

5.4.1. Incidentes dirigidos a requerentes de asilo e migrantes

Em outubro de 2015 a polícia búlgara abateu um requerente de asilo afegão após ter cruzado a fronteira Bulgária-Turquia. Em setembro do mesmo ano a polícia de Berlim, na Alemanha, matou um refugiado iraquiano durante uma intervenção, provocando um debate nos média sobre alternativas para os agentes de polícia, no uso de armas de fogo. Em Fermo, Itália, um requerente de asilo nigeriano – que reagia a insultos racistas dirigidos à sua esposa – foi atacado e morto com uma vara de ferro. Em Eisenstadt, na Áustria, uma pessoa disparou na direção dos requerentes de asilo, três vezes, com uma pistola de alarme, afirmando que queria experimentá-la.

Os ativistas dos direitos humanos e os políticos “pró-refugiados” são também alvo de violência e ameaçados. As autoridades alemãs relatam um aumento do número de ataques, da iniciativa de indivíduos de ideologia de direita, contra políticos, jornalistas e voluntários, ou organizações de assistência social, que apoiam os requerentes de asilo e refugiados / migrantes. Em alguns casos, as autoridades renunciaram aos seus cargos devido às atitudes extremamente hostis de habitantes, ataques criminosos e outros ataques de extrema-direita ou racistas, nos seus municípios420. Desde janeiro de 2016 a Agência

Central de Informações (CIA), na Alemanha, regista esses incidentes numa subcategoria especial, dentro da subcategoria “crimes politicamente motivados”421. Da mesma forma,

na Grécia, ativistas, voluntários nos hotspot areas e defensores de direitos humanos são

419Para mais informações v. http://ec.europa.eu /transparency/regexpert/index.cfm?do=groupDetail.groupDetail&groupID=3425, http://ec.europa.eu/newsroom/just/item-detail.cfm?item_id=51025.

420 Informação obtida na página oficial da Agência da União Europeia para os Direitos Fundamentais, onde se encontra informação pormenorizada a propósito daquela informação, http://fra.europa.eu [12.06.2017].

igualmente alvo422. Este é também o caso da Finlândia, onde o discurso de ódio é

igualmente dirigido a pessoas que trabalham com requerentes de asilo, repórteres e autoridades. Na Bulgária, um importante defensor dos direitos humanos, o presidente do Comité Búlgaro de Helsínquia e o membro do Conselho de Administração da FRA foram atacados.

Na Finlândia, em setembro de 2016, um homem ficou ferido e mais tarde morreu, como consequência de um ataque de um membro do Movimento de Resistência da Finlândia, uma organização de extrema-direita423. A Suécia enfrentou a onda mais

significativa de ataques contra o acolhimento de requerentes de asilo no outono de 2015. De acordo com a EXPO, uma fundação sueca, os ataques em diferentes centros de acolhimento foram coordenados pelos grupos de facebook da extrema direita. Similarmente, em Cologne, Alemanha, foram coordenados ataques, dirigidos aos migrantes, por um grupo de hooligans, rockers e de club-doorman, em 10 de janeiro de 2016, num grupo privado de facebook. Pelo menos sete pessoas foram atacadas, dois ficaram seriamente feridos, com necessidade de tratamento hospitalar. Nos restantes Estados-Membros, há registo de outros incidentes, violentos, que envolvem ataques contra centros de acolhimento e protestos contra a construção de novos centros. Por exemplo, na Holanda e na França. Neste último Estado-Membro, com a decisão de desmantelamento do acampamento informal de Calais, que determinou a recolocação dos requerentes de asilo pela França, potenciou-se mais atos violentos contra a abertura de alojamentos especializados – incluindo tiros de arma, contra centros de acolhimento, em algumas cidades francesas.

Na Bulgária e em Itália, os protestos, nas proximidades dos centros de acolhimento, foram organizados, algumas vezes, por pessoas ligadas à ideologia de extrema-direita. Na Itália esses protestos envolveram barricadas nas ruas e incêndio dos centros de acolhimento, campanhas para influenciar as decisões das autoridades políticas municipais, violência e linguagem racista durante os protestos e nos média sociais.

As mulheres muçulmanas são especialmente alvo de ataque – tanto por serem mulheres, quanto por serem muçulmanas. Delitos contra este grupo são reportados na Áustria, na Alemanha, na Finlândia, na Holanda e na Eslováquia. O relatório nacional

422 V. mais informações em http://rvrn.org/wp-content/uploads/2016/04/Report_2015eng.pdf.

holandês “Report Islamophobia” recebeu 158 reclamações em 2015; 90% das vítimas eram mulheres, a maioria das quais usava lenço de cabeça424. Em França, de acordo com

o Coletivo Contra a Islamofobia em França (CCIF), 74% dos 905 atos islamofóbicos em 2015 visavam as mulheres. Em comparação com 2014, este é um aumento de 19%, incluindo um aumento de 140% em atos que envolvem degradação e violação de lugares religiosos425.

Na Eslováquia houve um crescimento dramático da retórica antimuçulmanos e anti- imigrantes, por parte de alguns líderes políticos e partidos, em 2015 e 2016. Em maio de 2016, o Primeiro-Ministro da Eslováquia, Robert Fico, anunciou que “Islamismo não tem lugar na Eslováquia”426. E em outubro do mesmo ano, apenas quatro pessoas requereram

asilo neste país, dois dos quais eram ucranianos. No que toca à retórica francesa, tem crescido este tipo de abordagem, desde que o governo anunciou que os migrantes de Calais seriam recolocados em diferentes cidades, por toda a França, em outubro de 2016.

Apesar deste levantamento, a FRA considera praticamente impossível quantificar os incidentes, e que é extremamente difícil para as diferentes polícias e autoridades judiciais investigarem e prosseguirem com a responsabilidade subjetiva427. Em Espanha

e em Itália há relatórios de um discurso de ódio generalizado contra requerentes de asilo e migrantes, via online. E para combater o discurso de ódio, particularmente difundido por esta via, com maior efetividade, o Grupo de Alto Nível da UE sobre a luta contra o racismo, a xenofobia e outras formas de intolerância, e a Facebook, Microsoft, Twitter e o YouTube assinaram um código de conduta sobre a ilegalidade do discurso de ódio online, em maio de 2016.

De acordo com o relatório do Gabinete de Reclamações Holandês para a Discriminação na Internet (MiND Holanda), este Estado-Membro registou 120 queixas de discurso de ódio, na categoria “origem étnica / outro”, entre setembro de 2015 e dezembro de 2015, com aproximadamente 95% dessas queixas relativas a requerentes de asilo, refugiados e migrantes. Desde 2016, o MiND regista queixas de discurso de ódio contra refugiados, separadamente; e até 26 de outubro, registou 58. Exemplos incluem os

424 Informação obtida na página oficial da Agência da União Europeia para os Direitos Fundamentais, onde se encontram elementos pormenorizados sobre o relatório referido, op. cit. [12.06.2017].

425Informação obtida na página do Collectif Contre L’Islamophobie en France, http://www.islamophobie.net [02.06.2017]. 426 Informação obtida na página oficial do Politico, http://www.politico.eu [02.06.2017].

refugiados chamados de “ratos”, “escumalha” ou “estupradores”, ou apelam para tomar medidas contra os centros de acolhimento. O MiND estima que pelo menos uma em cada três queixas é também de natureza antimuçulmana. Os relatórios de discurso de ódio aumentam temporariamente quando há desenvolvimentos relacionados com a migração ou com a segurança428. A 4 de abril de 2017, Gabinete de Reclamações Holandês para a

Discriminação na Internet, emitiu um relatório referente ao ano de 2016, descrevendo que recebeu, no total, 70 relatórios sobre expressões de discriminação de refugiados429.