Nas concepções de Carvalho Neto (1946), instituir disciplina era uma das estratégias fundamentais para a constituição da formação escorreita do causídico, ponto basilar de sua obra, no intuito de aprender a escrever “ao correr da pena” 88
, adquirir respeito e credibilidade ______________
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“Escrever ao correr da pena” fora uma expressão cunhada por José de Alencar, advogado, deputado federal, escritor literato, nascido na província do Ceará, em 1 de maio de 1829 e falecido aos 48 anos de idade, em 1877. Ingressou em 1846 no curso jurídico da Faculdade de São Paulo, aos 17 anos de idade, tendo concluído seu curso em 1850 na Escola de Olinda. Nesse mesmo ano se instalou na Corte do Rio de Janeiro. Na capital do Brasil, fora criador de vários periódicos, colaborador em vários jornais e diretor do jornal mais antigo daquela província, o Diário do Rio de Janeiro. Em Revista intitulada Ao correr da pena (1854), no século XIX, expressara e difundira a Arte de escrever, a fluência, o saber e o conhecimento no campo da Literatura.
no exercício contínuo da luta pelo Direito. Tais assertivas, consequentemente, estrariam ligadas à formação ética, moral e práticas sociais na profissão, com finalidade de produzir o respeito necessário no exercício da advocatícia. A formação sobre a qual me debruço, nesta seção, não poderia estar desatrelada do domínio da doutrina e das referências históricas do Direito.
Seguir esta linha de pensamento, fora, para Carvalho Neto, aspecto crucial e se revestia de condição sine qua non para obtenção da conquista de legitimidade do campo jurídico. Desta maneira, a categoria profissional de advogados alcançaria respeito entre os poderes fundantes do campo: o advogado, o poder judiciário e o Ministério Público. Para que se conquistasse a lisura na formação do caráter do causídico, mister se faria dedicação diuturna de tempo à aprendizagem de seu ofício. Assim, o pensamento de Carvalho Neto (1946) reverberara, na esteira dos pensamentos aqui analisados, os ensinamentos da pedagogia de Cultura Jurídica de Plínio Barreto (1922), de Rui Barbosa (1920) e de pensadores do Direito como Ihering (1980), para constituição de uma cultura que identificasse a “ideia-força” nas práticas sociais e políticas dos homens da lei.
A postura do advogado, manifestada por Carvalho Neto em Advogados (1946), fora disseminada e estimulada por alguns de seus professores, já nos tempos da escola secundária. Questões como o interesse pelas letras, já se anunciava em sua vida de menino.
Já na escola primária, Carvalho Neto apresentou sinais de que participaria com destaque da vida intelectual sergipana e contribuiria significativamente em assuntos de educação. Terminado o primário em Simão Dias, foi estudar no Colégio Sergipense, do educador Alfredo Montes. Seu filho, Alfredo Montes Júnior, continuou a obra do pai. Criou a “legendária Sessão
Demostênica”, no colégio de ambos. Eram tertúlias literárias semanais, com
o fim de despertar nos estudantes o “gosto da escrita cuidada e da eloquência erudita”. (CARVALHO NETO, P., 1989, p. 21, grifo do autor).
É possível estabelecer a ligação entre aspectos que acompanham a trajetória do agente social desde a infância, quando se entende que a formação do habitus se processa por meio de estruturas de pensamento que ajudam a construir o homem. A constituição do jeito de ser e estar no mundo, como aconteceu na formação do gênio criado em Mozart, desde a infância,
Ficara famoso pelos seus romances O Guarany e Cinco minutos. Era difusor da Arte de escrever. Tal expressão fora muito utilizada para denominar intelectuais que tinham a capacidade e desenvoltura na prática da escrita. Contemporâneos de Carvalho Neto utilizaram a expressão cunhada por José de Alencar para identificar aquele jurista sergipano como escritor escorreito e legitimado pela crítica. Neste aspecto, Carvalho Neto fora considerado pelos seus críticos como um dos mais importantes intelectuais de sua época, no estado de Sergipe. Cf. Alencar, 1874. Cf. Magalhães Carneiro, 1940. Cf. Dantas, 1983; 1989; 1999; 2012. Cf. Lima, M., 2008; 2013. Cf. Lima, J., 1971. Cf. Machado, 1990.
pelo seu pai, segundo o estudo de Elias (1995), ao desenvolver a “sociologia de um gênio”, faz-me investigar esta possibilidade.
[...] O pai de Mozart, também músico, ensinou-o tocar piano provavelmente quando ele tinha três anos. Pode ser que, muito cedo, ele lhe tenha despertado a tênue esperança de alcançar a desejada ascensão social, que apenas em parte tinha conseguido por seus próprios esforços. Sem dúvida alguma, dedicou mais tempo ao menino do que o normal. Leopold Mozart tomou posse do filho e, como pai do prodígio, viveu a vida que lhe tinha sido negada até então. Por 20 anos, até a viagem a Paris com a mãe, Mozart viveu – e viajou – quase sempre com o pai. Estava sempre com ele, sempre sob sua vista e proteção. (ELIAS, 1995, p. 72).
Embora eu pense que não seja somente a herança familiar, o cuidado da carreira dos filhos, muitas vezes administrada pelos pais, como fora o caso de Mozart, suficientes para demarcar o pertencimento de alguém na sociedade, não posso deixar de fazer algumas ligações entre experiências vividas na infância, adolescência ou quaisquer fases da formação do espírito do ser, e aquelas desenvolvidas na fase adulta.
No caso de Carvalho Neto, filho de político que servia aos interesses políticos de um grupo considerado conservador sergipano, contribuíra, sobremaneira, para que aquele jurista se inclinasse para a carreira política, e atendesse, com isso, os destinos da tradição familiar. Porém, no fluxo e refluxo da própria história, nas escolhas que distinguem a trajetória de cada um, nas suas singularidades, Carvalho Neto, por meio de outras referências, foi capaz de produzir seu próprio destino, distinto do pai.
Aquele erudito não só fora um eminente político, contudo, fez-se presente na História de Sergipe por características que foram identificadas para além da prática política, mas também pelo extenso capital cultural adquirido em longos anos de estudos e dedicação às letras, às investigações do campo jurídico; o que, em grande medida, circunscrevera-o em um dos nomes mais respeitados de sua época. Não fora apenas o capital social familiar, vinculado aos grupos políticos “Cabaús e Pebas”, que lhe garantira o posto de intelectual reconhecido, contudo, o caminho diante de suas escolhas e de suas preferências, imbuídas das referências de mestres os quais aquele jurista seguira.
Desta forma, defendo que o êxito atribuído a Carvalho Neto como pensador sergipano, cujo nome ultrapassara fronteiras, só fora possível pela formação sólida construída ao longo de sua trajetória escolar e de seu entendimento nas referências nela encontradas, e isso só se tornaria em realização profissional e grandeza de espírito formativo, sob os cuidados de sua própria disciplina.
Outro fator que preponderou na ascensão intelectual dos filhos das oligarquias na primeira metade do século XX, no Brasil, foi, em grande medida, o fato de terem se lançado aos encantos da vida literária, como aconteceu com Carvalho Neto, como pude atestar nas investigações de Miceli (2001) ao analisar as peculiaridades da formação dos intelectuais no Brasil do século XX, dando atenção especial à primeira metade do século XX.
Ao mesmo tempo que os intelectuais dessa última geração oligárquica assumiam diversas tarefas políticas e ideológicas, também se lançaram a fundo nas lutas literárias, no intuito de impor os princípios e modelos estéticos da arte “moderna” (futurismo, cubismo, surrealismo). Os acontecimentos mundanos de que participavam esses escritores nos primeiros tempos do movimento modernista (recepções, espetáculos, vernissages, concertos), e que lhe davam ocasião de divulgar suas doutrinas e suas obras, permitem compreender o mecenato que então exercia a fração intelectualizada e “europeizada” dos grupos dirigentes paulistas (MICELI, 2001, p. 96).
O que importa na análise de Miceli (2001) é compreender a partir dela que Carvalho Neto participara, de maneira efetiva, da apropriação dos movimentos que se configuraram a partir do chamado Modernismo brasileiro, porque leu os autores por ele evocados, participara da efervescência das Tertúlias e Sessões Demostênicas, das rodas de leitura que embalavam os jovens sonhadores e interessados no progresso da Nação, propalado pelos representantes da intelectualidade brasileira. Neste aspecto, compactuo com os estudos de Sirinelli (2003) ao produzir o seu conceito de intelectuais, colocando-os na dimensão de uma figuração polimorfa. Se os intelectuais são definidos, em grande medida, pelas mediações produzidas pelos seus discursos disseminados, pelas ações políticas e sociais desenvolvidas no seio da sociedade, por apresentarem propostas de encaminhamentos para os problemas sociais e regras de conduta a serem seguidas, Carvalho Neto se insere nesta perspectiva.
Para alimentar o desiderato de suas propostas de educação, Carvalho Neto se filiara ao pensamento recorrente no Brasil República, como bom republicano que fora. Ao dizer, no prefácio de seu livro Advogados (1946), que se dirigira aos moços, fizera, possivelmente, referência ao seu maior arauto da constituição do saber jurídico brasileiro, Rui Barbosa.
Rui Barbosa (1920), em Oração aos moços, na formatura do curso de Direito da Faculdade do Largo do São Francisco, na cidade de São Paulo, no início do século XX, procedera alusão à disciplina, às referências de pensamentos, ambas condutoras da trajetória do advogado, no aprender de Carvalho Neto (1946). Segundo Kury (1997), editor da fundação Casa de Rui Barbosa, não foi possível o próprio autor da Oração aos moços dizê-la a eles, por motivos de fragilidade em sua saúde. Contudo, aquelas linhas traçaram, ecoaram na
proximidade do Mestre com seus discípulos. Rui Barbosa fora considerado por muitos o maior de todos no campo do Direito, no Brasil República. Por Carvalho Neto, não fora diferente. Ei-lo em palavras, em sua Oração aos moços.
Metei a mão no seio, e aí o sentireis com a sua segunda vista. Desta, sobretudo, é que ele nutre sua vida agitada e criadora. Pois não sabemos que, com os antepassados, vive ele da memória, do luto e da saudade? E tudo é viver no pretérito. Não sentimos como, com os nossos conviventes, se alimenta ele na comunhão dos sentimentos e índoles, das idéias e aspirações? E tudo é viver num mundo, em que estamos sempre fora deste, pelo amor, pela abnegação, pelo sacrifício, pela caridade. Não nos será claro que, com os nossos descendentes e sobreviventes, com os nossos sucessores e pósteros, vive ele de fé, esperança e sonho? Ora, tudo é viver, previvendo, é existir, preexistindo, é ver, prevendo. E, assim, está o coração, cada ano, cada dia, cada hora, sempre alimentado em contemplar o que não vê, por ter em dote dos céus a preexcelência de ver, ouvir e palpar o que os olhos não divisam, os ouvidos não escutam, e o tato não sente. Para o coração, pois, não há passado, nem futuro, nem ausência. Ausência, pretérito e porvir, tudo lhe é atualidade, tudo presença. Mas presença animada e vivente, palpitante e criadora, neste regaço interior, onde os mortos renascem, prenascem os vindoiros, e os distanciados se ajuntam, ao influxo de um talismã, pelo qual, nesse mágico microcosmo de maravilhas, encerrado na breve arca de um peito humano, cabe, em evocações de cada instante, a humanidade toda e a mesma eternidade. (BARBOSA, 1920).
Nesta direção, Advogados (1946) traduz um discurso pedagógico à luz dos seus mestres89, feito Rui Barbosa (1920), com traços da pedagogia moderna, traços de um novo porvir, cujo intento fora proposto para a formação do caráter social e político do advogado, aliado ao cultivo de um conhecimento que se configurasse com solidez, sobre o campo específico de atuação, o qual só poderia ter resultados satisfatórios se transpusesse fronteiras. O advogado, na proposição de Carvalho Neto (1946), deveria ser talhado a cumprir o papel de representante dos direitos sociais, políticos, econômicos e culturais da sociedade; seria responsável por orientar o ordenamento dos rumos sociais e políticos do país, para os quais a educação significara um de seus pilares.