4.1. A Teoria da Atividade
4.1.1. Lev Vygotsky e a 1ª geração
As bases teóricas da Teoria da Atividade se encontram na noção de mediação, desenvolvida por Lev Vygotsky e seus colaboradores nas décadas de 1920/1930, que buscavam resolver uma crise que se impunha na psicologia da época, a qual dissociava essa ciência em duas abordagens distintas. Uma delas era representada principalmente pela escola chamada introspectivista que procurava explicar a noção de consciência a partir dela própria, assumindo-a como a priori. A outra se baseava nos princípios do que ficou denominado Behaviorismo e considerava o psiquismo humano como moldado passivamente pelo meio externo, podendo ser explicado e analisado por meio da unidade estímulo-resposta (E-R) (VYGOTSKY, 2007).
Para Vygotsky (2007), a unidade estímulo-resposta só é capaz de descrever as formas elementares de comportamento, as quais pressupõem uma reação direta à tarefa posta diante do organismo. Entretanto, as ações mediadas por sistemas simbólicos (signos) são de natureza distinta e se reservam aos comportamentos superiores, especificamente humanos. Nessas ações, o signo funciona como estímulo auxiliar colocado entre o sujeito e o objetivo da tarefa, ou seja, uma nova ligação entre (E) e (R). A colocação desse estímulo auxiliar é um ato volitivo, ou seja, o sujeito deve estar ativamente engajado na criação de tal ligação. Essa ação mediada, descrita na figura 4, busca explicar o desenvolvimento daqueles processos psicológicos especificamente humanos, denominados superiores, os quais diferenciam os seres humanos dos outros animais.
Figura 4: Esquema da ação mediada por signos.
Fonte: (VYGOTSKY, 2007, p. 33)21.
“O uso de signos conduz os seres humanos a uma estrutura específica de comportamento que se destaca do desenvolvimento biológico e cria novas formas de processos psicológicos enraizados na cultura” (VYGOTSKY, 2007, p. 34).
De acordo com esse princípio explicativo, o desenvolvimento humano possui além de um suporte biológico, adquirido no desenvolvimento filogenético da humanidade, uma linha de desenvolvimento histórico-cultural, obtida na ontogênese das relações culturais dos indivíduos humanos com sua cultura. A filosofia clássica alemã, principalmente as obras de Kant e Hegel, assim como a filosofia marxista de Marx e Engels, exerceram significativa influencia sobre as ideias de Vygotsky, influência que se reflete nos pressupostos da Teoria da Atividade (ENGESTRÖM, 1999).
No que se refere às influências marxistas, a própria noção de mediação pode ser vista como um desdobramento do princípio da dialética, pelo qual o homem molda seu meio natural ao agir sobre ele com o uso de artefatos culturais, ao passo em que tem seu próprio comportamento moldado por essas ações (VYGOTSKY, 2007). Já da filosofia alemã clássica, Vygotsky adotou a concepção histórica do desenvolvimento da consciência humana, tanto na ontogênese dos indivíduos humanos, como na filogênese da espécie humana (KUSOLIN, 2002).
Vygotsky (2007) considera dois tipos distintos de elementos mediadores das ações humanas: os signos e as ferramentas. A função da ferramenta é guiar a ação humana sobre o objeto da atividade, ou seja, ela é externamente orientada e deve conduzir a mudanças no objeto, constituindo-se em um meio pelo qual a ação
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humana domina a natureza. No que se refere aos signos, vistos como ferramentas psicológicas, eles se destinam ao domínio, ou controle, do comportamento humano. São exemplos de ferramentas psicológicas: a linguagem (falada e escrita), os sistemas de numeração, as técnicas mnemônicas, os sistemas de símbolos algébricos, as obras de arte, dentre outros.
Engeström (1987) salienta que a ação mediada enquanto categoria analítica e explicativa dá conta apenas do nível racional do funcionamento humano. Segundo ele, problemas referentes à motivação, à emoção e à criação parecem intratáveis neste nível. O autor acrescenta que esses aspectos do desenvolvimento humano pertencem a um nível mais elevado, coletivo e, paradoxalmente, menos consciente e que coube a Alexei Leontiev tratar das questões referentes a ambos os níveis do funcionamento psicológico humano. Abre-se então o campo para o desenvolvimento do que Engeström (2013) denomina segunda geração da Teoria da Atividade.
É preciso destacar, porém, que essa continuidade entre as obras de Vygotsky e Leontiev não encontra consenso entre os autores e pesquisadores da denominada escola histórico-cultural da psicologia. É nesse sentido que Kusolin (2002, p. 111 – 112) afirma que
[...] o acontecimento mais dramático na história do conceito de atividade se deu em meados dos anos 1930, quando um grupo de discípulos de Vygotsky emergiu com uma versão “revisionista” da teoria da atividade que colocava as ações práticas (materiais) em primeiro plano enquanto, simultaneamente, rebaixava o papel dos signos como mediadores da atividade humana. Essa posição revisionista foi elaborada teoricamente por Alexei Leontiev, que posteriormente adquiriu o status de intérprete oficial das obras de Vygotsky. Assim, nasceu o mito da sucessão entre as escolas de psicologia de Vygotsky e Leontiev.
Kusolin (2002) acrescenta que a referida elaboração revisionista teve certa motivação política, já que o regime stalinista que vigorava nas terras soviéticas daqueles tempos havia declarado a obra de Vygotsky como antimarxista por se apoiar em teorias consideradas burguesas, tornando Vygotsky um verdadeiro herege. Por outro lado, o autor acrescenta que existem razões bastante fortes para se crer que, para além das questões políticas e ideológicas, as discordâncias entre as concepções de Vygotsky e Leontiev encontram certa sustentação científica. Para Kusolin (2002), as pressões ideológicas e a discordância científica honesta, associadas a um entendimento equivocado de algumas ideias vygotskyanas,
entrelaçaram-se desaguando no fenômeno que ficou conhecido como a Teoria da Atividade de Leontiev.