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Os ambientes de Modelagem

No documento neildarochacanedojunior (páginas 119-124)

5.3. Sobre a coleta dos dados

5.3.1. Os ambientes de Modelagem

Seguindo o planejamento fiz o primeiro contato com a turma no dia 27 de fevereiro de 2013. Como mencionei anteriormente, os encontros com a turma

aconteceriam, prioritariamente, nas quartas-feiras, de forma que cada um teria a duração de 50 minutos. Nesse primeiro encontro os alunos se sentaram em círculo e procurei esclarecer sobre o trabalho que desenvolveríamos. Combinamos que no próximo encontro os alunos iriam se dividir em três grupos, de forma que cada grupo tivesse quatro alunos.

Adiantei que, no encontro seguinte, cada grupo deveria escolher um tema que despertasse a sua curiosidade para pesquisarem a respeito. E que eles deveriam pensar no assunto ao longo da semana. Em razão da autorização para que participassem da pesquisa, na qual as falas dos alunos seriam audiogravadas, não ter sido assinada por todos os responsáveis dos alunos, não houve a gravação de áudio desse primeiro encontro.

A partir do encontro seguinte, no dia treze de março, os grupos se ajuntaram e passaram a discutir entre eles sobre o tema que gostariam de abordar. Minha intervenção em suas falas só acontecia quando era solicitada por eles. Dividi-me, então, entre o papel de professor que orientava os trabalhos dos alunos e de pesquisador que os observava. Tivemos um total de treze desses encontros ao longo do ano letivo de 2013, além de uma entrevista individual realizada com cada sujeito e três coletivas com o grupo foco da pesquisa.

Logo que os grupos se dividiram, sugeri que as carteiras dos alunos de cada grupo fossem colocadas de forma que as quatro formassem um retângulo de duas carteiras por duas. Entendo que essa formação favorece a conversa entre os alunos sem criar assimetrias, visto que cada um dos alunos não encontra restrições físicas para se comunicar com os outros três. Essa forma de posicionar as carteiras nas dinâmicas de grupo é adotada em minha práxis letiva. No caso da pesquisa, ela veio a favorecer, também, a captação do áudio das conversas de cada grupo.

À luz do referencial teórico que sustenta a investigação, assumo que a presença dos gravadores entre os grupos de alunos não pode ser vista como neutra. Visto que esses instrumentos “foram usados para o registro dos dados e ganham um novo status nesta investigação, uma vez que também são atores que compõem os coletivos Seres-Humanos-com-Mídias” (DINIS, 2007, p. 45 – itálico no original). As conversas entre os alunos poderiam não ser as mesmas sem a presença do gravador.

Sobre minha presença nesse contexto é preciso separar a participação do professor e do pesquisador. Enquanto professor, eu participava diretamente como

ator no coletivo seres-humanos-com-mídias. Uma vez que, como membro desse coletivo, “minhas concepções estão presentes, ou seja, não as abandonei do ‘lado de fora’ da sala de aula” (DINIZ, 2007, p. 42 – aspas no original).

No que diz respeito às observações do pesquisador, Alves-Mazzotti (1998, p. 166) destaca que, em se tratando de pesquisas qualitativas, a observação característica é a não-estruturada. Para a autora, nesta modalidade de observação, “os comportamentos a serem observados não são predeterminados, eles são observados e retratados da forma como ocorrem, visando descrever e compreender o que está ocorrendo numa dada situação”. Nesse sentido, as notas que tomava e as gravações que ouvia ao término de cada encontro serão descritas e analisadas mais adiante, à luz do referencial teórico e das minhas concepções.

As notas de campo e as gravações de áudio orientavam, ao mesmo tempo, minhas ações letivas como professor no coletivo pensante e as minhas escolhas metodológicas de pesquisador. Isso me faz perceber que a análise de dados se deu, na verdade, em dois níveis. Em um primeiro nível, ela orientou os procedimentos metodológicos ao longo da pesquisa de campo, o que configura uma análise preliminar. Em um segundo e mais elaborado nível, essa análise se deu sob minhas concepções epistemológicas e frente ao referencial teórico assumido. Essa análise será o foco do próximo capítulo.

Sobre a maneira como essa análise preliminar orientou as escolhas, destaco que foi a partir dela que decidi observar apenas um dos grupos. Também foi com base nessa análise preliminar que percebi a necessidade de observar esses sujeitos na aula de Matemática, o que veio a ampliar o contexto da pesquisa. Ainda com base nessa primeira análise, optei por realizar entrevistas coletivas com os grupos ao longo do desenvolvimento das práticas de Modelagem.

Entendo que seja pertinente categorizar minhas observações das práticas de Modelagem, visto que elas configuram um procedimento de coleta de dados. Adler e Adler (1994) classificam as observações em termos do grau de interação do pesquisador com o grupo pesquisado. Segundo esses autores, o pesquisador pode interagir com os sujeitos do grupo pesquisado como membro periférico, membro ativo, ou membro completo. No papel de membro periférico, o pesquisador se insere no contexto no sentido de compreendê-lo, mas sem participar das atividades principais que o constituem. Atuando como membro ativo, o pesquisador tem maior envolvimento com essas atividades centrais e assume algumas responsabilidades,

mas sem se comprometer totalmente com os valores e objetivos do grupo. Já no papel de membro completo, normalmente o pesquisador já pertence ao grupo ou se torna genuinamente um membro do grupo. No que se refere ao meu papel como pesquisador, no contexto das práticas de Modelagem, a minha dupla função de professor e pesquisador faz de mim um membro completo.

Além das observações e das gravações de áudio, outro procedimento que usei para analisar as ações dos alunos e as minhas no coletivo foram entrevistas coletivas com os grupos. Embora todos os grupos tenham sido submetidos a esse procedimento, apenas aquelas entrevistas realizadas com o grupo sob investigação foram consideradas na análise. Tais entrevistas ocorreram em número de três: duas ao longo das práticas de Modelagem e uma última após a entrega do relatório final escrito pelos alunos. Nas entrevistas concedidas pelo grupo pesquisado, na primeira delas, realizada no dia 21/06/13, Teves estava ausente; na segunda, em 11/09/13, todos estavam presentes; e na última, 06/11/13, Vidal foi quem não compareceu.

Sobre as vantagens do uso das entrevistas coletivas Fontana e Frey (1994) mencionam que esta prática pode estimular a interação entre os participantes do grupo. Além de permitir uma maior quantidade e diversidade de informação, favorecendo repostas mais cumulativas e elaboradas que aquelas dadas nas entrevistas individuais. Por outro lado, esses autores chamam a atenção para as desvantagens das entrevistas coletivas. Dentre essas, destaco: a possibilidade da cultura do grupo interferir nas expressões individuais, bem como a chance do grupo ser dominado por uma só pessoa. Além disso, os autores enfatizam que esta modalidade de entrevista exige maior competência do entrevistador na gestão da dinâmica do grupo.

Da maneira que compreendo, faz todo sentido mediante o referencial teórico adotado e no que respeita às minhas concepções de Modelagem, coletar as impressões do coletivo pensante sobre o qual estão nossas lentes de pesquisa por meio de entrevistas coletivas. Cabe ressaltar que, nessas entrevistas, tanto o gravador como instrumento técnico (mídia), assim como o pesquisador enquanto membro da comunidade, assumem um papel relevante. Pois ambos participam como atores influenciando decisivamente nos dados gerados nesse coletivo, bem como na interpretação dos mesmos.

Ainda sobre entrevistas em pesquisas de cunho qualitativo, Alves-Mazzotti (1998) parte da categorização feita por Rubin e Rubin (1995) para mencionar que

elas devem ser não-estruturadas. Assim, o entrevistador deve pedir aos entrevistados que falem, livremente, e ir introduzindo os tópicos sobre os quais tem mais interesse no fluxo da conversa. Porém, o pesquisador qualitativo também pode fazer uso das entrevistas do tipo semi-estruturadas, em que o entrevistador faz perguntas específicas, mas permite que o entrevistado responda em seus próprios termos.

Nas entrevistas coletivas que realizei, busquei dar o máximo de abertura para que os sujeitos do grupo colocassem suas impressões sobre o trabalho que desenvolviam. Procurei encorajá-los no sentido de que podiam se expressar livremente, sem temer qualquer tipo de sanção. Sempre iniciava a dinâmica perguntando se os sujeitos tinham algo a mencionar, ou alguma dúvida. Em seguida, perguntava sobre o que eles estavam aprendendo com a realização do trabalho, em que cada um estava trabalhando e o que pretendiam fazer a parti dali. Vale adiantar que em algumas situações o conflito estabeleceu a cena e as falas se acaloraram. Lembro que nossos sujeitos não são fantasmas epistêmicos (SKOVSMOSE, 2007) e que esses conflitos não podem deixar de ser considerados em nossa análise.

Por fim, tomei como procedimento a análise da escrita do trabalho final que os alunos entregaram ao término das práticas de modelagem, o que coincidiu com o fim do meu trabalho de campo. Considerar o trabalho escrito pelos alunos do grupo pesquisado consiste em uma análise a partir de documentos.

Considera-se como documento, qualquer registro escrito que possa ser usado como fonte de informação. [...] No caso da educação, livros didáticos, registros escolares, programas de curso, planos de aula, trabalhos de

alunos são bastante utilizados (ALVES-MAZZOTTI, 1998, p. 169 – itálicos

nossos).

Assim, para coletar os dados no contexto das práticas de Modelagem e em seguida proceder a análise dos mesmos, fiz uso de cinco procedimentos metodológicos distintos: observação com anotações no caderno de campo; gravação de áudio dos diálogos ao longo dessas práticas; entrevistas individuais com os alunos; entrevistas coletivas periódicas com o grupo; e análise do trabalho final escrito pelos alunos.

Alves-Mazzotti (1998) apresenta a noção de triangulação para se referir a uma das técnicas que visa dar credibilidade e rigor aos procedimentos relativos à coleta e análise dos dados em pesquisas qualitativas. A autora faz menção à

classificação de Denzin (1978) que fala em quatro tipos de triangulação: de fontes, de métodos, de investigadores e de teorias. No caso dessa pesquisa, empreguei no contexto dos ambientes de Modelagem a triangulação de métodos, modalidade que se refere à complementação entre dados coletados por métodos diversos, mas sempre de uma mesma fonte. De maneira que os métodos triangulados foram: a observação com áudio-gravação e notas de campo; as entrevistas coletivas; e a análise de documentos.

Na subseção seguinte serão descritos os procedimentos de coleta e análise de dados no contexto da aula de Matemática.

No documento neildarochacanedojunior (páginas 119-124)