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Limo Trimeyro,

No documento Jornada do Arcebispo (páginas 122-125)

dentro no termo que fua Alteza a- pontaua. He efta Raynha muyto poderofa, & trouxerão )a algúsReys defte Reyno guerra com os Por- tuguezes, & poderá porem campo trinta mil homens, afora o poder do Rey de Turbulè feu perfilhado, que efta mais polia terra dentro.

Tanto que o Arccbifpo teue ef- te recado, fem dar conta a nenhum dos feus, os chamou a todos, & lhes difle, que elle eftaua refoluto em inuernar por aquellas partes , que os negocios fe hião dilatando muyto, & era chegado o tempo de íe hir aderradeyra caíi,'a pera Goa, que nam queria, que os cafados in- uernaílem fora de fuas cafas, que os queoeramfepartillemlogo naquel- la tarde pera Çòchim , & da hi pê- ra G o a , pera cafa de fuas molheres, & inflando todos que o nam auiâo dedeyxarnomeyo de tantos peri- gos , lhes nam foffreo replica algüa, & forçou aos cafados ale partirem logo pera Còchim , & com elles mandou outros também cafados no R e y n o , que configo trazia, oc- cupados em Còchim em negocios, que lhes peraifto b u f c o u , & e f c o - lhendo os mais mancebos, em que auia menos perigo, &rifco, & que no mais que foccedefle facilmente fe poderião por em faluo auendo algum reboliço. E feyta efta deli- gencia, refpondeo ao outro dia pol- ia menhàm ao recado da Raynha que clle fe nam auia de fayr de fuas terras , nem nefte ponto lhe podia obedecer, porque elle nam trataua da jurdiçam dos Reys , antes man- daua a todos os Chriftãos que lhe foífem no temporal muyto obedien tes,&íogcytos,& que fò trataua das coufas de Ley dos Chriftãos, & em

reformar os pontos delia,que elles nam guardauão, & que elles tinhão muytos priuilegios dos Reys anti- gos, que fua Alteza era obrigado a guardar; pollos quaes nunca os Re- ys do Malauar fe meteram em cou- iasdaLey dos Chriftãos, & que mil

& quinhentos annos auia que elles tinhão Bifpos, & Meteranes de ou- tras nações, fem nunca fens ante- ceflbres de Sua Alteza, nem de ou- tros Reys os deitarem fora das fuas terras, antes lhe faziãohonra,nam tendo amizade, ou confederação al- güa com os Reynos, & terras don- de elles vinhâo, & que nam era juf- to, que fò a elle, que era Portuguez, & fegunda pcfToa do Eftado da ín- dia com quem cila eftaua de paz, & amizade , & cujas armas feus ante- ceffores tinhão experimentado na guerra, aguoraaquizeífemouerde nouodeitandoo fora de fuas terras com tanta affronta ,&jnjuriadefua peíToa, & de todos os Portuguezes, & Eftado da índia, & quefeo ma- talle, feu Deos que era hum fô, & verdadeyro, lhe daria a elle o pre- mio de tam injuriofa morte, &caf- tigariaaqucm lhadeífe, & que os Portuguezes lhe pediriam conta delia, & que fuas terras , & vaflal- los, experimentarião, o que japor outras vezes tinhão experimentado. Meteo efte recado muyto por den- tro à Raynha,vendo que o Arcebif- po tinha rezão em fua queixa, & re- ceando que os Portuguezes fétiflem muito qualquer defacato,que fe lhes fizefle, confufa diíTe que coníultaria o cafo com feus Regedores,& confe lheyros,o que vendo o Arcebifpo, deu conta aos dous Chriftãos Iti- mato,& Itimane, que fe foráo ver CÕ elia,& peitarão a léus Regedores

compeitas grofias,q lhe oArcebifpo mandou,de modo q com,elles,e cõ os dous Chriftâos, fe refolueo a Rai- nha , q lhe alcuantaua a notificação, masq nam defferaoleftia aos Chrif- tâos,& iflro de modo qfempreíauo- rccia os que encontrauão oArcebif- po , & defejaua ocafião em q o ma- tafictn , fcm fe poder dizer que ella niílo cntraua. E afsia efta Raynha, e ao Rey de Turubelè feu perfilhado,

teue sépre oArcebifpo por inimigos particulares^ encótrados,ao q pre tendia fazer dos Chriftâos: com o q nam ceíTauão naquelles dias os tu- multos da terra , de modo q porho- ras fe receauão muytos perigos:pe- ra o q mandou o Ârcebifpo peitar groflaméte por via dos dous Chrif- tâos a hü Regedor principal da Rai- nha que viefle todos os dias correr a terra pella menhàm , &àtarde com fuagente, & outras duas vezes na noyte,o q fez muy inteiramente to- dos os dias que o Ârcebifpo efteue nclla,fendolhe por elle fatisfeyto cõ muy ta largueza

C A P I T V L O XIIII. De como os nobres, & Caçanares do f>o tio de Carturte fe fogeitatao â obediên-

cia do ^írcebijpo, nt, Sejla Feira da Cru

Ofto q a falfidadedos infie- is,q a cada palio quebrão pa $ laura,& cobiça dos Malaua- res, q por qualquer pequeno interef fe comete tudo, fazião,não fecõfiar o Arcebifpoda vigia doRegedor,né da palaura da Raynha da pimenta, & fempre os feus eftarem em vigia com receo de defaftres, com tudo cofiando o Ârcebifpo, nam nos prin

catorze. 44.

pesda terra, nem nos filhos dos ho- mês, nosquaes nam hà faude, íenão na bondade de Deos,fem cuja vonta de nada fe moue,celebrou os offici- os da fomana San ta,no meyo deftes perigos cõ tanta folénidade,& quie- tação , como fe os celebrara na fua Sè de Goa entre feus Clérigos,&no meyo de fuas ouelhas>& como na I- grejaauia Suriano?, que faziao feus officios em Caldeo, & latinos, que vinhãocom elle, que osauião de fa- zer conforme ao vzo da Igreja R o - mana, chegada a quarta fcyra,orde- nou que às matinas,& mais horas entraílem primeyro os Latinos, & acabando elles, os Caldeos, & Caça nares, o que fez com muita folénida d e , & edificação do pouo, vendo q a mor parte do dia.&noytefe gafta- ua nos diuinos officio? , focedendo hüs aos outros,& cada hôs a feu mo- do, afsiftindo o Ârcebifpo a todos, e moftrando q dehúsj&de outros era Prelado.

Acabado o officio da quarta fey- ra , chamou o Ârcebifpo todos os Caçanares, & lhe fezhúa pratica do vzo dos Santos Óleos nos Sacramen tos , & confagrações da Igreja, & da Cerimonia defuaconfagraçam, & benção , de que elles nam vza- uam , pofto que cm feus liurosfe falaua dos Óleos Santos, pera que afsim eftiueflem aduertidos da ben- ção que ao outro dia polia menhàm queria fazer, & Cerimonia dellaj na qual quis que também entraí- femos Caçanares, & afsim ao ou- tro dia diffe Mifla em Pontifical com grandeMageftade,& folenida-

de,&benzeo os Óleos Santos, pe* ra dçlles prouer todas as Igrejas da Serra, & o s introduzirnella;porq afsimfazia eftas coufas, como fe tiuc

Liurofrtmeyro»

ra certeza de tudo o que ao diante

focedeo.B que vindo todos à obcdi encia da Igreja Romana lhe auião defcr neceflarios pera prouer aslgre }as,& os introduzir logo ncllas, edifi cario íe todos de verasCerimonias do officio, ficandolhe grande con- ceyto da íantidade dos oleos fátuos,

de que até então nam tinhão noti- cia •• E encerrou também o Santifsi- mo Sacramento na Igreja muy de- centemente , coufa que nuca tinhão viflo, & repartio os Chriftãos todos por fuas vigias no dia & noy te,pofto que não auia perigo, ainda que efta- uaantre enfíeys pella terra fer toda de Chriftáos có muyta gente,& em paz. E dado q cites Chriftãos tinhão muitoserros por culpa dos meítres q os eníinauão, com tudo tinhão pia affey ção âs couías de Deos, e da Igre ja como Chriítandade q duraua def- do tempo dos fagrados Apoítolos, &afsi fe edificauão tanto de ver cou- ías táofantas na íua Igreja, as quaes nunca tinhão viíto,que hião cobran do affeyçáo ao Arcebiípo que as fa- zia , & dizião,que aquillo não podia deixar de fer bom,& que as Cerimo niasda Igreja Romana, erao milho- res que as fuas. Ajudou muy to a iíto verem á tarde o officio do Manda- to, & lauatorio dos pés, que o Arce bifpo fez em Pontifical, lauando os pés a rodos os Caçanares bejando- lhos,& alimpandolhoscom muytas moítras de humildade, deuação, & lagrimas,& quádo virão a peífoa do Arcebifpotq elles tinhão por muyto

grande,com Mitra na cabeça,& em joelhos lauar ós pés aos Caçanares, forão tatas as lagrimas nos mefmos Caçanares, & em todo o pouo, que bem excedia a mayor deuação das Igrejas dc Europa,& a elles lhe pare

Cia que era húa noua reformação da fua,de que ja hião entendendo, que feus Bifpos não tratauão coufa al- güa. Acabado o officio ouue prega- ção em lingoa Malauar,em quefe lhes deu a entender a alteza daquel- les diuinos my íterios, que fez o Pa- dre Antonio Tofcano da Cõpanhia delefu com muita deuaçãoj& o po- uo o ouuio com muita atenção,& lo

go entrarão osLatinosao officio, q durou muita parte da noyte,& á mea noyte entrarão os Caçanares,& Cal deos cóforme a feu cuítume,que du rarão nelle até quaíi de madrugada, afsiftindo também oArcebifpo com elles,como com os primeiros,& lo- go pellamenhãm fe começou o offi- cio da feita feyra, a q eítes Chriftáos faõ muy affeyçoados pella muita de uação q tem à Cruz, & quando che- gou â fua adoração forão tantas as lagrimas nellcs que bem fe enxerga ua andarem ja tncuidospello Spirito Santo pera obra fanta que naquella noite fizerão. E hüa velha pobre cm particular, derramou muitas lagri- mas , quando foy a beijar a Cruz q a todos moueo a deuação, & efpanto, & todos íairão da Igreja , dizendo q pera que dizião mal doArcebiípo,& da Igreja Romana, pois ella afsicele braua os myfterios da Fé, & elle afsi os reprefentaua.

Cuítumão eítes Chriftáos andar neftes dias tão c5poftos,modeftos(e

cõ tãtas moftrasdedeuaçáo,humilda de,& filécio,qparecé outroshomés, & há nelles tanta differença ncíte dia a todos os mais daÇ^uarefma, quanta há dos daQnareíma a to- do o outro tépo do âno,q hé tanta q os negocios da Igreja , ou de obras de piedade, que fe pretendem fa- zer de propofitofe guardam pera o

No documento Jornada do Arcebispo (páginas 122-125)