Capitão delia Dom Aluaro deMe- nefes, q poíefle o dito Arcebifo em Còchim , & dahi íe fofle á Barra do Cunhale ajuntar com a mais armada que fobre ella eftaua. Soubefe pella Cidade o dia que partia o Arcebif- p o , & concorrerão â fua fala tantas viuuas,&pobres que elle foftentaua, que nam podiáo os que hião cõ elle romper por ella,todos chorado pel- Io perigo que fe dizia de fua ida, & por lhe parecer que ficauãofem re- médio com fua aufencia , & afsi em faindo oArcebifpo leuantaram hüa grande grita,& alarido, de modoq fe moueram todos a lagrimas, & o mefmo Ârcebifpo as derramou , & vendo que hüa viuua fazia mais ef- tremos,voltouaella, &diífelheque tendes ? pera que derramais tantas lagrimas? que quereis que vos fa- ça? Se tendes algüa necefsidade, ou negocio particular em que vos pofla valer dizeio, & determey todos os dias que vos foré neceíTarios. Diííe ella,choro porque fico fem remedio com tresfilhasque me VoíTa Senho- ria foftentaua. Acodio o Ârcebifpo, nam vos defconfoleis, que todas as qoe eftais no R o l , & tendes efomla cada mez de minha cafa, fica ordem aoPadreVigayro doRozayro ga vo Ia daríencomédaimeaDeos.qíe me elle der vida,eu vosvirey muito ce- docafar voflasfilhas.Comofe defem baraçou das viuuas,& pobres da fa- la, de ceo as efcadas, aonde no pátio achou moyros outros dos que pedé pellas portas.fazendoamefmagrita, que os nam defempatafie, mandou dareímola, & cõifto entrou na Sè, onde fazendo oração, & rezando cõ todos os Conegos,queo eftauão ef- perando, o Itinerário diante do Al- tar do fantifsimo Sacramento, & fa-
zendo particular oraçam í Virgem Sãta Caterina padroeyra da fua Igre ja,fe defpedio detodos, & fefoy em- barcar.
C A P I T V L O V I . De como o ^trcehfpo pxrtio de Goa, &
do queft^em Cananor. Artido o Ârcebifpo fez foa jornada fem fe deter e par- te algüaatè a Barra do.Cu- nhale, aonde eftaua DomLuysda Gama Irmão do CondeVifoRey cõ toda a armada que tinha partido pe- ra o Malauar,de q era Capitão mòr, tédo cercado a fortaleza, & fitio por mar, eíperando a ordem que lhe vi- nha do VifoRey pera cõbater a for- taleza por terra: o qual auendo vif- ta a gale do Ârcebifpo ( por quê ja efperaua)dia dos Reys de madruga- da, fe aballou cõ toda a armada pofta em ordem , as gales no meyo, & as fuftas de hüa , & outra banda, todas embandeiradas, & chegando a gale do Ârcebifpo ao fayr doSol,fizerão húa das mais fermofas faluas que fe podia ver, defparâdo a artelharia to- das as fuftas, & gales: & foando to- dos os inftrumentos,trombetas,cha ramellas,& tambores,com que pare ceo a manhã por eftremo bem afío- brada, & reconhecédo as gales a do Ârcebifpo entre fy .chegaram a mef- ma Barra donde partirão,aonde to- das deitarão ferro.Tinha oVifoR éy encomédado ao Ârcebifpo,que paf- fando polia armada tomafte os pare ceresde todos os Capitães,& folda« dos de fobre oquefe deuia fazer,pe- ra fe deftruir aquella fortaleza, & o inimigo que nclla,& no fitio que ti- nha cercado fe hir fazendo muy po- derofo
Capitulofexto.
derofo contra as noffas armadas, & intentaua fazeríè Rey dos Mouros do Malauar,pcra que eftaua rebella- do cõtra o Samory Rey deCalecut, cujo vaffallo era. Fez o Arcebifpo cõ muita diligencia o que lhe o V i - foRey tinha encomendado,& defpa chou hú nauio com os pareceres de todos,dãdoas rezões per húa,& ou- tra parte, remetendo aocor.íelho de Goa a refoluç5o:& feyta efta diligé- cia começou a entéder em outra bé
ppria de fua obrigação. Auia quatro dias que dous mancebos inftigados pelo demonio, fugindo o caftigo de fuás culpas, feauião paliado a o C u - nhale,& tomando a feita de Mafame de,& peramòrconfufam,& dor dos Chriftaos depois de circuncidados (airão fobre dous elefantes com grã de feita, & pompa acópanhados de todos os Mouros da fortaleza,& po uoação,& derão húa volta polia pra- ya à vifta de toda a armada . defpa- rando toda a artelharia da fortaleza, & baluartes do cerco que tinhão fei- to, & toda a efpingardaria dafolda- defca com muytos bayIos,& tange- res a feu modo, q reprefentaua húa grande fefta: eftaua o Arcebifpo ve- do ilto com feu solhos com grande dor,& magoa íua,& trifteza de toda a armada: & acezona charidade& cõpaixam da perdiçamdaquellasal-
mas fe recolheo â camara da gale,& lheefcreueoa ambos húa carta muy deuota, & atíeituofa, exhortandoos à penitencia do mal que tinhão fey- ro,& a íe tornarem ao grêmio da fan
ta madre Igreja,de q fe tinhão apar- tado, offerecédofe aos ajudar em tu- do o pofsiucl,dando lhetodos os fe- guros peraifto ncceflarios,confor- me os poderes que leuaua do fanto officio, & por hüa efpia G entio que
16
hia,& vinha à fortaleza lhe mãdoua carta,com promeflade muy boa pa-
ga fe lhe trouxeíTe a repofta:& ven- do que não rcfponderão á primeira:
cÕtinuou cõ a fegúda, prou ue a noffoSenhor,que obraram tan-
to as cartas do zelofo prelado,q Con uencidos com ellas,depois de anda- rem vacitlando algús dias reconhe- cendo feu erro, & íe reTolueram de fugir pera o dito Arcebifpo, que co- mo teue repoftadofeuarrependimé to,& determinação,fevoltouàcida- dede Cananor,afst pera a vifítar,an- tes q entrafle nos negocios da Serra, como pa osefperartaonde lhe tmhã
dado palaura de virja qualcõprirão, & fugindo farão fétidos ãbos, & pre fos nocaminho, & leuados á forta- leza onde ebaraçados os Mouros cõ a guerra guardauam a fua morte pe- ra com ella feftejar a vitoria que ef- perauão: mas no dia do combate,hú foy morto por chamar os Portugüe fes queanaauãopelejando de húa ja nella donde eftaua prefo, q entrafsé na fortaleza que eftaua defpejada,& o outro na reuolta da briga teue tem po pera fe foltar, & fe foy ter com o
Arcebifpo q ja andaua na Serra occu pado nos negocios daChriítandade, & elle o teue confígo muy tos dias,& o tratou cõ muita charidade, & pos feus negocios em termos cõ que fi- cou cõprindo fua penitêcia có quie-
tação &fatisfaçáo.
V.ifitou o Arcebifpo a cidade de Cananorem 16.dias contínuos, aon de teue muyto que fazer porauer 2-f.annos, que aqueüa fortaleza não tinha vifto o rofto a feu proprio Pre lado. Em quanto vifitaua, mandou por íacerdotes que pera efte effeyto trazia que fabião a lingoa Malauar correr todos os palma res,ortas,& Iu
Liuroprimeyro,
gares ao redor da Cidade a prégar a Fé aos Gentios, que todos a noyte lhe vinháo dar conta do que cadahü fizera naquelle dia,& elle por (i fazia o meímo a inuytos gentios, que ou hia bufear, ou mandaua chamar, & prouueà diuina mifcricordia,que na quelles porcos dias fe ajuntou hüa grande copia de almas do numero daquelles, q reprendidos pello pay de familiaSjporque eftauam ociofos, refponderam que ninguém os tinha chamado até aquella hora.Como ef- tes foram chamados,& trazidos,or- denou o Arcebifpo que foliem cate quizados,& inftruidos nas couías da Fè,& doutrina Chriftaã; O que elle também por fí fazia muitas vezes, & os bautizou todos por íua mão em hum dia,com muita fefta dos mora-
dores da Cidade,que não tinhão vif- to femelhane auto de tanta gente, & a todos procurou de accomodar, a cada hü, aonde melhor em paro po deíle ter de vida, & nam fò aos gen- tios procurou trazer â Fé, mas a al- güs maos Chriftãos,queandauáo de todo eíquecidosdeíuafaluaçâo,ef- cõmungados,&amãcebados de mui tosannos.Anrre os mefmosGenti-
os, auia dezannos.que hum conuer- faua húa gentia, de que tinha filhos, fem niica querer vir a terra deChrif- tãos-' o que fabendo o Arcebifpo, o mandou chamar , & não querendo vir, lhe mandou hü íegurode o nam prender com promeflas de lhe fazer jnuytas merces:cõ ifto veyo adesho Tas,entrando polia cerca doConuen lo de Sam francifco em que o Arce- bifpo eítaua agafalhado, & armado todo,& rodeado de piíloletes: man- dou recado ao Arcebifpo, & elle o foy bufear abaixo fò, & fe meteo cõ elle no choro da Igreja, & alenta-
dos ambos cada hü em fua cadeyra, lhe diífetaespalaurasporhumeípa- ço de tempo grande,que o duro pec cador rendido fe lhe botou aos pés, dizédo como outro Saulo .* Senhor que quereis que faça? ergueo oArce biípo &abraçouo,dizendoquenão queria mais lenam q (e confeflaífe, & fc tirafie do mao eftado em que viuia,& afsi o deteue algõs dias, & o confeflou, & abfolueoj & vendo a afeyção que tinha à gentia,& perigo de rccindtr pella préda de quatro fi- lhos que delia tinha, lhe perfuadio q a trouxeffe,& a fizeffe Chriftam , & íe cafaflfe com ella,que elle o honra- r i a ^ faria as pazes com feus paren- tes com que fe elle efcuíaua, perfua- dindolhe odemonio que andaua ma is honrado amancebado, & com fi- lhos gétios,que cafado, & com elles Chriftãos.O Arcebifpo o venceo,& elle trouxe a molher fugida com os filhos, & pedindo o fanto bautiímo foy catequizada,& o Arcebifpo a bau tizou com os filhos, fazendofe gran de feftanodiade feu bautifmo , 3 companhada de todas as molhe- res nobres da Cidade em hüa me-« nhã,& como a bautizou diffe Miíía, a qual acabada 2 Chrifmou, & l o g o os receberam ambos cõ grande ale- gria fua, & de todo o pouo, & fez amizade entre os parentes,&c om o pay,que deu graças a Deos polia vi- da efpintual do filho perdido,& de- pois vierão à Fé o pay, & a mãy , ir- m ã o s ^ cunhados delia, primos, & parentes mais chegados Com todas fuas famílias,& receberão a agoa do bautifm o: aos quaes todos ajudou o Arcebifpo,& como veyo da Serrão meteo no feruiço delRey com q vi- uia abaftado,& depois lhe deu coufa com quefuftentafua cafa, & empara
Capitulofexto.
todos eftes cunhados,tornando tão difFerente quç de todos heeftima- do,&fauorecido.
Nefta mefma Cidade eftaua húâ molher viuua defcuidada na vida,& muyto pobre,mas nobre, afsi por ge raçarn , como por matrimonio, do qual tinha duas filhas moças, don- zel!as,de pouca idade, & de notauel parecer,& entendendo oArcebifpo o rifco, q corriáo em poder da mãy, determinou polias em cafa de molhe res virtuofas,& honradas,donde po deffem cafar honradamente, comofa zia a muitas, afsi em Goa, como nas mais partes,onde eftaua. Não o que ria a mãy confentir, & mandandoa vir cõ as filhas à Igreja a exhortou q lhas Iargafle pera as entregar às mo- lheres,a que tinha falado,que ja pera ilToeftauão prefentes. nam oconfen tia a mãy, né as fi lhas, que aferradas a feus peytos fazião hüagrita, & di-' ziáo laftimas mouerão as pedras acompsyxão. E nam oufando nin- guém de chegar a ella pera as tirar, fealeuantou o Arcebifpo,& cõ toda ahoneftidade, e grauidadedeíafer- rou hüa dos peytos da mãy, & a en- tregou à peflba,que tinha efeolhida, & logo fez o meftrio a outra, pedin- do a mãy muita juftiça a Deos, & di- zendo muitas defcõpofturas, fe tor- nou aíTentar continuando com a vi fita em que eftaua , & pelejando al- güas peuoas com ella pello que lhe eftaua dizendo, voltou o Arcebifpo aetlas,& diffe. Deixaya que he mãv, & aflaza defeulpa o afFeyto de mãy de fentir tirarem lhe fuas filhasrquã- do as vir cafadas, & honradas então caira na conta do bem que lhe faço, & afsi foy,porque daly as cafoü o Ar cebifpoa ambas honradamente,do- tandoas de fua fazenda,por não teré
*7 coufaalgüa. Com que a pobre mãy emendada da vida, & tédo remedio nos genros, que dantes nam tinha, daua muitas graças aDeos,& rogaua cada dia mil bés ao Arcebifpo pollo que lhe fez: com quem ella & os gé- ros continuão em todas as coufas,q fe offerecem,em que pretendem aju da,& fauor,porque a eftes que defta maneyra, cafa que iam muytos,cha- ma o Arcebifpo feus géros,& como fe taes foram os trata, & tem cuyda- dodefuascoufas.
O s dias ocupaua o Arcebifpo neftas obras, & em prégar todos os domin gos& diasfantos,conforme ao cuftu meqtinha em todas as partes q v i - fitaua,com que ospoues fe confola- uam grande mente, pollo fazer com muytozello,& proueyto das almas, & fruito das fuas ouelhas, & as noy- tes gaftaua todas em compor hü co- piofo tratado de todas as coufasper tencentes a nofla fanta Fè Catholica pera fe ler nas Igrejas dos catholicos doPrefteloão, o u R e y n o d o Abe- xim,que eftauãoà fua obediencia, a cujas cartas, & negócios era tempo de refponder, por fe hir chegando a moução, em q as naos que nauegão pera o eftreyto do mar roxo as aui- am de Ieuar aos portos de Daleca, Mafuà, & deArquiquo, onde os Chriftãos as mandão bufear, & em Goa nam teüe tempo pera refpõder pellas muitas occupações que fobre- uieram,& afsi foy forçado hir efere- uendo pollo caminho. Cõtinha efte tratadoa doutrina Catholica em to- dos os pontos eflenciaes da Fé C a - tholica, com a confutação dos erros que nelles tem os Abexins,em efpe- cial, os dos peruerfos Euthiquis, & Diolcoro Alexandrino, aos quaes ellesfegué venerãdoos porfantos, repro
Liuroprimeyro
reprouando o fanto ConcilioCalce- donenfe,que os condenou feguindo cm tudo ao Patriarcha Alexãdrmo, a quem famfogeitosno ponto dere- ceberdelle Patriarcha pera fuas ter- ras , pofto que em todo o Reyno Te nam faz mais no efpiritual,& tempo ral, que o que o Emperador quer, coníultandofeusfacerdotes,&cabe ças dos mofteyros de fcus frades, té do os Emperadores vfurpado pera fy,impia,& tyranicaméte todo o go uerno efpiritual,& afsi de muytos ri- tosjudaicosqueguardãojcomoíam^
os roais dos jcjús, o modo de Jejuar o guardar osíabados,o circuncida- rem oy mininos, & o darem Iibello
de repudio às molhere.s,& o nam co merem algüs manjares immundos» pofto que nam todos os que a ley de Moyfes prohibia: os quaes ritos, & cerimonias judaicas,não guardarão no principio da Chriftandade, porq receberão a Fè pura, & limpa do Eu nucho da RaynnaCandaçes,que era deftas terras,de que trata Sam Lucas nos Aftos dos Apoftolos,&: dos dif- cipulos dos meímos Apoftolos,que lhe pregaram, masforão introduzi- dos, nam ha quatrocétos annos pel- lo Emperador Zarà Acob:oqualco mo fe prezaíle de gtande letrado, & meftre nas diuinas efcripturas,como a todos falta o fundaméto daFè Ca- tholica,& a firmeza da pedra fobre q Chrifto noifo Senhor fundou fua I - greja apartados da Romana, meftra de todas as do mundo, mandou que fe guardafiem todas as coufas fuftun ciaes da ley de Moyfes, junto com a de Chrifto, & fez hüa mifcelania, de hüa,& outra, dizendo q ambos erão de Deos,a que viué tão affeiçoados, que querendo o Patriarcha, que os oje gouerna tirar a guarda dos faba-
dos, nunca o pode acabar com elles, porque também le prczão de ferem feus Emperadores defcendcntesdel R e y Salamão, & da Raynha Sabbà, que era Senhora deftas terras, cuja defcendécia de pay a filho, atè o Em perador que oje gouerna eftâ com muyta autoridade efcrita na Igreja de Acfumà,dedicada a nofía Senho* ra, fèruida com muytos Conegos, a ondeos Emperadores fe vão coro- ar, & em quanto nãovão à dita Igre- j a ^ eftà na prouincia deTigarc,fe- nam chamáo Emperadores, & nefte lugar de Acfumà eftauão os paçosda Raynha Sabbà,& nam era muyto di ficultofo hir daly as Igrejas alem,por q em boas jornadas nam poem mais que hu mes de caminho, &contão desde Minilique 4 he filho delRey Salamão, & da Raynha Sabbâ atè o Emperadorque oje gouerna ointé- ta & feisEmperadoreSjConuem a fa- ber, vinte & hum antes do nafcimé- to de Chrifto noffo Senhor j & os mais depois delle,afora cento,&trin ta annos em que certos tyranos que fe aleuantarão cõ o Reyno nam fofre ram chamarem fe os defcédentes da Raynha Sabbâ Emperadores, mas depois cõtinuaram cõ o titulo de feu Império. A eftes erros dos ritos ju- daicos ja reprouados,e aos de Euthi quis,& Diofcoro dacõfufam das na turezas,& hüafò vontade,& opera- ção ajuntão os principaes dos Gre- gos com todas as fezes de ignoran - cias dos fcifmaticos oriétaes comu- nicadas todas polia Igreja de Alexa- dria,& do Cairo,dos quaes erros to- dos tinha o Arcebifpo informaram, & hum tratado efcrito por Belchior daSyluafacerdoteTheo!ogo,quelà tinha mãdadonoanno de ifçg.por
VigayroGèral das Igrejas dosCa- tholicos,