5. PRIMAVERA SECUNDARISTA
5.2 DOCUMENTÁRIOS SOBRE AS OCUPAÇÕES
5.2.3 Lute como uma menina! (76 min; 9 nov 2016)
A partir das falas de sete estudantes do gênero feminino que participaram da Primavera Secundarista, o documentário Lute como uma menina! se inicia ratificando o poder das jovens em atos de resistência na vida cotidiana, como colocado em: “Na real, o que a gente tem que fazer é resistir. E é o que gente sabe fazer de melhor. Resistir, poque a gente tem que resistir todo dia”.
Em seguida, imagens do dia a dia da ocupação comparecem para demonstrar a atuação vigorosa de mulheres consideradas “inferiores” historicamente na sociedade patriarcal, como no exemplo da figura 26, em que uma jovem segura uma cadeira bem próxima de um policial que parece agredir os estudantes, posto que se coloca em punho com uma arma branca.
Figura 26 – Menina em manifestação na rua.
Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=8OCUMGHm2oA.
As participantes do movimento estudantil explicam detalhes de como a proposta de reorganização escolar foi recebida em suas unidades escolares. A conscientização se deu ao relacionar as dificuldades do dia a dia com as modificações que gerariam condições ainda piores, com sala superlotadas, e ainda maior prejuízo nos termos de apreensão do conhecimento.
As preocupações perpassam pelos resultados da educação como um todo, das notas do ENEM, dentre outros itens pertinentes que vão além do papel “convencional” do aluno secundarista. Revela-se, nesse ponto, também, a desconfiança em relação ao governo, já que, como declarado pela estudante, “a gente sabe muito bem o que Estado tenta fazer com a educação”.
A marca das TICs na luta juvenil se faz presente quando uma aluna comenta sobre a primeira iniciativa de protesto nas ruas, como elaborar essa estratégia e realizar a manifestação. Em sua colocação, ela detalha:
Quando a gente decidiu ir pra rua, eu falei “Vamos pra rua então”. Aí a gente combinou a cor da roupa. “O que a gente vai levar?”. Apito, buzina, bexiga, não sabia o que levar, porque como ir pra rua? Tipo pesquisar no Google: “Como fazer uma manifestação?”. De fato, o resultado de uma consulta no buscador líder mundialmente, o Google, traz como retorno um manual que explica “COMO OCUPAR UM COLÉGIO?” (Figuras 27, 28 e 29).
Figura 27 – No documentário, manual de como ocupar um colégio.
Figura 28 – Resultados de busca no Google para a frase “como ocupar um colégio”.
Fonte: https://www.google.com/search?q=como+ocupar+um+colegio&ie=&oe=.
Figura 29 – Cartilha escrita por estudantes do Chile e da Argentina.
Fonte: https://gremiolivre.wordpress.com/2015/10/21/como-ocupar-um-colegio- versao-online/.
Criado em 2013, o perfil O Mal Educado no Facebook permanece ativo no ano de 2020. Sua última publicação está datada em 18 de dezembro de 2019, na qual divulga um evento com exibição do documentário Chile de olhos bem abertos. Ao consultar as páginas curtidas (e, por isso, seguidas) por esse coletivo, não se observa nenhuma que represente algum movimento sindical ou partido político. A grande maioria são perfis de ocupação: “Escola Ocupada Adib Chammas Não à Reorganização”, “Escola de Luta Fernão Dias Paes”, “Escolas em Luta Litoral Norte SP”, “Secundaristas em Luta – GO”, “Movimento Ocupa CEDOM”, “Ocupação ETEC Jardim Ângela” e “Ocupação – Luiz Castanho de Almeida” para citar os primeiros trazidos na consulta.
A respeito da liderança juvenil, de maneira semelhante, como ocorreu em outros ciberativismos, o grupo constantemente se declara apartidário, utilizando a expressão “nosso protagonismo”, inclusive rejeitando o rótulo de “esquerda” ou “direita”. No registro de um momento nas ruas, eles repetem em coro “Nós estamos aqui de forma autônoma, sem representação. Nosso diálogo é nas ruas e não com partidos”. Em seguida reforçada pela expressão que se repete continuamente: “Sem liderança! Sem liderança!”.
E, apesar disso, a imagem construída nos meios de comunicação, em geral, vinculam a Primavera Secundarista como mais uma ação “petista”, conforme discurso que comparece na frase proferida por uma senhora na rua: “Eles estão sendo capitaneados pelo PT” (Figura 30).
Figura 30 – Transeunte associa o movimento ao PT.
Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=8OCUMGHm2oA.
Sobre o começo do ciberativismo, uma aluna coloca: “A gente se espelhou muito nos chilenos, na Revolta dos Pinguins inclusive. E a gente viu que tinha dado certo. Foi um movimento que chamou muito a atenção”. O próprio manual já citado fez parte de coletivos juvenis argentinos e chilenos (Figura 30) e, no ciberespaço, é selecionado como primeira opção na busca via Google concernente ao tema em questão (Figura 29).
A propósito, ainda em referência ao intercâmbio de conteúdo político- educacional entre a juventude do Brasil e do Chile: um dos gritos, nas atuações realizadas nas ruas, apresenta o seguinte enunciado: “Acabou a paz, isso aqui vai virar o Chile”.
A referência à cibercultura se fez presente nos registros self media realizados de celulares em vídeos que circularam nas mídias sociais. Num dos casos contados pelas estudantes, de desocupação de uma escola, o vídeo mostra a ação policial armada contra oito estudantes que ocupavam a unidade escolar (Figura 31) e que, por consequência, foram detidos, desocupando o espaço.
Figura 31 – Registro self media de ação policial.
Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=8OCUMGHm2oA.
Alunos que acompanharam a narrativa digital e que, inicialmente não participariam do movimento de ocupação, sensibilizaram-se, e ocuparam a unidade escolar, emocionando, reciprocamente, aqueles que estavam presos. A resposta de solidariedade evoca a proposta da ideia do movimento social, que parte, conceitualmente, de um objetivo comum que reverbera coletivamente.
No que concerne o jornalismo alternativo, este se fez presente ao divulgar um áudio do chefe de gabinete da Secretaria de Educação de São Paulo, Fernando Padula Novaes e, ainda, acompanhar a presença policial com a direção escolar em imagens divulgadas pelos Jornalistas Livres (Figura 32) num confronto de cinquenta pessoas contra apenas doze secundaristas.
Figura 32 – Jornalismo alternativo na narrativa de desocupação.
Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=8OCUMGHm2oA.
Nesse embate, além da agressão aos estudantes, o diretor se mantinha passivo e de acordo com a violência. Os estudantes permaneciam unidos e organizados – eles se sentaram em círculo, resistindo bravamente –, reforçando sua posição através da frase “Não tem arrego!”.
O documentário pontua situações de machismo no cotidiano das jovens durante a organização do movimento estudantil. As meninas, a todo tempo, exigem a equidade nas tarefas, voz, posicionamento, decisões sem qualquer tipo de discriminação. Constantemente há um posicionamento de empoderamento e autoconfiança. Como diz uma aluna: “Feminismo pra mim é liberdade, né? Ser feminista é poder fazer o que você quiser: do seu corpo, da sua vida e dane-se o que os outros vão pensar”.
Dessa forma, criticando o modo como o espaço escolar formal se isenta de abordar tal tema, dentre outros como sexualidade – na visão dos alunos, assuntos fundamentais para a formação crítica dos jovens –, foram ministradas aulas e
elaboradas oficinas sobre: desconstrução de gênero, feminismo, teatro, racismo, intervenção urbana, luta indígena (proferida por índios) e resistência na ditadura (realizada por quem sofreu a ditadura). Tal experiência se relevou mais do que um aprendizado acadêmico, mas um aprendizado para a vida.
A respeito dessas novas experiências e da reflexão política e sócio-histórica, numa declamação artística, uma aluna encena o texto:
Ocupamos nossas escolas
Tomamos às mãos a nossa história
A gente não vai aceitar essa “bagunçação” na nossa educação Depois de tudo que nós vivemos, ainda querem tirar nossos direitos É uma falta de respeito
E não venha dizer que é pelo bem do nosso povo porque não é O estudante não é bobo
A gente sabe que nossos direitos nunca foram concedidos por bondade
Foram arrancados e conquistados com muita luta e suor Daqueles que viveram antes de nós
E digo mais: a nossa escola nunca esteve melhor Porque são infinitos os talentos que temos
Que sempre foram menosprezadas pelas escolas do governo E hoje, juntos, nós aprendemos
Lembramos e revivemos a resistência de Zumbi e de Dandara São mais de duzentas escolas ocupadas
E como grandes quilombos, ensinamos uma lição a este sistema Casa Grande que trema
Porque a escola que antes parecia uma prisão
Durante a ocupação ganhou cor, papel higiênico e até horta. Hoje, juntos, nós aprendemos o que realmente importa Nós tomamos as ruas e vamos até a vitória
Porque, em toda a história, foram heróis
Esses que tiveram a coragem de se levantar e lutar Eu digo aos meus companheiros
Não se preocupe se nos chamam de vagabundos Enquanto eles ficam por aí falando
Nós estamos aqui mudando o mundo.
No processo de resistência, os relatos sobre o embate com a polícia são bem marcantes nos detalhes que envolvem as agressões físicas e psicológicas que continham declarações de racismo e misoginia contra menores de idade. Atitudes arbitrárias e ilegais, pois muitos alunos eram levados sem justificativas, bombas jogadas mesmo quando o movimento já estava apaziguado, com os jovens sentados no chão. O questionamento posto era: “vocês estão batendo em adolescentes que estão lutando pela educação”.
Mesmo com o adiamento da Reorganização Escolar, os estudantes mantiveram o movimento porque, para o entendimento dos alunos, era só uma estratégia de pulverizar a negociação e enfraquecer a luta.
Eles estavam confiantes, como se pode observar nos relatos: “Essa nova geração de estudantes são capazes de mudar o país. E a gente fez uma revolução” e “Não existe só essa política que a gente conhece, não existe só esse campo burocrático. Tem como fazer muita coisa fora disso tudo se a gente se unir. E a gente se uniu. Então é possível: o mundo pode mudar”.