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Primavera Secundarista – o filme (23 min; 6 jul 2017)

5. PRIMAVERA SECUNDARISTA

5.2 DOCUMENTÁRIOS SOBRE AS OCUPAÇÕES

5.2.1 Primavera Secundarista – o filme (23 min; 6 jul 2017)

“Outubro de 2016 / Mais de 1.100 escolas foram ocupadas em 22 estados brasileiros / O Paraná teve 850 escolas ocupadas / Contra a medida provisória MP 746 de reforma do ensino médio” (Primavera Secundarista – o filme), com estas palavras, inicia-se o primeiro documentário selecionado no YouTube, que leva o nome do modo como a iniciativa dos estudantes foi amplamente identificada nas mídias: Primavera Secundarista.

O primeiro assunto abordado é “distorção da mídia”, cuja fala de uma estudante refere que “a mídia é manipuladora e pode dizer outra coisa do que a gente quer dizer”. Outro estudante coloca “eles vão selecionar a parte mais ruim que eu falei” de modo a esclarecer as abordagens dos repórteres na cobertura das ocupações. Há a tentativa de constantemente julgar os secundaristas como ignorantes políticos, reafirmando o senso comum que cria a imagem de uma juventude alienada.

Essa ideia é ratificada no depoimento do governador do Paraná Beto Richa à RPC TV:

Sindicatos ligados à CUT, ligados ao PT que querem a baderna no país, usando de forma criminosa as nossas crianças nas escolas, que estão nas ruas protestando e não sabem nem o quê. Numa perfeita doutrinação ideológica nas escolas do Paraná e do Brasil.

Um aspecto marcante do filme é a conscientização que vai se construindo coletivamente concernente ao papel cidadão, já que os alunos se dedicam ao estudo das leis a fim de se colocarem coerentemente em suas posições ideológicas, sociais e políticas.

Nos vídeos self media presentes no documentário, constam as organizações dos ocupantes nessas pesquisas, as palestras realizadas, inúmeros debates e assembleias para definição de pautas e estratégias de luta, articulação com universidades, ou seja, modos autodidatas da práxis política: “é realmente o aprendizado muito de colaboração, de conjunto, coletividade... Colaboração, coletividade, resistência, amor”, segundo a fala do ocupante. E mais: “A gente precisa de uma sociedade crítica, não uma massa de manobra”.

Sobre a pedagogia política, a estudante paranaense Ana Júlia Ribeiro, 16 anos, assim argumentou na Assembleia Legislativa de seu estado:

O movimento estudantil nos trouxe um conhecimento muito maior sobre política e cidadania do que todo tempo que nós estivemos sentados e enfileirados em aulas padrões. Uma semana de ocupação que nós estamos, nos trouxe mais conhecimento sobre política e cidadania do que muitos outros anos que a gente vai ter dentro de sala de aula.

Igualmente o movimento se colocou eticamente a respeito das doações recebidas, informando sobre a coleta, distribuição e preparo dos alimentos que garantiram, por um determinado período, a permanência de alunos e, também, pais de alunos nos espaços escolares.

Inclusive porque o processo de ocupação exigiu um alerta muito grande visto que iminentemente havia o risco de desocupação, em especial envolvendo a violência física contra os adolescentes. Ações originadas de outros estudantes que se posicionavam contrários à luta instaurada, de pais de alunos, da direção da escola, da polícia e milícias etc. estabeleciam esse clima de tensão permanente. Assim, a pressão psicológica/emocional pela qual os atores do movimento vivenciaram exigiu uma grande maturidade de sujeitos com aparentemente pouca experiência de vida e de ativismo político:

A violência a qual nós sofremos foi muito maior do que a expectativa. A gente sabia que ia sofrer muita retaliação,

perseguição e que muitas pessoas iam ser contrárias a isso. Mas o que a gente passou na UTFPR tem consequências até hoje no nosso psicológico, no nosso físico, no nosso emocional. (...) A gente tinha 24 horas por dia ataque.

Na figura 23, o documentário mostra o uso da rede social Facebook para denunciar a violência da Polícia Federal no processo de desocupação. As vozes dos 54 alunos que ocupavam a universidade encontraram, no ciberespaço, um modo de apresentar a realidade sofrida por eles.

Figura 23 – Self media e rede social no documentário.

Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=TbNqoky5HVY&feature=youtu.be.

Retomando o tópico da organização nos espaços, muitos posts foram publicados nas redes sociais a fim de esclarecer o que realmente ocorria dentro dos muros das escolas ocupadas e, por isso, desmentindo os constantes boatos e fake news que afirmavam ocorrerem badernas, uso drogas etc. Segundo relato de um ocupante:

articulações, programação, a gente conseguiu se auto-organizar muito bem. A gente já tinha planejado quais seriam os primeiros passos da ocupação. Foi um projeto coletivo muito interessante, cheio de nervosismo porque a gente não sabia se ia dar certo ou não.

A respeito da ausência de lideranças, a foto de um cartaz em uma escola ocupada busca esclarecer essa questão (Figura 24). Nele está escrito: “A Ocupa CEP não se identifica com quaisquer partidos ou posições políticas específicas. Nosso movimento não representa nenhum partido! Nossa única pauta é a estudantil”

Figura 24 – Imagem de cartaz em escola ocupada.

Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=TbNqoky5HVY&feature=youtu.be.

Por fim, uma frase que remete a uma questão que se sobressai dado o alcance filosófico e, por esse motivo, menos circunstancial: “Querem transformar a escola em mais um meio de capital. (...) Eles querem uma fábrica e não pode ser”. Mesmo que, de forma indireta, nessa afirmativa, o aluno reflete sobre a posição

hegemônica do Estado, que promove constantemente, na história da educação brasileira, o ensino tecnicista, de caráter formativo para o trabalho. A escola libertadora não é contemplada na Reforma do Ensino Médio, questão observada, por exemplo, na estratégia de se retirarem as disciplinas de filosofia e sociologia do currículo escolar.