• Nenhum resultado encontrado

Necessidade de conhecimentos da psicologia

No documento Escuta da criança na mediação familiar (páginas 64-69)

4.2 PROCEDIMENTOS DOS MEDIADORES NA ESCUTA DAS CRIANÇAS

4.2.1 Necessidade de formação dos mediadores para a escuta

4.2.1.2 Necessidade de conhecimentos da psicologia

Esta subcategoria está baseada na afirmação de oito mediadores – três deles psicólogos e cinco advogados. Verifica-se, no relato destes, uma necessidade de conhecimentos da psicologia, para prática da escuta da criança, na mediação familiar. As principais idéias expostas foram: o psicólogo sabe até onde expor a criança, tendo habilidade para conduzir a mediação com ela; psicólogos com formação em terapia sistêmica possuem melhor noção sobre funcionamento de família, portanto, têm mais facilidade; é necessário formação em psicologia

para escuta da criança; o conhecimento da psicologia faz falta ao profissional do direito; é preciso um psicólogo para assegurar tranqüilidade e bem-estar ao menor, desse modo torna-se de extrema valia um psicólogo junto, para escutar da criança, na mediação. Essas colocações tiveram maioria na fala dos mediadores advogados, já que todos eles afirmaram que

o mediador hoje é um profissional que ele tem que se aperfeiçoar e se capacitar, ou seja, tem que saber da matéria do direito da família e principalmente muito de psicologia [...] e hoje me reconheço como uma mediadora familiar procuro me inteirar dessas questões mais relativa à psicologia (A1); Isso exige psicologia e até didática (A2).

Os mediadores advogados também se referiram ao fato da necessidade de haver um psicólogo como co-mediador, porque na psicologia há formação para a escuta da criança:

Então é como falei antes por isso acho que tem que ter um psicólogo junto, o psicólogo pode ser o mediador, mas no caso do mediador não ser psicólogo, deveria ter um psicólogo como co-mediador, mesmo o assistente social precisaria do psicólogo, vamos falar do meu caso como mediador, que minha formação é da área do direito, eu precisaria de um psicólogo para co-mediador ou assistente, acho que co-mediador seria o ideal para o mediador que não tem a formação em psicologia (A3).

Interessante a correlação com a pesquisa de Slavieiro (2007) a qual evidenciou como função do mediador advogado, a subcategoria de maior destaque: buscar conhecimentos

relacionados à Psicologia. Além desta, outras categorias de grande relevo foram: gostar da área humana (com as subcategorias: facilidade como sendo inata; ser sensível ao outro; discutir questões conflitantes). Nesse sentido, houve semelhanças com as categorias desta pesquisa, já

que possuem correlações com as categorias que seguirão: sensibilidade; acolhimento da criança

e exploração dos sentimentos das crianças.

A constatação nas pesquisas da aproximação das duas ciências – Direito e Psicologia – mostra, nas palavras de Malhadas & Moraes (2004), que os envolvidos em conflitos estão sujeitos a fortes emoções: sendo assim, buscam, na mediação, soluções satisfatórias sob o ponto de vista psicológico e econômico. Sabe-se que a Psicologia “é a ciência sobre a qual se fundamenta toda a estratégia da mediação, sem que isso signifique, entretanto, que sua forma de atuação seja psicoterapêutica”. (MALHADAS; MORAES, 2004, p. 10). Nessa direção, existe fundamentação teórica que contemple tal deficiência encontrada pelos profissionais, em sua maioria advogados, a respeito da ciência psicológica.

Com vistas ao exposto, percebe-se claramente a importância da psicologia, para os operadores de direito, pois que resultados da pesquisa realizada por Slavieiro (2007) demonstram, no objetivo referente à relação entre os mediadores psicólogos e advogados, que as categorias de maior destaque são: (a) idéia de complemento entre as ciências; (b) crença de que não se deve

haver exclusividade de nenhuma ciência para atuação na Mediação Familiar; (c) idéia de que o conhecimento da Psicologia possa ser melhor para a prática na Mediação Familiar.

Além desses resultados, a mesma pesquisa (SLAVIEIRO, 2007) refere-se como sendo uma das funções do mediador advogado o desprender-se da lógica do litígio. Essa lógica diz respeito ao perdedor versus ganhador. Nas palavras de Muller, Beiras e Cruz (2007, p. 2).

Genericamente, os operadores do Direito, responsáveis pelos métodos tradicionais e adversariais de resolução de conflitos não desenvolvem, ao longo do seu processo de formação profissional, competências para lidar com aspectos psicológicos, no qual é valorizada geralmente a necessidade de subsumir a situação real a uma lei, ou seja, de fazer o denominado raciocínio silogístico. Isso significa que, quando uma pessoa diante de um conflito com uma outra, recorre a um advogado, esse profissional requer um juízo conforme a lei, que um terceiro estranho à relação familiar (juiz de Direito) declare “de quem é o direito” [...] Jurisdicionada a situação, na qual é necessário desenvolver uma racionalidade, o que aflora é uma luta pela razão, quando o substrato do conflito é em geral emocional. Essa luta pela razão, faz com que desse momento em diante fique estabelecido entre os advogados um duelo forense, eivado pela competição e vaidade profissional, da qual decorre um jogo de sobreposição de razões que impede a compreensão das dimensões sociais, afetivas, morais e suas respectivas repercussões na família.

Esse argumento pode ser confirmado, na declaração de uma mediadora psicóloga:

isso lhe traz insegurança, a segurança deles é nas leis e eles não tem querido ir para esses lados. Me foi proposto que eu ficasse ali orientando na mediação com os estudantes de direito, e eu não vi interesse deles, eu não sei exatamente por que (P4).

Isso demonstra uma lógica diferenciada, constatada por Slavieiro (2007), na discussão dos resultados de sua pesquisa, os quais levaram à aproximação e diferenciação de funções entre os profissionais do Direito e da Psicologia que fazem mediação. Essa aproximação acontece quando ambos percebem a necessidade de conhecimentos nas duas áreas. Sendo assim, a distinção apontada pela pesquisa ocorre pelas distintas lógicas utilizadas em cada formação, uma é de alteridade e outra de litígio. Para Muller, Beiras e Cruz (2007), os operadores de direito não desenvolvem competências em sua formação profissional, para trato com os aspectos psicológicos. Além disso, ao advogado, cabe o desenvolvimento de uma racionalidade, aflorando uma luta pela razão, quando, na mediação, o substrato do conflito é, na grande maioria,

emocional já que, para Cezar-Ferreira (2007), a separação conjugal provoca efeitos desestabilizadores, sendo necessários cuidados emocionais para com a família.

Essa constatação é compatível com argumentos levantados por Dolto (2003, p. 28) acerca do pensamento do advogado de que deve “agradar os clientes” não se importando com a criança:

O advogado teria então um papel a desempenhar no que concerne à criança. Com bastante freqüência, os advogados só pensam em agradar seus clientes. Não percebem que, nessa etapa do divórcio, enfatizar a criança equivale justamente a cuidar bem dos clientes, porque equivale a cuidar da descendência deles. Os clientes são mortais, mas seus filhos viverão depois deles.

Essa constatação da diferenciação de funções entre os mediadores advogados e psicólogos confirma os dados encontrados nesta pesquisa, como, por exemplo, nos seguintes relatos: a formação de mediação é quase nula, para o profissional de direito é quase nula e os

advogados ainda são formados para o contencioso, para a briga, para a discussão e não para a tentativa de solução (A4). Conforme Muller, Beiras e Cruz (2007, p. 3), “são observáveis, nesse

procedimento judicial, relações de poder e submissão, baseadas na lógica disjuntiva, maniqueísta e binária do ganhar-perder”.

A aproximação das áreas é percebida nestas palavras: eu digo minha graduação é em

direito, eu sinto um certo preconceito, ah! meu Deus!, quando eu falo com as pessoas da psicologia, eu me sinto capenga (A1), ou ainda:porque eu senti que esse lado da psicologia me fez falta (A1).

Sendo assim, os profissionais sentem uma necessidade do saber da psicologia, para a

escuta da criança. Além disso, essa idéia de complementação que o psicólogo traz na escuta da criança na mediação familiar pode ser observada também nos resultados da pesquisa de Slavieiro:

A respeito da relação do mediador psicólogo e do mediador advogado na mediação familiar; as funções vieram de encontro com: idéia de complemento entre as ciências; crença negativa quanto à exclusividade de alguma ciência na mediação; existência de disputa entre esses dois profissionais; idéia de que o conhecimento da Psicologia possa ser melhor para a prática da mediação familiar e não resistência de um por parte de outro (SLAVIEIRO, 2007, p. 77).

Essas considerações levam para um caminho distinto da resolução de conflito judicial; sendo assim, na escuta da criança na mediação familiar, não existirá ganhador/perdedor.

Mediadores advogados, em sua maioria, percebem tal distinção, tanto que na totalidade dos entrevistados, mostrou-se a necessidade de outros saberes, como o da psicologia, por exemplo.

O DSD é uma prática de escuta da criança realizada no judiciário. Essa prática é diferente da escuta da criança na mediação familiar, nesse caso, também se observa a mesma necessidade do saber psicológico. Entretanto, no DSD essa necessidade do saber psicológico é desvirtuada porque não é atribuição do psicólogo ser um inquiridor ou um intérprete, como podemos observar nas palavras de Daltoé Cezar (2007, p. 69):

Os operadores do direito, na hipótese de não se encontrarem capacitados para a inquirição da criança abusada, de não terem conhecimentos sobre a dinâmica do abuso sexual ou de não entenderem a linguagem das pequenas vítimas, podem nomear um intérprete, com formação em psicologia evolutiva e capacitação na problemática do abuso sexual, para, através dele, ouvir a criança numa tentativa de melhor atingir os objetivos da ouvida.

Nesses aspectos, algumas teorias da psicologia, como a sistêmica, foram enfatizadas na fala de psicólogos, como necessárias à escuta da criança: aí eu acho que é o psicólogo com

formação em terapia familiar sistêmica, eu estou falando da sistêmica [...] os mediadores precisam ter não é bem terapia da família, eles precisam ter noções de funcionamento da família, de como se estabelece os vínculos familiares (P3). Essa opinião vem ao encontro dos

resultados de outra pesquisa (MULLER; BEIRAS; CRUZ, 2007), na qual se percebe ser indispensável a implantação de um serviço de supervisão aos mediadores e de capacitação continuada, uma vez que existe carência de aprofundamento teórico sobre técnicas de negociação, técnicas das psicoterapias breves, teorias da comunicação e sistemas, dentre outros procedimentos, os quais são primordiais para os mediadores poderem atuar com excelência. (MULLER; BEIRAS; CRUZ, 2007, p. 8).

Enquanto o mediador advogado admite carecer de conhecimentos na área psicológica para melhor realização da mediação e da escuta, os psicólogos, atuantes na esfera jurídica, como Focault, por exemplo, apontam que

o problema da verdade na esfera jurídica [...] é que ela é construída pelo próprio discurso jurídico que convida a psicologia a dar o seu parecer a partir do lugar de legitimidade científica e não moral”0 ele sabe que nem sempre é possível ratificar a idéia da legitimidade absoluta da ciência psicológica. O universo dos homens é um universo de moralidade e os problemas que o autor persegue sempre o trazem de volta a essa esfera. (SHINE, 2003, p. xv).

Para tanto, há ambigüidades no trabalho do psicólogo no âmbito jurídico Shine (2003, p. xvi) comenta a respeito da ética profissional do psicólogo:

O profissional que sai dos cursos de Psicologia para trabalhar em área cujo objetivo, aparentemente, difere tanto do objetivo do psicólogo – “o tribunal não está interessado na restauração da saúde mental das partes e da criança, mas, sim, em informações que ajudem na tomada de decisão” [...] O que fazer, então, com uma conclusão inócua e inoportuna, de que se todos fizessem terapia não haveria necessidade de processo judicial?

Esse autor explicita as dificuldades de dois campos, tão diferentes em atuação: um o da lei e outro o da subjetividade. Ele questiona se é possível cruzar campos tão distintos. Percebe- se então que, na mediação familiar, essa inter e transdisciplinariedade entre Direito/Psicologia tornam-se imprescindíveis; todavia, não está sendo fácil a efetiva troca entre as ciências.

As declarações dos entrevistados permitem a percepção da necessidade de capacitação. Além disso, o Quadro 3 exemplifica a pouca existência da escuta da criança na mediação familiar, devido à falta de capacitação e treinamento dos mediadores para tal prática. Apesar da pouca freqüência de realização da escuta na mediação, a maioria dos mediadores com alguma experiência com a escuta, são os psicólogos. Tais dados, conseqüentemente, demonstram a necessidade explicitada por saberes da psicologia, para a prática da escuta na mediação familiar.

No documento Escuta da criança na mediação familiar (páginas 64-69)