4.2 PROCEDIMENTOS DOS MEDIADORES NA ESCUTA DAS CRIANÇAS
4.2.5 Responsabilidade do mediador com a criança
Esta categoria aborda a responsabilidade do mediador com a criança e aparece nas falas dos entrevistados com uma freqüência seis. Foi dividida em duas subcategorias: informar a criança sobre o que está acontecendo (freqüência 3), dois mediadores psicólogos e um advogado; e discernir sobre a adequação da escuta da criança (freqüência 3), dois psicólogos e um advogado.
4.2.5.1 Informar a criança sobre o que está acontecendo
Esta subcategoria aparece com freqüência três – dois mediadores psicólogos e um advogado. Apontou-se a necessidade de informação à criança sobre os fatos: mostrar para a criança a importância da sua escuta; informá-la que o papel do mediador não é o de julgar; explicar o que está acontecendo; explicitar que a função do mediador é ouvir; não transferir responsabilidades para ela. As seguintes palavras confirmam que escutar a criança está atrelado a informá-la, deixando-a consciente sobre os acontecimentos
e aí se o profissional perceber que isso é muito importante, para ele ter argumentos pra de repente convencer ou colocar pra essa criança, isso vai te ajudar também, isso vai ser importante pra tua vida, vai te ajudar por causa disso, disso e disso, daí eu acho que é bem vindo(P2); mostrar a essa criança o quanto está ali para ouvir (P4); e que a gente não vai julgar e nem vai tomar partido, e mostrar para criança que ela faz parte desse processo, que ela é importante e que estamos dispostos a ouvi-la (P4); explica para ela o que está acontecendo, informa ela, inclui a criança naquele contexto (A4). As afirmações acima, bem como esta: eu acho que isso seria importante até porque
[...], dizer para criança que seus pais estão se separando, e coisas do gênero (P2) podem ser
vistas, do mesmo modo nas declarações de Dolto (2003, p. 25):
No que me diz respeito, eu disse: Um livro não basta; as pessoas teriam necessidade de ouvir alguém falar com elas, com elas ao mesmo tempo que com seus filhos, sobre o divórcio. O essencial é que os filhos sejam avisados do que está se preparando no início do processo e do que ficará decidido ao final do processo, mesmo quando se trata de crianças que ainda não andam. A criança deve ouvir palavras claras.
Além disso, a autora ressalta que o divórcio não é desonroso, mas sim possui tanta honra quanto o casamento. Todavia, o silêncio em torno dele, deixa para as crianças a crença de que ele é uma “sujeira”, com a justificativa de que esse evento é acompanhado de sofrimento. Essa percepção mostra a importância da informação para a criança ocorrer na mediação familiar. Fato que no DSD é um dos procedimentos utilizados: “aproveitando a oportunidade para mostrar a sala de audiências, assim como para explicar-lhes o motivo de ela estar mais protegida” (DALTOÉ CEZAR, 2007, p. 68). Assim sendo, a criança sente-se mais à vontade; além disso, para Dolto (2004), aquilo que não é significado por meio de palavras, torna-se animal e, portanto, não humanizado, isto é, em suas palavras, não é ventilado.
Outra opinião colocada pelos entrevistados foi a não responsabilização das crianças:
não transfere a responsabilidade para ela, jamais transferir, mas inclui ela no contexto para ela saber aquilo que ela está passando, para saber aonde ela está envolvida (A4,) explicitando a ela
o total interesse em escutá-la, sem com isso dar-lhe a obrigação de decidir alguma situação. Agir dessa forma traz mais confiança no sigilo do mediador; demonstra o interesse puro e simples em escutá-la, auxiliando a criança em expor seus sentimentos de culpa, medo, angústia, ansiedade, gerados pelo conflito familiar. Já que para Dolto (2003, p. 11), “como, numa casa em que o pai e a mãe vivem em estado de desentendimento, poderia a criança não sentir uma impressão de ameaça para sua própria coesão, para seu dinamismo?”. Isso demonstra a necessidade das crianças em saber o que realmente está acontecendo. Muitas gostariam de questionar se os pais vão ou não se separar, obtendo respostas claras, visto que são seres lógicos. Cabe aos pais uma explicação aos filhos da diferença entre os compromissos de marido e mulher e deles com os filhos; no entanto, se eles não lhes explicitam isso, um profissional qualificado poderá fazê-lo no momento oportuno de sua escuta, na mediação familiar.
4.2.5.2 Discernir sobre a adequação da escuta da criança
Esta subcategoria trouxe uma freqüência três, dois mediadores psicólogos e um advogado. Trata-se de discernir se é adequada ou não a escuta dessa criança saber para que/por
que/qual a intenção de ouvi-la; solicitar a escuta da criança que deseja participar, tratando-se de uma escolha dela, criança. As falas confirmam esta subcategoria:
Então eu acho que assim ouvir a criança é importante a partir do momento que se tem um foco, para que eu vou ouvir essa criança? (P2); o que nós vamos perguntar para essa criança? [...] escutá a criança para quê? (P5); e saber o que se quer atingir com isso na mediação (P5); eu acredito no caso se houvesse uma necessidade seria interessante ouvir a criança (A2); objetivo que se almeja com esse tipo de escuta, regras bem definidas o que eu quero escutando o Pedrinho, eu quero aliviar o sofrimento dele ou quero, ou quero ajudar nesse conflito com a escuta com a fala dele eu quero ajudar é isso?(P5); pois é se pensar no casal que tem um conflito que vai na mediação e quer se separar e eu vou escutar essa criança e o que vai me ajudar? (P5).
Todos esses relatos referem-se ao discernimento adequado relativamente à escuta da criança, na mediação familiar. O artigo 12 da Convenção Internacional explicita o direito dela à escuta; porém, avalia maturidade e idade da criança, para obter sua opinião:
1. Os estados Partes garantem à criança com capacidade de discernimento o direito de exprimir livremente a sua opinião sobre as questões que lhes respeitem, sendo devidamente tomadas em consideração as opiniões da criança, de acordo com a sua idade e maturidade. 2. Para esse fim, é assegurada à criança a oportunidade de ser ouvida nos processo judiciais e administrativos que lhe respeitem, seja diretamente, seja através de representante ou de organismo adequado, segundo as modalidades previstas pelas regras de processo de legislação nacional. (DALTOÉ CÉZAR, 2007, p. 64).
Desse modo, percebe-se claramente o direito de escuta que possui a criança; contudo, deve estar de acordo com sua idade e maturidade. Por esse viés, entende-se o posicionamento dos mediadores com relação à escuta da criança cujo desejo é ser escutada, possui idade e maturidade adequada, como relata um mediador psicólogo: eu acho que assim, uma criança que gosta [...]
que quer participar [...] porque vai depender também dela, da criança, da idade, se ela vai querer ou se ela não vai querer [...] deveria ser uma escolha dela (P2); ou ainda: ou se o mediador já conhece essa criança, ou se ela aceita estar participando e falando sobre isso, acho que é isso (P2).
O assunto da maturidade é item avaliado para realização do projeto DSD, quando a criança é vítima de violência e/ou abuso sexual e ela é ouvida como vítima/testemunha, tendo sua palavra valorizada. Entretanto essa escuta somente ocorrerá em sendo respeitada a sua “condição de pessoa em desenvolvimento” (DALTOÉ-CÉZAR, 2004, p. 67). Tal procedimento em relativamente à idade da criança utilizado na dinâmica do DSD aparece, no discurso dos mediadores, como necessário para a escuta da criança.
O receio demonstrado pelos mediadores, em sua maioria psicólogos, pela escuta da criança, foi evidenciado precisamente nos relatos, ao ser abordada o assunto da cautela quanto ao que se pretende na escuta dessa criança. Em casos nos quais se solicita o DSD, por exemplo, existem, via de regra, suspeitas de maus tratos na infância ou abuso sexual em crianças. Na mediação familiar, por sua vez, tal como fala um mediador psicólogo, é preciso uma definição da finalidade de se escutar essa criança: aí vou te perguntar também qual o interesse de se escutar
essa criança? [...] então essa criança está nessa escuta para quê? Ela vai ajudar esse casal não se separar é isso? [...] qual a intenção? (P5).
Esses questionamentos dos entrevistados, conforme Shine (2003) são procedimentos necessários da avaliação psicologia/Perícia psicológica em Vara de Família para subsidiar processos judiciais de guarda de crianças. Os questionamentos do autor para sua realização são:
Quem? Saber quem solicita o trabalho. Saber se o trabalho envolve terceiros. Precisar qual é o papel de cada um dos envolvidos. O quê? Identificar a natureza do serviço que se solicita. Precisar qual é a expectativa do demandante em relação ao trabalho que está sendo solicitado. Por quê? Conhecer as justificativas e as razões pelas quais se solicita o trabalho. Para quê? Saber qual é a finalidade pretendida com o trabalho (SHINE, 2003, p. xii-xiii)
Conforme o autor, cada um desses questionamentos, quando exigem respostas precisas, traz ciladas ocultas que podem colocar em risco o trabalho do psicólogo. Dessa maneira, essas perguntas podem ser de suma importância para realização da escuta da criança, na mediação.