6.5 SABERES NECESSÁRIOS À DOCÊNCIA ANUNCIADOS NO PROJETO
6.5.3 Necessidade de desenvolvimento de capacidade comunicativa
Desde a edição das diretrizes nacionais do Pibid para o quadriênio 2014-2018, observamos a determinação de que os projetos institucionais das IES incluíssem aspectos relacionados à ampliação e ao aperfeiçoamento do uso da capacidade comunicativa dos estudantes da licenciatura, no que concerne aos quesitos de leitura, escrita e fala, com o necessário aprimoramento da Língua Portuguesa. Este elemento constaria no projeto das instituições proponentes como um dos eixos sustentadores da formação de professores.
Melhorar a leitura, a fala e a escrita, para, dessa forma, qualificar a comunicação dos estudantes de licenciatura no Pibid já constava, em 2014, de relatório técnico da DEB (Diretoria de Educação Básica) que avaliou os programas financiados pela CAPES. Observamos, na Portaria nº 96/2013, essa demanda nos itens que versam sobre “as características dos projetos e subprojetos”; também na fixação de critérios de “seleção do projeto institucional” d as IES proponentes; bem como na fixação dos “deveres dos bolsistas” (assim grafado), especificamente na seção dos “deveres dos bolsistas de iniciação à docência”.
Quanto ao projeto institucional, a Portaria supracitada reclamou que se destacassem, no Inciso IV do Art. VII da Portaria supracitada, “aspectos relacionados à ampliação e ao aperfeiçoamento do uso da língua portuguesa e à capacidade comunicativa, oral e escrita, como elementos centrais da formação dos professores”. Já quanto aos critérios de seleção dos projetos e subprojetos pedia para que se listasse: “a estratégia a ser adotada para que o bolsista aperfeiçoe o domínio da língua portuguesa, incluindo leitura, escrita e fala” (Inciso III do Art. XIII). Por último, na parte atinente aos “deveres dos bolsistas” colocou como necessário “atentar-se à utilização da língua portuguesa de acordo com a norma culta, quando se tratar de comunicação formal do programa” (Inciso IV do Art. XLIII, Portaria nº 96/2013).
Não houve indicativos de como essa habilidade comunicativa seria tratada pelos projetos institucionais, o que denota que cada IES participante teve a tarefa de interpretar tais orientações e criar suas próprias estratégias para a avaliação e o aprimoramento da língua portuguesa, incluindo leitura, escrita e fala em licenciandos.
Ao nos ater à proposta da UFPE ao Pibid, compreendemos que esse aspecto formativo (o da capacidade comunicativa) aparece fortemente a partir da necessidade de trocas de formas variadas. Percebemos que a comunicação se faz necessária tanto para reafirmar aprendizagens e situações que podem ser criadas pelos estudantes na atividade escolar e universitária, como para apresentar resultados de suas ações em eventos científicos e culturais.
Como já dito ao longo deste capítulo, dos estudantes de licenciatura esperavam-se o desenvolvimento de capacidade para escrita de textos, a leitura de material bibliográfico, bem como a sistematização de suas reflexões e posterior apresentação dos dados (trabalho investigativo). Na proposta do Pibid/UFPE (2013, p. 3) encontramos a necessidade de: “Elaborar textos que tenham como foco de análise os impactos e reflexões da experiência do PIBID na formação de futuros professores para apresentação em eventos científicos e
pedagógicos”. (grifos nossos)
As práticas supracitadas tiveram, em nossa concepção, a aspiração de trabalhar a realidade da escola de forma sistemática e também poder comunicar os achados mediante os eventos científicos, articulando assim, processo investigativo e difusão de ideias.
Nas normativas nacionais do Pibid foi instituída a realização de um Seminário de Iniciação à Docência por parte das IES participantes, consistindo em atividade indispensável aos estudantes de licenciatura para que difundam trabalhos e os informem à comunidade acadêmica. Na UFPE, esse evento ganhou o nome de EXPOPIBID, organizado desde as primeiras edições e atividade realizada anualmente para socialização do conhecimento. Constatamos que a UFPE expõe em seu projeto institucional o interesse em realizar “eventos científicos e pedagógicos das diversas áreas, para além da EXPOPIBID”. Isso, no entanto, ficou a cargo dos respectivos coordenadores de área que teriam a atribuição de estimular nos licenciandos a socializarem, não sendo atividade obrigatória como foi o caso da EXPOPIBID (PIBID/UFPE, 2013; 2014; 2015; 2016; 2018).
Desses contatos esperaram-se a legitimação das experiências e reflexões adquiridas por meio do ato comunicativo. Em nossa concepção essa foi a resposta da UFPE ao objetivo de aprimoramento da leitura, escrita e fala dos que atuaram na condição de licenciando de iniciação à docência.
Ocorre que, pode ter ocorrido de alguns subprojetos terem se empenhado no intuito da produção textual para publicização, como outros podem ter dado pouca ênfase a essas questões, optando por outras estratégias.
O Pibid/UFPE (2014) explicitou o que esperava do egresso, ao ratificar a necessidade de “identificar as práticas de formação continuada adotadas por eles, assim como a participação
em eventos científicos e pedagógicos, incluindo a sua participação na condição de apresentador de trabalhos”. Esperou que a participação em eventos consolidasse a capacidade argumentativa do professor em formação, bem como a sua disponibilidade ao ato acadêmico de sistematização e socialização de suas práticas. A UFPE justificou a realização de ações de formação nessa linha defendendo:
Ações que promova m a ca pa cida de comunica tiva do licencia do se fa zem necessá rias à qua lifica çã o das prá tica s e, principa lmente, poderã o contribuir com a sistema tização de conhecimentos próprios da a tivida de docente, uma vez que o mesmo poderá ter como experiência a na rra çã o de sua s prá tica s, a a ná lise e reflexã o a respeito das mesma s e sua sistema tiza çã o a través de vá rios tipos de registros (PIBID/UFPE, 2013, p. 4).
O ato comunicativo foi entendido pelo Pibid/UFPE como um exercício próprio da atividade docente. Enfatizamos isso, pois no documento institucional e nos relatórios reforçou- se tal evocação ao, inclusive, utilizar um teórico do campo da formação de professores, Maurice Tardif, para assinalar que “[...] a comunicação de conhecimentos é tão importante quanto ter o domínio de conteúdos” (PIBID/UFPE 2013). Esteve, portanto, em pauta como um saber a ser construído durante o processo de formação no Pibid, o aperfeiçoamento do ato comunicativo. Essa concepção nos remeteu a Freire (1996), para quem a comunicação é ato indispensável e de humanização, porque somos seres capazes de uma compreensão da realidade, que pode ser ingênua, ou seja, fundada apenas no senso comum, ou pode ser crítica, posicionada do lado da rigorosidade científica, no olhar crítico para a realidade. Com este ato observa-se que possuímos a capacidade de inteligir o mundo e, porque nos tornamos capazes de significar o mundo, de compreender o mundo, produzimos, consequentemente, a capacidade de comunicar o inteligido. Para Freire (1996), não há relação de conhecimento do mundo sem a comunicação das compreensões. O ato comunicativo das experiências, inquietações e dúvidas se torna ato infindável da aprendizagem (FREIRE, 1996, p. 55-58).
A partir das colocações acima, inferimos que essa necessidade da comunicação foi colocada enquanto condição para construir um conjunto de conhecimentos de forma mais segura pelos licenciandos, de modo que pudessem participar de discussões com as diferentes comunidades envolvidas em seu processo formativo, quais sejam: a comunidade escolar, os pares e a comunidade científica. Esses saberes foram postos em posição de centralidade na formação dos licenciandos de iniciação à docência de modo a que se vissem na condição de produtores de conhecimento e de conhecimento sobre a escola e o ensino.
As questões trazidas até aqui falaram de aspectos constantes de documentos, projeto e relatórios do Pibid/UFPE, os quais colocaram parâmetros para o conjunto dos os subprojetos do período 2014-2018. Vimos que no Edital nº 61/2013 na UFPE já existiam bases para se pensar um processo complexo de formação de professores, o que se desdobrou em um quantitativo elevado de licenciaturas envolvidas, bem como de participantes no geral. Observamos um interesse do Pibid/UFPE com a formação pedagógica dos estudantes, destacando-se a posição da universidade em favor dos saberes referentes à docência. Evidenciamos, pois, que o programa se propôs a enfrentar questões fundamentais do campo da formação de professores por meio do entendimento de ações conjuntas entre escola e universidade, o respeito a uma relação teoria e prática como unidade indissociável e a interação constante entre os membros participantes tendo em vista um exercício coletivo para preparar docentes.
A partir de agora, identificaremos as estratégias didático-pedagógicas formuladas no âmbito do subprojeto Pibid de História/UFPE, com o objetivo de poder ter um panorama do que foi proposto e desenvolvido por meio dos documentos do subprojeto (projeto e relatórios) e das falas das Coordenadoras de Área (fontes orais). Com base nestes dados, temos uma noção do que foi enfatizado, bem como daquilo que foi silenciado. Contemplando a questão a seguir com base nas fontes citadas, fechamos o objetivo de analisar a concepção de formação proposta pelo Pibid/UFPE, em especial o subprojeto de História, a partir do projeto institucional e dos relatórios decorrentes do Edital nº 61/2013. Assinalamos também nele as estratégias didático- pedagógicas formuladas no âmbito do subprojeto.