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O PÚBLICO E O PARTICULAR NA DISPUTA PELA ESCOLA

Não eram eram poucas as acusações contra professores que, em lecionando em estabelecimentos públicos, mesmo assim cobravam pelo trabalho, exigindo pagamento das famílias que lhe confiavam seus filhos. Alguns desses processos haviam sido impetrados por parte das comunidades locais contra esses docentes. Percebe-se que tal problema acompanha o século e muitas vezes o professor primário era assim encarado sob o prisma da suspeita. Bento d’Oliveira Pereira era professor público primário da cidade de Braga desde o ano de 1852 e foi apenas em 1871 - 18 anos depois de seu ingresso no magistério - que requereu pela primeira vez uma licença que lhe foi concedida pelo Comissário dos Estudos, em atenção ao seu significativo tempo de serviço (19 anos) e ao modo dedicado com que ele sempre lidara com o exercício do magistério. Na verdade, o professor alegava que desejaria aproveitar a possibilidade de obtenção de licença para ter aulas de alemão no Liceu de Braga, bem como para habilitar-se e aprimorar seus conhecimentos em agricultura e em economia rural. O gosto pelo estudo era apontado como característica desse docente, cujas curiosidade intelectual e erudição haviam já se manifestado nos próprios exames de instrução primária que prestara em 20-12-1856 para conseguir lugar de opositor da primeira cadeira de Braga, sob a responsabilidade do então Comissário dos Estudos António Maria Pinheiro.

O professor Pereira tinha começado sua carreira regendo a cadeira de Boticas no distrito de Vila Real, onde ainda recebia provimentos temporários. Nas férias de 1856 ele adoeceu e como conseqüência pediu exoneração, deixando a função de professor em Boticas. Naquele mesmo ano - como já pudemos observar - prestaria concurso para professor primário da cidade de Braga e destacara-se a tal ponto no resultado de seus exames que o Comissário dos Estudos, sobre o caso, chegou a ter comentado que, embora o outro concorrente não fosse destituído de habilidades, “poucos são os opositores a cadeiras desta disciplina que possam com ele [Bento d’Oliveira Pereira] competir.”88 Naquela ocasião, o

próprio Bento d’Oliveira Pereira dirigia ofício ao presidente e aos vereadores da Câmara de Boticas, solicitando deles um atestado onde se registrasse alguns dados a propósito de sua conduta docente na cidade.

88 Arquivo Geral das Secretarias do Estado constantes dos Arquivos Nacionais da Torre do Tombo,

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“(...) qual é a sua conduta moral, civil e política; qual o seu Método de ensino; aproveitamento de seus alunos, e se nisso tinha o maior zelo e brio, pelo que se tornasse digno de louvor, bem assim se afluíam à sua escola estudantes de diversos concelhos e mesmo fregueisas deste; como tudo o mais que V. Sas. tenham propriamente observado não só em seus Meninos; mas também aos pais de alunos que têm sido educados por este professor (...)”

A resposta - datada de 8-11-1856 - absolutamente induzida, veio, como era de se esperar, nos conformes, de acordo evidentemente com a expectativa do proponente:

“Atestamos para constar onde convier em como Bento de Oliveira Pereira é de boa conduta Moral, Civil e Política, bem como desde 1852 (...) mostrou-se sempre, pelo seu bom método de ensinar, grande aproveitamento aos seus discípulos, por cujo motivo afluíam a esta cadeira alunos de diversas partes tanto de fora do Concelho como das freguesias deste mesmo Concelho (...)”

Aliás, a resposta vinha no próprio verso da folha verde que dera lugar à solicitação do professor.89 Quando terminava o ano letivo de 1863-64, o professor Bento d’Oliveira Pereira teria problemas: um jornal local - a 7-7-1864 - efetuava acusações contra sua prática docente, o que acabou por conduzir a um processo administrativo no qual deveria ser averiguada a legitimidade das seguintes acusações: 1) que o professor cometia muitas faltas e se fazia substituir, em tais ocasiões, por pessoa pouco habilitada; 2) que exigia pagamento de seus alunos pelas aulas ministradas, não se preocupando em promover o adiantamento dos que nada lhe pagavam; 3) que costumava praticar abusos, vexações e extorsões contra professores seus colegas por ocasião dos concursos às cadeiras de instrução primária em que servia de examinador.

Inquirido para que repondesse àquelas três acusações, o professor Pereira, em 23- 10-1864, responde ao ofício que lhe fora encaminhado a 17-10-1864 pelo administrador do Concelho de Braga. Acerca do que qualifica como calúnias de que teria sido vítima, o professor declara que era público e notório que tais acusações eram falsas e promovidas por “dois ou três indivíduos, meus inimigos declarados.”90 Mas, pelo fato de ser julgado perante

a Direção Geral de Instrução Pública, ele anexava à sua resposta documentos e atestados de boa conduta moral e civil provenientes do Administrador do Concelho e da Câmara Municipal, do Comissário dos Estudos e do Governador Civil do distrito, do inspetor das escolas, da Junta de Paróquia da cidade de Braga e de seus antigos alunos. Incluía ainda no processo um abaixo-assinado de professores e candidatos a professores de vários distritos, do Minho e de Trás-os-Montes, protestando contra aquelas anônimas acusações que o jornal se

89 Ambos os documentos acima transcritos pertencem ao Arquivo Central das Secretarias de Estado, constante

dos Arquivos Nacionais da Torre do Tombo, MINISTÉRIO DO REINO Mç 3882. Do mesmo processo, consta ainda o atestado em papel timbrado do Conselho Superior de Instrução Pública que concede em 5-11-1852 a cadeira de instrução primária de S. Salvador d’Eiró, com assento nas Boticas, distrito de Vila Real, vaga por

exoneração do professor que até aquela data a regia. Nomeia-se então Bento d’ Oliveira Pereira para esse lugar

e consta do impresso em que se uniformizava tal modalidade de certificados o seguinte: “(...) Mandando-lhe

passar esta para seu título, com o qual será admitido ao juramento e posse da referida cadeira, para a reger na conformidade da lei (...); devendo ele fazer desde logo constar, perante o Conselho Superior d’Instrução Pública, por certidão autêntica, que tomou posse e entrou no exercício do seu cargo; cumprindo-lhe enviar no mês de setembro de cada ano ao respectivo Comissário dos Estudos, e na sua falta ao mesmo Conselho, um mapa dos seus discípulos formalizado pelos exemplares para isso impressos; e não podendo aceitar outro emprego sem licença superior.” (Id. Ibid.)

90 Arquivo Central das Secretarias de Estado, constante dos Arquivos Nacionais da Torre do Tombo,

306 dispusera a fazer. Todos, nesse caso unidos, desmentiam a falsa acusação feita no referido periódico e, segundo o professor, já devidamente respondida. O acusado, sentindo-se ultrajado, solicitava então que o caso fosse levado aos tribunais, de maneira que a calúnia de que fora vítima fosse efetivamente punida. Os integrantes do Conselho Superior de Instrução Pública - reunidos em 4-7-1865 - alegam o seguinte para absolver o acusado:

“O Conselho Geral de Instrução Pública, tendo cuidadosamente examinado o depoimento das

testemunhas no auto d’investigação a que se procedeu sobre os factos acima declarados; tendo

visto a resposta do professor arguido e os numerosos documentos que apresenta em sua defesa; e bem assim as informações havidas sobre este assunto, tanto do Administrador do Conselho e da Câmara Municipal, como do Comissário dos Estudos e do Governador Civil do distrito, que são todas favoráveis àquele Professor; - é de parecer que não há o menor motivo para que tais queixas

procedam.”91

O caso foi assim encerrado, com o reconhecimento de que se tratara apenas de uma intriga motivada por excusos interesses e desavenças pessoais. Aliás, a solidariedade que por vezes por vezes parecia existir entre o professor de escola e as comunidades aldeãs era, em muitos casos, atrapalhada pela presença de mestres livres, que ministravam lições particulares. A presença de tais indivíduos era frequentemente encarada como sintoma de possível desequilíbrio, fundamentalmente em virtude de, conhecendo maneiras alternativas de proceder ao ensino, as famílias que dispunham de razoáveis condições financeiras pagassem para que os filhos fossem à escola. Na verdade, era habitual haver queixas, por parte de antigos professores régios, quanto aos métodos e aos procedimentos de ensino daqueles que lhes faziam explícita concorrência.

A 23-9-1849 , de Lisboa - Escola Normal em São Vicente de Fora -, Manoel Bernardo da Fonseca Claro da Silva e Souza dirige um ofício ao rei, no qual declara haver enviado ao Conselho Superior de Instrução Pública as contas anuais e o mapa de movimento de sua escola. Na ocasião, declara haver já salientado anteriormente a necessidade de se controlarem os procedimentos educativos dos estabelecimentos particulares de instrução.

“(...) não falo referindo-me aos Colégios organizados com regularidade, que estes são úteis e podem ser sujeitados às Leis do Conselho Superior, mas sim dos chafariqueiros ignorantes que (...) põem casa de educação e, para alcançarem freguesia, franquiam os divertimentos internos e a indisciplina, não promovem a instrução ( porque eles mesmo a ignoram ) e deixam fazer aos alunos quanto querem: os alunos, vendo-se forçados a tarefas laboriosas na Escola Régia, imediatamente passam a estas chafaricas, onde estudam somente o que e quanto querem. À curta distância deste estabelecimento Público, veio colocar-se um destes tais, expulso de Abrantes por não examinado, e incapaz de instruir, já por ignorante, já por inorthoepico; ao nome Bernardo, pronuncia Menado, a Maria, Mahia, H. H. H., que veio destruir a disciplina do Estabelecimento a meu cargo, não posso impor correções pelas faltas, nem inda meter os alunos em argumentos, porque o que ficou vencido ou sofreu férula por parte do arguente não volta, e logo é visto confiado ao chamado do educador; frustrando-se assim o meu desvelo e método com que me

vangloriava de em 3 anos de freqüência aprontar os meus alunos em ler, escrever e contar.”92

91 Arquivo Central das Secretarias de Estado, constante dos Arquivos Nacionais da Torre do Tombo,

MINISTÉRIO DO REINO Mç. 3882.

92 Arquivo Central das Secretarias dos Estado, constante dos Arquivos Nacionais da Torre do Tombo,

307 Ao experimentar outros códigos de comportamento e diferentes padrões normativos para suas atitudes escolares, os alunos habituavam-se, de acordo com o redator, à indisciplina, à irregularidade no comportamento cotidiano e à desobediência às autoridades. Os alunos muitas vezes, ao regressarem para a escola pública, não mostravam sequer disposição para acatar seus princípios e as regras que normatizariam a dinâmica da sua rotina escolar. Isso tornava-se um problema de grandes proporções para todos os que , de um modo ou de outro, dedicavam-se ao ofício do magistério nas escolas oficiais: os alunos não eram capazes de extirpar os vícios contraídos. Ainda de acordo com esse depoimento, tal situação levava mesmo ao descontrole quanto ao tempo e à duração da aprendizagem. Os pais mudavam os filhos de escola; depois enviavam-nos de volta para o professor régio. Nessa oportunidade, as crianças já haviam sido mal habituadas e custavam muito mais a obedecer. Não obedecendo, evidentemente não aprendiam com a mesma prontidão. Havia, enfim, por causa disso, uma diminuição do aproveitamento dos discípulos na aquisição das habilidades da leitura, da escrita e do cálculo. Tendo em vista, portanto, a obtenção de um mínimo que fosse de uniformidade, o proponente sugeria uma reforma alfabética e silábica, pautada por noções que teriam sido por ele mesmo desenvolvidas em um opúsculo que publicara e que, na mesma ocasião, enviava como anexo. Verificamos já que a procura pela uniformização era um dos traços dessa modernidade educativa que Portugal pretendia efetivar. A uniformização, que passava pelos conteúdos e pelos compêndios, na configuração de uma homogênea grade curricular, parecia ter como finalidade última a eficácia dos padrões de ensino-aprendizado. Estávamos no tempo da invenção do método: nele eram postas - como se pôde observar pelo discurso de Castilho - todas as esperanças de redenção e de regeneração da escola portuguesa. Havia que se descobrir uma teia entretecida de significados, de rituais, de colorações simbólicas e pedagógicas que construíssem não apenas o rol de conhecimentos de que a escola se encarregaria de transmitir, mas fundamentalmente o conjunto de técnicas pedagógicas que permitiria efetivamente a incorporação de tais saberes e de tais valores por parte daqueles que eram por excelência o objeto e o alvo da ação escolar: os educandos.

Nóvoa ressalta, para o caso português, a relevância dos processos de profissionalização do professorado como critério socio-histórico de análise, elucidativo da dinâmica que teria pontuado o percurso da escolarização. Para Nóvoa, compreender a história da rede escolar teria por suposto a apreensão desse ‘tempo dos professores’, ou da constituição de um corpo valorativo de normas específicas da profissão docente. Tal repertório, conjugado a um conjunto de saberes e de técnicas, demarcaria a nascença de um saber pedagógico, reservado apenas aos que se consagrassem no campo da instrução como especialistas. A história da pedagogia é então percebida pelo referido autor por um filtro muito específico: a história da profissão-professor93. Ocorre que - como também recorda o

93 No parecer do sobredito autor: “a elaboração de um corpo de saberes e de técnicas é a consequência lógica

do interesse renovado que a Era Moderna consagra ao porvir da infância e à intencionalidade educativa. Trata-se mais de um saber técnico do que de um conhecimento fundamental, na medida em que se organiza preferencialmente em torno dos princípios e das estratégias de ensino. A pedagogia introduz uma relação ambígua entre os professores e o saber, a qual atravessa toda a sua história profissional: assinale-se, a título de exemplo, que a hierarquia interna à profissão docente tem como critério um saber geral e não um saber específico (isto é, um saber pedagógico). Por outro lado, é importante sublinhar que este corpo de saberes e de técnicas foi quase sempre produzido no exterior do ‘mundo dos professores’, por teóricos e especialistas vários. A natureza do saber pedagógico e a relação dos professores ao saber constituem um capítulo central da história da profissão docente. A elaboração de um conjunto de regras e valores é largamente influenciada por crenças e atitudes morais e religiosas. A princípio, os professores aderem a uma ética e a um sistema normativo essencialmente religiosos; mas, mesmo quando a missão de educar é substituída pela prática de um ofício e a vocação cede lugar à profissão, as motivações originais não desaparecem. Os professores nunca procederam à codificação formal das regras deontológicas, o que se explica pelo fato de lhes terem sido

308 trabalho de Nóvoa - historicamente a codificação dos saberes, do saber-fazer, do conteúdos, das técnicas e das estratégias de ensino; enfim de tudo o que pode ser classificado como critério constitutivo da atitude docente, não foi pensado, de maneira geral, pelo próprio professor, sendo antes uma imposição heterônoma proveniente da Igreja, do Estado, das classes e setores dominantes. Não havendo, pois, formulado sua regra de ação, o professor se apropria desse referencial que a pedagogia lhe oferece e passa a agir em nome dele. A pedagogia torna-se, nessa medida, a invocação teórica de uma rede de práticas em princípio frequentes em sala de aula. Qualquer generalização tende, todavia, a elidir a particularidade dos fatos e dos eventos, posto que apreende apenas a regularidade da questão. Admitindo que todas as regras comportam exceções, constataremos que existiram professores que desejaram estabelecer eles mesmos as regras, acreditando estar com isso a inventar novos procedimentos, mais apropriados e adequados à sua prática docente. Teriam sido esses professores que pensaram seus próprios métodos e maneiras de ensinar melhores do que aquele que não se importavam com isso? Voltemos um pouco atrás...