Tempo e espaço de ensino: o traçado do currículo (inspeção às escolas em
ROTINA ESCOLAR E ROTEIROS DE LEITURA ( 1848-1857 )
O Relatório anual de 1848-1849 destaca, já no princípio, a precariedade dos esforços educativos, sentidos fundamentalmente a partir das “resistências que encontram sempre todas as reformas e melhoramentos, e que a experiência tem mostrado que não se vencem nunca por uma maneira proveitosa, sem a ajuda do tempo e sem esforços contínuos e, ao mesmo tempo, bem meditados”154. O texto apresenta como obstáculos ao progresso da
civilização a insuficiência dos professores, o reduzido número de escolas de instrução primária e a pequena afluência dos alunos a muitas delas. Recorda o Relatório que, em Bragança, alguns párocos se teriam disposto a reger gratuitamente algumas cadeiras de instrução primária, tendo havido, por meio desse auxílio das irmandades, um aumento no número de escolas da região. Disfarçadamente, o Conselho aplaude e recomenda tal iniciativa:
“Oxalá que haja o maior cuidado na educação e nas habilitações do nosso clero, porque então os dignos párocos do distrito de Bragança terão muitos imitadores; e, na verdade, ninguém melhor do que os párocos poderia, nas freguesias rurais, incumbir-se do ensino primário elementar; eles, a quem está incumbida a educação religiosa do povo, achariam, na parte complementar do ensino de primeiras letras, uma das ocupações mais em harmonia com o sagrado ministério, não se achando felizmente no nosso país, como acontece em quase todos os outros, embaraçados com as colisões de diversas crenças religiosas. O comissário de estudos de Évora, com o seu projeto de associações de beneficência dirigida para o ensino das classes pobres, que há pouco foi por V. M. aprovado, abriu um outro caminho, pelo qual, sendo devidamente coadjuvado pelas autoridades, deve também conseguir o aumento e propagação da instrução primária. Naquele projeto, prende- se o sentimento de humanidade e beneficiência das pessoas principais e influentes com os hábitos religiosos dos povos, e convida-se o clero, e principalmente os párocos, a tomar parte ativa nesta obra de caridade e civilização. Com tais elementos, há motivo para esperar que esta tentativa produzirá os resultados que seu autor teve em vista e que, segundo participa no seu Relatório, já vê em parte coroados no concelho do Alandroal, aonde o administrador do concelho, o pároco e o professor daquela vila têm tomado muito a peito promover, por aquele meio, o aumento da
instrução primária.”155
153 RELATÓRIOS do Conselho Superior de Instrução Pública, p. 73.
154 RELATÓRIOS do Conselho Superior de Instrução Pública, p. 75. Na organização da instrução primária,
tal como esta expressão era compreendida à época, estariam compreendidas a Escola Normal de Lisboa e todas as escolas de ensino mútuo ou simultâneo que fossem pagas pelo Estado, por corporações ou pelos particulares. Na Escola Normal, estariam contidas as esperanças de uma boa reestruturação do ensino português: “As escolas normais, esses viveiros onde se criam os educadores e mestres do povo, e que têm merecido das nações, onde seriamente se cuida da instrução pública, o mais desvelado interesse, são, particularmente entre nós, em consequência da falta de conhecimentos pedagógicos, os estabelecimentos donde deve sair a regeneração do ensino primário, quase geralmente reduzido aos seus primeiros e informes rudimentos.” (Id. Ibid., p. 83-4)
350 Naquela época, o Conselho Superior de Instrução Pública, preocupado que estava com a busca de bons métodos para impulsionar os progressos da instrução, tomava a peito a tarefa de avaliar a utilização de obras experimentais; era o caso da Leitura
Repentina de Castilho - como vimos, aliás, em capítulo anterior. Procurava-se emitir um
julgamento acerca da validade das obras em observação, tendo em vista sua recomendação e possível generalização. A escolarização portuguesa caminhava para a busca da padronização. Toda diversidade era assim considerada improdutiva e defeituoso seria o ensino ministrado enquanto não se fizesse capaz de superá-la.156 Projetava-se uma nova materialidade escolar, que supunha a introdução de técnicas pedagógicas e utensílios didáticos em consonância com o que vinha sendo experimentado nos demais países da Europa. A leitura escolar passava a ser prioridade do discurso técnico-pedagógico, pelo fato de se traduzir quase como contraponto à leitura espontânea.
O século que reconhece a leitura como sua marca matricial pretende dela apropriar-se para poder transformá-la. A atitude do leitor escolar conformaria regras que regulariam o gesto de ler, disciplinando a curiosidade intelectual e tornando-se, pela prática de uma rotina heterônoma, arte do previsível. A preocupação com o livro escolar, muito cara desde essa segunda metade do século XIX, tem a ver com o desejo, que os teóricos da escolarização e as classes letradas de uma maneira geral possuem, de atribuir à escola o monopólio do ensino da leitura. A escola de ler, escrever e contar é também a esfera de regulação social do ato de ler. Há nítido propósito de controle da leitura espontânea por meio do que se compreendia ser a missão da leitura escolar. O intento de padronização é, a esse respeito, expresso diretamente no discurso dos inspetores. Teria havido melhoramento na instrução primária exatamente em decorrência da uniformização de algum material didático. A estruturação da grade curricular de modo sistematizado teria sido efetuada exatamente a partir dos compêndios. O método, então, seria tributário da substituição do ensino manuscrito pelo livro. Nisso estaria a marca da modernidade desse estilo escolar:
“E se, por este quadro, se vê que a instrução primária se há já propagado tanto que não está porventura mui longe de poder proporcionar-se com a das outras nações cultas, também é certo que, ao mesmo tempo, se tem alargado muito mais a esfera do ensino e melhorado seu método. Verdadeiramente que, pondo em paralelo a sorte hodierna deste ramo com a que lhe coube nos tempos antigos, e ainda em anos que de nós não vão mui longe, vemos que então estava este ensino reduzido à simples leitura de alguns manuscritos, de uma cartilha ou de um catecismo, aos grosseiros traços de uma rude e informe escritura e aos primeiros elementos da numeração. Hoje, tem-se feito entrar, nas escolas do 1° grau, os princípios da gramática, a história sagrada, a aritmética mais desenvolvida, a caligrafia apurada e, nas escolas de 2° grau, rudimentos de teologia natural, de filosofia moral, a geografia, a história, a escrituração, o desenho linear. Então, havia só umas breves instruções para guia dos professores; hoje, há um desenvolvido
regulamento para estas escolas.”157
156 O Relatório correspondente ao ano letivo de 1850-1851 dizia, sobre o material escolar, o seguinte: “O
cuidado que há sempre tem tido o Conselho em promover a composição e a introdução de livros elementares, também ocupou no ano letivo findo, revendo e aprovando os que julgou mais dignos de adotar-se para o uso escolar, rejeitando, contudo, os defeituosos. Para com alguns, porém, embora neles topasse com alguns descuidos ou manchas, a que nem sempre escapa a condição humana, sobrepensado não usou o Conselho de rigorosa censura, imitando assim o que se observa em outras nações. Entendeu que uma crítica nimiamente severa, matando o espírito e comprimindo sentimentos nobres, sufoca, muitas vezes à nascença, germes que, deixados desenvolver, poderiam um dia vir a dar bom fruto. Entendeu que releva muito favorecer os enganos, para que se multipliquem os escritos e, destarte, se franqueia o lugar à escolha. Numerosa é a lista desses livros elementares que o Conselho há mandado publicar anualmente (...)” (RELATÓRIOS..., p.129)
351 Percebe-se a explicitação do desejo de uniformidade como pauta para a atuação do órgão central da administração pedagógica. Ao Conselho Superior de Instrução Pública caberia proceder a essa homogeneização da rede das escolas primárias portuguesas, mediante a consolidação de estratégias de formação e de supervisão dos docentes, mediante inclusive a organização de visitas regulares dos inspetores às escolas, com o objetivo de auxiliar o conjunto dos professores a observar as regulamentações legais e os procedimentos didáticos sugeridos para o magistério. Através desse esforço, supunha-se que a instrução portuguesa estaria no caminho do progresso da civilização. Na sequência do mesmo Relatório de 1850- 1851, reconhece o Conselho a precariedade da situação de fato da maioria das escolas, que ainda sofria pelo abandono e absenteísmo da população matriculada, provocando disparidade entre os números oficiais e a realidade escolar em sua dinâmica concreta. De algum modo, a população portuguesa não estaria, na altura, efetivamente convencida da procedência quanto àquela delegação de uma parcela de sua responsabilidade educativa à escola. Pelo contrário, as famílias pareciam resistir à escolarização de seus filhos, fosse pelas debilidades da vida escolar, fosse por necessidade do trabalho infantil. Seja como for, a despeito do entusiasmo com que aparecia a complexidade aparente dos currículos em vigor na escola primária, o
Relatório aqui parece menos otimista perante o futuro da instituição:
“O número de cadeiras não corre parelhas com a população portuguesa; muitas freguesias acham fechada ainda esta primeira porta da civilização; não a deixam franquear as minguadas forças do tesouro; e desta fonte se derivam quase todos os males que sofre a instrução em todos os seus ramos. Muitas cadeiras primárias permanecem por muito tempo vagas, a despeito de reiterados concursos; muitas são abandonadas pelos professores, não tanto por serem tênues quanto por virem tardios e desfalcados seus ordenados. Esfria-se o zelo em muitos professores; são providos muitos menos idôneos, porque mais hábeis preferem empregos de que tiram mais proveito; tolerando-se os fracos, para que a infância não fique totalmente privada de instrução. Freguesias há onde a natural rudeza dos pais se vai perpetuando nos filhos e netos, não os mandando às escolas, uns por miséria, outros por desleixo; aqueles por quererem antes ocupá-los nos trabalhos campestres; estes para, por meio da ignorância, os isentar dos encargos públicos. De onde resulta o ser, por uma parte, muito escasso o número de alunos, por outra, o não chegar esse mesmo
número a colher o fruto desejado.”158
Recorda-se, também, que, frequentemente, as populações rurais viam prejudicada a rota da escola pela precariedade dos caminhos ou pela excessiva distância entre a habitação e o prédio escolar. Com medo dos perigos do trajeto ou pela necessidade do trabalho na lavoura, os pais deixavam de enviar seus filhos à escola. O Relatório de 1854-1855 chega a propôr que os párocos das aldeias contribuíssem na tarefa de persuasão dos pais de família para que enviassem seus filhos à escola. Havia que se conseguir melhorar sensivelmente a instrução oferecida de maneira que seus benefícios pudessem se tornar mais atraentes para a população a quem ela se destinava. Havia que se aprimorar métodos e modos de ensino; mas urgia sobretudo encontrar soluções para as dificuldades materiais postas na vida escolar e que englobavam do salário do professor às condições do próprio prédio da escola. Anote-se, aliás, a esse respeito, o parecer efetuado pelo Comissário de Estudos do distrito de Lisboa, em Relatório datado do ano letivo de 1854-5. O comissário José Maria d’Almeida e Araújo Corrêa de Lacerda, em 24-12-1855, assina o Relatório dirigido ao rei, relatando a situação
352 em que se encontravam as escolas do distrito de Lisboa naquele período. Tal obrigação de prestar contas ao rei em tal Relatório circunstanciado teria sua origem no decreto datado de 10-11-1845. Além de Comissário de Estudos do distrito de Lisboa, o relator era Reitor do Liceu Nacional de Lisboa. Ele queixava-se das dificuldades de proceder à investigação que lhe fôra confiada, considerando a escassez de informações provenientes de averiguações anteriores, além da falta de tempo e de recursos necessários. O relator denuncia a prática, usual entre professores de escolas públicas, de recebimento do que entendiam ser “subsídios pecuniários” de seus discípulos, o que, de uma certa forma, fraudaria o compromisso mútuo entre Estado e docentes, no sentido de que cumpria ao primeiro a indeclinável obrigação de custear gratuitamente, a todas as camadas da sociedade, a instrução elementar. Para o relator, tendo em vista os baixos salários percebidos pelo corpo do magistério, era extremamente difícil penalizar tais professores. Além disso, apesar da prescrição legal quanto ao estabelecimento de edifícios públicos a serem utilizados como casas de educação, notava-se que, à época, na grande maioria dos casos, a casa de escola era ainda alugada pelo próprio professor, com o objetivo de poder ministrar suas aulas, na ausência de uma ação mais efetiva por parte dos poderes centrais. Remarcando a necessidade de se pontuarem algumas exigências colocadas como condições mínimas para permissão para funcionamento de uma casa escolar, o Comissário de Estudos destaca que, aí,
“(...) não só a primeira instrução, mas também a primeira educação moral da mocidade, a qual, por isso, que nos primeiros anos de vida e na época em que as impressões de toda a casta se lhe gravam de modo indelével, precisa de ser dirigida com cautela, prudência e vigilância, de todo o ponto impraticáveis nos locais onde agora geralmente é instruída. Acresce que se deve atender a que os professores estão a todo instante na necessidade de cercear os seus tão mesquinhos ordenados para comprar tinta, papel, penas, tabuadas, compêndios de doutrina cristã e até outros livros a grande número de discípulos. A não fazerem assim, veriam as escolas quase desertas, sendo certo que os filhos das famílias mais pobres dos infelizes operários e de outros muito desfavorecidos da fortuna, obtendo a custo licença dos pais para frequentar as escolas, declaram carecer de todos e quaisquer meios pecuniários por onde possam haver aqueles objetos, aliás, absolutamente precisos para adquirir a instrução que procuram. E, todavia, Senhor, tenho a satisfação de poder afirmar a Vossa Magestade que, na máxima parte, os professores públicos de instrução primária assim o estão praticando, mais ou menos extensamente, segundo os extremos da sua caridade, mas de modo que devem a ela muitos alunos ficarem privados totalmente de
ensino e educação.”159
159 José Maria d’Almeida e Araújo Corrêa de LACERDA, Relatório do Commissário dos Estudos do
Districto de Lisboa pertencente ao anno de 1854, 1855, 1856, p. 5. O Comissário solicita dos órgãos competentes a criação de uma seção exclusiva da Comissão de Estudos do Distrito, anexa à Secretaria do respectivo Liceu Nacional. O desempenho da tarefa de inspeção da situação das escolas, para a qual havia sido designado, levou o relator a constatar a carência de condições e recursos apropriados para o trabalho escolar. A propósito disso, ele comenta: “E como não seria assim, se o triste comissário dos estudos há-de fazer tudo, tudo inteiramente de si próprio e não tem pessoa a qual haja nem de copiar-lhe ao menos um ofício ou de entregá-lo, a não lhe pagar da sua algibeira, ou a não pedir-lhe por favor!? Tal é o estado das coisas. Não culpo a ninguém, lamento a deficiência da legislação respectiva; e maravilho-me de que, tendo-se tanto a peito, como se diz, e eu creio, o aperfeiçoamento da instrução pública e das letras se descurem até tal ponto os meios essenciais de poder verificá-lo (...) Senhor! Sem instrução primária e secundária a superior não é possível, e não é possível tampouco o aperfeiçoamento intelectual da sociedade. Sós de per si, são aquelas já para muito, mas, sem aquelas não adiantaremos nunca um só passo para este fim tão desejado. Porém para que a instrução primária e secundária caminhem, se melhorem e obtenham desenvolução, que convém dar- lhes, é de absoluta necessidade que as duas repartições a cujo cargo está quanto lhe respeita, estejam constituídas e ordenadas de modo que possam satisfazer cabalmente o que lhes cumpre.”(Id. Ibid., p. 9-10)
353 O relator sublinha também a necessidade de as escolas fortalecerem o espírito do catolicismo, mediante a introdução de uma cadeira específica de religião nas escolas primárias, já que o estudo de ‘doutrina cristã’, por ser excessivamente complexo para a cognição infantil, não cumpriria por si só esse intento de reforçar a religiosidade.160Ignorando a religião - pondera o texto -, os homens desconheceriam “ as razões da consciência que nos obrigam ao fiel desempenho dos deveres sociais”. A criação de uma cadeira específica para o ensino religioso seria a forma de trazer solidez aos preceitos da doutrina católica professada e deles deduzir as implicações no sentido da conformação de hábitos e de ações necessários ao bom cumprimento dos deveres para com Deus. Isso seria por si só pedagógico e não cabia à escolarização furtar-se dessa sua função eminentemente moralizadora, derivada da “exata observância da sua moral divina”.161 Além disso, o
Comissário de Estudos sugere a uniformização dos compêndios utilizados nas escolas primárias e secundárias públicas e particulares. Essa seria fundamentalmente uma estratégia endereçada a padronizar os recursos e os temas postos como específicos da instrução primária:
“(...) venho suplicar com a maior instância, a Vossa Magestade, que se digne fazer apresentar, porque pertence exclusivamente ao corpo legislativo, um projeto de lei, em virtude do qual fique pertencendo ao Conselho Superior a escolha dos compêndios; e que, por compêndios idênticos hajam de ser lidas as diferentes disciplinas (...) perante o Conselho Superior de Instrução Pública poderão disputar preferências, simultânea ou sucessivamente, os autores ou introdutores
dos novos compêndios”162