3. A CAUSA DE PEDIR NO DIREITO PROCESSUAL BRASILEIRO
3.4 O CONTEÚDO DA CAUSA DE PEDIR OS COMPONENTES FÁTICO E JURÍDICO
3.4.1.2 O papel dos fatos simples na identificação da causa de pedir
Ao contrário dos fatos essenciais, os fatos simples, ou secundários, não integram a
causa de pedir,
710a despeito de se constituírem, por vezes, indispensáveis a sua compreensão.
Desta forma, por não se revelarem suficientes ou adequados a justificar o pedido,
segundo entendimento corrente, a sua alteração, ou até mesmo a dispensa de sua indicação no
curso da demanda, não importaria em modificação da causa de pedir.
711Mas nem por isso, reitere-se uma vez mais, pode-se admitir que os fatos secundários
não guardam relevância dentro do processo porque, não logrando êxito o autor em demonstrar
707
Sobre o processo declarativo. Coimbra: Coimbra Editora, 1980, p. 162.
708 TUCCI, José Rogério Cruz e. A causa petendi no processo civil. 2. ed. rev., atual. e ampl. São Paulo: Editora
Revista dos Tribunais, 2002, p. 156. Também Araken de Assis (Cumulação de ações. 4. ed. rev. e atual. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2002, p. 209).
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TUCCI, op. cit., loc. cit.
710 A questão não é pacífica na doutrina nacional. José Joaquim Calmon de Passos, por exemplo, entende que
também os fatos secundários devem ser descritos pelo autor na inicial, pois completam a causa de pedir. A imposição deverivaria, assim, da necessidade de o réu ter de impugnar especificamente os fatos alegados, apresentando defesa completa. (Comentários ao Código de Processo Civil. vol. 3. Rio de Janeiro: Forense, 1975, p. 145). No mesmo sentido, após mudança de entendimento, Ernane Fidélis dos Santos (Manual de direito processual civil. 8. ed. rev., atual. e ampl. São Paulo: Saraiva, 2001, p. 348).
711
FILHO, Vicente Greco. Direito processual civil brasileiro. 19. ed., rev. e atual. vol. 1. São Paulo: Saraiva, 2006, p. 94. Daí a assertiva de Chiovenda no sentido de que estes “somente têm importância para o direito enquanto possam servir a provar a existência de um fato jurídico”. (Instituições de direito processual civil. Trad. J. Guimarães Menegale. 2. ed. vol 1. São Paulo: Saraiva, 1965, p. 7). Distinguindo os fatos simples dos fatos jurídicos, Arruda Alvim ressalta a marca de sua mutabilidade: “Distinguem-se, como categoria mental, dos chamados fatos simples, os quais, de per si, são insuficientes para gerar consequências jurídicas. Levam estes, apenas, ao conhecimento pleno dos fatos jurídicos (qualificados aqueles como tais), os que não poderão, de forma alguma, ser mudados durante a demanda (salvo modificação do libelo – art. 264, caput, se admitida), o que já não ocorre com os simples”. (Manual de direito processual civil. 6. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1997, p. 415-416).
de forma direita a existência do fato principal, nada lhe interditaria de se valer de elementos
circunstanciais, munindo o juiz de subsídios para que decidisse amparado em um juízo de
verossimilhança.
712Composto de tais predicados, estariam os fatos simples libertos da regra da adstrição,
admitindo-se ao juiz, se importantes para o julgamento da causa, tomá-los em consideração
independentemente de invocação pelas partes.
713Essa dedução, um tanto quanto
revolucionária, não deixa de ser polêmica.
714A prática evidencia, por outro lado, que a tomada de posição, a priori¸ por um fato
como simples, pode por vezes revelar-se equivocada. Inserido na petição inicial como um
elemento acidental, pode ocorrer que a atitude assumida pelo demandado altere aquela
primitiva classificação. Um fato inicialmente simples ou secundário tornar-se-ia essencial
quando, segundo a narrativa desempenhada pelo demandado, de sua específica impugnação
adviesse, se efetivamente comprovada, a nulificação do suporte fático normativo invocado
pelo autor.
715712 TUCCI, José Rogério Cruz e. A causa petendi no processo civil. 2. ed. rev., atual. e ampl. São Paulo: Editora
Revista dos Tribunais, 2002, p. 154.
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BEDAQUE, José Roberto dos Santos. Os elementos objetivos da demanda examinados à luz do contraditório. In: TUCCI, José Rogério Cruz e; ______. Causa de pedir e pedido no processo civil: questões polêmicas. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2002, p. 38.
714 Daí por que parece mais adequada a lição de Carlos Alberto Alvaro de Oliveira, quando condiciona essa
possibilidade à notoriedade do fato, ou à aptidão do juiz de reconhecê-los pela experiência comum: “A formação do material fáctico da causa deixou de constituir tarefa exclusiva das partes. Muito embora devam elas contribuir com os fatos essenciais, constitutivos da causa petendi, não se mostra recomendável proibir a apreciação dos fatos secundários pelo juiz, dos quais poderá, direta ou indiretamente, extrair a existência ou modo de ser do fato principal, seja porque constem dos autos, por serem notórios, ou pertencerem à experiência comum”. (A garantia do contraditório. In: Revista da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre: UFRGS, vol. 15, 1998, p. 5).
715 Interessante exemplo foi aventado por José Roberto dos Santos Bedaque. Tendo o autor ingressado com ação
de indenização por acidente de veículos em face do réu, a alegação de que o infortúnio ocorrera em determinado dia da semana, por exemplo um sábado, por certo seria considerada uma circunstância acessória. Todavia, isso mudaria, radicalmente, se o réu, em contestação, viesse a alegar que, por conta de determinada orientação religiosa, não poderia ter saído de casa naquele dia. (op. cit., p. 36). Esse fenômeno, se bem observado, insere-se naquilo que Michele Taruffo nomina de a “institucionalidade do fato”, que, deixando a natureza “bruta”, em razão mesmo do “carregamento de contexto”, em algum momento no processo, assume particular relevância: “Algumas questões relativas ao problema da verdade judicial e da função dos meio de prova surgem porque os ‘fatos em litígio’ ou os ‘fatos da causa’ são necessariamente determinados com base em normas jurídicas que são aplicadas com o objetivo de solucionar o caso. Essa observação vincula-se à teoria que sustenta que os “fatos brutos” devem distinguir-se dos ‘fatos institucionais’, e que os primeiros não existente nos domínios jurídicos, sendo somente os últimos relevantes no contexto da tomada de decisões. Dessa forma, esse enfoque é bastante trivial, uma vez que ninguém nega seriamente a natureza ‘carregada de contexto’ de qualquer enunciado de fato em geral, assim como todos sabem que em contextos jurídicos os fatos são ‘carregados de direitos’. Por conseguinte, o direito define e seleciona os fatos que podem ser considerados ‘em litígio’ em toda causa. De certa forma, então, os ‘fatos em litígio’ são sempre ‘institucionais’, uma vez que são definidos e determinados por meio de aplicação de uma norma jurídica. Entretanto, isso não implica dizer que ‘fatos brutos’ nunca possam ser considerados no contexto judicial, ou que a verdade dos fatos em litígio não possa ser determinada. Por vezes, fatos brutos são importantes para a tomada da decisão, e.g. quando um fato é utilizado como elemento de