A VRBS OLISIPONENSIS
8. Uma Nova Religião para o Império: o Culto Imperial
8.1. Religião e poder político: uma breve reflexão de enquadramento
8.2.4. O programa político de C Iulius Caesar Octavianus
“A Itália inteira me prestou juramento de sua livre vontade e me reclamou como chefe na guerra que venci em Áccio” (Res Gestae, 25)
Os elementos essenciais na política de Augusto podem resumir-se na libertação do povo do domínio das fações; no reforço das hierarquias sociais; na ênfase dado às tradições republicanas (não aceitando magistraturas em contradição com os poderes ancestrais - mos maiorum); na associação às abstrações-chave e culto das divindades oficiais intimamente ligadas à figura do governante. A escolha do próprio nome não ficou isenta: Imperator (poder dado pelos soldados devido à vitória na Batalha do Áccio) Caeser (poder justificado pela heriditariedade) Augusto (“aquele que é sagrado”, “o que tudo aumenta”)30.
O culto à sua pessoa, instaurado rapidamente nas províncias orientais (29 a. C.), proporcionou a Augusto um elemento de coesão política. Finalmente, em 12 a. C. recebe o cargo de pontifex maximus, - aproximando-se ainda mais dos deuses – honra que culminaria a sua carreira religiosa e passo essencial para a sacralização da sua pessoa. Se por um lado, recusou o cargo de pontifex maximus, herdado de César, permitindo que Lepidus o carregasse até à sua morte e assim evitando o desagrado público; por outro, aceitou ser tribuno, usar a coroa de louros e que a sua estátua ocupasse os templos dos municípios itálicos, fora de Roma (FISHWICK, 1993: 78-79). A apoteose era algo que estava agora garantida: Octávio era celebrado como aquele que preparava em terra o seu caminho para o céu. Estava-se no momento ideal para se ultrapassar a linha que ligava mortalidade e divinização!
Destaque-se, neste âmbito, o facto de Octávio se associar a Apollo no intuito de afirmar a sua política, criando o mito de ter sido gerado por esta divindade aquando de uma visita à sua mãe Atia, na forma de uma serpente. Motivos políticos, decerto, estariam na base da adoção de uma divindade grega associada ao Sol como divindade protectora pessoal (FISHWICK, 1993: 80-81).
Todavia, o tom de moderação da política de Octávio era apenas aparente. O seu programa político atingiu o clímax com a vitória do Actium em 31 a. C. (atribuída a origem divina), que se estabeleceu como evento crucial para assegurar o Império e restaurar a paz, e levando a que ocupasse a posição de César como governante do mundo romano. Pouco depois da batalha do Áccio, onde Octávio havia derrotado Marco António, o novo governante de Roma reorganizou as províncias
30Esta é uma trilogia utilizada pelos seus sucessores à exceção de Tibério, que ao pretender ser um imperador
civil, afasta-se do poder militar (reflectindo-se na sua nomenclatura). Neste panorama, a mensagem que o seu programa político pretende transmitir parece clara.
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orientais. Parece ter existido um esforço para propagar o culto de Divus Iulius não só por Roma mas por todas as províncias, reflectindo-se na permissão para a construção de um templo a Dea Roma e a Divus Iulius em Ephesus, em 29 a. C., como resposta ao auxílio das cidades da Ásia e Bithynia, nos quais César foi denominado de Heroi Iulio (FISHWICK, 1993: 76-77; GÓMEZ e EZQUERRA, 2009:426).
Dois anos mais tarde, as honras culminaram na atribuição do nome Augustus pelo Senado. Neste contexto, no que toca ao culto do Genius – essência divina e espiritual do imperador – as suas origens parecem remontar às honras dadas pelo senado a Octávio depois do Actium, permitindo uma libação ao seu Genius. Robert Étienne (1958: 306-309) considera o Genius como “la divinisation de l’esprit d’un homme”, no entanto, este não é um homem qualquer pois descende, em linha direta, dos deuses. Assim, este culto apresentaria uma origem privada, na medida em que reconhece o valor divino do espírito humano e remete ao imperador como pater familias, sendo a partir dele que se pôde afirmar o culto ao imperador em vida.
Porém, se o triunfo em Alexandria contribuiu para a inclusão do Genius Augusti no culto privado, a grande inovação veio em 7 a. C. quando foi reavivado o culto aos Lares Compitales que, nos finais da República, tinha caído em desuso. Augusto colocou nas encruzilhadas da cidade a imagem do seu próprio Genius entre as estátuas dançantes dos Lares, doravante em associação como Lares Augusti. Foi esta combinação de práticas republicanas que possibilitou um meio indireto para o culto pessoal a nível público.
Por outro lado, como se viu supra, a imagem pública de bom governante refletia-se no culto de algumas abstrações - doravante virtudes imperiais -, como Victoria Augusta, elemento chave na ideologia imperial; Pax Augusta, personificação da paz trazida por submissão ao imperialismo romano; Concordia Augusta, harmonia no seio da família imperial e, por conseguinte, entre todos os cidadãos do império; e também Salus, Fortuna e Felicitas Augustas. Concordia juntamente com Salus compunham os elementos essenciais para a boa evolução do Império, pois garantiam a harmonia reinante entre os membros da família imperial. Note-se ainda a relação directa do epíteto de “Augusta”, - como lisonja ao imperador, que assim é associado aos imortais -, atribuído às virtutes como Aeternitas Augusta, interligando assim a imortalidade de Roma à do Imperador (FISHWICK, 1993: 83-86; ÉTIENNE, 1958: 332 e 343).
No entanto, apesar de ser filho de um deus (Diui filius), Augusto mostra-se prudente, entrando no panteão pé ante pé, isto é, permitindo serem divinizadas algumas das suas qualidades, o seu Genius e o seu Numen, mas nunca a sua pessoa. Serviu-se dos conceitos religiosos com prudência mas eficácia, chave para conseguir o poder absoluto numa sociedade altamente apegada aos princípios republicanos de divisão dos poderes.
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Todavia, para quem aclamava ser defensor das tradições, ser meramente um princeps numa República restaurada estava fora de questão. O culto, de uma forma ou de outra, transformou-se numa necessidade política!