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CAPÍTULO III. REPRESENTAÇÕES DO PATRIMÓNIO INDUSTRIAL DO PORTO: COLEÇÃO E MUSEU

5. O projeto do Museu da Ciência e Indústria

O Inventário do Património Industrial da cidade do Porto como instrumento ao serviço do conhecimento da cidade foi conclusivo na ideia: o património industrial existente estava em vias de desaparecer. A informação recolhida permitiu ter dados muito concretos sobre as alterações no território e no seu tecido empresarial e constituiu um instrumento decisivo para identificar uma oportunidade única: a reconversão e musealização do edificado industrial e a criação de um museu dedicado à preservação da memória industrial da cidade e do seu património técnico e industrial.

Desde a década de 1970 que o panorama da museologia e do património industrial se encontrava em mudança. A nova dimensão do conceito de património, os movimentos da

Nova Museologia, o nascimento e disseminação da “Arqueologia Industrial” como disciplina

marcavam o panorama dos movimentos culturais e associativos. A este contexto, não foram alheias as novas noções de “paradigma”136

, os contributos da teoria evolucionista e da moderna sociologia com Pierre Bourdieu137 que permitiram relançar o debate sobre novos ideais e comportamentos.

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Outros países e regiões realizaram os seus levantamentos e inventários, nomeadamente, na vizinha Espanha segundo a Proposta de la Confederación de Empresários de Zaragoza, financiada pela Diputacíon ou Provincial de Zaragoza e com o objetivo de catalogar o património industrial da província. Na vizinha Espanha, a região da Catalunha através dos movimentos de proteção do património industrial foi possivel a aquisição da fábrica em Terrassa onde foi instalado o Museu da Ciencia y de la Técnica da Cataluña. Outro caso, em França, na região de «Poitou – Charentes était en 2007 la première region française à avoir achevé l’inventaire du patrimoine industriel sur l’ensemble de son territoire, au terme d’une enquête de vint ans. Prés de 1.000 usines ont ainsi été identifieés». In https://inventaire.poitou-charentes.fr/operations/le-patrimoine- industriel

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Thomas Khun na sua obra “A estrutura das revoluções Cientificas”, cuja primeira edição é de 1962 tornou o conceito de paradigma obrigatório do debate epistemológico.

137 Obras que marcaram o panorama da sociologia: Bourdieu, Pierre (1996). Razões práticas: Sobre a teoria da ação. Papirus

Decisivo foi, ainda, a difusão da Nova Museologia e a mudança do modelo histórico de desenvolvimento, em especial, das cidades industrializadas, (palco dos processos de desindustrialização e de terciarização), que promoveram a musealização de espaços industriais e a criação de ecomuseus e de museus dedicados à técnica e à indústria. Vários exemplos poderiam ser referidos, entre eles o ecomuseu de Le Creusot/Monteceau-Les-

Olives, em França onde se criou um Museu do Homem e da Indústria (Riviére, 2000) e ainda

o Ecomuseu de la Montagne Noire et de la Vallée du Thoré que conserva espaços e materiais da atividade agrícola da região, ou ainda o Ecomuseu de Saint Quentin en Yvelines na Ile de

France, entre muitos outros.

Neste contexto de renovação nasceram outros museus fruto do envolvimento de associações de engenheiros e do município (da Generalitat) como o Museu da Ciência e da Técnica da Catalunha instalado numa antiga fábrica têxtil El Vapor Aymerich, Amat y Jover na região de Terrassa138, de grande valor arquitetónico, e que tem como principal objetivo preservar o património industrial e manter a memória do processo de industrialização da região. Podemos apontar outros exemplos como o Musée d’ Archeologie Industrielle et du

textile de Gand139, na Bélgica, criado em 1976 e instalado posteriormente, em 1990, numa antiga fábrica têxtil algodoeira, ou ainda, o Museu da Ciência e Indústria de Manchester instalado na Liverpool Road Station, em 1983.140

Em Portugal, uma parte dos museus dedicados ao património industrial nasceram no seio das políticas de preservação deste tipo de património e de divulgação das grandes empresas, muitas delas com participação do Estado. Entre eles, destacamos o Museu da Água da EPAL – Empresa Pública de Águas Livres e o Museu da Electricidade (Central Tejo) da empresa EDP, que constituem os primeiros museus a nascerem no seio de políticas de conservação de estruturas urbanas e equipamentos industriais.

Outros museus foram fundados por iniciativa universitária, como foi o caso do Museu de Lanifícios da Covilhã, profundamente associado ao declínio do sector dos lanifícios, ao abandono de edifícios industriais e à progressiva terciarização da região. Estes fatores levaram a Universidade da Beira Interior à criação deste museu, projeto de recuperação da memória do passado industrial que evocava as manufaturas pombalinas e o desenvolvimento

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http://www.mnactec.cat/ 139

O Museu foi instalado numa fábrica têxtil, projecto do arquitecto Luis MuncunillI Parellada e começou a ser construída em 1907, sendo inaugurada em 1909. A Associação de Engenheiros encetou um movimento, nos anos de 1990, que resultou na sua reconversão em Museu. In http://www.miat.gent.be/

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do processo de industrialização deste “conclave” industrial no interior montanhoso de Portugal (Pinheiro, 2012, p. 12).

Em várias regiões do país as ações de preservação de edifícios industriais levaram ao nascimento de novos museus dedicados ao património industrial, na maior parte dos casos fruto da iniciativa autárquica, o grande promotor, que contaram com o apoio do governo central, e que reutilizaram e reconverteram antigos edifícios industriais em Museus, Centros de Ciência e Tecnologia e Centros Interpretativos e outros equipamentos culturais. Esta dinâmica sentida na década de 1990 está associada à entrada de fundos comunitários fruto da adesão de Portugal à CEE em Janeiro de 1986, e eram dirigidos à requalificação urbana, à preservação do património cultural, à promoção da cultura e diversidade regional, à criação de novos museus, bibliotecas, auditórios e outros equipamentos culturais.

Os novos museus dedicados ao património industrial reutilizam antigas instalações fabris, estações de caminho-de-ferro, reconvertendo-os e adaptando-os com novos programas e conceitos museológicos, refira-se alguns casos como o Museu da Indústria Têxtil da Bacia do Ave141, em Famalicão instalado, na antiga fábrica de Fiação e Tecelagem de Lanifícios do Outeiro, Lda.; o Museu do Trabalho Michel Giacometti, em Setúbal, instalado numa antiga fábrica de Conservas de Perienes, no bairro das Fontainhas142, o Museu da Cortiça da Fábrica do Inglês, em Silves, numa antiga fábrica de rolhas, inaugurado em Outubro de 1999; o Museu do Vidro, situado no Palácio Stephens143 na Marinha Grande, o Museu de Sacavém instalado na antiga Cerâmica de Sacavém, entre outros.

No Porto, no seguimento do projeto do Inventário foram identificados os edifícios que poderiam ser reconvertidos e adaptados para um Museu dedicado ao património industrial. Esta seleção foi realizada segundo critérios pré-definidos: valor patrimonial e arquitetónico, dimensão, localização, estado de conservação, propriedade, acessibilidades e representatividade no seio da indústria oitocentista portuense. Ponderava-se, não só, a possibilidade de um deles ser reconvertido em Museu da Ciência e Indústria144, como serem apontados na Carta do Património Cultural da cidade e no Plano Diretor Municipal como edifícios ou espaços condicionados e passiveis de serem classificados de “bem do interesse público”, “concelhio” ou “nacional”.

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http://www.museudaindustriatextil.org/ 142

O edifício foi adquirido pela Câmara Municipal de Setúbal em 1991 e veio a ser inaugurado em 1995. 143 http://www.turismoindustrial.cm-mgrande.pt/

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O edifício selecionado, após várias reflexões e reuniões com os técnicos da Câmara e a equipa no terreno, foi o das antigas instalações da Companhia de Moagens Harmonia, datado de 1892 e localizado junto ao Palácio do Freixo145, ocupando uma parcela dos terrenos da quinta do Freixo, nas margens do rio Douro, nos limites da freguesia de Campanhã, às portas do concelho de Gondomar.

Construído pela Companhia de Moagem Harmonia146, mantinha a traça original, possuindo no exterior o cais e a sua chaminé industrial e caracterizava-se pelos dois corpos, de cinco pisos cada, (a partir de 1932) ligados um ao outro por um corpo central e, ainda, um corpo perpendicular, a sul, onde se localizava a casa da máquina a vapor e respetivas caldeiras.

Fig.8 - Gravura do Palácio do Freixo e do edifício da Cª de Moagens Harmonia, 1930

Fonte: Gravura Arquivo fotográfico da AMCI

Internamente, a estrutura do edifício é constituída por um conjunto de colunas de ferro fabricadas por duas empresas metalúrgicas portuenses, a Fundição de Massarelos e Fundição da Vitória, e ainda um travejamento de madeira de riga e ferro com pavimento de madeira. Exteriormente, as suas fachadas pontuadas por mais de uma centena de janelas, possuem o desenho característico das moagens industriais, destinadas a receber o sistema de moagem

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Arquivo Distrital do Porto. Fundo Cartório Notarial do Porto - Serie PO 8º. Notário Emilio Alberto Rocha Andrade. Livro 621, fl.9.

Arquivo Distrital do Porto. Fundo Cartório Notarial Porto – Livro dos Actos e Contratos , Notário Dr. António Mourão, nº802, fl. 90.

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Austro-húngaro147, com um diagrama de produção ascendente e descendente, que combinava um conjunto de mecanismos articulados entre si: moinhos de cilindros, peneiros e separadores de produtos, recorrendo à energia a vapor para acionar a sua linha de produção composta por vários processos de limpeza, triagem, mogem, peneiramento, separação e embalamento.

Instalado nos terrenos da antiga Quinta do Freixo, o edifício moageiro ergue-se a uma distância de cerca de 15 metros do Palácio Barroco. Este último, uma jóia da arquitetura de Nazoni, construído, em 1750, a pedido do Deão da Sé do Porto, Jerónimo de Távora e Noronha e destinado à sua residência de verão. Este conjunto histórico e arquitetónico conjugava a arquitetura setecentista, com a industrial, evocando, tanto o poder do clerical como a força dos homens de negócio do século XIX, que tinham adquirido palácios e palacetes, símbolo do seu poder económico e status social, construindo unidades fabris nas suas imediações.

Na década de 1990, o Palácio e a Moagem, encontram-se na mesma parcela jurídica na zona oriental da cidade e em estado avançado de degradação. A seleção deste edifício para a instalação do Museu da Ciência e Indústria (mais tarde Museu da Indústria do Porto) na zona do Freixo, tinha por objetivo a dinamização desta região oriental da cidade apostando na criação de um novo pólo de natureza cultural, contemplando o Palácio do Freixo, o Museu Nacional da Imprensa e Artes Gráficas e ainda, o anunciado Complexo Lúdico e Tecnológico. Este pólo integrava-se num plano de requalificação mais abrangente desta zona da cidade e das margens do rio Douro incluindo a criação de novas artérias, bem como a recuperação do palácio de Bonjóia, adquirido pela Câmara Municipal do Porto em 1995 - uma casa rural do século XVIII, atribuído ao arquiteto italiano Niccolà Nasoni, uma referência da ruralidade do território de Campanhã. Estes projetos amplamente noticiados na comunicação social foram debatidos entre os técnicos e responsáveis das áreas do património cultural.

O museu ficaria, assim, instalado num edifício moageiro oitocentista, possuindo uma área construída de cerca de 6000m2, que se encontrava então na posse do Instituto de Emprego e Formação Profissional, o que facilitaria as negociações para a sua cedência ao município.

No seio destas dinâmicas, o edifício da antiga Moagem Harmonia e o Palácio do Freixo foram um dos espaços selecionados para a apresentação das Jornadas de Arte Contemporânea148, uma iniciativa da Câmara, cuja primeira edição teve lugar, em 1993 e permitiu abrir estes espaços ao público (sem qualquer tipo de obras de restauro) apresentando,

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a exposição coletiva de artistas internacionais “A Pasta de Walter Benjamin”149

, comissariada por Andrew Reuton, onde estiveram patentes artistas de arte contemporânea como Andrea Fisher, Caroline Rusell, Douglas Gordon, Graham Gussin, Christine Borland, entre outros. Volvidos três anos, a segunda edição das Jornadas de Arte Contemporânea voltou a selecionar os espaços da antiga moagem para aí apresentar a exposição coletiva de artistas portugueses e estrangeiros “Mais do que ver”150

, comissariada por João Fernandes e onde estiveram patentes obras de Ana Hatherley, Ceal Floyer, Fionna Banner, António Rego, Luísa Cunha, entre outros.