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2 PRINCÍPIOS RELACIONADOS À ATIVIDADE SECURITÁRIA

2.2 O Seguro e a Previdência Complementar na Constituição

A estrutura hierarquizada do Direito exige que o estudo de qualquer matéria jurídica se inicie pela interpretação das normas constitucionais que irradiam efeitos sobre o subsistema enfocado.

A Constituição contempla normas da mais alta hierarquia, em geral voltadas para o regramento da produção de normas pelo legislador, e densamente carregadas de valores. Com efeito, são as chamadas normas de competência, algumas delas identificadas como princípios, que vão regular a conduta dos legisladores complementares e ordinários aos quais for atribuída a função de criar normas sobre toda e qualquer matéria. É imprescindível conhecê-las, interpretá-las e, em seguida, avaliar se as normas sujeitas ao seu influxo estão de acordo com as regras de competência constitucionalmente previstas.

A Constituição de 1988, desde seu artigo primeiro, inclui a dignidade da pessoa humana entre os fundamentos do Estado Democrático de Direito (art. 1o, IV). Ao

tratar da ordem econômica, estabeleceu estar fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, impondo-lhe como fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados, entre outros princípios, o da redução

38 CARVALHO, Paulo de Barros. Direito Tributário: Linguagem e Método. 4. ed., revisada e ampliada.

São Paulo: Noeses, 2011, p. 274.

das desigualdades sociais (art. 170, VII). Até mesmo ao tratar do Sistema Financeiro Nacional, estabeleceu que seria estruturado de forma a promover o desenvolvimento equilibrado do País e a servir aos interesses da coletividade (artigo 192).

Essas normas de competência têm característica de princípios que encartam valores. Os referidos princípios direcionam fortemente o legislador à proteção dos interesses transindividuais, ao respaldo à amenização de riscos, à tutela da velhice e da incapacidade laboral, todos esses interesses protegidos pelo seguro e pela previdência privada.

Em face dessas premissas, inevitável o reconhecimento de que a política brasileira de seguros privados está inserta nos fundamentos constantes do artigo 1o da

Carta Magna. Nessa linha, ensina SILVA que “as operações de seguro devem atender ao

fundamento da soberania, cidadania, dignidade da pessoa humana, os valores sociais do trabalho e da livre-iniciativa e o pluralismo político, com vista a preservar os ditames do Estado Democrático de Direito de nossa República”39.

Não bastassem os princípios constitucionais acima indicados, os quais, por si, já seriam suficientes para informar as atividades securitária e previdenciária privada, observamos ainda que o Seguro e a Previdência Complementar foram eleitos como matérias de relevância constitucional, por envolverem gestão de vultosa poupança popular e pelo expressivo interesse social nessas atividades. Com efeito, interessa a toda a sociedade que se possa lidar com os riscos inerentes à vida atual da forma mais organizada possível e, consequentemente, com mínima ocorrência de sobressaltos.

De início, a Constituição Federal já atribui à União competência exclusiva para legislar sobre política de crédito, câmbio, seguros e transferência de valores (artigo 22, VII) e seguridade social (artigo 22, XXIII).

Além disso, observa-se que a previdência privada foi inserida no sistema da Seguridade Social. Com efeito, a Constituição Federal de 1988 tratou da Previdência de forma pormenorizada, situando-a no Título VIII, que trata ‘Da Ordem Social’. O Poder Constituinte Originário, ao inaugurar o referido Título, estipulou que “a ordem social tem como base o primado do trabalho e, como objetivo, o bem-estar e a justiça sociais (art. 193).

39 SILVA, Ivan de Oliveira. Direito do Seguro. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2012, p. 40.

Ainda em sede introdutória, nas disposições gerais, dispôs que “a seguridade social compreende um conjunto integrado de ações de iniciativa dos Poderes Públicos e da sociedade, destinadas a assegurar os direitos relativos à saúde, à previdência e à assistência social” (art. 194). É, portanto, dentro desse ambiente de princípios constitucionais que a previdência complementar está inserida e deverá ser provida.

Com a Emenda Constitucional no 20/98, dedicou-se à previdência

complementar o artigo 202 da Constituição, inserido no capítulo da Ordem Social, e na Seção da Previdência Social, estabelecendo-se ali seus princípios básicos e sua necessária regulação por lei complementar.

Além de a previdência complementar estar sujeita aos princípios constitucionais gerais (neste caso, princípios que veiculam valores) da dignidade da pessoa humana e da justiça social, entende a Doutrina que o princípio da capitalização (que veicula limite objetivo com a finalidade de implantar os valores almejados) foi um dos princípios especiais previstos pelo caput do artigo 202, ao estabelecer que o regime de previdência privada seria baseado na “constituição de reservas que garantam o benefício contratado”.

Entendeu-se, portanto, que, visando pudesse a previdência complementar contribuir para a aplicação daqueles valores, a técnica mais adequada para o custeio de suas reservas seria a da capitalização que, como veremos a seguir, se distingue da sistemática mútua ou solidária que rege o seguro e a previdência social.

Segundo RODRIGUES, ao mencionar a capitalização, a Constituição

estabeleceu que

[…] tanto os planos das entidades fechadas, como os planos das entidades abertas deverão acumular valores ao longo do tempo para satisfazer o pagamento dos benefícios previdenciários, independentemente de serem planos na modalidade de benefício definido ou de contribuição definida.40

Também foi plasmado na Constituição o princípio da publicidade, para o

participante, das informações relativas ao plano, quando o § 1o do artigo 202

determinou que a lei complementar assegurasse ao participante de planos de benefícios

40 RODRIGUES, Flávio Martins. Previdência Complementar: Conceitos e Elementos Jurídicos

Fundamentais. Disponível em: <http://www.bocater.com.br/artigos/previdencia-complementar- conceitos-elementos-juridicos-fundamentais/>. Acesso em: 05 ago. 2013, p. 10.

de entidades de previdência privada pleno acesso às informações relativas à gestão de seus respectivos planos41. Trata-se, aqui, a nosso ver, de princípio limite objetivo, pois

está claramente estabelecido que todas as informações relevantes, relacionadas à gestão de planos de previdência privada, deverão ser passadas aos participantes.

A natureza autônoma dos planos previdenciários em relação ao contrato de trabalho também foi explicitada na Constituição, restando claro que as contribuições do empregador, os benefícios e as condições contratuais previstas nos estatutos, regulamentos e planos de benefícios das entidades de previdência privada não integram o contrato de trabalho dos participantes, assim como, à exceção dos benefícios concedidos, não integram a remuneração dos participantes. A despeito disso, a discussão quanto à competência para julgar controvérsias relacionadas a esses contratos perdurou até recentemente, quando o Supremo Tribunal Federal afinal decidiu que as matérias atinentes a planos previdenciários não decorrem da relação de trabalho, mas sim de contrato autônomo, devendo ser julgadas pela Justiça Comum, e não pela Justiça do Trabalho42.

Por fim, a Constituição também atribuiu à lei complementar a competência para estabelecer os requisitos da designação dos membros das diretorias das entidades fechadas de previdência privada e disciplinar a inserção dos participantes nos colegiados e instâncias de decisão em que seus interesses sejam objeto de discussão e deliberação. Essa determinação evidencia o cuidado do constituinte de inserir os próprios participantes na gestão dessas entidades, que lidam com a grande responsabilidade de gerir a poupança que lhes garantirá a aposentadoria. Interessa ao Estado que essa atividade se desenvolva da forma mais estruturada, transparente e

41 Ressaltando a importância desse princípio, esclarece FLÁVIO MARTINS RODRIGUES (Previdência

Complementar: Conceitos e Elementos Jurídicos Fundamentais. Disponível em:

<http://www.bocater.com.br/artigos/previdencia-complementar-conceitos-elementos-juridicos-

fundamentais/>. Acesso em: 05 ago. 2013, p. 10-11): “Os planos previdenciários complementares são pactos longos e, por regra, decorrem muitas décadas entre os primeiros aportes contributivos e as últimas prestações previdenciárias. Como se disse, durante todo esse tempo, os valores vão sendo capitalizados, submetendo-se esse processo a aferições regulares por meio de estudos atuariais. Como os participantes e os assistidos têm óbvio interesse no acompanhamento desse processo, o Constituinte Derivado assegurou-lhes “o pleno acesso às informações relativas à gestão de seus respectivos planos” (§1o do art. 202). Não trata-se de mero conhecimento de alguns dados consolidados, mas sim da forma

como está sendo realizada a gestão dos planos, isto é, a alocação de seus ativos e a contabilização dos passivos respectivos, os custos administrativos incidentes, dentre outros elementos gerenciais de interesse”.

42 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso Extraordinário nº 586.453/SE. Relatora: Ministra Ellen

Gracie. Julgamento: 20 fev. 2013. Órgão Julgador: Tribunal Pleno. Publicação: DJe 06 mar. 2013.

segura possível, pois isso propicia um ambiente de segurança social menos oneroso para os entes públicos e se alia à busca pelos valores da dignidade da pessoa humana e da justiça social.

O tratamento constitucional acima referido, dado aos seguros e à previdência privada, decorre da natureza “transindividual” desses direitos, para utilizar a precisa conceituação de J. J. CALMON DE PASSOS. Discorre o Autor magistralmente

sobre a dimensão social dos interesses protegidos por esses contratos:

Característico dos interesses transindividuais é sua ineliminável dimensão social, diríamos melhor, pública não estatal, pelo que a responsabilidade por sua tutela é função dos agentes estatais, a par da titularidade das entidades e organizações não governamentais. O que a todos ou a muitos afeta não pode ser deixado à disponibilidade dos indivíduos, porque a insatisfação de um só que seja legitima a efetivação da tutela de um interesse que é, por essência, indivisível e versa sobre um bem inapropriável.43

O estudo das normas jurídicas que compõem os sistemas securitário e previdenciário privado, bem como do subsistema tributário que onera os respectivos contratos e entidades operadoras, estará sempre fundado no tratamento que lhes foi dado pelas normas de competência da Constituição Federal.

Analisemos agora os princípios especiais que norteiam esses sistemas.