CAPÍTULO 1 DEFININDO UMA CATEGORIA
1.3. OPERACIONALIZANDO A CATEGORIA
Mesmo com a crescente utilização da paisagem pelas instituições que têm como foco a proteção patrimonial, ainda falta uma clara definição de como converter o desenvolvimento teórico em diretrizes que auxiliem na conservação. Próxima de completar 20 anos de sua institucionalização internacional, ainda há questionamentos sobre como definir uma paisagem cultural, que elementos devemos proteger e como podemos desenvolver ações efetivas para manter os aspectos importantes.
Talvez, estas questões sejam resultado das diversas concepções a respeito do tema. Segundo Antrop (2006b, p. 33) “[...] não é de se surpreender que as abordagens sobre paisagem sejam tão amplas e nem sempre claramente definidas. A maioria dos grupos vê paisagens diferentes ao lidar com as mesmas áreas”. Mesmo com várias possibilidades existentes em função das diversas acepções dado ao termo, algumas concepções em torno da paisagem são aceitas pela maioria, enquanto categoria de estudos científicos.
O primeiro consenso da paisagem é que ela muda constantemente. Meneses (2002, p.53) considerou que “[...] a paisagem é um organismo vivo, orgânico, dinâmico, ainda que possa incluir objetos inorgânicos (naturais ou antrópicos) de maior estabilidade”. No mesmo sentido, para Antrop (2005, p.22) as “[...] paisagens sempre mudam porque são a expressão da interação dinâmica entre as forças naturais e culturais no ambiente”.
Outro consenso do conceito de paisagem é seu tratamento integrado dos fatores naturais, culturais e subjetivos. Desde Alexander Von Humboldt até as utilizações mais recentes do conceito, a paisagem é vista como a união dos diversos fatores sociais e naturais de uma área.
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Sauer (1998, p.22), em sua abordagem da paisagem considerada tradicional, observou que:
“Os objetos que existem juntos na paisagem existem em inter-relação. Nós afirmamos que eles constituem uma realidade como um todo que não é expressa por uma consideração das partes componentes separadamente”.
MCDOWELL (1996, p.175), ao tratar das transformações que passou a ciência geográfica nos anos de 1960 e 1970, afirmou que a Geografia Humanista representa um elo com a obra de Sauer, onde uma das características é a forma como a paisagem é apreendida, sendo levada em consideração a sua totalidade, de uma forma holística. A Geografia Humanista iria além das obras geográficas tradicionais ao tratar a paisagem a partir da inserção dos aspectos imaginários, mantendo seu caráter integrador.
Da mesma forma, Ribeiro (2007, p. 111), ao tratar o tema e suas vinculações com o patrimônio, observou que:
“A grande vantagem da categoria de paisagem cultural reside mesmo no seu caráter relacional e integrador de diferentes aspectos que as instituições de preservação do patrimônio no Brasil e no Mundo trabalharam historicamente de maneiras apartadas. É na possibilidade de valorização da integração entre material e imaterial, cultural e natural, entre outras, que reside a riqueza da abordagem do patrimônio através da Paisagem Cultural”
Neste sentido a paisagem deve ser compreendida como algo complexo, maior que a soma de seus elementos. Isto indica que todos os elementos, materiais ou imateriais, estão relacionados e compõem um sistema onde cada um é importante não por suas características próprias, mas em função do contexto o qual se insere (ANTROP, 2006).
Portanto, o conjunto de signos de uma paisagem é composto por elementos naturais e culturais, objetivos e subjetivos, que, devido sua relação direta com a cultura humana, estão sempre em mudança, numa constante luta sem vencedores entre elementos fugazes e duradouros.
No entanto, o caráter dinâmico e holístico da paisagem trazem, aparentemente, alguns problemas para a utilização da categoria no âmbito patrimonial. Primeiro, se a paisagem muda ao longo do tempo, o que devemos manter para as gerações futuras? Em segundo lugar, se a paisagem une os aspectos naturais, culturais e imateriais, como podemos efetivamente trabalhar com todos estes elementos de forma integrada? Em terceiro lugar, como podemos trabalhar com diferentes narrativas possíveis?
Diante destas questões, alguns esforços têm sido desenvolvidos em busca de operacionalizar o conceito. Segundo a UNESCO (2009, p.33), a conservação de uma paisagem cultural deve estar voltada para a gestão da mudança:
“O propósito da gestão das paisagens culturais inscritas na Lista do Patrimônio Mundial é proteger o valor universal excepcional para as gerações presentes e futuras. A gestão tem como papel orientar as mudanças na paisagem cultural, mantendo os valores importantes”
No mesmo documento, a UNESCO apresentou seis princípios que devem orientar os trabalhos desenvolvidos para proteção das paisagens culturais. São eles: 1) as pessoas associadas com a paisagem cultural são os principais stakeholders para a gestão; 2) Uma gestão bem sucedida é inclusiva, transparente e ações são modeladas através do diálogo e acordo entre os stakeholders; 3) os valores da paisagem cultural estão baseados na interação entre as pessoas e o meio ambiente, e o foco da gestão está nesta relação; 4) A gestão deve estar pautada na orientação da mudança para manter os valores da paisagem cultural; 5) A gestão das paisagens culturais deve ser integrada em um contexto amplo; 6) uma gestão bem sucedida contribui para uma sociedade sustentável.
Observando estes princípios podemos notar duas características da compreensão do patrimônio. Primeiro que a gestão das paisagens deve ser integrada em um contexto mais amplo. Este princípio mostra como o patrimônio não é mais visto como uma ilha isolada, mas são partes de um “sistema ecológico com ligações culturais em uma área maior” (UNESCO, 2009, p. 36).
Outro importante ponto destacado é a relação entre patrimônio e sustentabilidade, característica da paisagem cultural enquanto categoria. Segundo este princípio, a gestão deve ser culturalmente e ecologicamente apropriada, além de proporcionar benefícios econômicos para os usuários diretos, sem afetar a relação destes com o meio (idem.).
Apesar destes princípios utilizados pela UNESCO serem amplos e possíveis de aplicação a qualquer paisagem cultural, é observado na instituição uma presença de bens inscritos com base em seus aspectos naturais, ou relacionados as comunidades tradicionais. Assim, há uma necessidade de expandir a categoria visando a inclusão das cidades de porte médio ou mesmo áreas metropolitanas (FOWLER, 2003; ANTROP, 2006a; RIBEIRO E AZEVEDO, 2010).
Esta limitação da utilização do conceito restringe sua utilização e gera novas categorias, que talvez não fossem necessários. Entre estas novidades resultantes da associação da paisagem a locais bucólicos ou tradicionais, está a categoria da Paisagem Urbana Histórica (Historic Urban Landscapes – HUL). O debate sobre a criação desta nova categoria é reveladora da incapacidade da instituição de reconhecer que nas grandes áreas urbanas também há uma forte integração entre homem e meio.
As Paisagens Urbanas Históricas são compreendidas a partir das alterações no entendimento do patrimônio, relativas as mudanças na forma de tratar o bem: de um bem estático compreende-se o patrimônio como dinâmico; de um objeto isolado, como algo integrado. Além disto, a nova categoria procura superar a compreensão de áreas históricas como um simples grupo de edificações ou um patrimônio imobiliário, aceitando que mesmo uma Paisagem Urbana Histórica pode ser considerada um sítio representativo da criatividade humana que apresenta vestígios da história de determinada ocupação (JOKILEHTO, 2009).
Esta nova categoria surgiu a partir das observações de que a gestão dos centros históricos é caracterizada pelo dinamismo ao invés de uma noção mais estática, onde a noção de HUL poderia suprir as necessidades de trabalhar com locais que são verdadeiras testemunhas de acontecimentos passados (OERS, 2006).
Diante do exposto, esta concepção não reconhece que toda Paisagem Cultural já é em si um bem único, que valoriza o pensamento holístico e necessita de ações de gestão visando a conservação para manutenção de valores reconhecidos e validados como universais. Além disto, a paisagem cultural compreendida tradicionalmente pela UNESCO já é em si uma paisagem histórica, pois ela apresenta o acumulo de traços da ação humana ao longo do tempo. Sendo assim fica a pergunta: porque uma área urbana não poderia ser reconhecida como bem patrimonial pela UNESCO, segundo a categoria de paisagem cultural?
No âmbito da Convenção Europeia da Paisagem, alguns documentos foram produzidos pelos países signatários como forma de inserir a paisagem em suas políticas de planejamento. Destacam-se os trabalhos produzidos pelo Reino Unido e Espanha para identificação, classificação e avaliação das paisagens nacionais.
O documento Inglês, intitulado Landscapes Character Assessment Guidance for
England and Scotland, é destinado aos órgãos estaduais de planejamento e gestão, além de
organizações não governamentais e instituições privadas que estão envolvidas com as transformações da paisagem. Como um verdadeiro guia, o documento apresenta a metodologia para aplicar decisões a partir da caracterização das paisagens, podendo realizar uma significativa diferença a proteção do meio ambiente e favorecer o desenvolvimento sustentável de uma determinada área (SWANWICK, 2002).
Já o Catálogo de Paisagem foi elaborado para uma região especifica da Espanha. A paisagem é conceituada como a fisionomia geográfica de um território com todos seus elementos naturais e antrópicos, além dos sentimentos e emoções que despertam no momento de sua contemplação (NOGUE; SALA, 2006).
O documento utiliza o conceito de “Unidade de Paisagem” como maneira de definir territórios com característica dominantes. Unidades de Paisagens baseiam-se principalmente sobre os elementos estruturadores do território (montanhas, rios, rede rodoviária, etc.) e sua organização (terrenos agrícolas, florestais, urbanos, etc.), mas ao mesmo tempo consideram que o cenário tem certa dinâmica, contribuindo para moldar sua imagem atual. A natureza da Unidade dependerá, então, da combinação dos elementos físicos, naturais e culturais, com a relação estabelecida entre as pessoas e o meio (NOGUE e SALA, 2006).
O processo de construção da paisagem proposto pelo documento espanhol é dividido em cinco etapas: 1) identificação e caracterização da paisagem, onde a partir da combinação de variáveis paisagísticas diversas são construídas unidades de paisagem as quais serão atribuídas valores que orientarão as ações aplicáveis; 2) Avaliação da paisagem, onde são observadas quais as principais ameaças e oportunidades que determinada paisagem apresenta; 3) Definição dos objetivos de qualidade paisagística, onde serão escolhidas através de consulta pública quais ações serão executadas; 4) Estabelecimento de medidas e propostas de ações; e, por fim, 5) estabelecimento de indicadores que auxiliem na avaliação do desenvolvimento da paisagem.
A principal vantagem deste trabalho é considerar que sítios com bases urbanas podem ser geridos a partir da ideia de paisagem, diferente do realizado pela UNESCO. O
processo de gestão parte da identificação das formas significativas, até a elaboração de indicadores para avaliação da paisagem de uma área urbana.
Independente de qual metodologia será adotada, qualquer trabalho realizado tendo como objeto a paisagem cultural, deve definir claramente o conceito a ser utilizado, qual método de leitura será aplicado e qual aspecto se deseja proteger (RIBEIRO, 2011).
Desta forma, o eixo de leitura da paisagem é construído com base em representações do território, realizadas em épocas passadas. Estas representações são produtos culturais de grande valor para a interpretação das relações ocorridas no local, pois são produtos culturais que expressam a maneira de ver de grupos específicos. Assim, representações da paisagem de uma época são presentes em mapas históricos, relatos de viajantes, poemas, músicas e fotografias antigas.
Neste contexto, o método de leitura deste trabalho será feito através de uma narrativa. Para Cosgrove (1993, apud MELO, 2003), a narrativa é “a habilidade sintética de selecionar e entrelaçar teoria e evidência dentro de convincentes representações de momentos históricos e geográficos específicos”. Segundo Daniels (1997 apud MELO, 2003), a narrativa é um método e, como forma de explanação, é parte da experiência cotidiana. Ela expressa a dialética da descoberta e da construção envolvendo tanto a mediação entre a visão do narrador, e dos participantes na história construída pelo narrador, como também entre os incidentes particulares e os temas gerais. Nesse sentido, a interpretação e o julgamento são componentes da narrativa e não ações a serem executadas antes ou depois de as evidências terem sido coletadas e processadas.
Quando construímos nossa narrativa sobre uma determinada paisagem, relacionamos representações do território de épocas distintas, mas que continuam existindo no espaço. Estas diversas narrativas dialogam entre si, e funcionam como verdadeiras fontes do saber histórico e cultural do espaço. A partir da construção de uma narrativa atual, os elementos presentes na paisagem, seus atributos e processos, bem como seus significados, podem ser identificados.
Uma paisagem é composta por elementos, atributos e processos, semelhante as composições dos centros históricos. Zancheti (2009, p.2) compreendeu os objetos dos sítios urbanos como: “[...] idênticos aos artefatos, compreendidos como entidades físicas, com um
substrato material, que foram alterados ou selecionados por seres humanos”, além dos objetos não materiais que transmitem informações patrimoniais.
Os processos são as características que geram dinâmica ao local, que tornam o ambiente vivo, em constante transformação através das ações humanas. Como exemplos de processos significativos, podemos citar os rituais religiosos em Kandy, no Sri Lanka; as formas de utilização dos recursos naturais em Matera, Itália; ou as atividades religiosas em Olinda.
Porém estes elementos e processos não são significativos por si só. Eles não podem ser considerados de interesse patrimonial por suas características físicas ou simples presença no local18. Eles transmitem significados àqueles que os utilizam através de seus atributos. Segundo Zancheti (idem.), atributos podem ser materiais ou imateriais, e são todas e qualquer características de um objeto reconhecidas por uma população como importante.
A definição de uma paisagem cultural tem semelhanças com esta compreensão. Seus objetos devem ser culturais, naturais e imateriais, coexistindo num único lugar, em uma relação que vai além da localização espacial. Os processos considerados para sua dinâmica podem ser tanto resultantes de aspectos naturais quanto de intervenções humanas, contanto que sejam definidores de sua fisionomia.
Já os atributos têm um papel fundamental na operacionalização da categoria. Considerando as propostas teóricas do conceito, um local somente pode ser tratado como uma paisagem cultural se seu atributo principal for a relação entre sociedade e natureza. Ou seja, se os grupos envolvidos reconhecerem o território como sendo local onde um processo histórico, econômico, social e simbólico das relações entre sociedade e meio ambiente foi estabelecido ao longo do tempo.
Esta concepção permite uma operacionalização da categoria. A partir disto, os elementos e processos que compõem a paisagem estariam em constante mudança, cabendo
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Trabalhos que adotam as teorias tradicionais da conservação podem aceitar que algum objeto mereça ser conservado por alguma espécie de valor inerente ao bem. Contudo, trabalhos pautados em uma teoria contemporânea da conservação consideram que os objetos não têm valores patrimoniais intrínsecos, mas que estes são atribuídos em função dos diversos significados transmitidos para as pessoas como base na negociação entre diversos stakeholders. Sobre esta nova perspectiva da pratica da conservação, consultar Avrami et al. (2000), Mason (2002) e Muñoz Vinas (2005).
aos gestores desenvolverem ações sobre eles, em busca da manutenção do atributo que a categoriza.
Todo este processo deve ser iniciado com a construção de um eixo de leitura. A partir dele há a definição de quais elementos constituem a paisagem. Os elementos formadores de uma paisagem seriam aqueles que contribuem para a leitura do eixo construído, levando em consideração seus processos históricos naturais e sociais.
Quando não há uma definição sobre qual narrativa se deseja realizar a leitura da paisagem, as ações de conservação se transformam numa mera descrição dos elementos que se considera importante. “Sem um método ou um eixo central que a oriente, nela, não há um traço de leitura e a única coisa que aparentemente liga os elementos é sua coexistência espacial” (RIBEIRO, 2011, p. 10).
Sem a definição prévia do eixo central, o gestor vai, inevitavelmente, cair no erro da descrição exaustiva de elementos, processos e atributos. Ele irá apresentar quais são os elementos materiais e imateriais, com base em seus conhecimentos prévios, como eles são vistos pela população e quais os processos mais significativos ocorrem, porém não irá compreender como aquela paisagem se constituiu a partir das relações entre estes aspectos. Com base na abordagem adotada, uma nova interpretação de uma paisagem pode ser feita. Assim, a escolha do eixo norteador irá por si só delimitar quais elementos são de interesse patrimonial e devem ser geridos de forma diferenciada, em busca de manter os atributos gerados a partir da relação do homem com o meio.
Na busca de construir esta narrativa, o terceiro capítulo trará de forma prática uma leitura da paisagem do centro do Recife, onde será abordado como o homem e a natureza estabeleceram uma relação na cidade, ao longo de seu processo de formação, expressa ainda hoje na fisionomia do território.
Após debater sobre estes apontamentos teóricos, o segundo capítulo irá apresentar criticamente as principais características de alguns instrumentos federais e estaduais aplicados na área central da cidade do Recife para a proteção do patrimônio cultural, realizados em épocas e contextos variados.
CAPÍTULO 2 - ENTRE PROTEGER E ESQUECER: Os tombamentos aplicados no