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P RÁTICA SOCIAL E DISCURSO : PERSPECTIVA ONTOLÓGICA EM ADC

2.2 Perspectiva ontológica da sociedade e discurso

A ontologia diz respeito ao modo como se entende a natureza do mundo social, aos componentes da realidade social considerados essenciais. Embora a essência do mundo social possa parecer fundamental e evidente, há perspectivas ontológicas alternativas, diferentes percepções acerca do que compõe a realidade social. Não há uma verdade universal que possa ser tomada como tácita; a adoção de uma perspectiva ontológica clara do mundo social deve, então, ser o primeiro passo na definição de um planejamento de pesquisa (Mason, 2002).

A abordagem de ADC com a qual trabalho adota uma versão ontológica baseada no

Realismo Crítico (RC; Fairclough, Jessop & Sayer, 2002). Fairclough (2003: 14) deixa clara

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A perspectiva social em que me baseio é realista, baseada em uma ontologia realista: tanto eventos sociais concretos como estruturas abstratas, assim como as menos abstratas ‘práticas sociais’, são parte da realidade. Podemos fazer uma distinção entre o ‘potencial’ e o ‘realizado’ – o que é possível devido à natureza (constrangimentos e possibilidades) de estruturas sociais e práticas, e o que acontece de fato. Ambos precisam ser distinguidos do ‘empírico’, o que sabemos sobre a realidade. (...) A realidade (o potencial, o realizado) não pode ser reduzida a nosso conhecimento sobre ela, que é contingente, mutável e parcial.

Embora não seja minha intenção esgotar as formulações propostas no campo do RC, nesta seção seleciono alguns aspectos da teoria que me parecem relevantes para

o embasamento das discussões que apresento ao longo da tese. Inicio pela estratificação da realidade social – cuja implicação epistemológica será discutida no Capítulo 3 – para em seguida abordar a vida social como sistema aberto e o modelo transformacional da relação entre estrutura e ação social.

Ao contrário de uma abordagem realista ingênua, que consideraria o que existe como equivalente ao que poderia existir, e o objeto empírico como separado de nosso conhecimento sobre ele (ver Capítulo 3), Bhaskar (1989) propõe uma ontologia estratificada do mundo social. Trata-se de uma ontologia que sugere a existência de três estratos da realidade: o potencial, o realizado e o empírico. 13

O domínio do potencial refere-se ao que quer que exista, “independentemente de ser um objeto empírico para nós e de termos uma compreensão adequada de sua natureza” (Sayer, 2000b: 9). O potencial refere-se também às estruturas internas e poderes causais dos elementos sociais, isto é, sua capacidade de se comportarem de maneiras particulares, suas tendências e suscetibilidades a certas mudanças. Por exemplo, uma pessoa desempregada pode, em termos de estruturas internas – físicas, biológicas, mentais – ser potencialmente capaz de trabalhar, se tiver um emprego; essa capacidade permanece

13 Bhaskar (1989) utiliza os termos ‘real’, ‘actual’ e ‘empirical’ para se referir aos três estratos da realidade. Quanto ao

nível do que Bhaskar designa ‘real’, preferi utilizar a nomenclatura ‘potencial’, conforme adaptação de Fairclough (2003). Isso porque entendo que, por um lado, ‘potencial’ designa com maior clareza o que se entende pelo estrato da realidade relacionado aos poderes dos objetos sociais, potencialmente ativados em eventos realizados e, por outro lado, porque a designação desse estrato como ‘real’ pode levar a uma interpretação de que os dois outros estratos seriam menos ‘reais’, sentido não pretendido na teoria. Quanto ao nível do ‘actual’, a despeito de haver traduções como ‘atual’ (por exemplo, em Ramalho, 2007), considero essa tradução equivocada porque ‘atual’ em português não carrega o mesmo significado de ‘actual’ em inglês, que se refere ao que ‘se atualiza’ de fato em um dado evento. Por isso preferi a tradução por ‘realizado’. Essas traduções são mantidas nas citações de originais em inglês.

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existente mesmo quando ela está desempregada, ou seja, existe no plano do potencial – ainda que não se concretize no plano do realizado. Pesquisadores/as em RC interessam-se

pelo que existe e pelo que potencialmente existiria de acordo com os poderes causais daquilo que estudam – e por isso o RC oferece uma capacidade explanatória crítica das

coisas do mundo social a partir do estudo das possibilidades em redes de práticas sociais. Se o potencial refere-se às estruturas e poderes dos elementos sociais, o realizado refere-se “ao que acontece quando [e se] esses poderes são ativados” (Sayer, 2000b: 10). Retomando o exemplo anterior sobre o desemprego, no nível do potencial identifica-se o poder potencial do sujeito para desempenhar trabalho; no realizado, o trabalho como exercício desse poder e seus efeitos, caso a pessoa venha de fato a trabalhar, ou o bloqueio desse poder potencial devido a contingências contextuais (note-se que ‘bloqueio’ aqui não é usado em termos deterministas, mas contingenciais).

O empírico, por fim, é definido como o domínio da experiência, da observação – é aquilo que nós efetivamente observamos dos efeitos das estruturas, das potencialidades e das realizações. Enquanto o potencial e o realizado são dimensões ontológicas, o empírico é uma dimensão epistemológica (Fairclough, Jessop & Sayer, 2002; ver Capítulo 3). A diferença do RC

em relação a um realismo empírico é que nossa capacidade de observar efeitos e ações sociais não esgota o que poderia existir ou de fato existe, ou seja, o empírico não é correspondente nem ao potencial nem ao realizado, embora a observação possa nos ensinar sobre o que se realiza e sobre o que se poderia realizar – o acesso ao potencial e ao realizado por meio da observação é ‘contingente’: não é impossível mas também não é garantido (Sayer, 2000b).

Assim, para o RC, “a realidade é constituída não apenas de experiências e do curso de

eventos realizados, mas também de estruturas, poderes, mecanismos e tendências – de aspectos da realidade que geram e facilitam eventos realizados que nós podemos (ou não) experienciar” (Bhaskar & Lawson, 1998: 5). Nesses termos, distinguir entre potencial e realizado significa reivindicar um status de realidade para as estruturas sociais – que embora não sejam diretamente observáveis podem ser conhecidas por seus efeitos em eventos.

No Quadro 2.1, a seguir, procuro sintetizar a proposta de realidade estratificada do Realismo Crítico, mostrando como os três estratos relacionam-se:

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POTENCIAL: Objetos sociais com suas estruturas e poderes gerativos REALIZADO: O modo como os objetos sociais com suas estruturas e poderes

gerativos são configurados em um dado momento e em um dado contexto de

articulação de (redes) de práticas

EMPÍRICO: O que podemos observar dos objetos sociais, suas estruturas e

poderes gerativos e do modo como se configuram em um dado momento e contexto de articulação de (redes) de práticas

Quadro 2.1 – Os três estratos da realidade segundo o Realismo Crítico

A estratificação como característica ontológica da realidade social significa que nem tudo o que poderia acontecer em função das estruturas internas dos objetos sociais (por exemplo, de instituições como o MNMMR/DF) acontece de fato, pois há contingências

contextuais que podem bloquear mecanismos. Para Collier (1994), distinguir os domínios do potencial e do realizado significa simplesmente dizer que ‘poder fazer’ não é sinônimo de ‘faz’. A distinção entre os domínios do realizado e do empírico, por sua vez, implica que nem tudo o que é concretizado em eventos é captado em nossa experiência. Assim, a relação entre potencial, realizado e empírico é de continente e conteúdo, em que o domínio do potencial é maior que o do realizado, que por sua vez é maior que o do empírico (Archer, 1998).

Bhaskar (1998b: 41) propõe o seguinte quadro para relacionar o potencial, o realizado e o empírico, como estratos da realidade social, e os elementos sociais:

Domínio do Potencial Domínio do Realizado Domínio do Empírico Mecanismos Eventos Experiências √ √ √ √ √ √

Quadro 2.2 – Estratificação da realidade (Bhaskar, 1998b: 41)

Embora esse discurso científico possa parecer à primeira vista hermético, os mecanismos e poderes causais a que se refere não são misteriosos: são, em muitos casos, “mecanismos comuns, freqüentemente identificados na linguagem comum por verbos transitivos, como em ‘eles construíram uma rede de conexões políticas’. Tanto na vida

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cotidiana como na ciência social, freqüentemente explicamos coisas por referência a poderes causais” (Sayer, 2000a: 14, grifo no original). No caso desse exemplo de Sayer, referente a um poder causal utilizado em uma explicação cotidiana, a ‘construção de redes’ é um poder causal atribuído a ‘eles’ (e que foi ativado devido a mecanismos específicos do contexto, embora isso não tenha sido explicitado no exemplo).

Outro exemplo que pode ajudar a trazer os conceitos transcedentais do RC para

mais perto da experiência – no caso, da experiência específica desta pesquisa – é o trecho do Grupo Focal 1 (ver Capítulos 4 e 6) em que Maria afirmou: “o Movimento (...) faz que

a gente seja agentes da nossa própria promoção”. Quando representou assim sua

experiência no Movimento, Maria atribuiu à instituição – no nível discursivo da representação – um poder causal: o de possibilitar a emergência do protagonismo juvenil. Por outro lado, quando Vera, na entrevista individual que fiz com a educadora (ver Capítulos 4 e 5), afirmou que “se tivesse gente para coordenar o trabalho dos núcleos, os núcleos não tinham morrido, eles nem estavam sem dinheiro, se você quer saber”, identificou, em sua representação da experiência, a falta de recursos humanos como um mecanismo que bloqueia a capacidade do Movimento de manter suas atividades em funcionamento e de captar recursos, em uma relação cíclica na qual a falta de pessoas envolvidas no trabalho limita o poder de captação de recursos que por sua vez limita a capacidade de contratação de outros/as profissionais.

Ao discutir a relação entre linguagem e sociedade, Fairclough (2003) recontextualiza a noção de poderes causais do RC para propor que textos também têm

efeitos causais, e que a análise desses efeitos é parte da análise discursiva de textos:

Textos como elementos de eventos sociais têm efeitos causais – ou seja, acarretam mudanças. Em primeiro lugar, textos podem acarretar mudanças em nosso conhecimento (aprendemos coisas por meio deles), em nossas crenças, atitudes, valores e assim por diante. Eles também têm efeitos causais em longo prazo – acredita-se, por exemplo, que a exposição prolongada a textos publicitários contribui na formação das identidades das pessoas como ‘consumidoras’. Textos também podem iniciar guerras, contribuir com mudanças na educação, nas relações industriais etc. Seus efeitos podem incluir, então, mudanças no mundo material. Em suma, textos têm efeitos causais sobre as pessoas (crenças,

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atitudes), as ações, as relações sociais e o mundo material. Esses efeitos são mediados pela construção de significado.

É necessário, contudo, tornar clara essa causalidade. Não se trata de uma simples causalidade mecânica – não podemos, por exemplo, sugerir que traços particulares de textos acarretam mudanças particulares no conhecimento ou no comportamento das pessoas, ou efeitos sociais e políticos particulares. A causalidade não implica regularidade: pode não haver um padrão regular de causa-efeito associado a um tipo particular de texto ou traços particulares em textos, mas isso não significa que não haja efeitos causais (Fairclough, 2003: 8).

Assim como textos podem ter efeitos causais identificáveis, também há causas sociais implicadas na construção de textos, isto é, a relação de causalidade entre práticas sociais e textos é de mão dupla, o que está ligado ao conceito de ordens do discurso (veja a seguir). Ainda, outro conceito central à discussão das relações causais entre textos e práticas sociais é o das representações discursivas, já que diferentes representações de práticas e eventos podem acarretar diferentes modos de legitimação de ações e de identificação de atores sociais (ver Seção 2.3). Fairclough, Jessop & Sayer (2002) listam alguns aspectos discursivos que, em práticas sociais contextualizadas, podem ser identificados como mecanismos capazes de ativar ou bloquear poderes causais. Entre eles, está a seleção de determinados discursos para a interpretação de eventos, que pode implicar a legitimação de ações particulares; configurar modos de conduta, como procedimentos organizacionais específicos; resultar na inculcação desses discursos na construção de identidades; influenciar a construção de estratégias de ação.

Um exemplo específico desta pesquisa é a vinculação de membros do Movimento ao discurso da imobilidade das estruturas – parte do discurso neoliberal, que prega a inexorabilidade das estruturas sociais que sustentam o novo capitalismo (Fairclough, 2006; ver Seção 2.3) –, discurso que entra em contradição irreconciliável com o discurso do protagonismo, que prega o envolvimento da sociedade civil na resolução de seus problemas e a necessidade de mobilização da sociedade para transformar estruturas de poder e exploração. As análises dos dados desta pesquisa sugerem que a vinculação ao discurso da imobilidade é um dos aspectos discursivos da crise do Movimento, e que funciona como mecanismo que influencia conflitos identitários e bloqueia certas possibilidades de ação (ver Parte II).

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O bloqueio de possibilidades, nos termos do RC, não é definitivo, mas contingente e

contextualizado, pois além da distinção entre os três níveis da realidade, o RC considera a

vida social um sistema aberto, constituído por várias dimensões – física, química, biológica, psicológica, econômica, social, semiótica –, que têm suas próprias estruturas distintivas, seus mecanismos particulares e poder gerativo (Bhaskar, 1989; Chouliaraki & Fairclough, 1999). Na produção da vida social, a operação de qualquer mecanismo é mediada por outros, de tal forma que nunca se excluem ou se reduzem um ao outro (Danermark, 2002).

Por exemplo, para aprender uma língua, uma pessoa precisa ser dotada de certas capacidades cognitivas (estrato psicológico); para falar essa língua, precisa, além dos conhecimentos relativos à língua e a sua utilização (estrato semiótico), ser dotada de cordas vocais (estrato biológico) e contar com um meio de propagação do som (estrato físico); se e quando esses poderes serão ativados depende de contingências contextuais, assim como dependem também dessas contingências os efeitos da utilização dessas capacidades – por exemplo, a proficiência em uma língua de prestígio pode legitimar a participação em práticas sociais específicas (estrato social) ou mesmo um aumento salarial (estrato econômico). As diversas dimensões da vida social não operam isoladas, e as contingências contextuais podem apresentar mecanismos de ativação/bloqueio de poderes causais, o que significa que a vida social é um sistema aberto, isto é, não pode ser prevista.

Sayer (2000a: 11) oferece um exemplo esclarecedor a esse respeito: o das “propriedades emergentes da água, que são bastante diferentes daquelas de seus elementos constituintes, o hidrogênio e o oxigênio”. Os objetos sociais também são emergentes de fenômenos biológicos, que por sua vez emergem de fenômenos físicos e químicos. Por exemplo, problemas escolares de aprendizagem podem ser emergentes de problemas biológicos (e sociais) de subnutrição, e também da relação desse com outros problemas sociais, por exemplo o trabalho infantil. Sayer também discute outro exemplo das propriedades emergentes da sociedade, este diretamente relacionado ao uso da linguagem:

fenômenos sociais são emergentes de fenômenos biológicos, que são, por seu turno, emergentes dos estratos físicos e químicos. Assim, a prática social da conversação depende do estado fisiológico dos agentes, incluindo os sinais enviados e recebidos em torno de nossas células nervosas, mas a conversação não é redutível a estes processos

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fisiológicos. (...) Embora nós não precisemos voltar ao nível da biologia ou da química para explicar os fenômenos sociais, isto não significa que os primeiros não tenham efeito sobre a sociedade (Sayer, 2000a: 11).

Assim, para o RC, a emergência é uma característica do mundo: a conjunção de

certas condições em um dado contexto dá origem a novos processos, os quais têm características irredutíveis às de seus constituintes (Sayer, 2000a). A irredutibilidade é conseqüência da abertura do social, que garante que as relações entre (redes de) práticas seja um equilíbrio provisório, nunca acabado – o que é realizado em um dado momento é dependente de que poderes causais são ativados.

A centralidade do conceito de práticas é decorrente do tipo de relação estabelecida entre estruturas sociais e a atividade social. Em suas atividades na sociedade, as pessoas realizam uma dupla função: “elas não devem fazer apenas produtos sociais, mas produzir também as condições da produção de produtos sociais, isto é, reproduzir (ou, em maior ou menor grau, transformar) as estruturas que governam suas atividades substantivas de produção” (Bhaskar, 1998d: 218).

Isso significa que as estruturas sociais são também resultado da ação social e, portanto, são também possíveis objetos de transformação. Uma perspectiva das estruturas sociais como objetos reais e como produtos sociais é indispensável à ciência crítica, pois de outro modo não há como propor a possibilidade de mudança social.

Estrutura sociais, então, existem em função das atividades que governam. Mas a relação entre estrutura e ação não é dialética, e sim transformacional, isto é, “não constituem dois momentos de um mesmo processo” (Bhaskar, 1998d: 214). Dizer que não constituem dois momentos de um mesmo processo significa dizer que não são simultâneas, que há uma assimetria entre esses dois elementos: as estruturas são sempre prévias à ação. A sociedade é sempre prévia aos indivíduos, que nunca a criam, apenas a reproduzem ou transformam. 14

14 Bhaskar (1998d: 216) resume o modelo transformacional da relação entre estruturas e atividades sociais: “O

modelo de conexão sociedade/pessoa que estou propondo poderia ser sumarizado assim: pessoas não criam a sociedade, que é sempre pré-existente a elas e é a condição necessária para sua atividade. Em vez disso, a sociedade pode ser entendida como um conjunto de estruturas, práticas e convenções que os indivíduos reproduzem ou transformam, e que não existiriam se eles não fizessem isso. A sociedade não existe independentemente da atividade humana (o erro da reificação). Mas não é produto imediato da atividade humana (o erro do voluntarismo)”.

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Assim como as estruturas sociais são concebidas como coerção da atividade, devem também ser concebidas como recurso para a atividade, o que implica o caráter recursivo da vida social: agentes reproduzem e transformam as estruturas que utilizam (e que os constrangem) em suas atividades. Bhaskar (1998d: 215) sugere uma metáfora ilustrativa do modelo proposto: “o paradigma é o de uma escultora no trabalho, moldando um produto a partir de um material e com as ferramentas acessíveis a ela. Chamarei esse modelo de Modelo Transformacional da Atividade Social. Ele se aplica às práticas discursivas e não- discursivas”. A Figura 2.1, a seguir, ilustra o modelo transformacional de Bhaskar:

Estrutura

recurso/constrangimento reprodução/transformação

Ação

Figura 2.1 – Modelo Transformacional da Atividade Social (baseado em Bhaskar, 1998d: 217)

De acordo com esse modelo, as estruturas, por um lado, sempre provêem as condições necessárias e indispensáveis para a ação intencional humana e, por outro lado, só existem nas ações humanas, que sempre utilizam alguma forma pré-existente de ordem social. Mais uma vez, o uso da linguagem é um bom exemplo:

Podemos conceber que a fala é governada pelas regras gramaticais sem supor no entanto que tais regras existam independentemente de seu uso ou que elas determinem o que dizemos. As regras da gramática, como as estruturas, impõem limites aos atos de fala que podemos produzir, mas não determinam nossas produções. Essa concepção, então, preserva o

status da agência humana e ao mesmo tempo mantém distante o mito da

criação [das estrutras pelas pessoas] (Bhaskar, 1998d: 216).

A concepção realista crítica da relação entre estrutura e ação, então, enfatiza que as estruturas sociais são condição necessária e pré-existente à agência intencional, mas também que elas existem apenas em virtude da agência. Nessa concepção, então, as estruturas sociais são tanto condição como resultado da agência humana, que ao mesmo

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tempo as reproduz e as transforma. Um aspecto essencial desse modelo (e que o diferencia da Teoria da Estruturação de Giddens, segundo Archer, 1998) é a assimetria histórica entre estrutura e ação – o fato de que as estruturas são sempre prévias, isto é, embora na agência seja potencialmente possível transformar estruturas (e não apenas reproduzi-las), as estruturas com as quais um ator social lida hoje foram conformadas em ações anteriores de atores sociais que o antecederam.

Então é possível propor uma relação temporal (em termos de sincronia/diacronia) entre os dois elementos da recursividade estrutura/agência, como ilustra a Figura 2.2:

Estrutura (resultado da ação em T1) Estrutura (resultado da ação em T2) Estrutura (resultado da ação em T3) T1 T2 T3 T4 Estrutura (recurso/ constrangimento) Estrutura (recurso/ constrangimento) Estrutura (recurso/ constrangimento) Estrutura (recurso/ constrangimento) (Tempo T)

Ação Ação Ação Ação

Figura 2.2 – Relação sicrônica/diacrônica entre estrutura e ação

De acordo com o Modelo Transformacional da Atividade Social, ilustrado em termos temporais na Figura 2.2, as estruturas são tanto a condição (sincrônica) quanto o resultado (diacrônico) da ação social. Que recursos e constrangimentos presentes nas estruturas sociais são produto da ação (já que não há estrutura sem ação, segundo Bhaskar) não significa que estruturas e ações possam ser colapsadas uma na outra:

quando se olha para elas no tempo – lembrando que elas não podem ser outra coisa senão temporais – então, fica claro que ações pressupõem um conjunto pré-existente de estruturas, incluindo significados partilhados, ainda que essas estruturas devam sua existência ao fato de que, em algum tempo anterior, pessoas reproduziram-nas e transformaram-nas por meio de suas ações, que por sua vez foram constrangidas e possibilitadas por estruturas existentes nesse tempo (Sayer, 2000b: 18).

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Assim, o modelo transformacional, quando reivindica a assimetria entre estrutura e ação social, está focalizando a historicidade da mudança social, incluindo tanto os recursos e os constrangimentos para a ação quanto a transformação das estruturas sociais no tempo. Toda atividade social pressupõe condições estruturais sincrônicas e possui um potencial para transformar diacronicamente essas mesmas condições: “a estruturação de papéis e posições emerge de atividades passadas de agentes (possivelmente já mortos), então a emergência de